Puxa uma cadeira, e relaxe...

26 de mai. de 2011

Ópio do povo, e das crianças...

É um fato. Comida é o assunto da Nova Ordem Mundial. Publiquei duas miseras postagens, a do Creme de Abobora de Outono e a da Pannacotta com coulis de caqui, isso bastou para que o gráfico de acessos ao blog tenha aumentado numa proporção que eu não tenho competência matemática pra descrever nem explicar!

Porém, como, ao contrário da Plebe Rude - obscuro e ótimo grupo de rock de minha adolescência longínqua -  meu interesse aqui não é grana, fama, mas você, vou mudar o rumo da prosa pra contar um caso que me assombrou.

Apesar de não ter filhos ainda, convivo muito de perto com várias crianças. Duas delas, muito queridas e próximas, emocional e fisicamente me trouxeram uma questão que estão vivenciando em suas vidinhas, e vejam, ELAS me trouxeram, e não seus pais. Levaram-me a uma realidade da qual já tinha ouvido falar mas de cuja profundidade não desconfiava. O embate religioso nas escolas.

Vale dizer que ambos estudam em uma escola particular, sem orientação religiosa, aqui em Cachoeiras de Macacu. Eles não têm a disciplina "Educação Religiosa", como eu tive no colégio de padres em que estudei. E estão incomodados porque nos trabalhos de grupo não conseguem desenvolver os assuntos propostos pelos professores pois esbarram nos impedimentos religiosos das crianças componentes dos grupos.

Um exemplo foi o trabalho sobre transfusão de sangue. A religião de algumas das crianças não permitia a prática da transfusão, então a pesquisa foi prejudicada e um deles fez o trabalho sobre plasma sanguineo, que é permitido na sua igreja.

Depois, houve um trabalho sobre Carnaval, e as crianças evangélicas não puderam fazê-lo. A escola concedeu-lhes seus pontos ainda assim.

As crianças contaram da batalha que é a aula de biologia que inclui as teorias (por enquanto as únicas aceitas e com as quais eles têm que tomar contato!) darwinianas sobre evolucionismo e ainda aquelas que envolvem a origem do universo.

Essa coisa da repulsa ao darwinismo sempre pareceu uma piada para mim, mas agora sentindo o problema de perto, vejo que é sério e tem repercussões importantes na vida delas, e percebo, assombrada, que tem uma geração crescendo com este tipo de conflito, o que me faz pensar: será mesmo o Brasil o país da deliciosa postura oba oba em relação às religiões e por isso o paraíso da tolerância religiosa?

Temos uma geração crescendo sob o signo da ignorância e da intolerância.

Se o homem de bem não pode calar diante do mal, creio que não posso me calar diante disto, também, embora essa mesma afirmativa, reconheço, vá contra os princípios da tolerância. Mas mudo minha postura, a partir daqui, de que todas as religiões são boas desde que levem o indivíduo a um bom termo consigo e com o mundo. Repudio o crescimento insidioso desta fonte de controle pela ignorância que é o alastramento destas falsas religiões, pelo país.

E se este é o meu pequeno espaço no mundo para dizer alguma coisa, é por aqui que vou começar a a falar.

Este, a despeito das tentativas da senhora Rosinha Mateus, é um ESTADO LAICO. É uma questão de lei. E lei, tem que ser respeitada sob pena de punição. Por que tolerar que dentro das escolas a lei não seja cumprida? Por que gerar nas crianças a noção de que em nome da religião, qualquer que seja, a lei pode ser descumprida e que a religião lhes confere inimputabilidade?

Se a professora pede um trabalho sobre determinado assunto e este trabalho não é entregue, não há como não dar ZERO a esta criança. Se a professora pede um trabalho sobre transfusão de sangue e a criança entrega um trabalho sobre plasma sanguineo, ZERO na criança. Não há discussão possível.

É um estado laico. Lutamos muito para que fosse um estado laico. Conseguimos manter este, um estado laico. A religião deve ser mantida na Igreja. E não se pode abrir mão disso.

Cabe aos pais, religiosos ou não, garantirem que seus filhos tenham uma educação coerente com o conteúdo programático proposto pelo Estado. Que sejam cobrados e pontuados em função deste conteúdo. Cabe aos pais, protestarem veementemente contra a indulgencia e a condescendência com as questões religiosas que permeiam as escolas.

Essa condescendência nada mais é do que o fermento da intolerância. Que está sendo gestada de uma maneira espantosa, e não estamos nos dando conta. Que Deus nos ajude!

18 de mai. de 2011

Sazonal

A natureza, sabida que só, presenteia aqueles que comem as coisas no tempo das coisas, com uma deliciosa concentração de sabor. Não entender e aproveitar isso é burrice.

Você, que como a natureza, é muito sabido, deve estar cheio de caquis aí na sua casa.

Claro que é maravilhoso comer um caqui da época a suculentas mordidas, mas é muito justo dar uma diversificada, também. Pensando nisso, e na onda do Creme de Abóbora de Outono, vim palpitar sobre esse caqui que está aí na sua fruteira.

Vai nisso uma certa onda de nostalgia, pois minha sugestão é um clássico piemontês: Panna Cotta com Coulis de Caqui. Lá em Costigliole tinha muito caqui e eles apodreciam no chão porque o povo não dava conta! Eram vários pés baixos, quase sem folhas, por causa do frio e bem carregadinhos , me lembravam as historinhas do Chico Bento. Quando caiu a primeira neve, corri pra ver o que tinha acontecido, e eles estavam todos lá, firmes, e eu fiquei comendo caqui geladinho e olhando o mundo branquear...

No Piemonte eles eram bem amarelados e eu resisti um pouco a come-los achando que tinham cica. Mas não tinham! E eu descobri isso numa noite em que fui jantar num restaurante e a panna cotta veio justamente com coulis de caqui, em vez das tradicionais frutas vermelhas e estava absolutamente maravilhoso...

Aliás, parece que só aqui no Rio que a gente diz "cica", nenhum brasileiro que estava comigo conhecia a palavra, só os três cariocas... os demais diziam que "amarrava a boca".

Então vamos lá, a Panna Cotta... literalmente significa creme cozido e é algo entre o nosso pudim e o manjar, só que sem côco e de sabor bem menos ativo que qualquer um dos dois. Deve ser macia e neutra, qualquer outra coisa, não é uma panna cotta! O legal nela é justamente ser tão suave. O máximo de inovação a que me permito é substituir o creme de leite fresco, muito predominante,  pelo de lata, a qual se sacode um pouco pra misturar o soro, que vem a calhar nesse caso.

Então olha só: duas latas de creme de leite, meia fava de baunilha (pelamordedeus, não use a essência!), três folhas de gelatina incolor e 150 gramas de açúcar. A fava de baunilha cê sabe, né? faz um cortezinho de leve ao longo dela e raspa as sementinhas, a casca você pode pôr no açucareiro pra aromatizar o açúcar. Então leva o creme, a baunilha e o açúcar ao fogo médio - a essa altura a gelatina já está lá de molho num cadinho d'água - apenas ameaçou levantar fervura, tira do fogo, põe a gelatina, volta rapidinho pro fogo e dá uma montada com o fuet. Beleza. Potinhos individuais são o modo clássico, mas se não rolar, qualquer fôrma resolve. Geladeira por um tempo, tem gelatina, lembre-se.

Aí temos o coulis. O coulis é assim como um puré da fruta. Ao contrário da geléia, ele não vai ao fogo. É um modo honesto, digno e respeitoso de se extrair sabor de um ingrediente que está no seu auge como é o caso do caqui, neste mês de maio. Se colhido corretamente (daí a vantagem de se comprar produtos orgânicos) ele estará com a concentração ideal de açúcar, e a textura linda que toda fruta na safra deve ter. Assim, seria até maldade aplicar a ele métodos de conservação ou de alteração de sabor ou submetê-lo ao fogo. Veja, um caqui de maio é um caqui de maio. Tudo o que queremos é deixar que ele conte pro mundo como ele é bom, sem interferir!  Para isso lhe daremos uma base suave como a panna cotta, e ele vai poder brilhar!

Então, pegue estes lindos caquis, retire-lhes a pele com delicadeza, peça desculpas pela violência e, processador nele! Isso tem uma razão de ser. A panna cotta é muito macia, e as fibras do caqui não lhe cairiam bem, mas isso não é questão fechada, se você gostar das fibras, apenas amasse-os delicadamente com um garfo (mas aí não é coulis). Se quiser, pode acrescentar algo ácido, em pequena quantidade, para ressaltar o sabor e estabelecer o contraste, porque afinal o coulis é doce e a panna cotta também. Eu gosto de colocar um pouquinho de aceto balsâmico (sempre de verdade), mas eu sou maníaca, você, pode se abster. Se não puder resistir à idéia de colocar açúcar, processe junto que é pra não ficar granulado.

Aí, vai lá, desenforma a tua panna cotta, derrama o coulis sobre ela, e tenha uma sobremesa honesta e feliz!

Eu sei que a internet acostumou mal você e todas as receitas deveriam então vir ilustradas, lamento. Meu blog é pra quem gosta de ler e não tem figurinha não. Além do que, eu só estou sugerindo uma receita que já comi, já fiz, e adorei! Mas não fotografei. E acho bizarro roubar a foto da receita alheia.

Mas aceito fotos se você fizer, aliás, vou achar o máximo!

16 de mai. de 2011

Creme de abóbora de outono...

Os amigos tem cobrado que o meu blog devia falar um pouco mais de comida.
Assim sendo estou aqui pra comentar a sopa de abóbora que virou um hit aqui em casa neste fim de semana frio...
Outono, época de abóbora! Vamos a ela: sem quantidades, porque tudo vai depender do gosto do freguês.
Eu peguei um montão de abóboras vermelhas, algo como 1,2 k, sem casca, em cubos grandes e regulares. Coloquei em uma panela grande na qual já ferviam água com alecrim - é legal fazer um bouquet garni amarradinho, porque depois o alecrim é retirado. Como se sabe, o alecrim precisa ser aquecido para liberar seus óleos essenciais, aroma e sabor, então esse é um bom jeito de conseguir isso. Atenção, porque abóbora de outono amacia rapidinho! Quando já estavam bem macias, fui retirando da panela com uma escumadeira e colocando direto no processador, uma ou outra folhinha do alecrim virá, não tem problema, mas o bouquet garni é descartado. A abóbora processada ia sendo passada para uma outra panela. À parte, derreti um triangulo de gorgonzola com uma caixa de creme de leite e na última porção de abóboras à processar, juntei o gorgonzola. Se quiser, pode colocar mais creme de leite, em lata e sem soro, mas lembre-se de que nesse caso, terá que cozinhar a sopa o dobro do tempo para que o gosto do creme de leite não predomine. Chapar pimenta do reino e noz moscada moídas na hora, um pouco de sal, misturar e pôr pra ferver. Lembre-se de que a abóbora tem o péssimo hábito de respingar, então é bom que a panela seja funda e a colher de pau comprida. quando já estiver cozida e bem homogenea, tirar do fogo um instante, acrescentar um fio generoso de BOM azeite (eu usei Herdade do Esporão) e outro fio generoso de Aceto Balsâmico  ORIGINAL, não se engane e não estrague seu esforço (eu usei o Oro Nobile da da Leonardi). Daí, voltar rapidamente para o fogo só para incorporar e depois de desligar o fogo, dar uma batida com o fuet pra aerar e ficar leve... Para servir, há algumas possibilidades. Tomamos pura com um fio de Marsala no meio, que pode ser substituído por Pôrto. E no outro dia, a Jan trouxe uma carne seca desfiada fritinha com cebola, então colocamos por cima do creme puro, a carne seca e parmesão ralado na hora... olha, ficou de comer rezando... ah, e sempre tem que ter umas torradinhas, néam?
Não é o jeito mais high society de se fazer um creme de abóbora, mas ficou bem agradável...
Não tirei foto... mas vou adquirir este hábito salutar, prometo...

3 de mai. de 2011

Atualidades...

Rapaz, tá frenética a coisa.

Meu irmão fez aniversário. A Fátima mordeu a mamãe. O príncipe casou. O Papa tá na cobrança de pênaltis para a santidade (espero que ele não seja vascaíno). O Osama morreu. E um sapo de mais ou menos 1 k fixou residência na minha varanda.

Entre uma coisa e outra, vai-se vivendo sem nenhuma repercussão drástica na nossa vida. Exceto, para alguns, os pênaltis não feitos do vasco, mas não a mim, porque eu, como se sabe, sou tricolor.

Mas isso tudo no fim-de-semana do trigésimo Dia do Trabalhador depois daquela fatídica bomba do Riocentro. Assistia eu o Arquivo N da Globo News, rememorando o evento, e de tudo, o que mais me chamou a atenção foram as presenças no show: Chico Buarque, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Zizi Possi  e Gal Costa. É... o Dia do Trabalhador já foi melhor comemorado. Isso diz muito dessa coisa que é a "evolução dos tempos".

Como disse o Macaco Simão, a morte de Osama desencadeou uma micareta nos EUA... a Obamafolia... vendo as imagens, fiquei meio perplexa... não consigo achar natural que se comemore a morte de alguém. Digo isso não pra posar de boazinha como aqueles que por razões supostamente religiosas tem vindo a público dizer que ele devia ter sido capturado e julgado. Só malufista pra dizer isso... é bem "estupra mas não mata". Pense por um minuto nos desdobramentos de ter um prisioneiro deste calibre em qualquer lugar do mundo... não dava. Mas daí a institucionalizar os festejos pela morte de quem quer que seja... sei não... pra mim, é doentio. E tem desdobramentos. Veremos lá na frente.

Já tá mais de que dito, mas só recapitulando:

Osama, árabe, comandante da afegã Al Qaeda atacou os Estados Unidos, que revidaram atacando... o Iraque, em busca de armas químicas de destruição em massa que.... jamais foram encontradas. Concomitantemente invadiram o Afeganistão, de onde não se retiraram mesmo depois de descobrirem que Osama estava no ... Paquistão, governo que criam aliado. Não invadiram o Paquistão, a não ser a força-tarefa que matou Osama. E depois da ação, não fazem qualquer menção de se retirar do.... Afeganistão. Aqui, nem americano é tão burro pra achar isso normal. O país inteiro sofre de miopia?

A gente quando vê a barba do vizinho arder (metáfora bem literal, em se tratando de Osama), põe a nossa de molho. Pra eles dizerem que temos antrax nas bromélias da Floresta da Tijuca, não custa.

Mas hein,

E a caixa preta, que é um balaio abóbora?
E o Marrone que quase entrou pro "resta um sertanejo"?
E o Vasco da Gama, minha gente, o que foi isso?
E o povo achando estranho ninguém da vizinhança notar que o Osama estava naquela casa! E daí?... um pai manteve a filha por 18 anos em um porão na Áustria, onde perpetrou mais 7 crianças e nem a mãe dela, morando acima, notou!
E São Paulo, onde agora tem uma lei proibindo bares e restaurantes de servir ovo com gema crua. Onde o mundo vai parar, minha gente??