30 de nov. de 2012
Do dito e o não dito.
Estava ali pelos sete anos e sentada na cadeira que ocupava durante a primeira série - ou o que quando eu tinha sete anos denominavam primeira série, que era o ano letivo que se seguia à alfabetização - escrevia, diligente, em meu caderflex verde oliva, aquilo que a professora ditava.
(...) recorte as figuras e cole blá blá blá blá
O lápis, em minha mão, paralisou, e não pude ouvir nada do que se seguiu ao vocábulo "COLE".
Eu não sabia, então, que tratava-se do presente do subjuntivo do verbo colar, embora evidentemente conhecesse e, teoricamente, compreendesse a palavra.
No entanto, ali, não era de um significante que se tratava. Algo como uma massa de moldar, a invadir-me os ouvidos, ricochetear pelo cérebro, até sair sibilante, por meus lábios que repetiam: cóle, cóóóóle, cólllllllle. Aflitivos segundos passaram-se sem que eu pudesse atinar no que seria aquilo, no que eu devia fazer, e perdi o ditado. Lastimável.
Descobria eu, ao que sabia uma palavra.
Apaixonava-me eu, por tais coisas, como palavras.
Aquele foi um de meus primeiros estranhamentos. Seguiram-se muitos, ao longo da vida. Tantas vezes olhei para as pessoas mais próximas sem ter, por igualmente desesperadores segundos, a menor idéia de quem elas pudessem ser. Tantas vezes perdi o fio da meada porque enguicei em uma palavra, e o som dela reverberava destituído de sentido e repleto de sons, na minha mente descolada de mim.
Quis saber como soava e o que dizia cada palavra. E busquei sempre o exato. E foi assim que o mundo adquiriu significado e se organizou em mim, através da linguagem, e só a minha confiança plena no que significa cada palavra me permite circular por entre os vivos. E creio firmemente que a dissolução da palavra, é a selvageria.
Eu preciso saber que compactuo com os outros seres, que temos um código que nos faz cúmplices, e que quando eu disser "flor", o outro não vai entender "mar". E o jogo é bom, porque as coisas vão adquirindo contornos, e delicadezas, e se você me descrever com precisão e poesia o mundo, a realidade não fará dele tão completo quanto a minha compreensão.
Isso explica meu amor por Tolkien.
E explica também porque é que quando me explicaram, entre um e outro beijo, que a matemática nada mais é que uma linguagem que busca representar o mundo, eu me apazigüei com ela. Embora ainda não a entenda.
Enfim, isso tudo me vale para demonstrar que, no que me cabe, a palavra dada é da ordem do sagrado.
E cartórios são obsoletos.
E não acredito que possam coexistir em paz e felicidade, pessoas que não comunguem dessa liturgia: a liturgia da palavra empenhada.
24 de nov. de 2012
Na minha casa tem mato. Tanto.
Tem uma rosa vermelha e as hortênsias estão floridas.
No meio do mato, verde, tem um corrimão, rosa. E o céu azul faz bela figura. Mas agora chove.
A minha palheta de cores é tão díspar quanto as flores da minha casa.
Sou plácida e enlouquecida. Não sei bem mais por que.
Escolha se estou dentro ou fora. Os dois, não sei.
Você me faz mal, assim.
Assinar:
Comentários (Atom)