Puxa uma cadeira, e relaxe...

27 de nov. de 2010

TRIBULAÇÕES DE UMA BRASILEIRA NA ITÁLIA

Antes de mais nada, até para meu próprio registro, duas dicas de ouro: Azeite Ligure Cascina Verde Sole e Vinho Cinqueterre Ciaccetra. Depois você me conta, amiguinho...

Então, tem esse problema: França x Itália. É um caso sério. Não se pode falar da França, nem de nada que seja francês. E nem pensar em imaginar que talvez, quem sabe, a crema catalana possa ser parecido com a creme brulée. O que eu noto é que o ponto máximo da tensão entre os dois países se dá na comida assim como entre Brasil e Argentina se dá no futebol. Quer dizer, me parece, mas ainda tenho que comprovar a tese, que seu um italiano e um francês se encontrarem em uma loja de departamentos, falando sobre perfumes, vão se dar bem, mas num restaurante quebram o pau.

Os Italianos. Allora. São pessoas que tem nariz. E eu acho isso o máximo. Eles e elas. E que nariz. São elegantes, bonitos de modo geral, embora nem todos aqui compartilhem deste meu ponto de vista. Eu achei todo mundo bonito. São longilíneos. Independente de serem magros ou não (e geralmente o são), a maneira como se arrumam, a postura, os faz assim, longilíneos. Tem mania de bronzeamento artificial, e boa parte deles ostenta este estranho cor-de-abóbora. A proporção de botox per capta é maior que no Brasil, mas não tão grande quanto na Argentina. O mesmo quanto à maquiagem.

Disseram que eu tomasse cuidado com os italianos, que eles eram safados, que tomavam brasileiras por prostitutas, a priori. Não posso dizer isso. Sou bem tratada onde chego. Quando digo que sou brasileira as pessoas são ainda mais simpáticas. Só me dão indicações corretas. Todos me respeitam. Será que o problema é comigo?

Para não dizer que nada aconteceu neste setor, numa dessas minhas idas ao médico, estava eu na sala de espera e uma senhora puxou assunto e lá pelas tantas perguntou de onde eu era. Quando eu falei que era brasileira, ela, muito surpresa, disse: no se disserebe, fa bella figura! (Não se diria, é bonita!). Eu ri, claro... mas não agradeci, que era demais para o orgulho nacional.

Todas, eu disse TODAS as mulheres usam botas. São chiques, com seus cachecóis amarrados de tantos modos que já desisti de aprender.

Os homens. Como as mulheres, em geral são muito bonitos. Usam calça skinny (tá, pai, eu explico: é uma calça jeans que vem justa até o pé, muito na moda), e óculos iguais, esses retangulares, finos, de armação acrílica, colorida. Sapato de bico fino. Gel no cabelo. Esse conjunto e mais alguma coisa que eu não sei descrever exatamente o que é, faz com que todos eles, apesar de lindos e elegantes tenham um jeito um tanto afeminado demais para mim, que vim lá do Catete.

Penso que isso explica a obsessão mundial pelo assim chamado “latin lover”; Os americanos são mocorongos. E os europeus são abicharados. É claro que as mulheres vêm um brasileiro com sua natural troglodice e piram... tô com elas, inclusive. Isso é bem claro, aqui.

O sino. Gente, como toca, o sino da igreja! Toca músicas inteiras... a das 18 horas é aquela: no céu, no céu, com minha mãe estarei... acho lindo, até gravei... aí, dia desses, estou eu voltando da escola ouvindo o sino, idílico, e olho pra torre, e: o sino tá parado! Como assim??? Aí – veja você como caem os mitos – vejo uma senhorinha apertando um botãozinho... e o sino é eletrônico! Eles têm uma DJ de sino. O mundo tá perdido quando até numa aldeia italiana o sino é eletrônico. Não sei não o que vai ser do mundo.

Ao contrário do que me disseram que seria, os preços de unha, depilação, cabelo, nem são impeditivos, aqui. Claro que é mais caro que no Brasil, e pior, certamente, mas não impeditivos. Tem depilação, mas não arrisquei fazer, porque tenho problemas com cera sintética. A mão custa 15 euros, e a calista cobra 22, com a ressalva de que desde que não tenha calos... ah tá. Para cortar o cabelo é 18 euros (já estou no segundo corte) e para pintar custa 20, com a tinta, mais barato que num salão razoável do Brasil...

Agora, de tudo, o mais assombroso é o sistema de funcionamento do comércio. Eu vou falar daqui de Costigliole, mas é assim em todo o canto, ao menos aqui no Piemonte. As coisas abrem por volta de 8:30. Aí fecham 12:30. Todos dormem. Não fica NINGUÉM na rua. Reabrem às 15:30 e fecham às 19:30. Se fosse só isso até que era fácil. Mas tem as variações sobre o tema. Segunda TUDO fecha. Menos um dos três cafés da cidade, a farmácia e o Carrefour. Em compensação, aquele café fecha na terça, e na quinta fecha o Carrefour. O Correio funciona até as 14 h, quando fecha pra sesta. A farmácia, na quinta feira, só fica aberta até o almoço, depois não abre mais. No domingo também pouca coisa fica aberta. E, nem todas as lojas obedecem a esses horários. E nas portas tem um quadrinho com quatro reloginhos que eu me recuso a entender como funcionam, mas que, supostamente informam os horários de funcionamento. Dá pra acreditar? O resultado é que nada nunca está aberto quando você precisa. É meio como os coreanos, agora que eu estou conseguindo entender, vou embora...

Quando eu digo desses momentos em que não tem ninguém na rua, não é força de expressão. Ninguém é ninguém mesmo. Nem uma alma. Ninguém. Persone. Nessuno. Nobody. Nadie. Nem se vê ninguém nas janelas. Aliás, eu não sei onde ficam as pessoas dessa cidade, porque além de não circularem pelas ruas, também não ficam nas janelas. E poucas são as luzes nas casas. Depois falam da limpeza das ruas européias como se fosse um grande sinal de civilização. Não sujam porque não tem ninguém na rua! Se no Brasil não circulasse gente também ia ser limpinho, limpinho!

E não é só de gente que as ruas carecem. Estou muito preocupada com os animais italianos. Cadê os bichos??? Poucas vezes vi cachorros e gatos. Poucas mesmo. Tipo, vi dois gatos e dois cachorros desde que cheguei aqui.  A não ser, claro, os cachorros das pessoas. Isso é um capítulo à parte. Eles andam com seus cachorros e vão a todo lugar. Você entra em uma loja e tem um cachorro confortavelmente deitado em uma cadeira, e mais de uma vez pensei que fosse de pelúcia. Eles entram nas lojas puxando seus cachorrinhos pela coleira, nos outlets é uma profusão de cachorros! Até nos restaurantes. Os cachorros italianos são educadíssimos e arrolhados, porque não se vê cocô de cachorro por aí. Não tem muitos pássaros também. E nem muitos insetos. Que louco, né? Mas eu vi um rato, um ratinho de rua, e quis até fazer carinho nele, de tão fofo... parecia o Bernardo ou a Bianca.. não tem aquele focinho longo, mas um focinho achatadinho e é bem peludinho.

É, minha gente. O fato é que novembro já vai alto. Os Alpes, finalmente estão nevados. E fa freddo.... molto freddo. De manhã, quando chego na escola, tenho a nítida impressão de que meu rosto vai explodir, de frio, e a dor que isso me provoca nos ouvidos me fez comprar um pompom de orelha! Um mimo! A média, agora, são 3 graus, e em breve nevará.

As notícias do mundo de lá são as piores possíveis. Tenho medo de que o Rio de Janeiro acabe e eu fique como o Tom Hanks, em o Terminal, expatriada... morando meses no Galeão... se for assim, me avisem que eu peço asilo, aqui!

A partir de amanhã retomo a cronologia direitinho, prometo!

Bacci per tutti!
         

Dias 37 a 48

Costigliole D’Asti,  26 de novembro de 2010

Eu, durante todos estes dias tinha a esperança de que pararia e escreveria dia por dia o que tinha rolado.

Hoje, finalmente me dei conta de que não, isso não ia acontecer, e se eu ficase esperando os dias iam passar e eu não retomaria a escrita.

Mas, por que isso aconteceu?

Bem, a semana que transcorreu após este sofrido fim-de-semana da viagem foi horrenda. Pavorosa. Mas passou. O fato é que eu não me sentia animada para escrever nada sobre coisa alguma. Faltei algumas aulas, perdi algumas visitas. Fui a médicos, massagistas, acupunturistas e só não fui a um pai de santo porque, infelizmente, não achei nenhum.
Assim, penso que não vale a pena recuperar ipsis literis esses dias tão sofridos. Mas, durante este tempo, tomei notas. Muitas notas de observações que considerei que valiam a pena postar aqui. Então, vou fazer um grande post atemporal com essas notas que valem bem mais a pena serem lidas que o meu cotidiano dolorido.

Cabe, contudo, dizer que hoje é uma sexta-feira, e eu estou bem, entupida de medicamentos mas bem. Acho que sou novamente carta no baralho dos bons estágios. Amanhã tenho consulta com o médico que me fará a infiltração. Ou seja, o blog parou, mas a vida seguiu.

Não viajei para lugar algum, neste meio tempo, e, a única coisa digna de nota, até para que o nobre leitor se situe, é que eu mudei de quarto... de novo! Sim, agora estou no segundo andar, com mais três brasileiras... minha vida é andar por esta Cascina...

E também vale dizer que na sexta-feira passada fizemos na escola uma feijoada, para angariar dinheiro para o Gilli, que foi roubado em Gênova no primeiro fim-de-semana. Foi um sucesso. Fizemos até a carne seca, defumamos a costelinha, teve caipirinha, quindão, pão de queijo e pastel com receita de tia Vanir. Teve ambrosia, arroz, farofa e a couve foi substituída, com relativo sucesso, por verza. Teve também roda de samba e dança. No fim, emocionada, Paola veio nos dizer que foi a melhor festa que a escola já teve e que ela ficou impressionada com a organização e limpeza, pois a cozinha, mesmo depois de tudo, nunca esteve tão limpa! É por isso que me ufano de meus conterrâneos! E de quebra, Gilli ainda embolsou 666 euros. É, o número foi este mesmo...

Enquanto escrevo, dezenas de coreanos bêbados festejam ao meu redor. É a despedida deles e houve muita comida apimentada. Fico triste porque quando eu finalmente consegui distingui-los, eles vão embora. Bem, c’est  la vie!



DIA 36

Costigliole D’Asti, 14 de novembro de 2010
Domenica

De manhã, dor, e a esperança de um dia melhor.

A decisão é: vamos descer para Alba, pois é o último dia da Feira do Tartufo. Mas vamos descer pelo leste, parando em Verona, talvez Mantova, talvez Pádua e finalmente Alba, depois Costigliole. Se você olhar no mapa vai ver que era um plano um tantinho pretensioso...

Fomos. Mas como eu estava com muita dor, decidi deitar no banco para estar bem descansada na próxima parada. E, claro, acabei dormindo. Quando acordei, estávamos no Largo de Garda. HEIN?

Tá bom, eu queria mesmo conhecer o Largo de Garda. Entramos por Desenzano Del Garda. Garda é o maior lago da Itália. Mas estava um dia muito enevoado e não conseguíamos ver muito. Eu, de qualquer forma, mancando como estava não teria mesmo visto muito. Mas fiquei feliz, sentada em umas pedras, olhando a água, completamente transparente e cheia de patinhos, desses que a gente vê nos desenhos animados, nos filmes, esses que tem uma coleirinha branca, e asinhas verdes e corpo marron, que tem umas estatuazinhas de madeira.  Muito lindos.

Sei que Garda tem muito mais a mostrar que seus patinhos, mas eu não tinha mesmo condições de ver mais. A cidade é obviamente rica, com casas espetaculares, hotéis com lindos terraços e restaurantes à beira-rio.  Deve ser uma loucura no verão. Demos uma volta de carro ao redor de lago, porque meu passeio tinha que ser quase um drive-thru! O lugar é lindo!

Seguimos em direção a Verona e no caminho, rios, castelos, vinhedos, igrejas. Lindas fotos. Roubamos uvas de um vinhedo, e elas eram as mais doces que eu já provei.

E então, Verona.

Eu tinha uma imagem do que seria Europa. O clima, as pessoas, os prédios, as flores, o urbanismo, tudo. E Vernona é a expressão do que eu imaginava.

E é mais, muito mais.

Lá fui eu, claudicante, dolorida, à Arena de Verona. Datada do século 1 d.C, com os dois anéis centrais perfeitamente preservados, apesar do terremoto do século XII que destruiu parte da cidade.

Subi à arquibancada e me deitei, olhando a arena e me lembrando de Nietsche. O Nascimento da Tragédia. Consciente da importância vital daquele lugar como consolidador dos valores daquela sociedade, que, como de praxe, cabia inteira ali dentro. Pensando no tempo em que teatro não era algo eletivo, mas formador, educativo. Pensando nas mortes exemplares. Nas pessoas sentadas naquelas pedras geladas que me causavam ainda mais dor. Tudo o que consegui fazer foi ficar ali, pensando. Pensando em Jorge Aragão que sabiamente nos ensina “e quando pisar no terreiro, procure primeiro saber quem eu sou”. Pensando em que era aquele lugar. Em quem era eu ali. Com respeito.

Ao sair, fomos andando em direção ao Castellovecchio.  Andando pelas ruas com pessoas lindas e bem arrumadas. Prédios antigos, portas romanas, cafés, estátuas.

Não pude andar tanto que me permitisse ver tudo quanto havia na cidade. Não pude ver a estátua de Dante. Nem todas as portas, e praças, e igrejas, e as construções dos Scaligero, o Teatro Romano e o Giardino Giusto. Nem mesmo o duomo de Verona.

Mas mesmo assim, pude entrar na Chieza de San Lourenzo, linda. E sobretudo, mesmo sem entrar e ver meu primeiro Caravaggio, tive o prazer de andar pelos jardins do Castelvecchio. O mais medieval dos castelos, como os que a gente desenhava quando criança. De tijolos vermelhos, com ameias. Fantástico.  Às margens dele, o Rio (aqui Fiume) Adige. Lindo, largo, calmo. Ligando o Castelvecchio ao Borgo Trento, do outro lado do rio, a ponte Castelvecchio, imponente, sólida. Fiquei sentada ali, olhando aquilo tudo, e lá atrás de mim, a Ponte Vittoria.

Aí nos demos conta de que ainda não havíamos comido nada. E então fomos a um café. Na verdade um café/cantina. Eu não podia beber nadinha, por causa dos remédios. Mas Caio e Amanda puderam usufruir de um belíssimo Amarone. Descobrimos ali que o Amarone é o Valpolicella superior. Assim, quando a colheita não proporciona uvas com as características perfeitas para o Amarone, ele vira Valpoliccela! Interessante, não? Bem, acompanhando esse amarone, pra mim, acqua naturale (aqui só bebo isso, pelo menos acho que perdi o vício de comer acompanhada de guaraná antártica zero! Menos um...) veio um pratinho, onde, sobre um guardanapo bordeaux, estavam alguns grissinis quebrados pela metade, e neles, enroladas fatias de prosciutto crudo. Grossas lascas de grana padano para se comer com uma mostarde (o termo aqui designa um tipo de geléia, que pode ser picante ou dulce, neste caso, era dulce) de cipolle rossa, gente, ocês não queiram saber. Sensacional. Não valia por um almoço, mas já eram quase cinco da tarde, ainda queríamos ver pelo menos a Casa de Giulietta e partimos.

A esta altura eu já estava francamente manca. Fazia frio, e lá no fundo eu não queria ver mais nada... mas, mesmo que Giulietta não tenha existido, ir a Verona e não ver o tal balcão (a propósito só agregado à construção na década de 30 do século passado) era como ir a Roma e não ver o papa (embora eu não tenha a menor intenção de prestigiá-lo assim quando lá estiver). Assim, fomos. Muita gente, muita foto. Tem uma história de tirar foto com a mão no seio esquerdo da estátua de bronze de Giulietta sob o balcão, pra dar sorte, o bichinho até brilha, de tão lustroso... Tiramos foto, com a máquina descartável que tivemos que comprar, porque acabaram as baterias de todas as máquinas! Mas não saiu flash, veremos se saiu alguma coisa quando acabarmos com o filme e fizermos essa coisa pré-histórica que é revelar fotos.

De lá uma passada numa confeitaria que tinha uma cara ótima. Eu, como sempre, renovei o estoque de lindts e me aventurei num marzipan, que amo. Decepcionante.

E entramos numa livraria onde finalmente consegui adquirir esta Bíblia da Gastronomia Italiana que nos foi apresentada por Caio: Il Cucchiaio d’argento. Não sei bem como vou levar tanto peso pra casa... mas Deus proverá.

Ao entrar no carro, ainda ouvi uma conversa de ir pelo menos jantar em Alba, e novamente deitei no banco, convencida de que, fosse como fosse, eu ficaria no carro!

Além do que, domingo, depois das 22 h começa a folga da Renata e ficamos de passar em Govone e busca-la.

Quando acordei, já estávamos quase em Asti. E ainda era cedo para pegar Renata. Então meus nobres companheiros, para quem eu adoraria ter sido tão boa companhia quanto eles foram para mim, tiveram o bom senso de me deixar em Costigliole e voltar mais tarde para pega-la.

Como eu já disse, qualquer tentativa que eu faça de me transformar no Gregor Samsa – por mais que o sentimento seja legítimo – fracassa. Foi uma romaria no quarto. As coreanas re-apareceram e ficaram muito assustadas com aquilo. Só lamento. Não estou em condições de recusar amizade. E quando Caio e Renata voltaram, me trouxeram uma pizza.

Com toda a dor, foi um bom fim-de-semana.

26 de nov. de 2010

Dia 35

Milano, 13 de novembro de 2010
Sabato

E lá fui eu combalida e alquebrada com Caio e Amanda por o pé na estrada.

Tínhamos um mapa (eu sou boa de mapas!), quatro guias (pra que tantos??) e nenhuma idéia de pra onde ir. Folheando um dos guias achei um lugar que me pareceu magnífico: Bolzano. Olha gente, tem isso, tem aquilo, aquilo outro (e o carro andando!), deixa ver aqui no mapa que estrada tem que pegar... ops... é quase na Áustria... ah.... vamos então pro leste, não! vamos pra Veneza! Que tal Parma? Quiçá Tóquio? (e o carro andando).

Dizem que todas as estradas levam a Roma. Olha, eu não sei não. Mas aqui no norte da Itália neguinho não dá a mínima pra Roma. É tudo Milano. Escreveu, não leu, cê tá indo pra lá. E foi assim que estávamos na direção de Milano. Mas não queríamos ir para uma cidade grande. O que há além de Milano? hum.... mapa.... ôpa! o Lago Como! Bora lá! E fomos.

O caso é que eu estava muito ruim, meu povo. Só mesmo uma pessoa despombalizada do juízo pra se atrever a sair no meu estado. A sorte é que Caio e Amanda são gente muito boa, e se ocorreu a eles me afundar no Lago, disfarçaram direitinho. O dia estava nublado, portanto inadequado para esse tipo de passeio. O Lago Como é considerado uma das mais bonitas regiões da Itália. É um y invertido, estando Como na ponta esquerda e Lecco na direita. Na bifurcação do y há um paese mais alto e lindíssimo que dizem que não se deve perder, e na outra extremidade do Y é a Suíça. Bem, graças ao meu estado depauperado acabamos tendo que nos ater a uma parte muito pequena de Como, a piazza central, charmosíssima com seus cafés e sua Igreja.

Comemos por lá, fomos a uma loja de cozinha muito tentadora, vimos o lago, ao menos uma parte dele, a que minhas pernas me permitiram chegar, Caio catou um bocado de água para a minha coleção (espero não beber esta, pois tem exatamente a mesma cor e sabor da água de garrafinha!) e fomos ao funicular, como estava mesmo muito dolorida, fiquei sentada enquanto Caio e Amanda davam uma volta. Mas na volta disseram que eu não perdi muito!

Entramos em uma Igreja, e lá estava começando uma missa. Incrível como isso acontece comigo. Adoro Igreja, e gosto de missas, e minha tia tem me pedido muito para ir a uma missa... então, foram dois coelhos numa só cajadada.

De lá, decidimos ir a Milão e depois voltar para Costigliole para dormir e não gastar com hotel. Foi bem rápido até Milão. Começamos a andar pela cidade, eu procurando um albergue em guias e na internet, o carro andando a esmo e de repente, gente, vou abrir outro parágrafo que é o mínimo que posso fazer para descrever o sucedido.

De repente, surgiu, brotou diante de nós, o Duomo de Milano. Vou tentar descrever. Começo dizendo que nós três, ao mesmo tempo fizemos ohhhhhh e ficamos sem fôlego. E isso não é força de expressão. A Piazza du Duomo, para quem não sabe, é um imenso espaço livre, pela mesmo lógica que uma televisão de muitas polegadas exige uma sala grande. É preciso espaço livre para observar aquilo, até porque nossos olhos não são dotados de uma grande angular.

Na praça, um monumento a Victorio Emanuelle II em seu imponente cavalo, e lá no fundo todo iluminado (já era noite) O Duomo. A gente vê fotos de coisas góticas... vai a Canela, no Rio Grande do sul, onde tem aquela linda igreja  gótica, até estuda o gótico, e sabe que a idéia é esmagar o humano, deixá-lo pequeno diante de Deus. Tem uma noção de arquitetura, arcos ogivais, rosáceas, pináculos, e tudo mais. Esqueça tudo isso. O ohhhhh não precisa de nada disso. 

Ver o duomo, iluminado, no seu ofuscante mármore branco, gigantesco, vertical, vertiginoso, não requer nenhum conhecimento prévio, nem raciocínio. Ver o duomo é cair de joelhos. É prostrar-se.

É uma catedral enorme, toda de mármore branco, toda cheia de pináculos, uma enormidade deles sobre cada triângulo que compõe a estrutura, e são muitos! É muito, muito, muito grande. Ficamos sentados os três aos pés de Victorio Emanuelle, olhando, embasbacados aquela estrutura, e entendemos o que quer dizer "velho mundo". Nós, no "Novo Mundo" não temos a mais menor noção do que seja uma construção daquelas. 

Lembrei-me imediatamente do Pilares da Terra, de Ken Follet. Não sei como pode o Homem ter construído aquilo. Não falo só do tamanho, mas da engenhosidade, da estética. Como é lindo. Como é lindo! 

À esquerda de quem olha o Duomo, está, perpendicular a ele, a também enorme Galeria Victorio Emanuelle II. Toda em um neo-clássico retumbante. Toda iluminada. Como seu enorme arco de entrada, e o piso em mosaicos.

Dentro, tem assim Victorio Ferragamo, ao lado da Louis Vuitton, ao lado da Armani, ao lado da Vivienne Westwood, ao lado do Dolce & Gabbana. Quem me conhece, sabe que eu não dou a mínima pra nada disso. Mas é novidade para mim, exceto pelo Iguatemi de SP que foi o lugar mais desprezível onde eu já tive o desprazer de entrar. Mas a Galeria não tem nada de Iguatemi, falta-lhe a empáfia, a arrogância, a pretensão. A Galeria é beleza para os seus olhos! Há vários restaurantes, com antipasti em média a 17 euros... de modos que dicidimos ser excêntricos e comemos no... MC DONALD'S!!! Mas se você contar a alguém, eu nego.

Depois disso, decidimos ficar por lá mesmo. Achamos um hotel pela internet, demos vários rodopios para encontrá-lo, o que me valeu para notar um pouco da cidade. Primeiro. Não, Milão não é São Paulo. Não, Milão não se parece NEM UM POUCO com São Paulo.  Embora eu ame São Paulo, achei uma injustiça essa comparação que sempre me fizeram.

Como eu havia dito num post anterior, ainda não tinha ido a nenhuma grande cidade italiana, agora posso dizer que fui. E definitivamente não é São Paulo. Não há uma concentração de prédios e arranha-céus nem sequer parecida. Os edifícios são antigos e quando muito tem 10 andares. É uma cidade moderna, nitidamente, mas sin perder la ternura jamás. Há amplidão. Monumentos. Um comércio espetacular que é um monumento à propalada vaidade italiana. Dei graças por ser de noite, tudo estar fechado e eu não poder comprar nem se quisesse. Lojas lindas, criativas, variadas... uma loucura!

Finalmente chegamos ao hotel, exaustos. Conseguimos um quarto triplo, e cama. 

A idéia é partir amanhã cedo. Não me importo, minha dor é tanta, que nem levantei para tocar no Duomo, por exemplo. Entrar não teria mesmo sido possível, estava fechado. Mas, como em Gênova, fiquei tranqüila. Pois sei que vou voltar, sei que ainda vou voltar. E será rápido.

Porém, a dor, a dor, ah! a dor... não me deixou dormir, e nem a pobre da Amanda, que lá pras tantas já queria me levar a um hospital...

Nota: Hoje é aniversário de meu Tio Imortal, Sílvio. Dedico a visão do Duomo de Milano a toda a beleza que ele me mostrou na vida.

14 de nov. de 2010

DIA 34

Costigliole D'Asti, 12 de novembro de 2010
venerdi

Então, hoje é dia de visita técnica. Mas eu não fui. Porque finalmente marcaram a bendita acupuntura pra mim. Ao meio dia Elisa veio me buscar. Expliquei ao médico que entendia tudo mas não falava niente. Ele perguntou as coisas de praxe, pôs um tapetinho no chão e, como se tivesse saído de um quadro do Viva o Gordo! Disse, sem levantar os olhos da ficha de anamnese: Pode tirar a roupa.

Como assim?!?! No Ceará não tem disso não!

Fiquei pazza olhando o homem como quem diz: mas são só umas agulhinhas.... mas não teve jeito. Nem um aventalzinho, nem um biombinho. Nada!

E foi assim, meus amigos, que eu, a cebola, comecei a tirar aquele tanto de roupa que o homem quase desistiu. Mantive minha echarpe verde (digo, da Bet!) sobre os ombros para tentar manter alguma dignidade, mas confesso que foi inútil.

Fato é que fez-se a tal acupuntura. E eu ainda saí a tempo de pegar a visita da tarde.

A visita era numa vinícola chamada Marco e Vittorio Adriano (os dois primeiros são irmãos e Adriano é o sobrenome) Na região do Langhe, norte do Piemonte. Nesta visita tive ocasião de perceber que é preciso admitir que aquilo que aprendi na faculdade nas aulas de Enologia com a professora Jocelyn Sodré, se tornou um conhecimento bem sólido sem o qual eu não teria aproveitado a visita como creio que poucos ali aproveitaram. Para mim, foi como ver ilustrado um processo que eu já conhecia, o lugar de colheita e desengace das uvas, os barris de inox onde começa a fermentação e onde o vinho tinto adquire sua cor, as cascas tendo que ser revolvidas, os  barris para fermentação malolática, até o processo de envase e rotulação.

Na hora da degustação nos foram servidos três vinhos. O primeiro foi um riesling. Agora vejam vocês, como aquela não é uma região onde a denominação riesling seja reconhecida, então o riesling não pode se chamar riesling, e sim Langhe. Bem louco, né? O nome deste Langhe específico era Basaricó, que em dialeto piemontês quer dizer Basilico, ou, manjericão, isto porque o vinho tem um aroma persistente de manjericão. É verdade, reconheço e dou fé. Tanto que comprei logo duas garrafas (a 5,50 euros cada) para um brinde que tinha esperança de vir a fazer no Brasil, por motivos que mais tarde eu saberia se resultariam positivos ou não.

Também degustamos dois vinhos tintos, barbarescos, um superiore, inclusive, mas achei muito adstringente (eu sempre acho isso, razão pela qual em princípio desconfio dos vinhos tintos e das bananas da Europa). E olha que o Barbaresco é a uva forte da região. Gostei muito mais do riesling disfarçado de Langhe com manjericão.

Na volta, descobri que a compra dos Basaricós não tinha sido em vão, porque finalmente consegui falar com Mauro e soube que a conjunção de talento, mérito, esforço e reza forte tinha dado certo e ele conseguiu a função de que precisávamos tanto. Portanto, voltei a ter um marido gerente, agora em Rio Bonito. Devia ter comprado mais vinho...

A dor permanece e, na volta para a Cascina recolhi-me ao meu quarto. Mas descobri que tenho vocação ZERO pra Gregor Samsa, porque fiquei umas duas horas tentando ficar quieta mas era uma bateção na janela e na porta, e às 22 h eu já tinha que escolher entre três convites para o fim de semana. Meu primeiro impulso era ficar por aqui tentando proteger minha coluna, mas só que eu vinha me ressentindo do meu isolamento, e também não viajava desde o primeiro fim-de-semana, quando fomos pra Cinqueterre e Gênova, e então decidi que a melhor opção era alugar um carro com Caio e Amanda e sair pelo mundo sem avisar ao Chico Buarque só pra ele ficar se perguntando " o que é que a vida vai fazer de mim?".

Çeram, a turca fofa veio me fazer uma outra massagem, e finalmente consegui dormir.

12 de nov. de 2010

DIa 33

Costigliloe D'Asti, 11 de novembro de 2011
Venerdi

Acordei quase impossibilitada de andar. Mirella, minha fiel camareira veio dizendo que ia me transferir para um quarto no térreo, não discuti. Levei quase quarenta minutos para jogar minhas coisa em mil malas e sacolas que ela e a outra moça que trabalha aqui puseram no chão de meu novo quarto, deitei e fiquei imóvel e muda.

Sentindo o cheiro de nada muito aprazível que tinha este quarto.

Adivinha em que quarto estou? Lembra daquela confusão com as coreanas que não me queriam? Pois tiveram que me engolir. Há uma porta que dá para um pequeno hall onde tem um armário ocupado por elas, um banheiro para nós três. Uma porta para o quarto delas duas e uma porta para o meu, onde estou sozinha!!!! E só não posso plantar bananeira porque corro o risco de partir em duas. Bem, não tive como ir à aula e passei o dia inteiro dormindo, porque tomei o remédio que tio Luís César indicou, e nossa... dá sono... o tal do miosan. A dor não melhorou nada, mas pelo menos dormindo eu não sinto e estou de repouso. Só que a cama não é cama, é um estrado desmontável de mola, e tenho a nítida impressão de que está tudo côncavo, razão pela qual, à noite, me sentindo menos horrível mas bastante péssima, tirei o estrado, pus o colchão no chão e tive a impressão de que a coisa agora ia melhorar!

Depois que Caio comprou a tal churrasqueira é rock todo o dia... na minha janela... mas nem ligo, estou tão feliz de não ter mais que subir e descer as escadas das Cascina que apenas ponho Johnny Hartman a toda no meu I Pod tento fingir que não está doendo e acabo conseguindo dormir... e foi assim que tenho tenho dormido quase seguidamente as últimas 20 horas. O problema é que quando acordo não percebo melhora.

E ainda por cima tenho fome. E não tenho água. E as pessoas, apesar de solícitas estão na delas e não sou eu que vou pedir nada a ninguém.

Curiosidades internacionais. Sabe esses mega modess com abas? imagina um desses com um centímetro mais ou menos de espessura, tipo uma toalinha branca,  revestido de flanela de bichinhos e com um botãozinho de pressão em cada ponta do lugar onde são as abas.... pois é, minha gente.... há vários desses empilhados em saboneteirinhas embebidos em um líquido que deve ser tira-manchas... mas são bem limpinhos.... não a ponto de eu tocar em um.... mas achei engraçadinho. E tudo, TUDO delas tem caras de bichinho, o chinelo, o estojo, a pantufa, a calcinha... muito engraçadinho...

Dia 32

Costigliole D'Asti, 09 de novembro de 2010
Martedi

Dia de Visita. Pela manhã, acordei tão dolorida e lerda que por muito pouquinho não perdi o ônibus, que veio nos buscar às 7 da manhã rumo a um posto de staggionata, que é como se chama o lugar certificado onde se deixam os queijos para serem curados. Legal. Mas não sei se é porque eu tinha tanta dor, não vi muito sentido. Queria ver o queijo ser feito, esses tantos tipos de queijos, e como se parecem em cada fase da staggionatura... o que senti foi um frio horrendo na câmera. Comprei um bom gorgonzola pra comer no quarto, mas podia ter passado sem essa.



Packet lunch no ônibus, e a visita da tarde foi em uma fazenda agrícola de arroz. A maior da Europa, 742 Ha, o que para um continente deste tamanho, é terra que não acaba mais, mas nós, brasileiros, é bolinho.
Esta Fazenda, chama-se Cascina Venería, fica na planície padana, ao norte aqui de Costigliole, e de lá se vê bem os Alpes e é esse o microclima propício ao plantio do arroz, pois a neve que dererte cria um sistema de capilariadade e transformoa aquele num terreno alagadiço, coisa de o arroz gosta.
Descobri que há muito mais do que o arbório, o carnarolli e o vialone nano que julgamos conhecer. Por exemplo, o arbório é uma denominação que já não existe, contudo como já é uma denominação conhecida no Brasil, eles vendem gato por lebre e nos mandam um grão cujo nome não guardei. Assim, dos grãos aí existentes, é bom se ater ao Carnarolli que dá mais certo, ou ao Vialone Nano quando o que se deseja um risoto especialmente cremoso, como deve ser o de frutos do mar, por exemplo.

Foi aqui que conheci também o riso balila, uma outra espécie pequeninha adequada para sopas e minestras e o Riso Baldo, que parece que é o bicho, mas cujo ponto se perde muito facilmente. Comprei logo 3 k para aquela degustação. E há ainda o Ganje Aromático que lembra o Basmati. Todos eles têm versão integral e comprei meio quilinho do carnarolli integral pra mandar pra Jan pra ela já ir brincando.
O problema de tudo isso é que anda até o arrozal, anda até a fábrica, anda até a loja, ouve o homem falar, vê a mulher manobrar, anda até não sei onde, minha coluna simplesmente pifou.
Fui para o ônibus esperar o fim da visita me sentindo miserável, velha e incapaz, e imaginando se eu tinha algum futuro em alguma coisa nessa vida já que me sentia tão incapaz para qualquer coisa e sequer conseguia ficar em pé.
Fiquei horas no ônibus chorando e me sentindo a última das criaturas.
Vim para a Cascina, deitei na cama e fiquei lá, muda, com medo do que ia acontecer comigo, e rezando
para que fosse o melhor.

Dia 31

Costigliole D'Asti, 08 de novembro de 2010
Lunedi

E cai um mito! Para começar, aquele macarrão delicioso que eu faço e todo mundo pede bis e que eu chamo Carbonara. Vai ter que mudar de nome. Lanço aqui um concurso, por favor, amigos, ajudem-me a arranjar um nome para o meu falso Carbonara.

Vou contar para vocês que a palavra carbonara vem de "carbonaio" aqueles pobres infelizes que ficavam cavucando o solo durante a guerra a procura de carvão para abastecer a máquina de guerra. Eles precisavam de comoida que lhes desses "sustança" e sendo aqui a Itália, isso queria dizer uma massa com um molho forte:  vinha do ovo produzido pelas galinhas locais e do lardo trazido pelos navios da guerra.

Vai daí que o Carbonara, massa sagrada por aqui, é feito da seguinte maneira: espaguete al dente, quilos de gema de ovo batida com pecorino (porque é um prato do sul, mas se você fizer com um grana padano ou um parmiggiano regginanno, nem é lesa-majestade, agora, o pecorino, por ser mais úmido, dá mais cremosidade, saiba) e um cadinho de pimenta preta ralada, pode por um pouco de sal, também. Adredemente, a pancetta deverá estar cortada em julienne e já fritinha. O macarrão quentinho vai para a frigideira e é salteado com o ovo e a pancetta e, NEM PENSAR em por mais queijo, o queijo é o que você bateu na gema. E, manda pra dentro. É hiper-calórico, como deve mesmo ser, para a finalidade a que se destina, e bem, há sempre uma possibilidade de pegar uma salmonella, porque a salteada é rápida e não pode coagular DE JEITO NENHUM. Uma delícia. Se você for o tarado da bactéria, use gema pasteurizada, mas faça, porque é delicioso.

Só não é o meu, que vai passar a se chamar alguma outra coisa. Eles simplesmente não admitem ovo coagulado em nenhuma preparação.

Hoje aprendemos a fazer massa seca, dessa que se faz e vende industrialmente. Para isso usamos uma máquina nem tão grande chamada Trafila. Sensacional. Usa-se a sêmola, e fica uma farinha, um pouco mais grossa que a de trigo e você não pode atinar como aquilo ali vai aglutinar a ponto de sair como macarrão, mas o caso é que sai e é de chorar. A Trafila custa em média 5.000 euros e qualquer dia desses eu ainda vou ter uma.

Mas o mais bonito, que me fez sentir Da Vinci, Michelangelo, foi a extração do pigmento para colorir as massas. Suponhamos que você quer uma massa verde. Então o que faz? Bate partes iguais de espinafre e água no liquidificador. Aí, põe em uma panelinha, e deixa esquentar até uma temperatura de 68°C. Neste momento, água e pigmento se separam. e é então que você vai pegar um pano de prato e por sobre um monte de gelo em um bowl e jogar ali todo aquele líquido verde.e vai deixar um pouco, para gelar. Então, abre-se o pano sobre uma bancada de aço inox e com uma espátula plástica vei mexendo pra lá e pra cá, até que a água toda vai saindo pelo pano e o que fica é pura clorofila, e é esta clorofila que você vai acrescentar a massa farinhenta que está na trafila e de onde vai obter o seu macarrão verde. Absolutamente lindo, artesanal. É com isso que eu quero trabalhar o resto da vida.

Na verdade, o que este curso mais está me valendo é por estas coisas, que nunca vi, o preparo e o cuidado com a massa, o manuseio de cortes de carnes que pra mim não são comuns. Usamos muito coelho, pombo, pato e cordeiro, aqui. E mesmo a carne de boi, tem um nome para cada idade do boi, sanato (vitello de leite), vitello (boi jovem) e  manzo (o boi mais velho). Quem quiser pode perceber a diferença entre cada um deles, como são mais macios do que a carne daí, como os cortes são diferentes. O entrecôte daqui é perfeito, adoro pegar um inteiro e ir desossando. Usa-se muito carne com osso, e o famoso milaneza é a Coteleta com osso, empanada, em ponto bem rosado, deliciosa.



Mexemos também com peixes muito diferentes dos nossos. Alguns são salgados artificialmente o que lhes muda a textura, em outros eles nao põem sal porque alegam que a água do mediterrâneo já é "abbastanza salata" e têm uma textura tão diferente que a princípio eu não saberia o que fazer. São os peixes do mediterrâneo, alguns muito nobres e deliciosos, como o San Pierre.

A textura de tudo é diferente, ao menos eu percebo isso porque sou muito ligada em textura e cheiros.Os peixes daqui tem um cheiro mais forte que os nossos, mesmo bem fresquinhos,

Os sorvetes, os famosos sorvetes italianos são muito, muito, muito doces, E embora eu ame aquela consistência totalmente cremosa não adorei o gosto de nenhum, e nunca consegui tomar um inteiro pois o dulçor me enjoa. Dizem que o melhor é em Florença. Veremos! Outra coisa, a casquinha brasileira dá de 1000.

Chocolate, este é um capítulo à parte. Que ninguém me ouça mas não gostei de nenhum chocolate nativo que provei até agora. Acho todos muito doces e sinto o granulado do açúcar na língua, o que me desagrada. Em compensação, felizmente sempre se pode comprar Lidt, o que evita que eu entre em síndrome de abstinência como aconteceu no Chile, onde também detestei o chocolate!

E o chocolate quente? Eu acho o chocolate quente uma bebida fundamental na vida da pessoa. Consola, conforta, e depois de tomar uma caneca fico hooooras sem querem comer nada. Mas o daqui é impossível. Vem num sachezinho que a dona lá põe um treco quente, não sei se é leite ou água, o caso é que é amido puro, imagina você tomar mingau de chocolate quando o que quer é somente um apaziguador chocolate quente? Tomo chá, também. Mas uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa. O chocolate substitui a mamãe, o chá não! Acho que vou ter que comprar chocolate no mercado e ensinar esse povo a fazer cioccollatta calda! Mas não tem chocolate do padre, aqui...

Percebo que me falta sair pra comer. Comer fora e muito para entender o mecanismo dos cardápios. É um ritual, uma liturgia, que não peguei ainda. O limoncello, o antipasti, o primo o secondo, sorbetto, formaggio e dulce. Acho que é isso, e vinho o tempo inteiro. Preciso sair pra comer fora. Mais. Razão porque joguei na loto aqui que está acumulda em 178 milhões.... de euros!

Agora, eu já disse, mas nunca é demais. O azeite. Passo a azeite. Aí nunca tomei um como o tal do Azeite da Ligúria. Vi  as olivas, e até pus foto aqui das olivas da liguria. Se tiver chance, volto lá pra ver numa fabrica, porque é tão diferente dos demais, é um veludo de paladar concentrado, sem um pingo de amargor. Acho que vou morrer de tanto comer azeite. Passo a pão com azeite. O que é engraçado é que eles não fazem isso. Nos restaurantes vem o pão, e nada de azeite, e nunca o prato. Aí eu peço o azeite, e por mais que eu tente evitar, sempre cai na toalha. Eles não conseguem entender que eu quero pão com azeite!

Adorei o limocello, detestei a grappa (álcool puro, pra mim, nem aroma consegui sentir), no museu do barbera,  grappas envelhecidas a preços exorbitantes. Deve haver quem ame, eu não. E quanto aos vinhos, o Barollo me perdoe, mas o Barbera é que o bom, especialmente o da Cascina Castlet, produzido aqui bem pertinho.

Em algum momento teremos uma visita ao Caffe Lavazza, estou de peito aberto torcendo para que algo me faça virar uma alucinada por café. Primeiro porque gosto do ritual, e do cheiro. Segundo porque ia melhorar muito minha vida se eu depois do almoço conseguisse tomar uma xícara de café que me afastasse o sono...

Em tempo, é preciso lembrar que com as massas que fizemos pela manhã, além do carbonara tivemos Tonno e Matricciana. Todos épicos.

Ainda por conta do Festival do Barbera D'Asti, fomos jantar num bom restaurante da região, o Cascina Collavini, com menu a 15 euros e mais degustação livre de Barbera, tudo a 22 euros. De entrada, uma terrine de faraona (galinha d´angola) que achei insossa, de primo e secondo, ravioli ao plin, que estava muito bom, recheio com gosto de carne, massa fininha, brodo de arrosto, molhando e de sobremesa torta de chocolate com pera. Achei a pera granulosa e sem tempero e reitero que eles não sabem trabalhar com chocolate, além do que desconfio de que tinha gelatina. O vinho era o Cascina Castlet que quase não bebi por causa da quantidade de remédios que estou tomando  e o que mais valeu foi o Brutti ma Buoni que comprei pra comer no quarto que foi dos melhores que provei aqui.

Muita dor.

Beetlejuice Beetlejuice Beetlejuice!!!

Vários amigos vêm me aconselhando a suspender o blog em prol de vivenciar as coisas aqui. Para não ter que dar uma resposta a cada um, vou agora esclarecer algumas coisas. Talvez o título do blog seja um bom indício.

Alguns me perguntam, por que "beetlejuice! beetlejuice! beetlejuice!

Um dos primeiros filmes de Tim Burton, um de meus diretores prediletos, Os Fantasmas se divertem! Conta a história de uma família que vai morar numa casa enorme, e morre, num acidente, continuando pois, a residir na casa nova, até que outra família,viva, muda-se para lá e eles se sentem muito incomodados em ter que dividir seus espaço com aqueles humanos. No sótão da casa tem uma maquete e dentro desta maquete mora um fantasma especial, que é muito bom de marketing e tem um programa de TV. O nome dele é Beetlejuice. Ele diz ao mundo dos mortos, ao qual pertence, em seu programa, que ele pode ajudar qualquer fantasma a espantar assombrações, que são os vivos, bastando para isso que o fantasma grite, três vezes bem alto: Beetlejuice! Beetlejuice! Beetlejuice!

Ele é portanto, um exorcidador de vivos.

O meu blog, surgiu assim, como um exorcizador de vivos. E permaneceu "secreto" até que achei que seria mais fácil contar as coisas da viagem de uma só vez por aqui, ao invés de escrever a um por um.
Copio aqui o Post inaugural do blog:

20/01/2010


Ah sim... beetlejuice... como o fantasma de Tim Burton...
Esse blog começa em uma noite em que clamo por um exorcizador de vivos!
Assim, beetlejuice! beetlejuice! beetlejuice!!!!
Três marteladas e...
Está aberta a sessão!

Com isto em mente, julgo pertinente ainda esclarecer que se  este parece um momento puramente racional deste "diário de sensações"  é porque não estou vivenciando um momento específico em que ser racional é minha única possibilidade de paz. Vivencio neste momento nada além de uma dor pavorosa na minha coluna, quadris e pernas. Tenho estado de cama há três dias esperando e rezando para que isso passe. E aconselhando a todos que passam por mim que se não tiverem dor, corram para agarrar o mundo, pois um dia esta companheira medonha virá, e permeará seus desejos, vontades, decisões, possibilidades.

A mim, Gregor Samsa, neste quarto fechado, só resta pensar, a fim de que a dor doa menos e sobretudo de que, caso eu vire um inseto, ainda assim mantenha algo de humano em mim.

Como qualquer um que esteve neste blog vai ver, essa é uma iniciativa que vem desde o começo do ano. Eu jamais tive diário ou coisa parecida. E hoje me arrependo, quando me lembro em todos os cadernos que minha tia me deu para que eu registrasse os livros que eu li, os poemas que eu li, os filmes que eu vi, as peças que eu assisti, as receitas de que gostei.


Tenho o hábito de revisitar meus livros, meus filmes, e sempre queria saber como o eles passaram por mim na última vez em que tive contato com eles. Como eu mudei, como eles mudaram. Assim, decidi que essa viagem seria uma experiência que eu registraria para o meu prazer. Seja o prazer de revivê-la lendo depois, seja o prazer simples e fundamental para mim, de escrever. E não, anotações em cadernos não resolvem, porque me habituei aos recursos de digitar. O que anoto, anoto como tópicos para desenvolver aqui depois, e com que alegria venho desenvolvê-los.
Não perco nada em escrever. Revivo, ao escrever. Não deixo de fazer nada para escrever. Só conto como a experiência se refletiu em mim. E pela primeira vez consigo fazer isto sistematicamente. Razão pela qual não, não vou deixar de escrever o blog. Ainda que não o compartilhe com ninguém. O que seria uma pena, já que ele é também um modo de dar notícias do mundo de cá. Mas que assim seja, se é melhor para a nação... Entendo que ninguém é obrigado a se afligir comigo.

Para alguns poucos amigos, acionei um dispositivo que faz com que qualquer coisa que eu poste no blog, lhes vá  direto para o e-mail. Mas entendo que minha visão frequentemente perturbada das coisas ao meu redor, possa estar trazendo desassossego.

Por esta razão, farei o seguinte:  a partir de agora, retirarei esta lista paralela que faz com que tudo o que sai de minha cabeça doentia vá direto para o e-mail dos amigos, e deixo-os livres para, quando quisererm, de vez em quando, passar aqui para ver o que eu ando aprontado, e me deixar um beijinho.

Se de sua parte você quer continuar recebendo as postagens quase que diárias do blog, então faça-me saber e eu o re-incluo na lista!
Lembrando que o endereço do blog é flagflavia.blogspot.com.br e o meu endereço de e-mail para que você possa solicitar sua re-inclusão é flag.flavia@gmail.com.

No mais, um beijo enorme e meu agradecimento a todos vocês que assídua ou bissextamente tem me acompanhado na jornada,

Flávia Galvão.

11 de nov. de 2010

Ich, Gregor Samsa

Você sai do Brasil rumo ao desconhecido, numa grande viagem eno-gastronômica que ainda por cima vai te dar status, e lá, quando você está passeando, bebendo todas e pegando todos, algum infeliz resolve ter o mau gosto de ficar doente.
No início você é solidário e pergunta sempre se este membro precisa de alguma coisa. Traz até comida e água para ele.
Depois, começa a se perguntar o que essa criatura faz aqui se não tem condições pra estar aqui.
Depois, começa a evitá-la. A doença do outro é coisa da qual sempre convém passar ao largo.
Até que um dia, não fosse a luz incômoda, sob a porta, você quase esquece que ali mora anjo que se chama, que se chama solidão
E uma hora dessas ao abrir a porta, Mirellla, a camareira, descobrirá que não existe no quarto, senão um inseto, grande, desforme, nojento, ao qual, felizmente, pode-se esmagar com um pisão.
E quem poderá culpa-los?

7 de nov. de 2010

DIA 30 - Finda o primeiro mês

Costigliole D'Asti, 07 de novembro
Domenica

Só acho que para quem está aqui há um mês, eu já deveria ter soltado mais a voz e estar falando melhor. Preciso de lições de gramática. Logo e muito!

Estava neste momento lendo o blog da grande figura Guilherme Hoffman, um mamute de ternura, com quem tenho o prazer de conviver aqui... caso você queira saber outra versão da história, vá lá:  http://www.paladarepedalar.blogspot.com/ . Fora que esta peça está desde julho pedalando pela Europa...

E lendo o blog dele foi que me dei conta de uma coisa: já não preciso ser tão rígida. Desde que cheguei, venho me obrigando a escrever diariamente. E quando passei um tempo sem escrever, fiz anotações e fiquei dias correndo atrás de ficar quites com as datas que não preenchi. Isso foi importante porque criei a "sistemática do blog" e como tenho dificuldade com sistemáticas em geral, precisei ser rígida, para dar certo, e nem notei.

Mas hoje, com a leveza do blog do Momoto, que já está na estrada há algum tempo mais que eu, decidi que vou parar com essa vida de "ai! o blog!". Isso aqui, afinal, não é uma obrigação. É, antes de mais nada um registro de experiências de que quero lembrar para sempre, e um compartilhamento delas com os meus mais próximos.

Assim, doravante, se minha já instalada sistemática permitir, dar-me-ei o direito de escrever menos.

Hoje, por exemplo. foi um dia ótimo. Fiquei por Costigliole com Marcos o dia inteiro aproveitando o Festival, que estava bem mais frequentado. Havia trupes, feira de alimentos artesanais, degustação de grapa e vinho, muita gente, muita criança, trufas, teatros... muito legal. Me senti bem feliz por estar aqui tendo a oportunidade de transitar like a rolling stone por isso tudo.

As fotos estão na máquina de Joana, porque a minha deu tilt... depois ponho, porque são lindas...

Renata chegou à noite! Pusemos as fofocas em dia, e agora, cama!

DIA 29 - Epifania

Costigliole D'Asti, 06 de novembro de 2010
Sabato

É, gente boa. A gente vai andando sem pensar bem em onde vai chegar. Em algum momento, peguei essa estrada para a Itália. Sabia que ia pra a Itália. Mas não sabia bem o que era a Itália, porque para mim, este lugar não era ainda uma experiência.

Agora é.

Hoje foi um daqueles raros Momentos Cajuína onde a gente responde: ah! é pra isso! à questão: existirmos, a que será que se destina?

De ontem até segunda-feira, está rolando por aqui o Festival do Barbera D´Asti, vinho DOC produzido com as uvas Barbera, DOC P plantadas especificamente nos vinhedos desta região. 

Antes de prosseguir, um parêntesis, se acharem por aí, tomem o Barbera D´Dasti da Cascina Castlet, aqui custa 10 euros a garrafa.

Bem, além de um programa cultural, feiras de produtores, todos os restaurantes da região estão fazendo um menu degustazzione  a 15 euros, incluídas duas taças do Barbera, rosso ou bianco.

Ontem, dada a tensão da semana, a irritação com a escola, o cansaço do dia, decidi não ver o movimento. Resolvi deixar para hoje, o meu flanar.

Assim, acordei tarde e ainda fiquei na cama até três da tarde, atualizando o blog, escrevendo e-mails, e só saí dela porque não aguentava mais a fome...

Já acordei decidida quanto ao que ia fazer hoje. E impressionada porque nem na escola e nem na cascina ninguém falava a respeito. Mas EU sabia o que ia fazer.

Prossegui célere em minhas atividades do dia com a objetividade e calma de quem sabe exatamente o que vai fazer. Comi pão com azeite (me sinto o Telêmaco quando faço isso, que, aqui, é, todo o dia!), e fui para o subsolo lavar roupa, e fiz minhas unhas neste meio tempo. 

Os programas para a noite do pessoal aqui se dividiam entre: balada em Neive ou estreiar a churrasqueira de Caio. 

Declinei e segui, incólume.

Comecei a me arrumar. Meia calça comum, meia calça térmica preta, body, segunda pele preta, suéter justo de lã preta, bota preta e: saia rosa! Meu chale preto de lã de alpaca que comprei na Recoleta, em Buenos Aires preso com o "pinche" também porteño, mas da feira de Santelmo, de latão trabalhado,  em forma de camafeu. Perolinha na orelha, rímel nos olhos (porque hoje é sábado) e meu bonezinho friburguense de veludo cinza, minhas novas luvas de pelica preta que me fazem sentir muito européia, e, quando estava escolhendo o anel (que acabou sendo o de prata com madrepérola rosa), a Canadense 1 surge e informa que vai comigo. Tá então, né. Fazer o que?!?

Ao descer, encontramos Guilherme, meu conterrâneo, que me faz um lindo elogio: nossa!!! parece a Lapa no Piemonte. 

O cenário para a estréia da churrasqueira estava montado, já tendo até saído uma ótima linguiça. A canadense balançou.  Quando olhamos na direção da rua, uma névoa nos impedia de ver o portão, ao que, a canadense, em sua vozinha de gato: what if we stay?? Eu não titubeei: feel free to stay! I´m fine!! Go girl, to eat a brasilian barbecue, e, fui!

Caminhava eu pelas brumas do bosque de Costigliole (minha mãe teria um treco, se me visse!!) ouvindo o som de meus passos e a voz de sir Mick Jagger entoar Wild Horses, quase achando que era em minha homenagem. 

Subi vagarosamente por dentro da névoa que cobria os 109 degraus que me separam da rua principal de Costigliole e, caí direto numa cidade muda, cheia de carros estacionados, mas com pouquíssima gente na rua. Não é a idéia que tenho de um Festival...

Passo para dor um alô ao querido Alessandro e sigo para o Teatro Comunale, onde vi, no cartaz, ontem, acontecerá um espetáculo teatral às 21 horas. 

Entro rápido para fugir do frio (minha lã de alpaca pra cá, é pouco), e sou jogada dentro de um pequeno teatro aconchegante com afrescos medíocres como devem ser os afrescos de um teatro de uma cidade deste tamanho, mas tão singelos, que me deixaram feliz. As cortinas da platéia, assim como as poltronas, eram de veludo verde e a cortina do palco era de veludo vermelho, com debrun convenientemente dourado. 


Pouca gente, era cedo. Pessoas mais idosas, todas. Um casal com uma bambina.

Comecei a fotografar o teatro, que foi se enchendo vagarosamente. No geral, pessoas mais maduras, não necessariamente idosas, e algumas mais jovens, também. Os homens muito elegantes em seus ternos escuros sob seus sobretudo e as mulheres com a clássica combinação meia calça chique, saia, e as famigeradas botas. E seus cachecóis que elas empunham tão bem. Torço para não estar fazendo feio com minha indumentária Lapa no Piemonte.

Notava-se que a ocasião ensejava encontros. Dois senhores elegantes sobem ao palco para agradecer à Comune, as presenças, e para anuciar a mezza stagione 2010/2011 que se inicía em 27 de novembro e vai até março com dez apresentações de música, pantomima, Moliére, pois é tempo di teatro, musica, cinema, gastronomia e art figurative!! Adesso, o Concerto di Giorgio Conte!!!

Ué, mas não era teatro??

Apagam-se as luzes.

Eu tenho verdadeira obsessão por este momento no cinema, no teatro, em que se apagam as luzes e tudo é só expectativa entre um pigarro discreto, o ranger das cadeiras e o barulho das cortinas se abrindo. Ainda que elas não revelem grandes coisas, a adrenalina daquele momento sempre salva a noite. 

Mas não essa noite.

Essa noite é que ia me salvar.

Em primeiro plano, no meio do palco, quatro cadeiras, num discreto semi-círculo. Elas eram de madeira de cor de cerejeira e tinham os espaldares e os assentos forrados com veludo vermelho. As duas cadeiras das pontas, estavam vazias. Sobre os acentos das do meio, repousavam os seguintes objetos: na da esquerda um boneco de neve de pelúcia idêntico ao que minha cunhada, Miriam, trouxe do Texas. Ele é branco meio azulado e carrega uma cartolinha vermelha. Na cadeira ao lado desta, portanto a da direita, um pequeno carousel, da mesma altura que o boneco de neve, com luzinhas, e pequenos assentos de cavalinho, a rodar ininterruptamente. 

Da coxia sai um homem, de preto, que senta na cadeira da esquerda. Pega um acordeón, e se põe a tocar como um possuído uma canção que, no segundo acorde já me fez desabar em prantos. Não sei porque insisto em usar rímel. Ao final desta canção, ele aperta um botão no bonequinho de neve que, como eu já sabia que faria, começa a cantar uma música de natal e a rebolar mexendo a cartolinha. E ao som desta música entra il Signore Giorgio Conte, meio dançando. Até que se senta na cadeira vaga da ponta direita (posição de craques) e pega seu violão. Ele tem a voz profunda, e é difícil para mim, discernir tudo o que diz, mas entendo que ele "não nega que é afeito à chanson française" e fala várias outras coisas, com muito humor, e começa a cantar, e, gente! é um chansonnier italiano! Que pode ser melhor nessa vida? E são duas horas de palavras recitadas, risos e música. E beleza, e tanta beleza que eu, sem um pingo de rímel, me senti tão feliz como não aconteceu desde que aqui cheguei. Destas felicidades que só a arte, a leitura e a música conseguem nos dar. E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou!



E eu entendi, quase que imediatamente, que finalmente havia chegado à Itália. Ao Piemonte. Ao mundo, porque até então era um limbo. 

Finalmente eu estava na Itália. Finalmente me conectei. Finalmente uma sensação de reconhecimento do que desconheço! Finalmente entendi a Itália, pra onde a estrada que tomei me trouxe. Essa que eu vinha racionalizando há dias, sem entender niente! Porque eu sempre preciso do coração para entender. Pronto, obtive em duas horas, doses cavalares de compreensão.

O acordeonista, que, descobri agora, no abençoado google, não toca acordeón, e sim vibrandoneon (o que quer que seja, é lindo de doer) chama-se Valter Porro, era realmente magnífico, e tocou  até Piazzola, só pra machucar meu coração.

Mas mesmo antes de ele tocar Piazzola, ouvindo aquele acordeón, percebendo a harmonia perfeita entre aquele som, a língua, e sobretudo os trejeitos italianos do cantor, eu já tinha feito a conexão com a Buenos Aires dos meus amores, ali representada pelo meu chale de lã de alpaca e pelo meu pinche de Santelmo. 

E il cantante, Giorgio Porro, na verdade, cantautore (esta palavra que mistura cantor/compositor) de 69 anos,   com a voz de um Dick Farney, a interpretação de um Ivon Curi, esbanjou. Esbanjou voz, charme, violão, talento, tudo! Naquele seu chanson de breque.

É dali, digo, é daqui que saiu Buenos Aires. Entendi Benito Quinquella, entendi a vuelta do Rocha, entendi La Boca e o lunfardo, entendi a beleza, o charme e o nariz dos porteños. Entendi até a arrogância. Entendi a comida porteña. Entendi tin-tin por tin-tim, no espaço de algumas músicas. Entendi Balada para un loco. 

E, ao entender mais alguma coisa de Buenos Aires, que me havia escapado até hoje, comecei a entender a Itália. A finalmente experimentar a Itália. Onde aquela estrada me trouxe. 

E agora tenho fome e sede de ver tudo!

É como quando eu li o Abusado, do Caco Barcellos e fiquei dois dias aos prantos tentando reorganizar o mundo na minha cabeça com as novas conexões que o livro me trouxe e que bagunçaram toda a minha ordem mental.

Já tive outros momentos assim. Do clique. Uma coisa que me faz viver o que até então era observação passiva. 

O clique sempre vem da beleza. Já veio de um outro lindo livro, o Cisnes Selvagens, Chang Yung. Já veio da revelação da cidade de Recife. Já veio do impacto da beleza da China em outra ocasião, quando fui à exposição dos Guerreiros de Terracota, em São Paulo. Já veio da beleza de descobrir que o Rio de Janeiro não era o Centro do mundo (e foi tarde que descobri isso). Já veio de outras fortes emoções.

Pois agora, imersa na beleza, finalmente a Itália me deu seu chega-pra-lá, ou pra cá. E aqui estou.

Quando o Concerto acabou, eu quis ir dar um abraço nele, que desceu para falar com as pessoas, na platéia. Sem essa de ir ao camarim... Consegui chegar até ele e disse: Io faccio la cuoca, sono brasiliana! (Sou cozinheira, brasileira!) ele fez uma cara engraçada que só mudou quando eu acrescentei: a ICIF! E ele: pensei que era cocaína!!! E foi assim, rindo desta, que eu fui fotograda ao lado do senhor Giorgio Conte na noite em que a Itália começou a se revelar para mim!

Depois. Bem , tudo que veio depois é pouco. Depois foi Agnolotti Plin ao burro e salvia, com barbera na Maddalena, escrevendo para este blog. Depos foi o caminho de volta sem querer ouvir música, pela cidade deserta e o bosque brumado. Depois foi este quarto e reviver os fatos aqui.

E agora é o sono.

E para vocês, que não são ruins da cabeça e nem doentes do pé, aconselho que vão AGORA ao you tube, ouvir Valter Porro (há algumas entradas) e também, claro, Giorgio Conte. Vi algumas lá: No sono Maddalena (liiinda!), Veille Chanson, Cos'è mai la vita, Marina Vlady, Cannelloni, Com'é bella la luna, Eccomi qua, Un vero acrobata, de profundis, gné gné, e outras...

Buona sera!