Puxa uma cadeira, e relaxe...

19 de dez. de 2011

O côncavo e o convexo

Como legítimo exemplar da classe média carioca, também eu passei muitas férias na Região dos Lagos.

Numa destas, no longínquo ano de 1980, atravessei a primeira prova de fogo de minha incipiente existência: um interminável verão em Araruama, na condição de caçula de um irmão e alguns primos, em companhia de mãe, duas tias e dois discos: um do Roberto Carlos e outro do Julio Iglesias.

As rodinhas de minha bicicleta faziam de mim um estorvo para as outras crianças que subiam e desciam, velozes, as ladeiras arenosas e escaldantes do próspero balneário, assim, eu era frequentemente deixada na companhia das Gréias e seus LPs infernais.

Depois de um mês de bullying familiar, Manuela, e muito “eu quero ser sua canção eu quero ser seu tom”, percebi, ainda na Rural saia e blusa de meu tio, ali pela ponte Rio-Niterói, que a recuperação – se houvesse uma – tardaria, e fui tomada por um súbito repúdio à lagoas e casuarinas.

Mas o tempo que sempre apaga o fogo de qualquer paixão, naquela altura passava preguiçosamente, de modo que no fim da década, na sexta série, o destino me pôs na mesma classe que R., e foi então que minha índole lânguida revelou-se.

Numa noite fui flagrada, cantando, sentida, a plenos pulmões: das lembranças que eu trago na vida você é a saudade que eu gosto de terrrrrrr….. só assim, sinto você bem perto de mim, outra vez!!!!!

E o vaticínio foi certeiro, ainda na porta, com a chave na mão:

- Ah meu Deus. Minha filha está apaixonada.

Não passei a gostar de Roberto Carlos a partir dali, até porque precisamente naquele momento ele dava início à pior fase de sua produção. Mas insidiosamente, a cada paixonite, meu coração apelava tão secretamente quanto possível – seria uma traição a meu irmão e primos se, de uma hora para outra, eu me esquecesse dos suplícios daquele verão – para a coleção de LPs que minha mãe tem até hoje.

Quanto a R., jamais encontrei palavras para dizer como era grande o meu amor por ele, que nunca ficou sabendo que eu tinha o amor maior do mundo.

Porém, foi por aquela época que o tempo, de preguiçoso, passou a maratonista queniano, e a capciosa semente plantada pelo primeiro amor, resultou em que eu fosse elegendo canções do repertório de Roberto Carlos, e o pior, perdoai! dei para chorar, ouvindo o cara.

Que posso dizer? Sei que não devia estar contando isso, é possível que seja o golpe de misericórdia nos incautos que a este blog acorrem em busca de qualquer coisa interessante para ler, e me resignarei se julgarem que nada de interessante pode advir de uma criatura que chora ouvindo Roberto Carlos. Mas já que confessei tanto, devo fornecer elementos suficientes para a adequada penitência, e conto ainda que, na última sexta-feira, sob o pretexto de oferecer presente natalino à mãe e cunhada, fui com ambas ao Maracanãzinho, ver, pela primeira vez, o provecto senhor que mexe com a libido da Hebe Camargo.

Somente hoje, quando já vão longe as jovens tardes de domingo, e quando você não sabe, mas é que eu tenho cicatrizes que a vida fez, posso compreender melhor o fenômeno e até as minhas lágrimas.

Nas cadeiras numeradas, de posse de um Geneal, concentrada no que ele cantava, atenta à reação de milhares de pessoas ao meu redor e comovida com a paz do sorriso de minha mãe com seus binóculos (parte do presente), pus-me a lembrar dela, tão mais nova, de tomara-que-caia amarela e short jeans, com mais ou menos a idade que eu tenho hoje, tão bonita, sentada na areia, ouvindo seu disco querido, e quase posso ver o seu olhar, e queria tanto ter podido abraçar aquela mulher e explicar pra ela que nem o Roberto Carlos sabe de verdade dar e querer da mulher.

E ali, ao lado dela, com todas as suas repressões e reprimendas, senti uma inédita compreensão de nós duas e de nossa condição feminina. Estávamos em rara comunhão. Porque não éramos mãe e filha, éramos mulheres.

Talvez seja esse o grande mérito do artista em questão, diferente do Chico, que traduz tão poeticamente o que as mulheres sentem, Roberto Carlos fala o que elas gostariam de ouvir. E se coloca na posição do homem que diz isso.

Sem dó:

“Eu te proponho
Te dar meu corpo
Depois do amor
O meu conforto
E além de tudo
Depois de tudo
Te dar a minha paz..”

“Quero ser a coisa boa,
Liberada ou proibida,
Tudo em sua vida.”

“Eu como e bebo do melhor
E não tenho hora certa:
De manhã, de tarde,
À noite, não faço dieta.”

“E é bonito demais
Quando a gente se beija
Se ama e se esquece
Da vida lá fora…”

“Sem me importar se neste instante
Sou dominado ou se domino.
Vou me sentir como um gigante
Ou nada mais do que um menino.”

E por aí vai…

Bem, à Araruama, nunca mais voltei, mas guardo lembranças ternas do lugar. Julio Iglesias seguiu sendo odiado.

Mas mesmo que os detalhes sumam na longa estrada do tempo que transforma todo o amor em quase nada, sei que um grande amor não vai morrer assim, por isso, tenho certeza, eu sempre lembrarei de Roberto Carlos.

E pressinto que vou chorar.

20 de nov. de 2011

Muito bem dito, Affonsinho...

Meu amigo Affonso Romero fez essa breve análise e uma excelente compilação de fontes que correm à margem da grande mídia e que consitutem boas opções de informação. Por esta razão, posto aqui o e-mail dele, ipsis literis.

" Alguma coisa ainda une Luana Piovani e Dado Dolabela. É que ambos postaram no twitter apoio à ideia de que Lula devesse se tratar no SUS. Retrato da assim chamada "elite" brasileira, a campanha é preconceituosa, intolerante, sectária, ranzinza, colonizada, estúpida e, principalmente, coisa de gente que se acha, mas que é absolutamente desinformada. Sim, desinformados, como mostra o ótimo texto do Walter Monteiro publicado na Ouro de Tolo (http://pedromigao.blogspot.com/2011/10/bissexta-raiva-que-nao-passa-do.html?showComment=1320153080868#c5454434100359439558),
do qual eu destaco um trecho aqui:

"...Os políticos brasileiros dividem suas preferências entre os hospitais Albert Einstein (onde faleceu o ex-Presidente Itamar Franco) e o Sírio Libanês (onde Lula está se tratando). Detesto ser estraga prazeres da
campanha sórdida de vossas senhorias, mas ambos são um dos muitos hospitais conveniados da rede SUS..."

Tenho nojo dessa gente que faz o Brasil passar vergonha interna e externamente. Até o FHC e a Folha de São Paulo, vanguarda do atraso nacional, ficaram sem jeito nessa.

Abaixo, alguns outros links sobre o tema. E também sobre a vergonha imediatamente anterior, as críticas ao título concedido ao Lula em Paris.

Luana e Dado defendem que Lula se trate no SUS -
http://br.omg.yahoo.com/noticias/luana-piovani-e-dado-dolabella-defendem-que-lula-se-trate-no-sus.html

Como seria um Brasil sem Lula? -
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/como-seria-um-brasil-sem-lula#more

Comentários cancerígenos - Michel Blanco, Yahoo -
http://colunistas.yahoo.net/posts/14072.html

O câncer de Lula me envergonhou - Gilberto Dimenstein - Folha SP -
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/999070-o-cancer-de-lula-me-envergonhou.shtml

Paulo Teixeira, no Vi o Mundo, comenta Dimenstein -
http://www.viomundo.com.br/politica/paulo-teixeira-dimenstein-e-o-sentimento-da-minoria.html

Gerson Carneiro - Praga de Urubu não Pega -
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/gerson-carneiro-praga-de-urubu-nao-pega.html

Aninha Zortea, 11 anos, passa descompostura nessa gentinha -
http://www.viomundo.com.br/politica/aninha-zortea-como-esse-moco-quer-chegar-algum-dia-ao-poder.html

Nassif e a selvageria ensaiada pela imprensa -
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/selvageria-contra-lula-foi-ensinada-pela-imprensa#more

Guia de Boas Maneiras -
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/guia-de-boas-maneiras-por-maria-ines-nassif#more

Nina Crintzs e um bom exemplo do SUS -
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-sus-a-ironia-e-o-mau-gosto

Clovis Rossi - O câncer do preconceito -
http://blogs.elpais.com/algo-mais-que-samba/2011/10/o-c%C3%A2ncer-do-preconceito.html

Todo ex-governante vai ter que usar o SUS? -
http://www.blogcidadania.com.br/2011/11/todo-ex-governante-vai-ter-que-usar-o-sus/

FHC condena manifestações -
http://observatorionline.blogspot.com/2011/10/fhc-condena-as-manifestacoes-de.html

Esclavistas contra Lula -
http://www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-177611-2011-09-27.html

Pés na cozinha -
http://br.noticias.yahoo.com/blogs/on-the-rocks/p%C3%A9s-na-cozinha-163315470.html

O Globo vira piada -
http://altamiroborges.blogspot.com/2011/09/o-globo-vira-piada-no-twitter.html?spref=tw

21 de out. de 2011

Revolução de Shopping Center

Diariamente recebo solicitações de assinaturas em prol das mais variadas causas. Chegam-me Avaaz propondo mundanças no mundo.  Recebo convites para eventos em que o povo vai se reunir contra tudo e contra todos - em geral, na Cinelândia, possivelmente porque, em algo dando errado, sempre tem o Amarelinho para um choppinho.

Vejo pulularem em meu facebook, selos em letras garrafais, convocando TODOS CONTRA A CORRUPÇÃO. TODOS CONTRA A VIOLÊNCIA. TODOS CONTRA O RAIO QUE O PARTA.

Leio também muitas reclamações sobre a passividade de nosso povo, nas quais o reclamante jamais se inclui. Ao mesmo tempo críticas supostamente espirituosas ao fato de que a Marcha contra o Orgulho Gay e a Marcha contra a Maconha reunem milhares de pessoas que, contudo,  não são capazes de mobilizar-se contra a corrupção.

Sempre ignoro todas essas bobagens. Ignoro para o bem de minha saúde mental e social. Cada um desses "gritos" equivale, para mim, a um meio público de fingir reivindicar algo, do qual, na verdade só se está se eximindo.

Funciona assim: pronto, confirmei minha participação na Marcha contra a violência na Cinelândia. Certamente eu não vou, mas o que vale é a intenção. E de qualquer modo, marquei minha posição.
Pronto, publiquei um quadrinho TODOS CONTRA A CORRUPÇÃO no meu facebook, fiz minha parte. Pronto, publiquei uma frase de efeito contra a passividade da população, e esculachei os políticos, vês? como sou politizado?

Noto também uma admiração generalizada de que as redes sociais possam servir às revoluções populares. O que a um tempo ressalta a suposta função revolucionária de tais redes e a patética passividade brasileira.


Mas jamais vi no facebook ou em qualquer rede social, e diria até em qualquer conversa particular com ninguém, uma indignação real, guarnecida de argumentos, contra qualquer coisa que se passe neste país ou em qualquer outro país. Qualquer grito que ultrapasse o ato anestésico de  repetir frases feitas, publicar clichês.


Prova desta anestesia é a muda anuência com que o mundo assistiu primeiro à invasão do Iraque, e, diante de tal anuência, o passo à frente que foi invasão americana a um país estrangeiro para executar alguém, como no caso de Osama Bin Laden.


E agora, o silêncio sorridente sorridente diante da chacina*. A muda anuência com que o vimos um ser humano se arrastado e linchado, sem direito a julgamento.

Não está em questão, nessa minha ponderação, as atrocidades cometidas por ninguém. O fato é que não reconheço como legítima nem representativa dos meus interesses como ser humano e como cidadã, a decisão unilateral de uma execução. Crer num sistema que proteja A TODOS dessas arbitrariedades é crer que não vivo na barbárie.

Que então publiquemos quadrinhos abrindo mão da Onu, de Haia e de todo o dinheiro e complexidade investidos nestes sitemas que deveriam, eles sim, dar conta das atrocidades dos líderes que as cometam contra seus povos e, contra outros líderes. Protegendo-nos assim, repito, da barbárie

A indignação que sinto agora e que preciso expressar, é o tipo de indignação que acredito ser capaz de mover as coisas, e não os quadrinhos publicados no facebook. Mas as pessoas estão tão anestesiadas que escondidas sob seus selos revolucionários, permitem, com seu silêncio, que indivíduos sejam mortos sem julgamento, até que sejam elas próprias exterminadas com a legitimidade de uma jurisprudência que sua própria passividade permitiu.


Eu não publico selos convocando a nação às armas. Eu não conclamo ninguém à Marcha revolucionária. Tenho declarado orgulho pelos políticos em que votei e considero que eles me representam muito bem.

Mas estou PRONFUNDAMENTE CONSTERNADA com a morte de Muamar Kadafi, e com a anuência do mundo diante desta morte e sobretudo com a passividade diante dos interesses que têm levado à morte de líderes, legítimos ou não, no Oriente Médio.


Isso tudo não cabe num quadrinho no facebook. Poucos lerão o que tenho a dizer. E pouca diferença fará. Mas escrevo com sincera revolta. O único tipo de revolta que acredito seja capaz de mobilizar e revolucionar. Mas não em um mundo de Marchas semanais na Cinelândia. Se contudo, alguém quiser falar sério, de agora para daqui a pouco, viro a UlrikeMeinhoff.

Sabe porque a Marcha do Orgulho Gay tem quórum? Porque são pessoas comprometidas com uma causa que realmente lhes aflige e diz respeito. Essa dimensão de perceber que algo nos diz respeito de fato, é o que nos falta. Experiemente deixar-se afligir de dentro para fora, pela corrupção, para além das adesões vazias. É capaz até de você ir parar na Cinelândia.

*Caetano Veloso, em Haiti

29 de set. de 2011

Paulicéia

São Paulo é uma cidade do interior. Só que muiiiiito grande. 
São Paulo não é a Oscar Freire. 
São Paulo é um aglomerado de casas simples com mesinhas na calçada. Um povo que em sua maioria é desconectado das múltiplas possibilidades que a cidade oferece e que dão a ela a falsa impressão de metrópole. 
Vem ver de perto a gente que anda nos ônibus, a mentalidade programa de auditório, as padarias de bairro. Repara una incapacidade paulistana de localizar neste mundo qualquer rua que não seja a sua, ou a vizinha. 
Olha o borborinho quando passa a moça de cabelo azul, o moço de piercings múltiplos, que se recusam a tomar parte na província. Que frequentam freneticamente os pontos alternativos para deixar bem claro sua negativa à massa de que são porém, irremediavelmente oriundos. Assim como numa cidade de interior os há, mas em quantidade proporcionalmente menor.
Em São Paulo a dupla professora primária/major foi substituída pelo executivo/psicologa atuante em RH. São Paulo é uma Tijuca descomunal. 
São Paulo é uma cidade do interior. E eu adoro.

10 de set. de 2011

Arroz de Bacalhau de João Gusmão

Eu tenho um amigo chamado João Gusmão. É dos amigos mais sui generis que eu poderia ter. E deve ser por isso que prezo tanto meu amigo João Gusmão. Ele é português, e eu sei que é meio óbvio, mas que posso eu fazer? o caso é que João, o Gusmão, faz o melhor bacalhau que há.

Dia desses pedi a ele a receita do Arroz de Bacalhau. Ele mandou-me. À época, quem precisava da receita era um outro amigo, repassei-a e não dei a ela a devida atenção até que agora, por ocasião do aniversário de meu pai andei comprando umas postas altas (verão que isto não vai lá ao gosto de meu amigo João, o Gusmão) e lembrei-me da receita já passada em tempos no meu gmail.

Então recuperei-a e vejam que delícia, pois que mais que uma receita - e de excelente qualidade, atesto - vem a ser uma deliciosa crônica escrita por meu mais sui generis amigo.


E nos beijinhos com que a finaliza engloba também Dedé, para fazer completa a festa.

Se foi ele tão generoso para a dividir comigo, penso que é um bem à humanidade dividi-la convosco.

Assim, transcrevo a receita, com o sabor da prosa de João. Gusmão.


Flavinha

Antes do mais, gracias pelos elogios aos meus bacalhaus....com certeza foram a sua fome ,uma das fontes...
Devo esclarecer que só cozinho por gosto, e jamais por obrigação...acho os amigos bons garfos o melhor condimento...
Só uso bacalhau de média altura, não gosto do bacalhau alto (o mais caro),senão para o fazer no forno em postas inteiras não demolhadas....mas essa é outra receita...
Costumo usar uma posta média para duas pessoas
Uma cebola grande para duas pessoas
Alho... muito
Azeite... sem fim
Uma xícara de arroz bem cheia (xícara de chá)
Sal, louro e pimenta do reino (essencial)
Modus Operandis
Encho um bom copo de vinho tinto e começo a beber.... cozinheiro que não bebe, não é confiável!
Lavo o arroz uma única e rápida vez na água!! deixo a escorrer...
Cozo o bacalhau em pouca água, uma folha de louro, um alho, e uns grãos de pimenta...
Após cozido,ora pois pois, se tira a pele e as espinhas, e deixa o baca às lascas pequenas...JAMAIS CORTE OU ESMIGALHE O BACA!!!
Seja generoso a encher a panela de muita cebola cortada às rodelas, alho fatiado, louro e pimenta do reino....
Esqueça o preço do azeite e use muito
Inicie o refogado... (ah se jogou a água do bacalhau cozido fora você é uma besta rematada e não o merece)
Beba mais um copo de preferência com outro amigo na cozinha, e como dois bons machos, falem merda pra caramba!
Mulher costuma ficar na sala a falar sobre o BBB....ou outros assuntos essenciais...
Cuidado tá chegando a hora H do arroz de bacalhau....
A cebola tá bem loura com umas pontas mais "africanas",digamos.....junte o bacalhau, misture bem, baixe o fogo e tampe bem....
Pra passar o tempo,fale mais baboseira com o amigo...
Agora sim é a HORA!!! jogue o arroz na panela, e deixe-o fritar até achar que você estragou tudo...ou seja, ele esta agarrando ao fundo panela.
Sem intervalo e nesta hora cubra com a água que guardou do cozimento
Levante o fogo, até começar a ferver...mexa, não tenha medo, mexa bem....
Ferveu? baixe o fogo ao mínimo possível, abra uma beiradinha da tampa e tome mais um vinho....
20 minutos após, costuma estar pronto....tampe totalmente a panela e espere pelo menos outros 20 min para servir
Detesto arroz acabado de fazer...deve-se dar um tempo a ele antes de se comer....Bizarrices de portuga a esta hora já bêbado!
E é tudo
Beijinhos e bom apetite
Aconselho um tinto do Alentejo para acompanhar....uma salada de alface com cebola e azeitonas daria um bom acompanhamento.
Nesta parte não conte comigo...estarei de porre!!!
Beijinhos nossos.
João

13 de ago. de 2011

Pandora às avessas


Querido Caio Zakia,

Vou contar para você uma pequena fábula.

Há uns meses atrás, pela internet, comprei uma antena de TV a cabo para a casa de meu pai. Essa antena deveria ter sido instalada logo, porém esse, desde o começo, tem sido um ano muito conturbado para mim. E em geral por razões desafortunadas.

Primeiro, todo o suplício de minha coluna. Depois, o difícil percurso da recuperação física e psicológica pela interrupção de minha viagem e de meus planos. A seguir, um problema sério de doença na família, que me mobilizou muito. Por fim, no sábado passado, perdi um amigo, e, como se isso não bastasse, durante esta semana, fui injusta e duramente agredida por alguém próximo, de meu convívio, que se dizia amiga, coisa que é sempre um desgosto, para quem, como eu, valoriza as pessoas, antes de qualquer outra coisa.

Toda pessoa, depois de morta, vira santa. Mas este amigo que morreu era de fato uma pessoa maravilhosa. Sabe o homem em que se transformou o Menino Maluquinho, no fim do livro do Ziraldo? Pois então, assim era o André. Querido, amigo, próximo, boa praça,  um homem bom, útil e feliz, que foi morto na porta de um shopping, com três crianças dentro do carro - uma das quais, sua filha, de 4 anos - quando ia comprar um lanche para a família. Durante esta semana, senti toda a dor do mundo, dor pela minha vida complicada, pelas minhas irrealizações, pelas minhas perdas, enfim, por uma semana inteira me senti miserável.

Voltemos porém, àquela antena. Eis que as coisas já iam entrando no lugar e finalmente chamamos o técnico para proceder a instalação, e hoje, sábado, o dia marcado, ele veio à casa de meu pai. Foi então que o telefone começou a tocar e quando eu atendi, era papai, muito bravo, querendo saber  onde estava a antena, ao que eu respondi: ora, foi você que buscou no correio, lembra-se? Ele então me disse: sim, mas na caixa onde devia estar a antena, tem um monte de garrafas com água!

Entre irritada e perplexa, desci a ladeira a ver que brincadeira era aquela, já maldizendo o vendedor do Mercado Livre que me havia enviado garrafas no lugar de uma antena de TV. Lá chegando, havia sobre a mesa uma caixa de sapato, e dentro, de fato, quatro garrafas de água mineral com pedrinhas, e na tampa, o seguinte texto, ipsis literis::

" Nestlè Primavera - Neve do Etna
  Natia - Capri
  Panna - Amalfi
  Cavagrande - Marsala

Desculpa mandar assim, mas achei mais seguro na garrafa de plástico do que em garrafas bonitinhas de vidro.
Saudades
Beijos
Caio "

E, desabada em choro, fui empurrada aos trambulhões por um túnel do tempo. E vi você abaixado, com as calças arregaçadas, pegando pra mim água do Lago di Como, já que, por causa da minha dor, eu não podia ir até lá. Depois, você, em situação semelhante, no Lago di Garda, possibilitando que eu trouxesse para a minha pequena coleção de "águas do mundo", a água daqueles lugares. E como no fio de Dom Casmurro, o túnel prosseguiu e me levou imediatamente a 20 anos atrás quando André Luiz, meu amigo querido, morto há uma semana, tocava a campainha da casa de minha mãe às 6 da manhã, para ir comigo caminhar no aterro porque EU precisava fazer exercício,  e numa dessas, o mesmo André coletou para mim, água da Praia do Flamengo, a primeira da coleção, que infelizmente já não tenho mais. Depois íamos para a casa e ele me fazia café da manhã enquanto eu me arrumava e então ele me levava à escola, antes de rumar para as próprias atividades.

Neste tempo em que tenho estado aqui por essa terra, vivendo, tenho certeza de que eu valho, unicamente, pelo que posso deixar de mim, nas pessoas. Pelas marcas que deixo nelas, pelas marcas que elas deixam em mim. Essa semana foi de desvanecimento dessa sensação, ao ter um amigo morto, e ao ser emocionalmente morta por outra "amiga". Estava mesmo desalentada.

Mas aí, no lugar da antena, redentora, a caixa. E na caixa, as garrafas. E nelas, água para mim. Água de lugares onde eu certamente teria estado com você, se não precisasse ter voltado. E nessas águas, toda a comoção de saber que eu estava lá contigo. Toda a comoção de saber que se perdi algumas das minhas marcas no mundo, sou marca inequívoca na sua vida, como você é na minha. Naquela água, toda a comoção da certeza de uma amizade. Que é no fim, pelo que vale a existência.

Água para quem tem sede. Caixa para quem quer antena. A caixa que o tempo guardou ali sobre uma arca, travestida de equívoco postal, porque era hoje, precisamente hoje, que eu tinha que recebe-la.

Apenas abri uma caixa, e nela estava tudo, como num mercado persa: neve do Etna (eu tenho neve do Etna!!!!), Capri, Amalfi e Marsala. Além disso, naquela caixa, o sentimento de FINALMENTE ter finalizado aquela viagem, um jeito de enfim encerrar uma etapa tão dolorida. Naquela caixa, a restituição da amizade, e portanto, de meu valor. Naquela caixa, a sensação de alguma ordem, nessa vida complicada e insegura.

Como se agradece por isso? Como?

Flávia

p.s: a antena? não faço a mínima! mas quem se preocupa com isso?


Eu, André, Ana Luiza e Mônica




27 de jul. de 2011

Retificações do day after

Então, hoje acordei e fui saborear os acepipes de ontem, e então decidi vir aqui fazer umas retificações. A primeira se refere à

Sopa Paraguaya. O óleo foi demais. Coloquei a quantidade que constava da receita original, e embora tenha mexido em outras coisas, não mexi nisso. Acontece que deveria ficar melhor fria, e até no dia seguinte, mas agora o óleo está ressaltado, ainda bem que usei de canola e isso não interferiu no sabor, mas a dica é não passe de 150 ml de óleo.

Crumble de Banana d'água com castanha do Pará
Ficou muito gostoso e depois que esfriou bem o crumble readquiriu a crocância, porque a água da banana espessou e virou um creminho. Porém, da próxima vez vou colocar menos castanha do Pará diminuindo de 100 g para uns 70 ou 80 g. Acontece que ela dá uma textura semelhante à de coco ralado, e isso pode ficar bem enjoativo.

Fritada de Camarão
Achei que faltou um sabor mais fresco, que a sálvia não pôde conferir, então, de uma próxima vez, acho que vale a pena investir numa salsinha bem fresquinha e sequinha picadinha na hora, no minuto antes de pôr os ovos batidos em cima e colocar no forno.

É isso!

26 de jul. de 2011

comidinhas


Ganhei três dúzias de ovos caipiras e bananas d'agua e prata. Não dava pra deixar estragar, então, resolvi fazer umas comidinhas. Aí, aproveitei que o negócio era aproveitamento de material e usei as receitas para quebrar o gelo no blog! As fotos estão péssimas, mas é que a gente tava morrendo de fome...

Voilá!

FRITADA DE CAMARÃO



6 ovos; 200 g de camarão grande limpo; 1 abobrinha cortada em fatias finas; 1 cebola fatiada; Azeite; 30 g de manteiga; 4 folhas de Sálvia picadas; Flor de sal; Pimenta Branca moída na hora

Numa frigideira derreter a manteiga com a sálvia em fogo bem baixo. Colocar os camarões. Quando ficarem rosados, desligar o fogo. Retirar os camarões, acrescentar azeite na manteiga com sálvia que ficou na frigideira e colocar as cebolas para suar. Elas devem perder a crocância, sem dourar. Pode-se ir pingando água para que isso aconteça.  Acrescentar as abobrinhas, quando elas murcharem um pouco, juntar os camarões. Colocar a pimenta e a flor de sal. Bater as claras em neve, juntar as gemas e misturar. Num pirex colocar os camarões e por cima os ovos batidos. Assar em forno médio/alto, aquecido, sem abrir a porta, por 20 minutos. Servir com salada verde bem crocante temperada com um vinagrete (duas partes de azeite e uma parte de aceto balsâmico, emulcionar).


SOPA PARAGUAYA

Detalhe: na louça da inquilina (quem sabe, sabe....rs) 



1 l de leite; 500 g de milharina; 500 de queijo curado ou padrão passado no ralo grosso; 1 xícara de óleo de canola; 4 cebolas fatiadas; 3 ovos; 1 colher de sopa de fermento em pó; Sal e pimenta branca.

Suar a cebola até murchar em um pouco de azeite. Juntar o leite, o óleo, o queijo e os ovos. Temperar com sal e pimenta branca.  Retirar do fogo. Acrescentar a milharina aos poucos e o fermento dissolvido em um pouco de leite. Mexer e colocar num refratário untado com manteiga e polvilhado com trigo. Assar por 30 minutos até que doure. Fica melhor depois de fria. 


CRUMBLE DE BANANA E CASTANHA DO PARÁ




6 bananas d'água cortada em rodelas finas; (se você preferir o crumble muito muito crocante não use banana d'água, porque como sabemos, ela solta água e acaba umedecendo a crosta).

Misturar em um pote 2 c.s de açúcar; 1/2 c.s de canela; 1 c c de cravo em pó; '/2 c.c. de sementes de baunilha.

Misturas as bananas e este preparado de açúcar e especiarias.

100 g de castanha do Pará cortados grosseiramente, misturar com 200 g de trigo e 200 g de açúcar. Acrescentar 125 g de manteiga com sal, gelada, em cubos. Amassar delicadamente com a ponta dos dedos até formar uma farofa. 

Untar um forma e polvilhar com trigo, cobrir o fundo com a massa, colocar a banana e cobrir com o resto da massa. Assar por 25 minutos, até ficar bem dourado, também fica melhor depois de frio. 


BATIDA DE CÔCO à minha moda e nada dietética

50 g de flocos de milho sococo; 1/2 copo de rum malibu; 1 copo de rum; 1 vidro pequeno de leite de côco; 1 caixinha de creme de leite.  Bater tudo no liqüidificador com gelo. Sempre sacudir antes de tomar


QUENTÃO

700 ml de boa cachaça; 900 ml de água; 100 ml de licor de laranja; casca de 1 laranja sem a parte branca; 1 pedaço de gengibre picado; 1 pau de canela; 6 cravos; 5 grãos de pimenta do reino preta, 400 g de açúcar.

numa panela colocar o açúcar, o gengibre, a canela a pimenta, os cravos e a casca de laranja. Deixar o açúcar caramelizar, pode mexer. Quando já estiver todo caramelizado, colocar a água toda. Ferver por 20 minutos em fogo baixo. Acrescentar a cachaça e o licor e ferver por mais 15 minutos. Coar. Servir quente. 




26 de mai. de 2011

Ópio do povo, e das crianças...

É um fato. Comida é o assunto da Nova Ordem Mundial. Publiquei duas miseras postagens, a do Creme de Abobora de Outono e a da Pannacotta com coulis de caqui, isso bastou para que o gráfico de acessos ao blog tenha aumentado numa proporção que eu não tenho competência matemática pra descrever nem explicar!

Porém, como, ao contrário da Plebe Rude - obscuro e ótimo grupo de rock de minha adolescência longínqua -  meu interesse aqui não é grana, fama, mas você, vou mudar o rumo da prosa pra contar um caso que me assombrou.

Apesar de não ter filhos ainda, convivo muito de perto com várias crianças. Duas delas, muito queridas e próximas, emocional e fisicamente me trouxeram uma questão que estão vivenciando em suas vidinhas, e vejam, ELAS me trouxeram, e não seus pais. Levaram-me a uma realidade da qual já tinha ouvido falar mas de cuja profundidade não desconfiava. O embate religioso nas escolas.

Vale dizer que ambos estudam em uma escola particular, sem orientação religiosa, aqui em Cachoeiras de Macacu. Eles não têm a disciplina "Educação Religiosa", como eu tive no colégio de padres em que estudei. E estão incomodados porque nos trabalhos de grupo não conseguem desenvolver os assuntos propostos pelos professores pois esbarram nos impedimentos religiosos das crianças componentes dos grupos.

Um exemplo foi o trabalho sobre transfusão de sangue. A religião de algumas das crianças não permitia a prática da transfusão, então a pesquisa foi prejudicada e um deles fez o trabalho sobre plasma sanguineo, que é permitido na sua igreja.

Depois, houve um trabalho sobre Carnaval, e as crianças evangélicas não puderam fazê-lo. A escola concedeu-lhes seus pontos ainda assim.

As crianças contaram da batalha que é a aula de biologia que inclui as teorias (por enquanto as únicas aceitas e com as quais eles têm que tomar contato!) darwinianas sobre evolucionismo e ainda aquelas que envolvem a origem do universo.

Essa coisa da repulsa ao darwinismo sempre pareceu uma piada para mim, mas agora sentindo o problema de perto, vejo que é sério e tem repercussões importantes na vida delas, e percebo, assombrada, que tem uma geração crescendo com este tipo de conflito, o que me faz pensar: será mesmo o Brasil o país da deliciosa postura oba oba em relação às religiões e por isso o paraíso da tolerância religiosa?

Temos uma geração crescendo sob o signo da ignorância e da intolerância.

Se o homem de bem não pode calar diante do mal, creio que não posso me calar diante disto, também, embora essa mesma afirmativa, reconheço, vá contra os princípios da tolerância. Mas mudo minha postura, a partir daqui, de que todas as religiões são boas desde que levem o indivíduo a um bom termo consigo e com o mundo. Repudio o crescimento insidioso desta fonte de controle pela ignorância que é o alastramento destas falsas religiões, pelo país.

E se este é o meu pequeno espaço no mundo para dizer alguma coisa, é por aqui que vou começar a a falar.

Este, a despeito das tentativas da senhora Rosinha Mateus, é um ESTADO LAICO. É uma questão de lei. E lei, tem que ser respeitada sob pena de punição. Por que tolerar que dentro das escolas a lei não seja cumprida? Por que gerar nas crianças a noção de que em nome da religião, qualquer que seja, a lei pode ser descumprida e que a religião lhes confere inimputabilidade?

Se a professora pede um trabalho sobre determinado assunto e este trabalho não é entregue, não há como não dar ZERO a esta criança. Se a professora pede um trabalho sobre transfusão de sangue e a criança entrega um trabalho sobre plasma sanguineo, ZERO na criança. Não há discussão possível.

É um estado laico. Lutamos muito para que fosse um estado laico. Conseguimos manter este, um estado laico. A religião deve ser mantida na Igreja. E não se pode abrir mão disso.

Cabe aos pais, religiosos ou não, garantirem que seus filhos tenham uma educação coerente com o conteúdo programático proposto pelo Estado. Que sejam cobrados e pontuados em função deste conteúdo. Cabe aos pais, protestarem veementemente contra a indulgencia e a condescendência com as questões religiosas que permeiam as escolas.

Essa condescendência nada mais é do que o fermento da intolerância. Que está sendo gestada de uma maneira espantosa, e não estamos nos dando conta. Que Deus nos ajude!

18 de mai. de 2011

Sazonal

A natureza, sabida que só, presenteia aqueles que comem as coisas no tempo das coisas, com uma deliciosa concentração de sabor. Não entender e aproveitar isso é burrice.

Você, que como a natureza, é muito sabido, deve estar cheio de caquis aí na sua casa.

Claro que é maravilhoso comer um caqui da época a suculentas mordidas, mas é muito justo dar uma diversificada, também. Pensando nisso, e na onda do Creme de Abóbora de Outono, vim palpitar sobre esse caqui que está aí na sua fruteira.

Vai nisso uma certa onda de nostalgia, pois minha sugestão é um clássico piemontês: Panna Cotta com Coulis de Caqui. Lá em Costigliole tinha muito caqui e eles apodreciam no chão porque o povo não dava conta! Eram vários pés baixos, quase sem folhas, por causa do frio e bem carregadinhos , me lembravam as historinhas do Chico Bento. Quando caiu a primeira neve, corri pra ver o que tinha acontecido, e eles estavam todos lá, firmes, e eu fiquei comendo caqui geladinho e olhando o mundo branquear...

No Piemonte eles eram bem amarelados e eu resisti um pouco a come-los achando que tinham cica. Mas não tinham! E eu descobri isso numa noite em que fui jantar num restaurante e a panna cotta veio justamente com coulis de caqui, em vez das tradicionais frutas vermelhas e estava absolutamente maravilhoso...

Aliás, parece que só aqui no Rio que a gente diz "cica", nenhum brasileiro que estava comigo conhecia a palavra, só os três cariocas... os demais diziam que "amarrava a boca".

Então vamos lá, a Panna Cotta... literalmente significa creme cozido e é algo entre o nosso pudim e o manjar, só que sem côco e de sabor bem menos ativo que qualquer um dos dois. Deve ser macia e neutra, qualquer outra coisa, não é uma panna cotta! O legal nela é justamente ser tão suave. O máximo de inovação a que me permito é substituir o creme de leite fresco, muito predominante,  pelo de lata, a qual se sacode um pouco pra misturar o soro, que vem a calhar nesse caso.

Então olha só: duas latas de creme de leite, meia fava de baunilha (pelamordedeus, não use a essência!), três folhas de gelatina incolor e 150 gramas de açúcar. A fava de baunilha cê sabe, né? faz um cortezinho de leve ao longo dela e raspa as sementinhas, a casca você pode pôr no açucareiro pra aromatizar o açúcar. Então leva o creme, a baunilha e o açúcar ao fogo médio - a essa altura a gelatina já está lá de molho num cadinho d'água - apenas ameaçou levantar fervura, tira do fogo, põe a gelatina, volta rapidinho pro fogo e dá uma montada com o fuet. Beleza. Potinhos individuais são o modo clássico, mas se não rolar, qualquer fôrma resolve. Geladeira por um tempo, tem gelatina, lembre-se.

Aí temos o coulis. O coulis é assim como um puré da fruta. Ao contrário da geléia, ele não vai ao fogo. É um modo honesto, digno e respeitoso de se extrair sabor de um ingrediente que está no seu auge como é o caso do caqui, neste mês de maio. Se colhido corretamente (daí a vantagem de se comprar produtos orgânicos) ele estará com a concentração ideal de açúcar, e a textura linda que toda fruta na safra deve ter. Assim, seria até maldade aplicar a ele métodos de conservação ou de alteração de sabor ou submetê-lo ao fogo. Veja, um caqui de maio é um caqui de maio. Tudo o que queremos é deixar que ele conte pro mundo como ele é bom, sem interferir!  Para isso lhe daremos uma base suave como a panna cotta, e ele vai poder brilhar!

Então, pegue estes lindos caquis, retire-lhes a pele com delicadeza, peça desculpas pela violência e, processador nele! Isso tem uma razão de ser. A panna cotta é muito macia, e as fibras do caqui não lhe cairiam bem, mas isso não é questão fechada, se você gostar das fibras, apenas amasse-os delicadamente com um garfo (mas aí não é coulis). Se quiser, pode acrescentar algo ácido, em pequena quantidade, para ressaltar o sabor e estabelecer o contraste, porque afinal o coulis é doce e a panna cotta também. Eu gosto de colocar um pouquinho de aceto balsâmico (sempre de verdade), mas eu sou maníaca, você, pode se abster. Se não puder resistir à idéia de colocar açúcar, processe junto que é pra não ficar granulado.

Aí, vai lá, desenforma a tua panna cotta, derrama o coulis sobre ela, e tenha uma sobremesa honesta e feliz!

Eu sei que a internet acostumou mal você e todas as receitas deveriam então vir ilustradas, lamento. Meu blog é pra quem gosta de ler e não tem figurinha não. Além do que, eu só estou sugerindo uma receita que já comi, já fiz, e adorei! Mas não fotografei. E acho bizarro roubar a foto da receita alheia.

Mas aceito fotos se você fizer, aliás, vou achar o máximo!

16 de mai. de 2011

Creme de abóbora de outono...

Os amigos tem cobrado que o meu blog devia falar um pouco mais de comida.
Assim sendo estou aqui pra comentar a sopa de abóbora que virou um hit aqui em casa neste fim de semana frio...
Outono, época de abóbora! Vamos a ela: sem quantidades, porque tudo vai depender do gosto do freguês.
Eu peguei um montão de abóboras vermelhas, algo como 1,2 k, sem casca, em cubos grandes e regulares. Coloquei em uma panela grande na qual já ferviam água com alecrim - é legal fazer um bouquet garni amarradinho, porque depois o alecrim é retirado. Como se sabe, o alecrim precisa ser aquecido para liberar seus óleos essenciais, aroma e sabor, então esse é um bom jeito de conseguir isso. Atenção, porque abóbora de outono amacia rapidinho! Quando já estavam bem macias, fui retirando da panela com uma escumadeira e colocando direto no processador, uma ou outra folhinha do alecrim virá, não tem problema, mas o bouquet garni é descartado. A abóbora processada ia sendo passada para uma outra panela. À parte, derreti um triangulo de gorgonzola com uma caixa de creme de leite e na última porção de abóboras à processar, juntei o gorgonzola. Se quiser, pode colocar mais creme de leite, em lata e sem soro, mas lembre-se de que nesse caso, terá que cozinhar a sopa o dobro do tempo para que o gosto do creme de leite não predomine. Chapar pimenta do reino e noz moscada moídas na hora, um pouco de sal, misturar e pôr pra ferver. Lembre-se de que a abóbora tem o péssimo hábito de respingar, então é bom que a panela seja funda e a colher de pau comprida. quando já estiver cozida e bem homogenea, tirar do fogo um instante, acrescentar um fio generoso de BOM azeite (eu usei Herdade do Esporão) e outro fio generoso de Aceto Balsâmico  ORIGINAL, não se engane e não estrague seu esforço (eu usei o Oro Nobile da da Leonardi). Daí, voltar rapidamente para o fogo só para incorporar e depois de desligar o fogo, dar uma batida com o fuet pra aerar e ficar leve... Para servir, há algumas possibilidades. Tomamos pura com um fio de Marsala no meio, que pode ser substituído por Pôrto. E no outro dia, a Jan trouxe uma carne seca desfiada fritinha com cebola, então colocamos por cima do creme puro, a carne seca e parmesão ralado na hora... olha, ficou de comer rezando... ah, e sempre tem que ter umas torradinhas, néam?
Não é o jeito mais high society de se fazer um creme de abóbora, mas ficou bem agradável...
Não tirei foto... mas vou adquirir este hábito salutar, prometo...

3 de mai. de 2011

Atualidades...

Rapaz, tá frenética a coisa.

Meu irmão fez aniversário. A Fátima mordeu a mamãe. O príncipe casou. O Papa tá na cobrança de pênaltis para a santidade (espero que ele não seja vascaíno). O Osama morreu. E um sapo de mais ou menos 1 k fixou residência na minha varanda.

Entre uma coisa e outra, vai-se vivendo sem nenhuma repercussão drástica na nossa vida. Exceto, para alguns, os pênaltis não feitos do vasco, mas não a mim, porque eu, como se sabe, sou tricolor.

Mas isso tudo no fim-de-semana do trigésimo Dia do Trabalhador depois daquela fatídica bomba do Riocentro. Assistia eu o Arquivo N da Globo News, rememorando o evento, e de tudo, o que mais me chamou a atenção foram as presenças no show: Chico Buarque, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Zizi Possi  e Gal Costa. É... o Dia do Trabalhador já foi melhor comemorado. Isso diz muito dessa coisa que é a "evolução dos tempos".

Como disse o Macaco Simão, a morte de Osama desencadeou uma micareta nos EUA... a Obamafolia... vendo as imagens, fiquei meio perplexa... não consigo achar natural que se comemore a morte de alguém. Digo isso não pra posar de boazinha como aqueles que por razões supostamente religiosas tem vindo a público dizer que ele devia ter sido capturado e julgado. Só malufista pra dizer isso... é bem "estupra mas não mata". Pense por um minuto nos desdobramentos de ter um prisioneiro deste calibre em qualquer lugar do mundo... não dava. Mas daí a institucionalizar os festejos pela morte de quem quer que seja... sei não... pra mim, é doentio. E tem desdobramentos. Veremos lá na frente.

Já tá mais de que dito, mas só recapitulando:

Osama, árabe, comandante da afegã Al Qaeda atacou os Estados Unidos, que revidaram atacando... o Iraque, em busca de armas químicas de destruição em massa que.... jamais foram encontradas. Concomitantemente invadiram o Afeganistão, de onde não se retiraram mesmo depois de descobrirem que Osama estava no ... Paquistão, governo que criam aliado. Não invadiram o Paquistão, a não ser a força-tarefa que matou Osama. E depois da ação, não fazem qualquer menção de se retirar do.... Afeganistão. Aqui, nem americano é tão burro pra achar isso normal. O país inteiro sofre de miopia?

A gente quando vê a barba do vizinho arder (metáfora bem literal, em se tratando de Osama), põe a nossa de molho. Pra eles dizerem que temos antrax nas bromélias da Floresta da Tijuca, não custa.

Mas hein,

E a caixa preta, que é um balaio abóbora?
E o Marrone que quase entrou pro "resta um sertanejo"?
E o Vasco da Gama, minha gente, o que foi isso?
E o povo achando estranho ninguém da vizinhança notar que o Osama estava naquela casa! E daí?... um pai manteve a filha por 18 anos em um porão na Áustria, onde perpetrou mais 7 crianças e nem a mãe dela, morando acima, notou!
E São Paulo, onde agora tem uma lei proibindo bares e restaurantes de servir ovo com gema crua. Onde o mundo vai parar, minha gente??

24 de abr. de 2011

Flamenguismo Enrustiscente - novo vocábulo


Gente, deixa eu ver se tô entendendo uma coisa. Não entro no mérito de equipe alguma nesse momento. Após apreciar os vários urros rubro-negros que pulularam em minhas "frentes virtuais", notei que nenhum deles era de enaltecimento ao antipático time, mas sim, em sua maioria, as postagens cuidavam de "apontar" o que seria um "demérito" constituído por supostos "desvios" de orientação sexual da torcida adversária, no caso, a minha. Isso não me ofendeu, ao contrário, se fosse verdade, só serviria para me orgulhar, dado o alto índice de sensibilidade e perspicácia dos homossexuais, grupo ao qual, não fosse por minha teimosa orientação hétero, eu não teria vergonha alguma de pertencer e que são companheiros de arquibancada muito benvindos. Assim, o que quero saber é: isso é tudo o que vocês têm pra dizer do meu time? É essa a "acusação"? Sabe, detesto vira-casacas, mas, diante de puerilidade tão flagrante, se eu fosse você, meu amigo menos bruto e mais inteligente que a vida ardilosa forjou rubo-negro, desertava.

Flávia Galvão, tricolor e aspirante a gay.  

Burguesa, com certeza.



Recebi de meu pai, sempre preocupado com os perigos da exposição virtual, um e-mail falando sobre um suposto aplicativo secreto do IPhone 4 que seria um localizador à revelia. Com memória de registro da localização dos usuários. Meu primeiro impulso é o de ser sempre contra qualquer coisa feita à revelia. Mas, como tudo, sobreveio uma reflexão sobre o assunto. 


Comprei no ano passado um Motoblur Quench, que jamais chegou a ser de fato eficiente, porque é um mau aparelho e está agora na oficina. Anseio por poder comprar um IPhone. O fato é que enquanto eu estive com o motorola, já antes de viajar, avisei aos meus que, caso acontecesse qualquer coisa comigo, era possível me localizar pelo Google Maps,pois, uma vez que não tenho nada a esconder e nenhum encontro com o senhor Bin Laden, adquiri voluntariamente um aplicativo que fazia isso, ativando uma ferramenta que já  possibilitou o resgate de pessoas de desastres e sequestros. 


Procuro ter sempre em mente que a tecnologia que destruiu Nagasaki é a mesma que denuncia um câncer a ser extraído de um cérebro. Novas tecnologias são só mais uma coisa inexorável e por cujas benesses  há uma taxa a pagar. Death and taxes, dizem sabiamente os americanos. É infantil e ligeiramente perverso acreditar em almoço grátis. Ah! Eu sou contra energia nuclear! É, cara pálida? Então abra mão do seu ar-condicionado, porque energia solar não dá conta de tantos aparelhos ligados no mundo. Ah! Eu sou contra o twitter! É? Então cala a boca e não fale mais, em protesto, porque desde o momento em que o homem abriu  a matraca, não fez outra coisa senão procurar meios de fazer com que sua loquacidade chegasse cada vez mais longe. Deixemos de falar e ouvir rádio, deixemos de editar livros. Deixemos de ser hipócritas. 


Eu não tenho pretensões a falar para as massas. Sou fundamentalmente livre, e radicalmente a favor da liberdade irrestrita e autonomia irrevogável. Creio que isso seja ser verdadeiramente anarquista. Confio totalmente no direito que as pessoas têm de fazer suas escolhas, mesmo que elas não sejam exatamente as que eu faria. E internet, ao meu ver, é a exacerbação dos direitos e possibilidades pessoais, é a democratização da comunicação, e por isso incomoda tanto aos autoritários. Qualquer um tem voz. Qualquer um pode ter um blog, um site, um facebook, um twiiter, o que for e assim mostrar sua música sem a intervenção autoritária de uma gravadora. Compartilhar seu pensamento sem pagar a uma editora. Falar com pessoas sem o crivo ideológico de uma emissora; É a experiencia  real da democracia. Sem demagogia. Tem força demais. E é um perigo para os que anseiam por qualquer modo de controle. 


homem, desde sempre firmou sua existência em espaços urbanos e construiu aldeias e cidades, porque precisa de seu semelhante para viver. Quando o primeiro homem se mudou do campo para cidade, e apareceram os dois primeiros vizinhos do planeta, neste momento também surgiu a fofoca, a intromissão na vida alheia, mas ninguém nunca mais deixou de fazer um bolo por falta de uma xícara de açúcar. Todas as aproximações, além de xícaras de aaçúcar, trazem, por definição, quebra de privacidade. Felizmente ainda há lugares onde se pode viver com privacidade. Ou com a ilusão dela. Sempre pode-se ir para uma cabana no Himalaia, um iglu na Groenlândia, quem sabe uma linda casa na árvore na Amazônia colombiana? Sempre se pode também tentar nadar rio acima. Agora, se fizer essas coisas, saiba que você é um felizardo, porque está indo por opção. Dê aos povos reprimidos do Oriente Médio a possibilidade de comunicação pra ver se eles não derrubam o regime. Mas se você quiser, pode se dar ao luxo de ser naif e dizer que um computador é uma máquina de escrever sofisticada. Deixa só eu lembrar que ninguém escreve para o vento ler, o uso de uma máquina de escrever também é para a comunicação. Mas como você é naif, pode fingir que não sabe disso. 


Várias dessas coisas já foram ditas aqui e aqui, porque são mesmo reflexões que tem me rondado. 


E assim, é notório que, de minha parte, abdico de grandes feitos. Não busco o reconhecimento público. Interessam-me os moleiros Menocchios, eu mesma um deles. Interessa-me a comunicação de formiguinha com vários pequenos personagens do planeta. 


Vivemos, como coletividade, um longo período de distanciamento, que foi levado às últimas consequências, com o esquecimento do leitmotiv das aglomerações humanas. Pessoas isolaram-se em suas casas em cidades coalhadas de vizinhos que se ignoravam. E se ignoram, ainda. Outro dia, assisti um filme, com roteiro e atuação de Bruna Lombardi e direção de Carlos Alberto Ricelli, O Signo da Cidade. É um retrato fiel daquilo em que se desvirtuaram as cidades, desse isolamento a que nos impusemos por razões pessoais e conduzidos por atos ideológicos que tornaram possível que estudantes, em seu período de maior força revolucionária, fossem guiados como gado, de antolhos, sem se verem, pelo período de um curso de graduação. 


De repente, reencontramos o caminho uns para os outros através de bytes e isso para mim tem a beleza da formação do primeiro burgo. E eu não vou negar essa linda experiência humana. 


Privacidade, perdeu-se sempre. E a perda é proporcional ao alcance do veículo. Tá com medo de ser localizado? Tira seu nome das páginas amarelas. 


Eu estou feliz em retornar à aurora da modernidade e ser, de novo, burguesa, com certeza. 



13 de abr. de 2011

Experimentando Tédios

São Paulo, fim de tarde. 

Saio para comprar comida e regalar a querida família que me acolhe. Ando com calma e no caminho do mercado como um pastel, o japonês que me serve continua olhando a rua, como se coisas excitantes e misteriosas se passassem ali, além do movimento frenético dos carros, que inclusive, dificultou meu sono pela manhã. Olho roupas numa vitrine, observo os pessoas que passam, absortas. No mercado, rapazes esvaziam caixas e enchem as prateleiras automaticamente. As ruas sem árvores, desarvoradas e desarvorantes.

Lembrei de meus dias na Itália, em Costigliole,  quando já com uma uma rotina, saía do Instituto e no caminho pra casa, nesse mesmo lusco-fusco, ia passando pelas mesmas caras, as mesmas pessoas lendo seus jornais nos mesmos cafés. No mercado, Beppe também esvaziava suas caixas exatamente daquele jeito, e certamente pensava em como seria excitante se ele, naquele momento estivesse no Rio!

No bosque, à caminho da Cascina, me lembro de pensar que o tédio na Itália é igualzinho ao tédio no Rio. Escrevi isso em algum lugar, aqui, penso. O de São Paulo também é. Vou viajar mais um pouquinho e lançar um livro animadíssimo que receberá o título desta postagem...

Pensando no assunto, o único lugar para onde viajei, e no qual não experimentei essa sensação foi Buenos Aires. Buenos Aires á a ausência do tédio, pra mim. Mas é só uma observação, porque eu não tenho nada contra o tédio não, ele é necessário para dar medidas. É aquele estado de espírito em que se responde sem culpa: sim, tá tudo bem, e você?

Bom, vou cozinhar que esse negócio de ficar divagando não dá camisa a ninguém não. 


7 de abr. de 2011

Algumas considerações desconexas sobre o dia...


* e agora? como é que a gente vai balançar a cabeça quando os EUA estiverem em evidência e dizer: tsc, país doente... ?

* uma coisa que me irrita sobremaneira e que já ouvi, sem brincadeira, umas 15 vezes hoje é o seguinte preâmbulo "a gente que tem filho sabe o que essas pessoas estão sentindo"... ah tá, o povo eleito, você diz? Fala sério... a estupidez que versa, numa hora de comoção acaba por me deixar irritada... mas normal, já que não tendo sido mãe, eu sou incapaz de me colocar no lugar do outro...

* de repente era uma o Japão se inscrever naquele programa que o Graciliano Ramos singelamente sugeriu para Alagoas: demole e faz um golfo... ah! e manda A Precious pra lá...

* Ou permitem acréscimos de 20 minutos ou proíbem times latino-americanos não verde-amarelos de jogar.

* Essa é pros meninos (mas as meninas também podem e devem usar) recomendo uma boa olhada, com MUITA calma e um bloquinho... pode ser bem útil... vai por mim...


: Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu. Devo atirar um tijolo, na próxima vez? (via brega_falcão)


6 de abr. de 2011

www.amemosunsaosoutros.com

Então, vai daí que uma coisa puxa a outra e depois daquele papo de que talvez a redenção esteja nos encontros humanos, mais que nunca possíveis, via bytes, de repente caí de amores pelas possibilidades virtuais. Como qualquer nova paixão, a minha é um pouco exagerada, o caso é que a fleuma que me perdôe mas o encantamento é fundamental.

Enquanto vejo ligeiramente tensa o Fluminense jogando contra o Nacional do Uruguai, estou pelo MSN gozando e sendo gozada por um amigo que tem o mau gosto de ser rubronegro. Concomitantemente faço coro com os amigos torcedores contra os detratores de plantão que ficam provocando pelo Facebook e o e-mail de saudações tricolores já está preparado para assim que findar a partida. Sem falar que de cinco em cinco minutos pulam na tela os Tweets enviados pelo Perfil oficial do Flu, que passou a semana dando atualizações sobre a preparação do escrete.

Isso se chama troca. E ainda que eu estivesse sozinha em casa, só, não estaria.

O que me faz lembrar de um filme que vi três vezes no cinema - se você não viu, veja - Denise está chamando! Era uma profecia sobre a solidão humana, um olhar triste sobre pessoas irremediavelmente distanciadas pelas novas tecnologias, recolhidas em seus então incipientes recônditos virtuais, celulares... Fazia sentido. Era perfeitamente possível. Éramos eu e você. Amedrontava.

Mas nessa noite estou feliz aqui no futuro (de um passado cada vez mais pertinho) certa de que afinal não foi bem assim, aliás, muito pelo contrário.

Quem quiser, quem tiver olhos de ver, ouvidos de ouvir e mãos a estender, não estará isolado. Desinformado, acabrunhado.

Ao alcance de um clique, estão nossos semelhantes, a quem podemos amar como a nós mesmo com uma simples postagem!

30 de mar. de 2011

Ao meu herói perdido

Conversava, via msn, com um amigo alguns anos mais novo, e a prosa versava sobre música. Dizia eu, grosso modo, que meu interesse musical parava em meados dos anos setenta, já que, clichê dos clichês, nada mais havia sido feito de original de lá para cá. E que para ouvir Oasis, ficava com os Beatles originais.

Ele então, após concordar, lançou: será que acabou a originalidade? Será que tudo já foi feito?

Esta é a mais manjada das reflexões, feita por cada membro de cada geração, que aqui, deu origem à mais nhemnhemnhem postagem do mais auto-piedoso blog. Mas, sendo latino-americana, eu também vou reclamar.

Pode ser a atualidade, ou apenas uma incompetência pessoal, mas está cada vez mais difícil fazer coisas memoráveis.

Cleópatra viveu 31 anos para se tornar uma das mulheres mais conhecidas da história da humanidade. Stauffenberg já era um dos principais coronéis do Reich aos 36 e tentou matar Hitler e salvar o mundo aos 42. Noel Rosa morreu aos 26 anos. Aos 26 anos a reputação de Sarah Bernardt já estava consolidada. e com os mesmos 26 Mário de Sá-Carneiro matou-se deixando o legado poético que deixou. Alexandre o Grande morreu com 29 anos. Sylvia Plath com 32. E a mais óbvia de todas: Jesus morreu aos 33 (para acrescentar culpa cristã aos que estivessem em torno desta idade, tenho certeza).

Para o bem ou para o mal, numa determinada idade as pessoas já tinham tomado seus rumos. Bonnie e Clyde foram caçados aos 24 anos. Com 43, Hitler já havia perpetrado Mein Kempf, feito a cabeça De um país, virado Chanceler e idealizado um Reino.

Entretanto, Fernando Pessoa, lá no olho do furacão do movimento modernista, reclamava da esterilidade do convívio humano, e das relações pessoais infrutíferas.

Possivelmente Hemingway e Scott Fitzgerald não tinham noção da ebulição dos tempos em que viviam, e de fato, é preciso admitir que esta ebulição da qual eram profícuos contribuintes, não lhes deu boa vida.

Terão todas as gerações a sensação de sofrer as dores mesquinhas da vida comezinha banal e mortal sem que disso resulte sequer um fruto digno de nota?. Qual das gerações anteriores terá sido tão infértil quanto a minha e as seguintes?

Tenho certa vergonha da minha idade. E dos poucos feitos com que com ela me apresento. Nenhum digno de memória. Eu me comprazeria com meu obscurantismo político, minha infertilidade intelectual se houvesse alguém que no futuro fosse um belo símbolo de minha geração e dos tempos em que vivi.

Eu não testemunhei nada senão o deserto. Eu sou Mad Max. Num tempo onde cada um mata por sua própria gasolina.

Por que outro maio de 68 não é possível? Por que os Anos Loucos, a Generation Perdue não é mais possível? Por que Baader-Meinhof não é mais possível?

A primeira coisa clara é que não se formam mais grupos. Como seria possível algo como os movimentos modernistas da década de 20 que pulularam pelo planeta, se os artistas estão ensimesmados em seus obscuros ateliês? Ainda existem artistas? Como, grandes revoluções se os estudantes e o povo estão dispersos por uma arquitetura foucaultiana panóptica de universidades e cidades sem praças... com uma estrutura educacional (??) de créditos... Como seria possível a Bossa Nova num tempo de tão poucas delicadezas?

Estará nossa redenção nos feitos cibernéticos? Nas revoluções que esses feitos pouco a pouco tem favorecido, como esta do Oriente Médio? Estaremos burlando o Grande Irmão (doce ilusão) e reencontrando o caminho uns para os outros através de milhares de bytes? Cedo demais para dizer.

Neste tempo em que vivo, não há mais enfant terribles nem transgressão. Não há felicidade, e seu oposto é proibido. O fracasso - medida do sucesso - não está na equação. Botox. Prozac.

Será este o tempo da micro-história e seu profeta Ginzburg onde a ação que importa é a do pequeno personagem e suas pequenas revoluções? E só saberão disto quando os escafandristas de Chico vierem revirar nossas casas, nossos blogs, nossas almas, desvãos? Seremos nós Menocchios do futuro? Nossa grandeza será póstuma e conferida por grandes pequenos feitos isolados, solitários?

No melhor estilo Cazuza, meus heróis - ele mesmo um - morreram de overdose . Ou não tiveram tempo de tornarem-se heróis, talvez porque as drogas que exauriam a criatividade antes de matar o poeta exausto, tenham sido substituídas pelo crack que só destrói. Ou talvez porque não se deram conta de que podiam ser heróis, quando a arte que tumultua foi substituída pelo mainstream que anestesia. Talvez eu tenha um herói em potencial vidrado de crack jogando vídeo game e ouvindo techno music por aí!

Apresente-se por favor! Por favor, me reconheça!

Não tenho inimigos para estar no poder, a minha é a geração da situação, mesmo quando na oposição.

Acho que é por isso que eu leio tantas biografias. Fome de histórias de vida memoráveis.

Que dizer ao meu amigo, alguns anos mais novo que eu? Quer ser o meu herói?

p.s.: as postagens menores ficam pra próxima....

11 de mar. de 2011

convinha...

Vai ver estavam filmando a sequência de Preciosa - uma história de esperança,  no nordeste do Japão...

Entre as manias que eu tenho...

uma é ler e ver histórias de época.

Genealogias, biografias, romaces históricos, estórias que se passam no medievo, na alta idade moderna,  nos períodos elisabetano e vitoriano, Jane Austen,  Henry James, estórias sobre côrtes,  reis, sobre personagens comuns ou mitológicos, sagas, sem falar nos épicos!

Mania mesmo.

E faz todo sentido... não fui fazer História à toa. Nem rejeitei tanto História Contemporânea à toa.

Pois nestes tempos de querer pouco pensar em mim mesma, tenho mergulhado nessa minha mania.

No firme intuito de conseguir postagens mais curtas e ser mais sintética, mesmo consciente de que é trapaça, vou dividir a postagem, mas é justo, porque tem muita coisa! E quero registrar os filmes e os livros!

Vou começar então com os livros...

Finalmente li o primeiro volume da Série "Os Reis Malditos", de Maurice Druon, editada pela Bertrand. Este primeiro volume se chama O Rei de Ferro e dá conta do período final do reinado de Felipe, o Belo, de França. É um romance histórico. Mas tem uma pesquisa bem sólida e notas que são bem pertinentes. Tem um roteiro alla comedia dell'arte, é agradável de ler, a não ser pela tradução bem fraca, de Flávia Nascimento. Isso sempre me desanima e dá a sensação de perda de tempo.

Tocou-me em especial por falar de coisas que agora posso entender melhor, como o poderio financeiro de Florença e Siena, a maneira como os italianos se sentiam livres politicamente ao circular pelas monarquias vizinhas. Li sobre lugares onde eu estive, praças, casas e personagens com quem de algum modo tive contato, e fiquei feliz por isso.

Em seguida, li em uma noite, as 322 páginas de A Rainha Herege, de Michelle Moran. Editado pela Suma de Letras (editora que eu não conhecia) e escrito sob os cânones da escola americana, que produz tantos best sellers e que embora discutível, não pode ser subestimada.

O livro tem gancho. Lembrou-me a narrativa de O Reverso da Medalha de Sidney Sheldon, de que sou admiradora confessa. Resultado: comecei às oito da noite e terminei às dez da manhã do dia seguinte. Para isso contribuiram a boa tradução de Paulo Afonso, e o fato de que também tem uma boa pesquisa histórica.

É outro romance histórico que conta a vida de Nefertari, sobrinha de Nefertiti, a mulher de Akhenathon. Essa ascendência a vincula à heresia que Akhenathon teria cometido ao abolir o politeísmo egípicio em favor de um único deus: Athon. Quando a história começa, os Reis hereges já morreram, assim como Tutankhamon, e após um período de regência e reestabelecimento do politeísmo, o faraó é Seti, pai daquele que viria a ser Ramsés II. Pois é com ele, Ramsés II, que Nefertari - contra todas as expectativas e para fúria do povo em geral -  não só irá se casar, como se tornará a favorita do faraó que, segundo a máxima demonstração romântica dos povos orientais, para ela constrói o mais rico mausoléu egípicio de que se tem notícia e que está ainda de pé, Abu Simbel, no sul do país.

Sendo americana, é claro que a autora dá excessivas asas à imaginação na ânsia comum que aquele povo tem de preencher lacunas históricas em prol de uma história o mais arrumadinha possível. Mas seu mérito está em assumir isso e fornecer , ao fim do livro, um panorama histórico "real" do período.

A única coisa que ela não explica é porque é que Ramsés seria ruivo e Nefertari teria olhos verdes, assim como, supostamente, Nefertiti...

Leituras distraídas, sem dúvida...

9 de mar. de 2011

Precious, ou Desgraça Pouca é Bobagem


Neste período de convalescença e repouso forçado, estou aproveitando para colocar em dia os filmes que perdi. Como este blog na verdade se destina a ser um outro modo de registro de algumas memórias, vou meio que listar aqui os filmes e algumas impressões, de outra forma, acabo esquecendo.

Abri a temporada com Preciosa. Que em português recebeu o subtítulo de "uma história de esperança". Não sei não, acho que caiu o sinal da minha sensibilidade. Como assim esperança? Atenção, este parágrafo contém spoiler. Se você não viu o filme, não siga adiante! 

Dito isto, convenhamos. 

Na WASP NY,  a criatura é preta como a lua nova e gorda como a lua cheia, e, o que poderia não ser o caso, é feia de dar medo, literalmente. Pobre, pobre, pobre, de Marais, Marais, Marais, mora numa espécie de CoHab do Harlem. Tem dezesseis anos e é violentada pelo pai ausente desde os três anos de idade e hostilizada pela mãe por causa disso. Gerou, por causa dos estupros, uma filha que tem Síndrome de Down, meigamente chamada de Mongo, a quem deu à luz no chão da cozinha sendo chutada pela mãe, e cuja função na vida da "familia" é garantir o cheque da assistência social. Está grávida do segundo filho (também do pai) e por esta razão é expulsa da escola que frequenta há anos sem nunca ter sequer aprendido a ler. Vai parar numa escola alternativa onde uma professora abnegada e gay compra a briga dela. Consegue ir morar em um abrigo com o filho já nascido (em um hospital, dessa vez) e a esta altura já sabe até escrever quando recebe a visita da mãe que lhe conta que, bom, o pai morreu. Ah, beleza, primeira boa notícia! É... de aids... ops! Tá todo mundo com Aids! Nessa altura comecei a rir freneticamente. 


Não precisava tanto. A gente já entendeu nos primeiros cinco minutos que o mundo é cão no Harlem, e tudo mais. Sei lá, não precisava tanto mesmo. 

O subtítulo em português se deve ao fato de que no final ela recupera Mongo e sai da Assistência Social (a assistente é a Mariah Carey, melhor do que seria de se supor) "triunfante" carregando seus rebentos para... para onde mesmo? Sei lá, o filme termina aí, com aquele recurso agora-você-construa-o-final-porque-os-filmes-inteligentes-são-assim. O final que eu construí não é nada esperançoso. 

Ao contrário. Vendo filmes americanos eu me pergunto se minha vida é um conto de fadas. Será que é? Você aí, me diga. Será possível a existência daquela mãe? Será possível um mundo de tanto desamor e grosseria? Me lembrei de um outro filme mundo cão do novo arauto da miséria planetária, Iñarritu. Amores Perros, é o filme, e dele não dá pra dar risada.  

A protagonista de Precious, que atende pelo estranho nome de Gabourey Sibide, é uma menina que para eu saber se é ótima, tinha que conhecer pessoalmente. Porque ela dá a impressão de ser e-xa-ta-men-te aquilo ali. Então, ou ela é ela mesmo ou de fato é magistral. Em todo o caso, foi indicada para o Oscar, mas quem levou foi Mo'Nique, que faz a mãe. E tem uma participação do Lenny Kravitz, como um enfermeiro. Direção de Lee Daniels (opa! de Lenhador... aquela outra desgraceira com Kevin Bacon!). Claro que a produção é da Maria Desgraça Oprah Winfrey. Ganhou o Sundance de Melhor Filme (é, o Sundance já não é mais o mesmo)  o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. E perdeu o prêmio principal para Guerra ao Terror, outra bobagem, mas isso é outra história...

Como eu já sabia do clima tenso de Preciosa, resolvi pegar uma comédia romântica para desanuviar e....

O que é exatamente a Jennifer Aniston? E por que será que insisto em ver filmes com ela? Primeiro achei que tinha perdido meu tempo com Coincidências do Amor. Sempre procuro pegar pelo menos uma comédia romântica para aliviar, e como essa era com o Jason Bateman, que acho um fofo, foi o escolhido. O mais impressionante é saber que foi necessária uma dupla direção (Will Speck e Josh Gordon) pra exibir mais um apanhado de clichês com o mesmo final de sempre, sem nem se preocupar em mudar a atriz, já que ela tinha protagonizado uma história BEM parecida anos atrás, com Paul Rudd num outro filme de que não lembro o nome. 

Mas aí descobri que perda de tempo mesmo foi o filme que veio na outra leva de DVDs: O amor acontece com a mesma Jennifer Aniston. Eu sei, o segundo erro já é burrice, especialmente no meu caso, porque já venho reincidindo há anos, mas de novo, me animei a pegar por causa do co-protagonista, Aaron Eckhart, que sempre me parece bom sujeito. Direção de um tal Brandon Camp. Ai, essas minhas simpatias ainda acabam comigo. Não vou perder meu tempo falando deste. Apenas digo que a única coisa que se salvou foi uma participação que totalizou mais ou menos cinco minutos, do Martin Sheen (o pai do doido, não o doido).

Aliás, é mesmo importante que eu registre essas coisas aqui para me lembrar de não pegar mais filme com essa criatura com quem eu insisto em simpatizar, é mais produtivo colocar uma foto sorridente dela no meu armário, então. Porque estive fazendo uma rápida rememorização e o único filme de que gostei com ela foi Marley e Eu com duas notas importantes: a estrela do filme é o cachorro, e o Owen Wilson, em segundo lugar. 

Eu estou tentando fazer postagens mais curtas, e um dia hei de conseguir. Como esse propósito, paro esta por aqui e depois falo dos outros filmes... juro que houve alguns que valeram a pena!

8 de mar. de 2011

O inferno são os Outros



Recebi um e-mail de uma pessoa tão próxima quanto querida. Neste e-mail eram divididas comigo algumas considerações muito interessantes suscitadas pelo título de um livro de Frederic Forsyth, a Alternativa do Diabo. 


Tratava-se de uma reflexão sobre aquelas situações em que se precisa fazer uma escolha e em que, não importando a opção que se faça, o sofrimento, a dor, e o caos serão esmagadores. A preocupação de meu interlocutor era de que não há fuga possível, qualquer escolha fatalmente corresponderá àquela que convém ao diabo, ainda que se nos pareça estar optando pelo caminho mais indolor, o desdobramento da opção se mostrará catastrófico, sendo este o demoníaco truque. 


O fatídico e-mail é finalizado com o seguinte p.s: Informe importante: Sartre estava errado, o Diabo é a gente mesmo. 


Criatura de alma pollyânica convicta como sou, me senti pessoalmente atacada por tamanha resignação ao sofrimento fatal proveniente de uma escolha que afinal nem é você quem faz.


Rapidamente respondi.


A resposta certamente terá sido inútil ao meu amigo, mas a mim, me disse muito sobre meu próprio diabo interior, e só por isso resolvi registrá-la aqui, com pequenas alterações que garantam a privacidade dos envolvidos...


Disse eu o seguinte:


"
Ao atribuir o inferno aos outros, pode-se pensar que Sartre entregava o peso de si e de seu sofrimento ao outro. Entretanto não é bem assim. Se bem me lembro, a proposição de Sartre era que é impossível um ser humano conhecer a si mesmo, como propôs Sócrates (embora de modo um pouquinho mais irônico...). 

Sartre disse que o ser humano é uma obra sempre inacabada, que vai se percebendo juntando os pedaços de si que entrevê no olhar alheio para ele mesmo, ainda que aqueles que nos olham não tenham acesso às nossas consciências. Assim, ele diz que não é possível a obtenção da consciência de si mesmo, sem o convívio social. Em última instância, para Sartre, é impossível prescindir do outro. Que se torna um inferno por nos dar a medida de nós. Em vislumbres em geral desconfortáveis. E que por vezes nos impossibilitam de levar à cabo um projeto.
 
Assim sendo, Sartre não estava errado não. Porque mesmo que você na verdade esteja é querendo concordar com Hobbes, que bem antes disso tudo nos disse que o Homem é o Lobo do Homem, não vai fugir, também aí, de que mesmo esta afirmativa tem a ver com a posição do homem diante de seu próximo.

Então é melhor ficar com o Cristianismo mesmo que é bem mais simples de entender (a não ser que você se meta a estudar Santo Agostinho) e tomar pra si o lema, para mim máximo, de Amar ao próximo com a si mesmo. Nada impingindo a ele que não desejasse para si próprio. E está tudo resolvido.

Faço esse prólogo, porque me parece resolver parte das questões descritas no e-mail.

Senão, vejamos.

Sua grande questão parece ser a dor e sofrimento conseqüentes de qualquer escolha. Mas essa dor não se dá de per si. Dá-se a partir do que isto provoca no outro, e sobretudo do que o outro devolve a nós. O inferno, portanto, são os outros mesmo. Em nós.

Porém, como o título de Forsyth diz, esta do diabo é uma Alternativa. Alternativa. Pressupõe a existência de uma alternância entre opções.

Não que eu esteja tomada por um enorme fervor cristão, mas já que você compartilhou sua aflição me sinto no direito de propor uma solução. Proponho que escolha sempre, diante da opção do diabo, aquela mais segura, que a filosofia cristã nos dá:

Ame ao próximo como a si mesmo. E não faça a ninguém o que não quer para si.

Também tem consequências. Mas você vai ver que a carga de dor, sofrimento e angústia se reduz muito. 

Como seu e-mail fala de questões filosóficas genéricas, isso é o que tenho para te dizer. Quando ele falar de questões práticas da vida corriqueira que homem lobo leva dia a dia, talvez tenha outras.

Todo o meu amor,

Flávia

"