Puxa uma cadeira, e relaxe...

29 de out. de 2010

DIA 9




Gênova, 17 de outubro de 2010
Domingo

Mas é um novo dia e o sol brilha em Gênova. E percebo que estou em Gênova!!! Gênova!!! Ontem, no calor da luta nem dei o devido valor ao fato. Estou em Gêêêênovaaa!!!

Guia em riste, eu já tinha uma idéia do que queria ver, que era basicamente... tudo!

Ventinho frio, céu azul! E Gênova! Vamos andando e observando aqueles prédios lindos, em camadas.... vê-se que um dia foram renascentistas, e foram sendo reformados, como quando tiramos os azulejos démodé do banheiro, e substituímos por ladrilhos hidráulicos e depois pomos uma faixa colorida, enfim, os pobres passaram de medievais a renascentistas, a rococó, neo-clássico e sabe-se lá mais o que, e no fim, a cidade é um amalgamado de prédios muito antigos e no geral, rosados, com passagens medievais entre eles, que se chamam Caruggi. Uma cidade velha mas viva, e cuja energia me lembra Buenos Aires. Sei que há uma Gênova moderna, uma Gênova residencial, mas o tempo não me permite procurar por ela. Tenho calma, porque sei que vou voltar.

Nessa Gênova pela qual me é dado transitar hoje, o que há é o antigo, os tocadores de sanfona nas ruas, os pais passeando com suas crianças e muitos turistas. Ando com as mãos frias no bolso e uma satisfação infinita no coração.

Percebo que meus companheiros não têm idéia da experiência que estamos tendo. Sentamos para o café e começo a falar. Falo sobre os burgos. Os castelos. Os príncipes e os Vassalos. Falo sobre os servos da gleba, os malfeitores e as trupes das florestas. Dá importância de se estar dentro dos muros e uma cidade medieval. Eles se interessam. Então falo das cidades-estado. Da importância náutica de Gênova. De Colombo e de Isabel de Castela. Eles olham ao redor impressionados. Falo da briga com Pisa, da briga com Veneza. Falo dos piratas do Mediterrâneo, da decadência, da ascensão, de Andréa Dória. Eles perguntam coisas. Falo de Napoleão, do Tratado de Viena, da anexação ao Piemonte, da revolta! Da Marcha dos mil de Garibaldi e finalmente da unificação. Quando percebo que estamos todos prontos, proponho que vamos abraçar Gênova.

Nos deparamos com o Pallazzo Reale dos Savoia. A maior parte do interior está fechada, mas é fantástico, mesmo assim. Lembro que o que chamamos “biscoito francês” nasceu ali, e aqui se chama savoiardi, aqui.

Andamos assim, maravilhados, pela Via Garibaldi, entramos e saímos por passagens descascadas com roupas penduradas até que entramos na Casa do Ressorgimento, e lá, uma exposição dos símbolos da re-unificação. Tudo que eu contei, ali, ilustrado, documentado em cartas, discursos e sobretudo pinturas. O leitmotiv da exposição é uma restauração de O Beijo de Hayez. Ali, à nossa frente, em três versões, um homem, de costas para o fundo, envolve uma mulher pela nuca e pela cintura e dá nela um beijo. Na primeira versão, há apenas a menção do beijo. Eles estão em roupas da época, com cores aleatórias, o vestido dela é de brocado marfim. Na segunda versão, as bocas se tocam, o vestido dela continua sendo de brocado marfim, e ambas as roupas já sofreram uma atualização de estilo, contudo, a dele, tem importantes destaques azuis, vermelhos e brancos. É a época da aliança com a França, contra o Império austro-húngado. Na terceira versão, totalmente enxuta, ela está de vestido virginalmente branco, o beijo é algo bem mais íntimo, e ele, de calça vermelha, porta garbosamente uma capa verde. É a época da unificação da Itália. Queremos apaludir!

Enquanto lhes chamo atenção para estes detalhes, um senhor, guarda do museu, nos ouve, imagino que sem entender. Ao fim, ele nos pergunta de onde somos e quando dizemos ele conta, alegre, que era cozinheiro da marinha e que veio várias vezes aos portos de Santos e do Rio, nos conta que Garibaldi não tinha uma orelha que perdeu ao cair de um cavalo e ficar preso , pelo que conseguimos entender. Quando dizemos que somme tutti cuochi, ele, animado, pergunta como se faz uma feijoada. Sem poder cantar Chico Buarque, uma descrição muito melhor que qualquer outra que pudéssemos dar, nos pomos a explicar macarronicamente a receita e ele fica horrorizado com a orelha e os pés de porco. Fazemos a concessão de que ele ponha então só as carnes DE PORCO de sua preferência e embutidos. E ele não se conforma de que não leve vinho! Mas essa concessão não fazemos, para horror dele, que promete não colocar nem uma gotinha.

Dali, partimos para, mais adiante, os interligados Palazzo Rosso e Palazzo Bianco, e lá, no acervo, me deparo com o meu primeiro Caravaggio, meu primeiro Van Dyck , um vilolino de Paganini e ainda, uma pauta escrita por ele! Uma escultura espetacular de Antonio Canova, Madalena Penitente. Em êxtase, demorei mais do que o devido lá, o que fez com que tivéssemos de cortar metade do roteiro.

Ainda assim, passamos pela Porta Soprana que era uma das entradas dos muros da Gênova medieval, vimos a Catedral de San Lourenzo onde se diz estarem as relíquias de São João Batista, mas estava fechada... passamos pela praça principal e... fomos almoçar.

O almoço. Ah! O almoço. No porto, há várias casinhas de teto bem baixo onde se preparam os mais frescos peixes e frutos do mar preparados à moda lígure. Lotado de famílias italianas. Veio um pão, como sempre e um azeite da região, e, em verdade, em verdade vos digo, nunca mais comam outro azeite que não seja da Ligúria! Espetacular!
Daí pedimos um trufette ao pesto para provar o famoso pesto genovês e um prato de lagostins, camarões enormes e um peixe delicioso que não conseguimos identificar qual era. Tudo magnífico.

O vinho era um Cinqueterre branco, derrubamos dois! É engraçado porque no Brasil, bebida me faz mal, como se fosse uma reação alérgica. Fico vermelha e com o rosto muito quente, mas aqui, nada disso acontece. Bebo muito mais do que jamais bebi aí, e não passo mal! Deve ser o clima, sei lá.

Aí pegamos o metrô e fomos pegar o carro para ir embora, seguindo com os planos.

Ficou faltando muita coisa! A Casa de Colombo, o Aquário, os bairros medievais, a estufa. Mas vou voltar, sei que ainda vou voltar. E será em breve, pois cismei de ir a uma ópera lá, e não no Sscala de Milão, que é muito clichê!

Seguimos caminho em direção a Asti e paramos em Serravale, onde tem um MEGA outlet. Nunca vi nada igual. Todas aquelas grifes famosérrimas, um estacionamento maior que Portugal. Uma monstruosidade! Fui na decatlon (tem um h em algum lugar, mas não sei onde é) comprar umas roupas quentinhas e numa tal de UniEuro. Se tem uma coisa que vale a pena comprar aqui são eletroeletrônicos! Muito mais baratos. Fora os cremes, vichy, La roc, La Roche Posay... as maquiagens, nossa! Na outra encarnação, quando eu for uma pessoa cosmética, vou voltar aqui e comprar tuuuuuudo!

E, quando estávamos a caminho de Costigliole, soubemos o destino do resto do grupo. Em um dos carros, o motorista colocou diesel ao invés de benzina (que é como eles chamam gasolina, aqui) e o outro, bem, no outro, estacionado numa praça, o pessoal deixou as mochilas dentro. Arrombaram e levaram todas, sendo que dentro de uma delas havia o passaporte e 4000 euros de um deles.

Pô, embotou nossa alegria. Estamos fazendo uma vaquinha pra ajudar o cara, mas mesmo assim... nos sentimos até culpados por tudo ter dado tão certo pra nós!

Mas hoje é aniversário de tio Hélio! E de vovó, sempre na minha memória.

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