Mercoledi
Acabei de decidir colocar os dias da semana em italiano pra ver se assim consigo decora-los. Porque só sei sabato e domenica, por enquanto.
Mas o que importa é que hoje é quarta-feira! E acordei pedindo a Deus que me mate e ao diabo que me carregue.
Claro que acordei ruim, né? Mas o que é uma coluna ruim diante de um quarto mais cheirosinho? É até uma pena porque o cheiro do armário do meu irmão que tinha nesse quarto, de algum modo trazia ele pra mim... note-se que hoje meu irmão é bem mais limpinho do que era na época de adolescência, tá?
Estou tão lenta nessa manhã que chego com uma hora de atraso na escola, pois preciso mancar para andar, aliás, andar não, claudicar escadaria abaixo, ladeira acima, escadaria acima, rua acima (isso aqui parece São Tomé das Letras!) e finalmente o imponente Castello de Costigliole D´Asti. Onde me esperava um dia inteiro (sim! manha e pomeriggio) de aulas de microbiologia.
| 109 degraus... diários... |
Ao chegar na sala de aula magna (uma observação: na placa da porta, sob o dizer "aula magna", se lê: "lecture hall"), o que encontro é um número reduzido de alunos, a tradutora e una donna, já um pouco (peró piu pouco!) entrada em anos, mas, boníssimamente conservada. A signora usava uma calça chumbo bem colada, um cinto da mesma cor com fivela prateada, realçando seu corpo bonito, uma blusa branca de algodão, um casaco de lã modernex cheio de movimentos e amarrações. Num braço, pulseiras que iam do franco cinza ao prateado, passando pelo branco. No outro braço um relógio cinza exatamente do mesmo tom da calça e da bota (claro que ela estava de bota!). Mechas no cabelo bem loiro e um rosto narigudo assustadoramente cor de abóbora, ornado por um delicado e fashion oclinho.... cinza. Uma italiana típica. Mas se me dissessem que saiu direto de Campos dos Goytacazes, eu acreditava. Exceto pelo bronzeado artificial.
A senhora (fiquei sem saber o nome dela) falava olhando para baixo e para o lado, ou, eventualmente para a tradutora, e mais frequentemente de costas para nós. Discorria sobre temas como aditivos químicos, perigos físicos no preparo alimentar, a ameaça do revestimento de t-flon nas panelas, estaphilococcus aureos e coisas do gênero. O assunto é até interessante, mas se há quem faca Chico Buarque ficar chato, você imagina uma pessoa cor de abóbora que fala de costas sobre a salinização e a acidificação como importantes elementos na luta contra bactérias e seus esporos.
Veja bem, após a saída do pessoal do Curso Breve, a turma passou a ter quinze pessoas. A maioria egressa de faculdades de gastronomia. Dois deles alegaram que por este motivo não precisavam de aulas de microbiologia. Ficam 13. Três meninas decidiram que ir passar o dia em Torino era muito mais aprazível que ir pra aula. Ficam 10. Uma, com quinze minutos de aula, resolveu que a cama dela era mais instrutiva e foi embora. Não julgo o mérito de nenhuma das questões.
O caso é que dos nove que ficaram, havia sempre dois ou três no banheiro, o que deixava a sala reduzida a seis. Desses seis, um sempre estava na fileira de cadeiras mais altas, escondidas, deitado dormindo. Dos cinco que restaram, um deixou a mochila e até agora não se sabe para onde foi, tendo voltado apenas na hora do jantar para resgatá-la. E desses quatro abnegados entre os quais eu me incluía (jamais pude resisitir a uma pessoa abóbora toda combinada falando o que quer que fosse, fico meio hipnotizada, deve ser algum tipo de perversão), dois resolveram descobrir onde era um tal jardim suspenso que dizem haver aqui no Castelo. Soube depois que conseguiram.
Assim, na sala, ficamos dois alunos "fixos" (eu e Caio, uma figura que merece mais tempo para ser descrita) e dois itinerantes que, ou estavam no banheiro ou dormindo de boca aberta diante da Signora Zucca. Para espantar o sono, senão ia ficar feio, eu e Caio resolvemos perguntar. Perguntar tudo. Muito. Inclusive utilizamos aquele método milenar em que o professor diz alguma coisa, qualquer coisa, como "então, a bactéria é azul" e a gente grita surpreso, como se finalmente houvesse entendido a verdade da vida: ahhh! azul?! Ou ainda: nossa! mas como aconteceu de ela ficar azul? E assim o tempo foi passando.
Ao final da aula tinha o que, o que, o que??? Mise en place!!! E o grupo de quem não estava, não estava, não estava? Vou te contar, viu... Resumindo, ficamos para mise-en-place, eu, Caio e as duas itinerantes... pra fazer as mise-en-place de três receitas magnas e três práticas. Saí do Castelo um trapo, mancando horrores. Felizmente Marcos havia me esperado e trouxe para mim a bolsa com água, pão e sabonete que eu precisava comprar pra mim. Comprei também um desses trecos que a gente gruda na pele e que vão soltando um antinflamatório pra pôr na coluna, no bumbum e na perna, pra ver se ajuda.
Chegando à Cascina constatei que a canadense malade continuava malade. O aquecimento bombando, o cheirinho retornando, e, diante da provável hipótese de que seja um rotavírus, decidi não ficar no quarto abafado com ela. Até porque estava uma noite pouco fria (nunca pensei que ia dizer isso, mas 13 graus aqui, eu tenho tirado de letra) convidativa.
Foi o tempo de tirar a calça do uniforme, por meu short de moleton por cima da meia térmica, uma meia grossa (o chinelo não entra no pé com tanta meia, então resolvi descer assim mesmo) no pé e o casaco da Taco do Mau, que eu trouxe. Coloquei numa sacola várias coisas de que ia precisar nessa noite em que eu só voltaria para o quarto quando não tivesse mais jeito: martini bianco, cereja de verdade, pão, azeite, flan de caramelo (a que ponto uma pessoa chega...), um pen drive, baralho, o computador, o celular e a máquina fotográfica. Hum... parece bom.
Instalei-me de pernas etsicadas em outras cadeiras para ficar um pouco no computador, minha idéia era atualizar este blog, mas o povo foi chegando e se tornou impossível. Um animado torneio de ping pong extreme (aquele em que os jogadores ficam todos rodando em volta da mesa!) garrafas com todas as bebidas que se pode imaginar,e me rendi, larguei mão do computador e catei meia dúzia de três ou quatro pra aprender a jogar Scopa.
| Scopa, vinho e salame trufado. Caio já mestre, ensinado para Pavel, Duchan, Aline e Amanda; |
Scopa. Meu amigo italiano, Marco Ulgheri, um dia apareceu em minha casa, quando eu morava no sítio, com esse baralho, que alguns conhecem por baralho espanhol, e aqui se chama baralho napoletano, e nos ensinou esse jogo que parece uma sueca, e é totalmente viciante. Ele me deu o baralho dele, e eu me lembrei esses dias de que aqui deveria ter outros para comprar o que além de ser bem útil para mim seria um ótimo presentinho para dar a amigos, na volta.
Scopa. Não prestou. O povo tomou gosto e Chico Quelemente, com todo o seu pulmão, gritou pro sanfoneiro: ô me toque o baião!
Um dos nossos, o que sumiu no meio da tarde chegou com um violão que ele comprou em Asti, hoje mesmo. E de repente aquilo parecia até o refeitório de um... alojamento estudantil.
Foi bem divertido. Voltei para o quarto às três, fui tomar banho, colocar tudo no lugar para não ficar desmoralizada e acabei indo dormir mais de quatro da manhã.
Ora francamente. Meus pais vão ler isso e dizer: ei! você tá aí pra estudar, foi muito caro isso. Ao que eu, citando Isabel Allende responderei: Peralá, a cortesia nunca atrapalhou a anarquia!
Ah sim! Ao chegar no quarto de volta, havia várias ligações perdidas e uma mensagem de Renata pedindo para eu ligar... xi....
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