Eis que ela reiventou o conceito.
Que se reformule o bordão:
Calma. Ainda não começou, desta vez pegastes pesado demais… então a história não vai ainda pela metade. Há de desenvolver-se com todos os elementos que cuidadosamente inseriste. Tudo ainda por suceder… sentirás dor a cada minuto, esta que ora imaginas sentir, sequer conta como medida. A seguir, tudo ruirá de fato, e só então poder-se-á dizer: calma! vai passar.
Algo como: calma que assim que chover essa tempestade de raios que formaste sobre a tua cabeça, e após seres fustigada pelos choques e a chuva e ensurdecida pelos trovões, a tendência é melhorar. Tudo isso vai passar, calma! Seguras-te firme, entretanto!
Acho que é por estas alturas que o cidadão, atordoado, explodido em lucidez, grita:
PÁRA! NÃO SUPORTO MAIS!
E então, o mundo em entorpecido descompasso precisa silenciá-lo em diazepam.
É quando um ser humano adquire o olhar vazio, ou pleno demais, quando põe-se a comer os próprios piolhos em praça pública, quando um barulho estranho é ouvido, e não se sabe o que seja. É quando pequenos elementos da desordem afloram, um que grita 'não suporto mais'!
Um frame de todos os que se voltam para trás nesta pausa sinistra que é o incomum, o desespero. No instante seguinte voltam a atravessar as ruas, apressados, e não se lembram mais, porque dói lembrar-se, a dor paralisa e é preciso ir avante, porque ao menos desta vez não é com você.
Calma. É caso apenas de encontrar a faixa de pedestres. O momento em que não será contigo.
21 de nov. de 2014
23 de jul. de 2014
Comprei um pano de prato. Nele está escrito:
O mundo inteiro não vale o meu lar.
Só falta saber onde vou colocá-lo.
O mundo inteiro não vale o meu lar.
Só falta saber onde vou colocá-lo.
17 de mai. de 2014
Roma
Há em minha
amada Boca do Mato, um Jequitibá. Ao lado, uma figura que simula um corte na árvore,
onde poderíamos ver as várias camadas que foram forjando o seu crescimento. Não
me lembro bem da idade daquele lindo Jequitibá, me parece que são mais de dois
mil anos, então, assim como há
cinco minutos guardados dentro de cada cigarro, dentro daquele Jequitibá há
material vivo que conviveu com os mais diversos acontecimentos… as setas
poderiam apontar: nesta camada nasceu Jesus, nesta, os índios que aqui viviam
fizeram uma grande festa para saudar seus deuses, nesta, Leonardo Da Vinci
pintou a Monalisa, nesta outra, Cristóvão Colombo chegou à America, nesta, os
índios que aqui viviam vieram se abrigar na floresta da perseguição dos
brancos, esta outra camada testemunhou um Quilombo, e assim por diante.
Do mesmo
modo me impressionam aquelas pesquisas que se fazem em blocos de gelo tirados
da Antártica. Ali está a água e portanto o oxigênio que toda essa gente
respirou, os dinossauros e todos os bichos que não mais existem, ali, guardados
dentro de um bloco de gelo.
Não sei
você, mas eu, quando lido com essas informações, desaprumo.
Essa coisa,
a alteridade. “Não sou eu nem sou
o outro”, ou antes, o Eu que só é possível diante do Outro. A dissolução do Eu.
Toda essa coisa.
Mas aí tem
Roma.
E Roma, meu
amigo, é mastigar o gelo da Antártica e morar dentro do Jequitibá de Boca do
Mato. É tudo ao mesmo tempo agora. É quando você entende que não é niguém
mesmo, ou pior, que tanto faz quem você seja. A complete unknow, like a rolling
stone.
Roma dá
medo e incomoda.
Pela
primeira vez na Itália, receio pela malícia dos marginais. Impressiono-me com a
legião de flutuantes na rua, os
que dormem lá no Brejo da Cruz. Os imigrantes que formam comunidades à parte e
parecem ser regidos por suas próprias leis. Todas as línguas que ecoam desde
que no Mercado de Trajano já se negociava a seda em árabe, turco, latim,
hebraico, e que ainda hoje se fazem ouvir, como se os resquícios dos monumentos
só fizessem sentido porque ainda hoje habitam aqui todos aqueles povos.
Roma não é
dos romanos. Os romanos não existem porque ninguém aqui é alguém. São todos
humanos nas camadas do jequitibá. Demasiado humanos.
Minha alma
indelevelmente carioca se assusta com tudo isso. E gostaria de passear por aqui
de canga e biquini, só para me dar alguma identidade.
Alteridade.
Aos diabos
com essas besteiras de “museu a céu aberto”. Às favas que “aqui o novo convive
com o velho”. O único bordão que
talvez faça algum sentido é atribuir o adjetivo Eterno, a esta cidade.
O eterno é
aquele lugar dionisíaco onde não é possível existir. O eterno é a moréia mordendo calcanhar de Schoppenhauer.
As únicas pistas sobre Roma, dentro de minha limitada cultura, estão - e só agora sei - em Rossellini e Pasolini. E para uma compreensão um pouco mais afetiva, há sempre Fellini. Mas eu não sabia! Não prestei atenção! Há de ser rever tudo, a buscar qualquer coisa.
E então
percebi que todo este percurso me levou a este lugar fundamental: o da não
existência. E resolvo nela imergir, sentar-me-ei encostada nos tijolos mais
sujos daquela muralha marrom e transitarei por todas as eras da civilização à
qual pertenço, tocando suas pedras, chorando seus mortos, as pestes as inundações,
gritando como Nero enloquecido só para saber se de fato pertenço. Só para saber que pode haver no
jequitibá de Boca do Mato uma seta que aponte e assinale: aqui nasceu, viveu e
morreu Flávia Gomes Galvão de Queirós. Só para ter um lugar. Só para dar comigo
mesma andando por ali pelo Trastevere, distraída.
Não sei
ainda se gosto de Roma. Preciso antes me recuperar do soco.
* Este
texto é parte de meus “Diálogos
Europeus” com Mônica Carvalho, minha amiga eterna como Roma.
7 de abr. de 2014
Não contente em dar-me à vida
Deu a mim, a vida
4 de abr. de 2014
E essa dor que esgarça as fibras de todos os meus músculos, desfuncionais, flácidos, incapazes. Esse lamento de carpideira. Esse desamparo. Desolação.
24 de mar. de 2014
20 de mar. de 2014
Entre tantos tutoriais que pululam por aí, um dia hei de achar um que explique, concisamente como se vive em um mundo sem mãe.
Serravale Pistoise, numa quinta-feira.
2 de mar. de 2014
Solidão apavora.
Tudo demorando em ser tão ruim.
Tudo demorando em ser tão ruim.
15 de fev. de 2014
Santo Amaro, 39
Deus abençoe a lua cheia,
Esposa de São Clemente.
Como vai Nossa Senhora?
Como passa São Clemente?
Quando fores, e ao voltares,
traga-me desta semente.
(e nesta hora o pleiteante deve abrir a mão até então fechada e exibir as notas de dinheiro)
Mãe,
Hoje cometi aquele que era para você o mais terrível dos medos: saí pela noite a flanar.
E já à porta, a lua remeteu-me à quadrinha superticiosa que vi repetir-se por tantas e quantas luas tão cheias quanto esta pela tua boca crédula e firme.
Que além da semente, ela ilumine meus caminhos de filha mundana a desaventurar-se. Talvez tenha sido posta ali por você somente com este fim, como os Oratórios que o Vice-Rei mandou espalhar pelo Rio, visando ao completo extermínio das práticas profanas a que as malhas escuras das ruas convidavam os cariocas de então.
O fato é que por esta razão - e se não fosse a lua, tantos outros ensejos houve - pensei em você com essa distância flutuante em que se pensa nos que morreram há pouco. E não é que a mim me custe acredita-la morta. Admito mãe, compreendi há muito, a sua morte. Via traços cadavéricos no seu nariz macilento e estranhava que não tivesse mais o cheiro que caracterizava o seu corpo saudável. Sei bem da sua morte. Mas minha demasiada humanidade - ridícula, irracional - assusta-se com ela a cada vislumbre que me leva a você, como esta lua, que já perdi de vista.
O tempo da sua infância sempre me pareceu longe demais, quando a perspectiva era a minha própria noção de tempo. Você contava vivamente dos jogos e das surras, mas ainda que vivazes eram lembranças de tempos quase imemoriais. Vários personagens já não viviam quando você me contou das histórias ancestrais que são meu arcabouço. Contundente como uma ruína, eu entrevia a história pelos descascados do tempo. E desconfiava que os tempos para as gerações anteriores corria de um outro modo.
Eram histórias que sabiam a subúrbio e Ângela Maria, coalhadas por palavras como debrun e evasê. Povoada gente a quem se conhecia por nomes como Nenê e Gentil. Não sou boa de contas, você sabe, mas quando você começou a me transmitir minha herança, contando os casos que eram meus também, tinha algo muito próximo da minha idade, e eu noto isto assombrada, porque as minhas próprias histórias aconteceram num tempo muito próximo, mesmo há tantos anos, e certamente o meu primeiro namorado não pertence à tempos a que eu pudesse qualificar de longínquos.
Mas a noite em que eu flanava seguiu seu curso e entorpecida, não voltei a pensar nas coisas que são suas, o que significa neste momento serem coisas repletas de sustos e assombros, e esta dor aguda, a despeito da morte tão compreendida. E num dos caminhos, como o Duomo de Milão, vi surgir a casa de vovó. E o pátio em que eu brincava, desde muito antes de saber das histórias de você. E já ninguém existia, você, a vovó e nem mesmo a amendoeira, graças exclusivamente a quem não tive nunca uma insolação naqueles verões quando o Rio ainda não sabia que um calor como o dessa noite de lua cheia pode durar uma estação inteira. E era eu mesma uma ruína e só podem te ver aqueles que olhem pelo em que em mim há de descascado.
Eu não tenho filhos, mãe. E não caberia, ademais, fazer promessas de grande depositária das suas memórias de gente comum e de bem, cuja maior aventura foi quase se afogar em um rio no Caribe.
E não cabem homenagens, pois não sei o que te diga, para dar um contorno de eternidade às nossas existências brumosas e singelamente felizes.
Sou eu mesma uma ruína, mãe. E entendo o teu tempo e de todos os que vieram antes, a quem agora, vacilante, pertenço.
3 de fev. de 2014
2 de fev. de 2014
Notas para o resto dos meus dias:
Apertando daqui e dali, acho que consigo comprar um concorde.
Mas nem com todas as teorias econômicas do mundo, consigo pagar o preço do dinheiro e da ajuda dos outros.
Está além das minhas possibilidades.
Não perder isto de vista.
1 de fev. de 2014
29 de jan. de 2014
Imploro às almas que tenham cuidado com minha mãe, que dela já não posso cuidar.
Imploram que levem a ela o meu recado de amor e gratidão.
E sigo com minha vida, repleta de planos felizes e cheios de uma espera infantil de que se eu olhar bem, vou ver o mundo rodar.
Deixe-me ir, preciso andar.
23 de jan. de 2014
é assim como uma fisgada num membro que já perdi
17 de jan. de 2014
Quem é ateu, e viu milagres como eu...
Morre minha mãe.
E com ela, a filha que há em mim.
E com ela, a filha que há em mim.
Meus filhos, se os terei, avó não terão.
Nunca mais beijos em meu pescoço.
E nada brilhante a escrever.
Só um silêncio de sepulcro.
Nunca mais beijos em meu pescoço.
E nada brilhante a escrever.
Só um silêncio de sepulcro.
15 de jan. de 2014
Agnus Dei
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, dá-lhes o descanso
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, dá-lhes o descanso
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, dá-lhes o descanso eterno.
Clínica São Carlos, Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 2014.
1 de jan. de 2014
Desassossego
Às sete da manhã do primeiro dia do ano, abri os olhos e pensei, instantaneamente, que começava aquele ano com a alma árida.
Tentei dormir novamente e não pude.
E fui me dando conta devagar de que aridez é o antônimo de mim.
A dor não é árida.
Uma alma dolorida é uma alma repleta, embora não plena.
Carrego em mim as mais terríveis perspectivas e tenho tanto medo.
Tenho esperança. E cuido. Que as esperanças são bichos escarnecedores.
Não há refúgio.
Há apenas essa manhã. E minha mãe.
E esse ser atravessado. Essa que sou eu, mas que não sei bem. E a minha própria companhia irresoluta.
E toda uma vida nas mãos.
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