Puxa uma cadeira, e relaxe...

30 de mar. de 2011

Ao meu herói perdido

Conversava, via msn, com um amigo alguns anos mais novo, e a prosa versava sobre música. Dizia eu, grosso modo, que meu interesse musical parava em meados dos anos setenta, já que, clichê dos clichês, nada mais havia sido feito de original de lá para cá. E que para ouvir Oasis, ficava com os Beatles originais.

Ele então, após concordar, lançou: será que acabou a originalidade? Será que tudo já foi feito?

Esta é a mais manjada das reflexões, feita por cada membro de cada geração, que aqui, deu origem à mais nhemnhemnhem postagem do mais auto-piedoso blog. Mas, sendo latino-americana, eu também vou reclamar.

Pode ser a atualidade, ou apenas uma incompetência pessoal, mas está cada vez mais difícil fazer coisas memoráveis.

Cleópatra viveu 31 anos para se tornar uma das mulheres mais conhecidas da história da humanidade. Stauffenberg já era um dos principais coronéis do Reich aos 36 e tentou matar Hitler e salvar o mundo aos 42. Noel Rosa morreu aos 26 anos. Aos 26 anos a reputação de Sarah Bernardt já estava consolidada. e com os mesmos 26 Mário de Sá-Carneiro matou-se deixando o legado poético que deixou. Alexandre o Grande morreu com 29 anos. Sylvia Plath com 32. E a mais óbvia de todas: Jesus morreu aos 33 (para acrescentar culpa cristã aos que estivessem em torno desta idade, tenho certeza).

Para o bem ou para o mal, numa determinada idade as pessoas já tinham tomado seus rumos. Bonnie e Clyde foram caçados aos 24 anos. Com 43, Hitler já havia perpetrado Mein Kempf, feito a cabeça De um país, virado Chanceler e idealizado um Reino.

Entretanto, Fernando Pessoa, lá no olho do furacão do movimento modernista, reclamava da esterilidade do convívio humano, e das relações pessoais infrutíferas.

Possivelmente Hemingway e Scott Fitzgerald não tinham noção da ebulição dos tempos em que viviam, e de fato, é preciso admitir que esta ebulição da qual eram profícuos contribuintes, não lhes deu boa vida.

Terão todas as gerações a sensação de sofrer as dores mesquinhas da vida comezinha banal e mortal sem que disso resulte sequer um fruto digno de nota?. Qual das gerações anteriores terá sido tão infértil quanto a minha e as seguintes?

Tenho certa vergonha da minha idade. E dos poucos feitos com que com ela me apresento. Nenhum digno de memória. Eu me comprazeria com meu obscurantismo político, minha infertilidade intelectual se houvesse alguém que no futuro fosse um belo símbolo de minha geração e dos tempos em que vivi.

Eu não testemunhei nada senão o deserto. Eu sou Mad Max. Num tempo onde cada um mata por sua própria gasolina.

Por que outro maio de 68 não é possível? Por que os Anos Loucos, a Generation Perdue não é mais possível? Por que Baader-Meinhof não é mais possível?

A primeira coisa clara é que não se formam mais grupos. Como seria possível algo como os movimentos modernistas da década de 20 que pulularam pelo planeta, se os artistas estão ensimesmados em seus obscuros ateliês? Ainda existem artistas? Como, grandes revoluções se os estudantes e o povo estão dispersos por uma arquitetura foucaultiana panóptica de universidades e cidades sem praças... com uma estrutura educacional (??) de créditos... Como seria possível a Bossa Nova num tempo de tão poucas delicadezas?

Estará nossa redenção nos feitos cibernéticos? Nas revoluções que esses feitos pouco a pouco tem favorecido, como esta do Oriente Médio? Estaremos burlando o Grande Irmão (doce ilusão) e reencontrando o caminho uns para os outros através de milhares de bytes? Cedo demais para dizer.

Neste tempo em que vivo, não há mais enfant terribles nem transgressão. Não há felicidade, e seu oposto é proibido. O fracasso - medida do sucesso - não está na equação. Botox. Prozac.

Será este o tempo da micro-história e seu profeta Ginzburg onde a ação que importa é a do pequeno personagem e suas pequenas revoluções? E só saberão disto quando os escafandristas de Chico vierem revirar nossas casas, nossos blogs, nossas almas, desvãos? Seremos nós Menocchios do futuro? Nossa grandeza será póstuma e conferida por grandes pequenos feitos isolados, solitários?

No melhor estilo Cazuza, meus heróis - ele mesmo um - morreram de overdose . Ou não tiveram tempo de tornarem-se heróis, talvez porque as drogas que exauriam a criatividade antes de matar o poeta exausto, tenham sido substituídas pelo crack que só destrói. Ou talvez porque não se deram conta de que podiam ser heróis, quando a arte que tumultua foi substituída pelo mainstream que anestesia. Talvez eu tenha um herói em potencial vidrado de crack jogando vídeo game e ouvindo techno music por aí!

Apresente-se por favor! Por favor, me reconheça!

Não tenho inimigos para estar no poder, a minha é a geração da situação, mesmo quando na oposição.

Acho que é por isso que eu leio tantas biografias. Fome de histórias de vida memoráveis.

Que dizer ao meu amigo, alguns anos mais novo que eu? Quer ser o meu herói?

p.s.: as postagens menores ficam pra próxima....

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