Puxa uma cadeira, e relaxe...

26 de fev. de 2011

Madeleines

Daquele período nebuloso em que vaguei pela Itália, entre sair do Curso, passando pelo estágio, a viagem e minha volta intempestiva, não há muito ainda, que eu queira falar.
Auto-retrato
Até que ontem assistia ao filme Goya Ghost's de Milos Forman, com Javier Barden, Natalie Portman e Stellan Skarsgard.
Belo filme, com representações que fazem justiça ao pintor e que não degenera entre os outros Forman, em sua obsessão pela imagem.
Desconfio aliás que foi também naquela fonte que os irmãos Cohen beberam o personagem que conceberam para o mesmo Barden - o feio mais bonito do planeta - em "Onde os Fracos não tem vez".
Mas, o que tem isso com minha viagem?
Um buraco de minhoca se você for astrônomo, uma chave de portal, se você tiver lido Harry Potter, uma Madaleine, se preferir Proust.
Reencotrei um tempo recente ainda dolorosamente perdido em minha memória. Um tempo em que há menos de dois meses estava diante de um de meus maiores desejos, a Galleria degli Uffizi, em Florença. Já estava há uns três dias na cidade e esperava que minha habitual dor cedesse um pouco a fim de conseguir aproveitar melhor a visita.
A dor não cedeu. E eu fui mesmo assim. Ainda na primeira sala, entre profusões de Ecce Uomo e Madonas con Bambino de todos os gostos e épocas me dei conta de que não ia dar pra ver nada.
Minha tia, tocada por minha frustração, pariu uma cadeira de rodas, e eu então propûs que visitássemos apenas duas salas, e, me consolando com a esperança que tinha de poder volta ali (afinal eu alisara o focinho do Cinghiale) escolhi a Sala Boticelli e a Sala da Vinci.
Então ela foi me empurrando pelos corredores e eu tentava não olhar para dentro das salas, para tudo o que estava perdendo, o que obviamente não consegui fazer e num único olhar, para uma única sala, entrevi, no tempo de uma girada das rodas que me conduziam, uma dama que meu arquivo cerebral me remeteu a Goya.
Fui pesquisar, e era o próprio. A Condessa de Chinchon, de 1801. E para mim, a Itália, até que possa voltar, em melhores condições, ficou sendo o Goya que não vi.
E para constar, nem mesmo os Boticelli consegui apreciar, grogue como estava pelos anestésicos com que me entupi na tentativa de cumprir a caminhada necessária.

As Dores do Mundo
E essa madrugada, assistindo o Milos Forman, fui para aquele Goya remetida.
Francisco Goya e suas mulheres alinhadas, seus retratos cruelmente perfeitos, suas figuras torturadas.  Não posso falar com conhecimento de causa, mas como mera amante da arte, me parece quase expressionista. Estão ali Münch, Dali, e até Bosch, ainda que contemporâneo. Estão ali horror francês pós revolucionário, o horror inquisitorial da Espanha, o horror da Vida. Guernica...
Está ali, como no Grito de Münch, minha angústia.
Ai, ai. Vou ter que ver isso de perto.
Due Vecchie che mangiano

8 de fev. de 2011

Chico. E o meu justo silêncio.

Cordão

Ninguém
Ninguém vai me segurar
Ninguém há de me fecharA
As portas do coração

Ninguém
Ninguém vai me sujeitar
A trancar no peito a minha paixão
Eu não
Eu não vou desesperar
Eu não vou renunciar
Fugir

Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir

Ninguém
Ninguém vai me ver sofrer
Ninguém vai me surpreender
Na noite da solidão
Pois quem Tiver nada pra perder
Vai formar comigo um imenso cordão

E então
Quero ver o vendaval
Quero ver o carnaval
Sair

Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir
Enquanto eu puder cantar
Alguém vai ter que me ouvir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder seguir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder