Puxa uma cadeira, e relaxe...

17 de mai. de 2014

Roma

Há em minha amada Boca do Mato, um Jequitibá. Ao lado, uma figura que simula um corte na árvore, onde poderíamos ver as várias camadas que foram forjando o seu crescimento. Não me lembro bem da idade daquele lindo Jequitibá, me parece que são mais de dois mil anos,  então, assim como há cinco minutos guardados dentro de cada cigarro, dentro daquele Jequitibá há material vivo que conviveu com os mais diversos acontecimentos… as setas poderiam apontar: nesta camada nasceu Jesus, nesta, os índios que aqui viviam fizeram uma grande festa para saudar seus deuses, nesta, Leonardo Da Vinci pintou a Monalisa, nesta outra, Cristóvão Colombo chegou à America, nesta, os índios que aqui viviam vieram se abrigar na floresta da perseguição dos brancos, esta outra camada testemunhou um Quilombo, e assim por diante.

Do mesmo modo me impressionam aquelas pesquisas que se fazem em blocos de gelo tirados da Antártica. Ali está a água e portanto o oxigênio que toda essa gente respirou, os dinossauros e todos os bichos que não mais existem, ali, guardados dentro de um bloco de gelo.

Não sei você, mas eu, quando lido com essas informações, desaprumo.

Essa coisa, a alteridade.  “Não sou eu nem sou o outro”, ou antes, o Eu que só é possível diante do Outro. A dissolução do Eu. Toda essa coisa.

Mas aí tem Roma.

E Roma, meu amigo, é mastigar o gelo da Antártica e morar dentro do Jequitibá de Boca do Mato. É tudo ao mesmo tempo agora. É quando você entende que não é niguém mesmo, ou pior, que tanto faz quem você seja. A complete unknow, like a rolling stone.

Roma dá medo e incomoda.

Pela primeira vez na Itália, receio pela malícia dos marginais. Impressiono-me com a legião de  flutuantes na rua, os que dormem lá no Brejo da Cruz. Os imigrantes que formam comunidades à parte e parecem ser regidos por suas próprias leis. Todas as línguas que ecoam desde que no Mercado de Trajano já se negociava a seda em árabe, turco, latim, hebraico, e que ainda hoje se fazem ouvir, como se os resquícios dos monumentos só fizessem sentido porque ainda hoje habitam aqui todos aqueles povos.

Roma não é dos romanos. Os romanos não existem porque ninguém aqui é alguém. São todos humanos nas camadas do jequitibá. Demasiado humanos.

Minha alma indelevelmente carioca se assusta com tudo isso. E gostaria de passear por aqui de canga e biquini, só para me dar alguma identidade.

Alteridade.

Aos diabos com essas besteiras de “museu a céu aberto”. Às favas que “aqui o novo convive com o velho”.  O único bordão que talvez faça algum sentido é atribuir o adjetivo Eterno, a esta cidade.
O eterno é aquele lugar dionisíaco onde não é possível existir. O eterno é a moréia mordendo calcanhar de Schoppenhauer.

As únicas pistas sobre Roma, dentro de minha limitada cultura, estão - e só agora sei - em Rossellini e Pasolini.  E para uma compreensão um pouco mais afetiva, há sempre Fellini. Mas eu não sabia! Não prestei atenção! Há de ser rever tudo, a buscar qualquer coisa. 

E então percebi que todo este percurso me levou a este lugar fundamental: o da não existência. E resolvo nela imergir, sentar-me-ei encostada nos tijolos mais sujos daquela muralha marrom e transitarei por todas as eras da civilização à qual pertenço, tocando suas pedras, chorando seus mortos, as pestes as inundações, gritando como Nero enloquecido só para saber se de fato pertenço.  Só para saber que pode haver no jequitibá de Boca do Mato uma seta que aponte e assinale: aqui nasceu, viveu e morreu Flávia Gomes Galvão de Queirós. Só para ter um lugar. Só para dar comigo mesma andando por ali pelo Trastevere, distraída.

Não sei ainda se gosto de Roma. Preciso antes me recuperar do soco.



* Este texto é parte de meus  “Diálogos Europeus” com Mônica Carvalho, minha amiga eterna como Roma.