Puxa uma cadeira, e relaxe...

13 de ago. de 2011

Pandora às avessas


Querido Caio Zakia,

Vou contar para você uma pequena fábula.

Há uns meses atrás, pela internet, comprei uma antena de TV a cabo para a casa de meu pai. Essa antena deveria ter sido instalada logo, porém esse, desde o começo, tem sido um ano muito conturbado para mim. E em geral por razões desafortunadas.

Primeiro, todo o suplício de minha coluna. Depois, o difícil percurso da recuperação física e psicológica pela interrupção de minha viagem e de meus planos. A seguir, um problema sério de doença na família, que me mobilizou muito. Por fim, no sábado passado, perdi um amigo, e, como se isso não bastasse, durante esta semana, fui injusta e duramente agredida por alguém próximo, de meu convívio, que se dizia amiga, coisa que é sempre um desgosto, para quem, como eu, valoriza as pessoas, antes de qualquer outra coisa.

Toda pessoa, depois de morta, vira santa. Mas este amigo que morreu era de fato uma pessoa maravilhosa. Sabe o homem em que se transformou o Menino Maluquinho, no fim do livro do Ziraldo? Pois então, assim era o André. Querido, amigo, próximo, boa praça,  um homem bom, útil e feliz, que foi morto na porta de um shopping, com três crianças dentro do carro - uma das quais, sua filha, de 4 anos - quando ia comprar um lanche para a família. Durante esta semana, senti toda a dor do mundo, dor pela minha vida complicada, pelas minhas irrealizações, pelas minhas perdas, enfim, por uma semana inteira me senti miserável.

Voltemos porém, àquela antena. Eis que as coisas já iam entrando no lugar e finalmente chamamos o técnico para proceder a instalação, e hoje, sábado, o dia marcado, ele veio à casa de meu pai. Foi então que o telefone começou a tocar e quando eu atendi, era papai, muito bravo, querendo saber  onde estava a antena, ao que eu respondi: ora, foi você que buscou no correio, lembra-se? Ele então me disse: sim, mas na caixa onde devia estar a antena, tem um monte de garrafas com água!

Entre irritada e perplexa, desci a ladeira a ver que brincadeira era aquela, já maldizendo o vendedor do Mercado Livre que me havia enviado garrafas no lugar de uma antena de TV. Lá chegando, havia sobre a mesa uma caixa de sapato, e dentro, de fato, quatro garrafas de água mineral com pedrinhas, e na tampa, o seguinte texto, ipsis literis::

" Nestlè Primavera - Neve do Etna
  Natia - Capri
  Panna - Amalfi
  Cavagrande - Marsala

Desculpa mandar assim, mas achei mais seguro na garrafa de plástico do que em garrafas bonitinhas de vidro.
Saudades
Beijos
Caio "

E, desabada em choro, fui empurrada aos trambulhões por um túnel do tempo. E vi você abaixado, com as calças arregaçadas, pegando pra mim água do Lago di Como, já que, por causa da minha dor, eu não podia ir até lá. Depois, você, em situação semelhante, no Lago di Garda, possibilitando que eu trouxesse para a minha pequena coleção de "águas do mundo", a água daqueles lugares. E como no fio de Dom Casmurro, o túnel prosseguiu e me levou imediatamente a 20 anos atrás quando André Luiz, meu amigo querido, morto há uma semana, tocava a campainha da casa de minha mãe às 6 da manhã, para ir comigo caminhar no aterro porque EU precisava fazer exercício,  e numa dessas, o mesmo André coletou para mim, água da Praia do Flamengo, a primeira da coleção, que infelizmente já não tenho mais. Depois íamos para a casa e ele me fazia café da manhã enquanto eu me arrumava e então ele me levava à escola, antes de rumar para as próprias atividades.

Neste tempo em que tenho estado aqui por essa terra, vivendo, tenho certeza de que eu valho, unicamente, pelo que posso deixar de mim, nas pessoas. Pelas marcas que deixo nelas, pelas marcas que elas deixam em mim. Essa semana foi de desvanecimento dessa sensação, ao ter um amigo morto, e ao ser emocionalmente morta por outra "amiga". Estava mesmo desalentada.

Mas aí, no lugar da antena, redentora, a caixa. E na caixa, as garrafas. E nelas, água para mim. Água de lugares onde eu certamente teria estado com você, se não precisasse ter voltado. E nessas águas, toda a comoção de saber que eu estava lá contigo. Toda a comoção de saber que se perdi algumas das minhas marcas no mundo, sou marca inequívoca na sua vida, como você é na minha. Naquela água, toda a comoção da certeza de uma amizade. Que é no fim, pelo que vale a existência.

Água para quem tem sede. Caixa para quem quer antena. A caixa que o tempo guardou ali sobre uma arca, travestida de equívoco postal, porque era hoje, precisamente hoje, que eu tinha que recebe-la.

Apenas abri uma caixa, e nela estava tudo, como num mercado persa: neve do Etna (eu tenho neve do Etna!!!!), Capri, Amalfi e Marsala. Além disso, naquela caixa, o sentimento de FINALMENTE ter finalizado aquela viagem, um jeito de enfim encerrar uma etapa tão dolorida. Naquela caixa, a restituição da amizade, e portanto, de meu valor. Naquela caixa, a sensação de alguma ordem, nessa vida complicada e insegura.

Como se agradece por isso? Como?

Flávia

p.s: a antena? não faço a mínima! mas quem se preocupa com isso?


Eu, André, Ana Luiza e Mônica