Conversava, via msn, com um amigo alguns anos mais novo, e a prosa versava sobre música. Dizia eu, grosso modo, que meu interesse musical parava em meados dos anos setenta, já que, clichê dos clichês, nada mais havia sido feito de original de lá para cá. E que para ouvir Oasis, ficava com os Beatles originais.
Ele então, após concordar, lançou: será que acabou a originalidade? Será que tudo já foi feito?
Esta é a mais manjada das reflexões, feita por cada membro de cada geração, que aqui, deu origem à mais nhemnhemnhem postagem do mais auto-piedoso blog. Mas, sendo latino-americana, eu também vou reclamar.
Pode ser a atualidade, ou apenas uma incompetência pessoal, mas está cada vez mais difícil fazer coisas memoráveis.
Cleópatra viveu 31 anos para se tornar uma das mulheres mais conhecidas da história da humanidade. Stauffenberg já era um dos principais coronéis do Reich aos 36 e tentou matar Hitler e salvar o mundo aos 42. Noel Rosa morreu aos 26 anos. Aos 26 anos a reputação de Sarah Bernardt já estava consolidada. e com os mesmos 26 Mário de Sá-Carneiro matou-se deixando o legado poético que deixou. Alexandre o Grande morreu com 29 anos. Sylvia Plath com 32. E a mais óbvia de todas: Jesus morreu aos 33 (para acrescentar culpa cristã aos que estivessem em torno desta idade, tenho certeza).
Para o bem ou para o mal, numa determinada idade as pessoas já tinham tomado seus rumos. Bonnie e Clyde foram caçados aos 24 anos. Com 43, Hitler já havia perpetrado Mein Kempf, feito a cabeça De um país, virado Chanceler e idealizado um Reino.
Entretanto, Fernando Pessoa, lá no olho do furacão do movimento modernista, reclamava da esterilidade do convívio humano, e das relações pessoais infrutíferas.
Possivelmente Hemingway e Scott Fitzgerald não tinham noção da ebulição dos tempos em que viviam, e de fato, é preciso admitir que esta ebulição da qual eram profícuos contribuintes, não lhes deu boa vida.
Terão todas as gerações a sensação de sofrer as dores mesquinhas da vida comezinha banal e mortal sem que disso resulte sequer um fruto digno de nota?. Qual das gerações anteriores terá sido tão infértil quanto a minha e as seguintes?
Tenho certa vergonha da minha idade. E dos poucos feitos com que com ela me apresento. Nenhum digno de memória. Eu me comprazeria com meu obscurantismo político, minha infertilidade intelectual se houvesse alguém que no futuro fosse um belo símbolo de minha geração e dos tempos em que vivi.
Eu não testemunhei nada senão o deserto. Eu sou Mad Max. Num tempo onde cada um mata por sua própria gasolina.
Por que outro maio de 68 não é possível? Por que os Anos Loucos, a Generation Perdue não é mais possível? Por que Baader-Meinhof não é mais possível?
A primeira coisa clara é que não se formam mais grupos. Como seria possível algo como os movimentos modernistas da década de 20 que pulularam pelo planeta, se os artistas estão ensimesmados em seus obscuros ateliês? Ainda existem artistas? Como, grandes revoluções se os estudantes e o povo estão dispersos por uma arquitetura foucaultiana panóptica de universidades e cidades sem praças... com uma estrutura educacional (??) de créditos... Como seria possível a Bossa Nova num tempo de tão poucas delicadezas?
Estará nossa redenção nos feitos cibernéticos? Nas revoluções que esses feitos pouco a pouco tem favorecido, como esta do Oriente Médio? Estaremos burlando o Grande Irmão (doce ilusão) e reencontrando o caminho uns para os outros através de milhares de bytes? Cedo demais para dizer.
Neste tempo em que vivo, não há mais enfant terribles nem transgressão. Não há felicidade, e seu oposto é proibido. O fracasso - medida do sucesso - não está na equação. Botox. Prozac.
Será este o tempo da micro-história e seu profeta Ginzburg onde a ação que importa é a do pequeno personagem e suas pequenas revoluções? E só saberão disto quando os escafandristas de Chico vierem revirar nossas casas, nossos blogs, nossas almas, desvãos? Seremos nós Menocchios do futuro? Nossa grandeza será póstuma e conferida por grandes pequenos feitos isolados, solitários?
No melhor estilo Cazuza, meus heróis - ele mesmo um - morreram de overdose . Ou não tiveram tempo de tornarem-se heróis, talvez porque as drogas que exauriam a criatividade antes de matar o poeta exausto, tenham sido substituídas pelo crack que só destrói. Ou talvez porque não se deram conta de que podiam ser heróis, quando a arte que tumultua foi substituída pelo mainstream que anestesia. Talvez eu tenha um herói em potencial vidrado de crack jogando vídeo game e ouvindo techno music por aí!
Apresente-se por favor! Por favor, me reconheça!
Não tenho inimigos para estar no poder, a minha é a geração da situação, mesmo quando na oposição.
Acho que é por isso que eu leio tantas biografias. Fome de histórias de vida memoráveis.
Que dizer ao meu amigo, alguns anos mais novo que eu? Quer ser o meu herói?
p.s.: as postagens menores ficam pra próxima....
30 de mar. de 2011
11 de mar. de 2011
convinha...
Vai ver estavam filmando a sequência de Preciosa - uma história de esperança, no nordeste do Japão...
Entre as manias que eu tenho...
uma é ler e ver histórias de época.
Genealogias, biografias, romaces históricos, estórias que se passam no medievo, na alta idade moderna, nos períodos elisabetano e vitoriano, Jane Austen, Henry James, estórias sobre côrtes, reis, sobre personagens comuns ou mitológicos, sagas, sem falar nos épicos!
Mania mesmo.
E faz todo sentido... não fui fazer História à toa. Nem rejeitei tanto História Contemporânea à toa.
Pois nestes tempos de querer pouco pensar em mim mesma, tenho mergulhado nessa minha mania.
No firme intuito de conseguir postagens mais curtas e ser mais sintética, mesmo consciente de que é trapaça, vou dividir a postagem, mas é justo, porque tem muita coisa! E quero registrar os filmes e os livros!
Vou começar então com os livros...
Finalmente li o primeiro volume da Série "Os Reis Malditos", de Maurice Druon, editada pela Bertrand. Este primeiro volume se chama O Rei de Ferro e dá conta do período final do reinado de Felipe, o Belo, de França. É um romance histórico. Mas tem uma pesquisa bem sólida e notas que são bem pertinentes. Tem um roteiro alla comedia dell'arte, é agradável de ler, a não ser pela tradução bem fraca, de Flávia Nascimento. Isso sempre me desanima e dá a sensação de perda de tempo.
Tocou-me em especial por falar de coisas que agora posso entender melhor, como o poderio financeiro de Florença e Siena, a maneira como os italianos se sentiam livres politicamente ao circular pelas monarquias vizinhas. Li sobre lugares onde eu estive, praças, casas e personagens com quem de algum modo tive contato, e fiquei feliz por isso.
Em seguida, li em uma noite, as 322 páginas de A Rainha Herege, de Michelle Moran. Editado pela Suma de Letras (editora que eu não conhecia) e escrito sob os cânones da escola americana, que produz tantos best sellers e que embora discutível, não pode ser subestimada.
O livro tem gancho. Lembrou-me a narrativa de O Reverso da Medalha de Sidney Sheldon, de que sou admiradora confessa. Resultado: comecei às oito da noite e terminei às dez da manhã do dia seguinte. Para isso contribuiram a boa tradução de Paulo Afonso, e o fato de que também tem uma boa pesquisa histórica.
É outro romance histórico que conta a vida de Nefertari, sobrinha de Nefertiti, a mulher de Akhenathon. Essa ascendência a vincula à heresia que Akhenathon teria cometido ao abolir o politeísmo egípicio em favor de um único deus: Athon. Quando a história começa, os Reis hereges já morreram, assim como Tutankhamon, e após um período de regência e reestabelecimento do politeísmo, o faraó é Seti, pai daquele que viria a ser Ramsés II. Pois é com ele, Ramsés II, que Nefertari - contra todas as expectativas e para fúria do povo em geral - não só irá se casar, como se tornará a favorita do faraó que, segundo a máxima demonstração romântica dos povos orientais, para ela constrói o mais rico mausoléu egípicio de que se tem notícia e que está ainda de pé, Abu Simbel, no sul do país.
Sendo americana, é claro que a autora dá excessivas asas à imaginação na ânsia comum que aquele povo tem de preencher lacunas históricas em prol de uma história o mais arrumadinha possível. Mas seu mérito está em assumir isso e fornecer , ao fim do livro, um panorama histórico "real" do período.
A única coisa que ela não explica é porque é que Ramsés seria ruivo e Nefertari teria olhos verdes, assim como, supostamente, Nefertiti...
Leituras distraídas, sem dúvida...
Genealogias, biografias, romaces históricos, estórias que se passam no medievo, na alta idade moderna, nos períodos elisabetano e vitoriano, Jane Austen, Henry James, estórias sobre côrtes, reis, sobre personagens comuns ou mitológicos, sagas, sem falar nos épicos!
Mania mesmo.
E faz todo sentido... não fui fazer História à toa. Nem rejeitei tanto História Contemporânea à toa.
Pois nestes tempos de querer pouco pensar em mim mesma, tenho mergulhado nessa minha mania.
No firme intuito de conseguir postagens mais curtas e ser mais sintética, mesmo consciente de que é trapaça, vou dividir a postagem, mas é justo, porque tem muita coisa! E quero registrar os filmes e os livros!
Vou começar então com os livros...
Finalmente li o primeiro volume da Série "Os Reis Malditos", de Maurice Druon, editada pela Bertrand. Este primeiro volume se chama O Rei de Ferro e dá conta do período final do reinado de Felipe, o Belo, de França. É um romance histórico. Mas tem uma pesquisa bem sólida e notas que são bem pertinentes. Tem um roteiro alla comedia dell'arte, é agradável de ler, a não ser pela tradução bem fraca, de Flávia Nascimento. Isso sempre me desanima e dá a sensação de perda de tempo.
Tocou-me em especial por falar de coisas que agora posso entender melhor, como o poderio financeiro de Florença e Siena, a maneira como os italianos se sentiam livres politicamente ao circular pelas monarquias vizinhas. Li sobre lugares onde eu estive, praças, casas e personagens com quem de algum modo tive contato, e fiquei feliz por isso.
Em seguida, li em uma noite, as 322 páginas de A Rainha Herege, de Michelle Moran. Editado pela Suma de Letras (editora que eu não conhecia) e escrito sob os cânones da escola americana, que produz tantos best sellers e que embora discutível, não pode ser subestimada.
O livro tem gancho. Lembrou-me a narrativa de O Reverso da Medalha de Sidney Sheldon, de que sou admiradora confessa. Resultado: comecei às oito da noite e terminei às dez da manhã do dia seguinte. Para isso contribuiram a boa tradução de Paulo Afonso, e o fato de que também tem uma boa pesquisa histórica.
É outro romance histórico que conta a vida de Nefertari, sobrinha de Nefertiti, a mulher de Akhenathon. Essa ascendência a vincula à heresia que Akhenathon teria cometido ao abolir o politeísmo egípicio em favor de um único deus: Athon. Quando a história começa, os Reis hereges já morreram, assim como Tutankhamon, e após um período de regência e reestabelecimento do politeísmo, o faraó é Seti, pai daquele que viria a ser Ramsés II. Pois é com ele, Ramsés II, que Nefertari - contra todas as expectativas e para fúria do povo em geral - não só irá se casar, como se tornará a favorita do faraó que, segundo a máxima demonstração romântica dos povos orientais, para ela constrói o mais rico mausoléu egípicio de que se tem notícia e que está ainda de pé, Abu Simbel, no sul do país.
Sendo americana, é claro que a autora dá excessivas asas à imaginação na ânsia comum que aquele povo tem de preencher lacunas históricas em prol de uma história o mais arrumadinha possível. Mas seu mérito está em assumir isso e fornecer , ao fim do livro, um panorama histórico "real" do período.
A única coisa que ela não explica é porque é que Ramsés seria ruivo e Nefertari teria olhos verdes, assim como, supostamente, Nefertiti...
Leituras distraídas, sem dúvida...
9 de mar. de 2011
Precious, ou Desgraça Pouca é Bobagem
Abri a temporada com Preciosa. Que em português recebeu o subtítulo de "uma história de esperança". Não sei não, acho que caiu o sinal da minha sensibilidade. Como assim esperança? Atenção, este parágrafo contém spoiler. Se você não viu o filme, não siga adiante!
Dito isto, convenhamos.
Na WASP NY, a criatura é preta como a lua nova e gorda como a lua cheia, e, o que poderia não ser o caso, é feia de dar medo, literalmente. Pobre, pobre, pobre, de Marais, Marais, Marais, mora numa espécie de CoHab do Harlem. Tem dezesseis anos e é violentada pelo pai ausente desde os três anos de idade e hostilizada pela mãe por causa disso. Gerou, por causa dos estupros, uma filha que tem Síndrome de Down, meigamente chamada de Mongo, a quem deu à luz no chão da cozinha sendo chutada pela mãe, e cuja função na vida da "familia" é garantir o cheque da assistência social. Está grávida do segundo filho (também do pai) e por esta razão é expulsa da escola que frequenta há anos sem nunca ter sequer aprendido a ler. Vai parar numa escola alternativa onde uma professora abnegada e gay compra a briga dela. Consegue ir morar em um abrigo com o filho já nascido (em um hospital, dessa vez) e a esta altura já sabe até escrever quando recebe a visita da mãe que lhe conta que, bom, o pai morreu. Ah, beleza, primeira boa notícia! É... de aids... ops! Tá todo mundo com Aids! Nessa altura comecei a rir freneticamente. Não precisava tanto. A gente já entendeu nos primeiros cinco minutos que o mundo é cão no Harlem, e tudo mais. Sei lá, não precisava tanto mesmo.
O subtítulo em português se deve ao fato de que no final ela recupera Mongo e sai da Assistência Social (a assistente é a Mariah Carey, melhor do que seria de se supor) "triunfante" carregando seus rebentos para... para onde mesmo? Sei lá, o filme termina aí, com aquele recurso agora-você-construa-o-final-porque-os-filmes-inteligentes-são-assim. O final que eu construí não é nada esperançoso.
Ao contrário. Vendo filmes americanos eu me pergunto se minha vida é um conto de fadas. Será que é? Você aí, me diga. Será possível a existência daquela mãe? Será possível um mundo de tanto desamor e grosseria? Me lembrei de um outro filme mundo cão do novo arauto da miséria planetária, Iñarritu. Amores Perros, é o filme, e dele não dá pra dar risada.
A protagonista de Precious, que atende pelo estranho nome de Gabourey Sibide, é uma menina que para eu saber se é ótima, tinha que conhecer pessoalmente. Porque ela dá a impressão de ser e-xa-ta-men-te aquilo ali. Então, ou ela é ela mesmo ou de fato é magistral. Em todo o caso, foi indicada para o Oscar, mas quem levou foi Mo'Nique, que faz a mãe. E tem uma participação do Lenny Kravitz, como um enfermeiro. Direção de Lee Daniels (opa! de Lenhador... aquela outra desgraceira com Kevin Bacon!). Claro que a produção é da Maria Desgraça Oprah Winfrey. Ganhou o Sundance de Melhor Filme (é, o Sundance já não é mais o mesmo) o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. E perdeu o prêmio principal para Guerra ao Terror, outra bobagem, mas isso é outra história...
Como eu já sabia do clima tenso de Preciosa, resolvi pegar uma comédia romântica para desanuviar e....
O que é exatamente a Jennifer Aniston? E por que será que insisto em ver filmes com ela? Primeiro achei que tinha perdido meu tempo com Coincidências do Amor. Sempre procuro pegar pelo menos uma comédia romântica para aliviar, e como essa era com o Jason Bateman, que acho um fofo, foi o escolhido. O mais impressionante é saber que foi necessária uma dupla direção (Will Speck e Josh Gordon) pra exibir mais um apanhado de clichês com o mesmo final de sempre, sem nem se preocupar em mudar a atriz, já que ela tinha protagonizado uma história BEM parecida anos atrás, com Paul Rudd num outro filme de que não lembro o nome.
Mas aí descobri que perda de tempo mesmo foi o filme que veio na outra leva de DVDs: O amor acontece com a mesma Jennifer Aniston. Eu sei, o segundo erro já é burrice, especialmente no meu caso, porque já venho reincidindo há anos, mas de novo, me animei a pegar por causa do co-protagonista, Aaron Eckhart, que sempre me parece bom sujeito. Direção de um tal Brandon Camp. Ai, essas minhas simpatias ainda acabam comigo. Não vou perder meu tempo falando deste. Apenas digo que a única coisa que se salvou foi uma participação que totalizou mais ou menos cinco minutos, do Martin Sheen (o pai do doido, não o doido).
Aliás, é mesmo importante que eu registre essas coisas aqui para me lembrar de não pegar mais filme com essa criatura com quem eu insisto em simpatizar, é mais produtivo colocar uma foto sorridente dela no meu armário, então. Porque estive fazendo uma rápida rememorização e o único filme de que gostei com ela foi Marley e Eu com duas notas importantes: a estrela do filme é o cachorro, e o Owen Wilson, em segundo lugar. Eu estou tentando fazer postagens mais curtas, e um dia hei de conseguir. Como esse propósito, paro esta por aqui e depois falo dos outros filmes... juro que houve alguns que valeram a pena!
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8 de mar. de 2011
O inferno são os Outros
Recebi um e-mail de uma pessoa tão próxima quanto querida. Neste e-mail eram divididas comigo algumas considerações muito interessantes suscitadas pelo título de um livro de Frederic Forsyth, a Alternativa do Diabo.
Tratava-se de uma reflexão sobre aquelas situações em que se precisa fazer uma escolha e em que, não importando a opção que se faça, o sofrimento, a dor, e o caos serão esmagadores. A preocupação de meu interlocutor era de que não há fuga possível, qualquer escolha fatalmente corresponderá àquela que convém ao diabo, ainda que se nos pareça estar optando pelo caminho mais indolor, o desdobramento da opção se mostrará catastrófico, sendo este o demoníaco truque.
O fatídico e-mail é finalizado com o seguinte p.s: Informe importante: Sartre estava errado, o Diabo é a gente mesmo.
Criatura de alma pollyânica convicta como sou, me senti pessoalmente atacada por tamanha resignação ao sofrimento fatal proveniente de uma escolha que afinal nem é você quem faz.
Rapidamente respondi.
A resposta certamente terá sido inútil ao meu amigo, mas a mim, me disse muito sobre meu próprio diabo interior, e só por isso resolvi registrá-la aqui, com pequenas alterações que garantam a privacidade dos envolvidos...
Disse eu o seguinte:
"
Ao atribuir o inferno aos outros, pode-se pensar que Sartre entregava o peso de si e de seu sofrimento ao outro. Entretanto não é bem assim. Se bem me lembro, a proposição de Sartre era que é impossível um ser humano conhecer a si mesmo, como propôs Sócrates (embora de modo um pouquinho mais irônico...).
Sartre disse que o ser humano é uma obra sempre inacabada, que vai se percebendo juntando os pedaços de si que entrevê no olhar alheio para ele mesmo, ainda que aqueles que nos olham não tenham acesso às nossas consciências. Assim, ele diz que não é possível a obtenção da consciência de si mesmo, sem o convívio social. Em última instância, para Sartre, é impossível prescindir do outro. Que se torna um inferno por nos dar a medida de nós. Em vislumbres em geral desconfortáveis. E que por vezes nos impossibilitam de levar à cabo um projeto.
Assim sendo, Sartre não estava errado não. Porque mesmo que você na verdade esteja é querendo concordar com Hobbes, que bem antes disso tudo nos disse que o Homem é o Lobo do Homem, não vai fugir, também aí, de que mesmo esta afirmativa tem a ver com a posição do homem diante de seu próximo.
Então é melhor ficar com o Cristianismo mesmo que é bem mais simples de entender (a não ser que você se meta a estudar Santo Agostinho) e tomar pra si o lema, para mim máximo, de Amar ao próximo com a si mesmo. Nada impingindo a ele que não desejasse para si próprio. E está tudo resolvido.
Faço esse prólogo, porque me parece resolver parte das questões descritas no e-mail.
Senão, vejamos.
Sua grande questão parece ser a dor e sofrimento conseqüentes de qualquer escolha. Mas essa dor não se dá de per si. Dá-se a partir do que isto provoca no outro, e sobretudo do que o outro devolve a nós. O inferno, portanto, são os outros mesmo. Em nós.
Porém, como o título de Forsyth diz, esta do diabo é uma Alternativa. Alternativa. Pressupõe a existência de uma alternância entre opções.
Não que eu esteja tomada por um enorme fervor cristão, mas já que você compartilhou sua aflição me sinto no direito de propor uma solução. Proponho que escolha sempre, diante da opção do diabo, aquela mais segura, que a filosofia cristã nos dá:
Ame ao próximo como a si mesmo. E não faça a ninguém o que não quer para si.
Também tem consequências. Mas você vai ver que a carga de dor, sofrimento e angústia se reduz muito.
Como seu e-mail fala de questões filosóficas genéricas, isso é o que tenho para te dizer. Quando ele falar de questões práticas da vida corriqueira que homem lobo leva dia a dia, talvez tenha outras.
Todo o meu amor,
Flávia
"
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