Puxa uma cadeira, e relaxe...

23 de dez. de 2010

DIA 75 - Ai uíxi iu a mérri crismas!

Govone, 24 de dezembro de 2010
Giovedi

Eu sei, dessa vez exagerei na ausência!

É que eu precisei me adaptar ao ritmo do estágio, coisa que na verdade ainda não aconteceu. 

Além disso fiquei muito desanimada com a expressiva depreciação de meu já combalido quadro de leitores. Sim, uma semana após o início do estágio desembarcou aqui tia Zuleica. De mala, cuia, e uma amiga à tiracolo. E vejam vocês que a amiga também era uma minha leitora!

Não obstante eu não ter escrito, este blog esteve sempre presente no meu cotidiano, pois além das auto-cobranças para me dedicar a ele, notei que meu pensamento está meio formatado, porque muitas vezes ao dia penso que esta ou aquela situação são dignas de nota, e eu penso como se estivesse escrevendo aquele assunto. Aí eu digo: preciso pôr isso no blog! Só que quando finalmente paro para escrever, nada de criativo e brilhante me ocorre, senão contar de meu fastidioso cotidiano. E aí digo: preciso de um caderninho! Providenciei um. E quando vem a próxima idéia, digo: ah! essa não preciso anotar, claro que vou lembrar! E quando vou escrever, claro que não lembro.

Fato é que muito há para contar. Tenho já muita coisa escrita, mas, vamos por partes! Essa postagem tem a finalidade principal de dizer que estou viva e com saúde, embora não esteja sentido bem as extremidades... a temperatura tem sido de 7 graus negativos...

E queria também aparecer antes do natal!

Sim, porque ontem fui informada de que já era dia 23 de dezembro. Pasmei! Nem notei que era natal! Nunca me aconteceu isso na vida. 

Os filmes, os livros, as propagandas, nos fazem associar natal à neve.  Como se lá, naquelas terras longínquas onde há neve é que residisse o tal do espírito natalino. Lá naquelas terras é que é natal... lá que tem o papa, lá que faz sentido a Missa do Galo, lá que tem chaminé para o Papai Noel descer.

Bom, cá estou, numa cidade medieval. Quando olho pela janela, parece que estou em um cartão de natal, várias casinhas amontoadas com seus telhados nevados e chaminés por onde saem suaves ondas de fumaça. E eu nem me dei conta de que é natal, salvo por um delicado enfeite de madeira que fiz questão de comprar e pendurar na minha cama. 

Precisei vir pra cá, pra neve, pra terra longínqua onde prometeram que o verdadeiro natal estaria, para notar que natal deveria ser quente como o dezembro carioca. Natal é aquela movimentação alegre e nervosa da rua do Catete. Natal são até os engarrafamentos humanos no Rio Sul. Natal são os 
supermercados cheios. É o bolinho de bacalhau da minha mãe. É embrulhar os presentes cuidadosamente, ver esses presentes serem abertos. Planejar a ceia. Escolher a mensagem que leremos juntos na noite do 24. Natal é comer peru ressecado no 25. 

Que neve, que nada! Não me conformo com as pessoas andando civilizada e calmamente pelas ruas, sem sequer se esbarrar. Não é possível que todas elas tenham se lembrado de comprar fios-de-ovos! Não é possível que nenhuma delas precise correr para comprar o último pão de rabanada da cidade! Então eles não sabem que natal requer esbarrões na rua a fim de cumprir essas finalidades tão nobres?? Onde estão aquelas  luzinhas horrorosas e desencontradas poluindo a cidade? Onde está aquela confusão para planejar que refeição fazer com que família? E para encaixar filhos, amigos, netos, vizinhos, sogras, cunhados, todo mundo, nisso que é o natal? Não é possível passar pela véspera do Natal com a fleuma dessa gente! Minha vontade é sacudir todo mundo e gritar que é natal! Lá de onde eu venho, dezembro tem uma coisa no ar. Não se vê restaurantes vazios. Há fila para toda e qualquer coisa. Não se marca NADA para o mês de dezembro, porque está todo mundo muito atarefado com o natal! o mês é oficialmente reservado para os preparativos e comemorações pertinentes à data.  E além de tudo, tem aquela sensação de que está acabando o ano e que ele só recomeçará em março!

Aliás, quanto a isso, veja bem, dá na mesma. Só que a gente paga à vista esse recesso, é um recesso assumido! Eles pagam em prestações, as tais horas vagas da siesta, no pomeriggio, além das segundas feiras em que nada abre. Se a gente for somar, o tempo de recesso deles é bem maior que o nosso!

Enfim, nada aqui me faz perceber nem de longe, que hoje minha gente, é natal!!!

No fundo é melhor que seja assim, porque se aqui fosse como no Brasil, eu ia me sentir ainda mais deslocada e talvez até um pouco deprimida.  Do jeito que a coisa caminha, só vai ficar a sensação estranha de que me roubaram um natal...

Mas enfim, é natal! E como se diz aqui: Auguri!!!


11 de dez. de 2010

DIA 57

Costigliole D'Asti, 6 de dezembro de 2010
Lunedi

Acordo no silêncio de uma Cascina Salério quase desabitada. Estamos aqui somente eu, Renata (que chegou ontem à noite), Thaís e Gilli, os remanescentes. Todo mundo está tristíssimo por ter que ir, por se separar, pelo silêncio. Mensagens de pesar pululam no Facebook.

Por alguma razão, estou tranquila. Fiz alguns amigos aqui e sei que estes eu vou levar pra sempre. E quanto aos outros, a quem não me sinto tão vinculada, sei que vou ficar feliz sempre que nos encontrarmos de novo. Justo eu, que fico péssima em despedidas, estou bem calma em relação a estas.

Estou ansiosa pela próxima fase, a nova comune, o restaurante, o meu trabalho, as coisas que vou aprender, as pessoas que vou conhecer, tudo o que vou ver.

E além do mais, felizmente, tenho tanta coisa para arrumar, que não consigo pensar muito em coisas que poderiam me fragilizar. Fora as coisas estranhas que vem acontecendo comigo.

Somente Miss Marple poderá me ajudar. Depois do estranho caso da constelação desaparecida, estou sendo assombrada pelo estranho fenômeno das tralhas crescentes, ou, da mala decrescente.

Senão, vejamos.

Eu vim para a Europa portando duas malas, cada uma com 24 k e uma bolsa de mão.

Comprei uma terceira mala, a fim de utilizar uma das que trouxe para expedir para o Brasil algumas coisas como objetos e roupas absurdas que eu não sei porque trouxe, pois jamais poderia usar aqui (como o meu vestidinho de voil de algodão, verde de alcinha!), vinho, e coisas que comprei para a degustação que vou fazer quando voltar. Esta mala já está arrumada.

Aí, tudo o que eu tenho, em tese, deveria caber na outra mala que trouxe e na que comprei. Mas aí é que entra a Miss Marple, pois até este momento tenho, além da mala abarrotada que vai para o Brasil, duas outras,  igualmente abarrotadas, uma bolsa só de sapatos e mais duas cheias de coisa, fora a minha mochila com computador e afins e minha bolsa.

Eu não sei. Se estivesse calor, eu diria que tudo se dilatou. Será que foi o aquecedor do quarto?

O pior é a vergonha que vou sentir amanhã quando o Chef Andrea vier me buscar (e ele com certeza terá um desses carrinhos mínimos que eles adoram, aqui) e vir a mim, minhas malas, bolsas, mochila, e Renata, a tiracolo.

Decido deixar pra fazer isso amanhã. Vou dormir com o aquecedor desligado, quem sabe as coisas desincham...

Miriam, minha super cunhada! Alguri procê nesse aniversário!

DIA 57

Costigliole D'Asti, 5 de dezembro de 2010
Domenica

Então era tudo mentira. Que nem o campo magnético. Acordei para ir ao banheiro e fui dar uma olhada na noite. Céu limpo... estrelas... que lindo... a via láctea... as três marias... OPS! pera... as três marias? Desci. E lá estava, clara como uma noite fria, a constelação de Orion inteirinha. E aquelas duas que ficam perto e aquela outra que parece uma setinha engruvinhada. E a Ursa Maior polar?? E as outras estrelas que eu ia ver??? Será que tudo isso é um grande Show de Truman e eu fui mandada para algum lugar perto da Nicarágua e tudo isso que me acontece não passa de pegadinha de um programa imbecil, tipo João Kleber??? Eu quero JÁ um céu diferente pra eu olhar!

Ursa Maior: Procura-se esta constelação.


Subi correndo. Enchi a pia de água e fiquei olhando a água descer... e ela desceu igualzinho a como desce na minha casa! Como é que pode minha gente? A vida inteira esperando pra ver o redemoinho anti-horário na pia. É isso, eu tô na Nicarágua. Eu não sei se vou aguentar tamanha desilusão. Vou deitar desolada, e quando finalmente durmo, sonho com supernovas e com o Marcelo Gleiser e ele ri, um riso de hiena escarnecendo de mim.

Acordo meio tonta, sem saber onde estou, com as costas doídas de tanto ficar deitada. E são três da tarde.

Recuso-me a sair para esse céu enganador. E por isso faço greve. O céu hoje não vai me ver. Vou ficar no meu quarto. Vou fazer minha unha. Fazer minha sobrancelha. Arrumar minha mala. Cuidar da minha vida.

A gente sabe que as coisas vão mal quando não pode confiar mais nem nas leis da física.

Ah... parabéns, Corintinho!

9 de dez. de 2010

DIA 56

Costigliole D'Asti, 4 de dezembro de 2010
Sabato

E hoje é dia de inflitração!!!
Antes de ir para Alba, me despeço de Joana que segue hoje para Paris, antes de voltar para o estágio. É triste, mas sei que nos veremos logo.
Parto feliz, mas apressada, nessa manhã fria após madrugada de neve para Alba, onde me esperava o dottore Curto com seu bigodinho e seu indefectível tom de pele cor de abóbora muito harmônico com o acaju do cabelo. Grande figura, o dottore Curto. Ele acha que além de gringa, sou surda e fala tudo gesticulando muito e muito alto e pausadamente. Vai dar muito trabalho explicar que ele pode falar normalmente, então fico olhando com uma cara de quem está se esforçando muito. Pra ele não ficar decepcionado.
Hoje tudo é bem rápido, pois já conheço a rotina, em 20 minutos, acabou o procedimento, que dessa vez foi um pouquinho mais dolorido. Segui para o centro de Alba, a fim de olhar as modas à caminho da estação, sacar dinheiro e tomar um chocolate quente, pois não deu tempo de tomar café, e quando salto do táxi, quase congelo. Mesmo. De novo. Uma semana depois, e de novo estou no mesmo lugar, congelada.  É impressionante como Alba é fria. De novo não tenho mais como e nem pra onde voltar. Preciso seguir em frente e ir até o final da longa e estreita rua apinhada de gente, lojas e tendas com os mais diversos abigliamentos. O vento vai arrancar o meu nariz, eu juro que vai. De novo.
Adoto novamente o procedimento de ir entrando em loja por loja para tirar uma casquinha do aquecedor . Cada vez que eu saio, o frio é pior.  Não consigo pensar. Vejo então no termômetro verdugo que faz menos um grau. Fui informada que no auge do inverno a temperatura comum é de menos quinze. Preciso tomar uma providência, senão vou ter uma hipotermia na Itália! Meu nariz começa a sangrar, minha boca, já rachada, recebe um corte e sangra. Então saco meu cartão do bolso e vou resolver o caso.
Adiquiro então um casaco de lã, mas que não é essa lã em linha, ele é muito pesado, preto, e, o que é melhor, tem uma gola que vai até a metade do rosto, se eu quiser usar assim. Compro também uma malha de cashmere que ponho por baixo do casaco. E tudo parece muito melhor, mas ainda muito gelado. De modo que sigo andando, doida pra chegar na estação, quando numa vitrine me sorri uma caixa com um livro e 15 cds de Maria Callas, por 35 euros. Não pude resistir. Mas depois disso abaixo a cabeça, sigo pra estação e venho embora!
Já em Costigliole, uma passadinha no mercado para adquirir víveres que garantam meu conforto no fim de semana como... água, pão, chocolatte e prosciutto!
Chego então à Cascina, que parece meio abandonada e silenciosa como nunca vi.
E vou dormir. Acordo quase nove da noite, com fome, vou até a Maddalena comer e ver como Marco está se saindo nesse primeiro dia de seu estágio por lá, e vejo que ele está adorando, sendo muito bem tratado e aprendendo muita coisa que vai ser muito útil para os projetos que tem. Espero o fim do expediente dele, à meia noite e voltamos conversando para a Cascina.
E durmo, com aquela sensação de fim de história, na expectativa dos novos começos.

DIA 55

Costigliole D'Asti, 3 de dezembro de 2010
Venerdi

E é isso. Fim. Mas antes, tenho esse dia inteiro pela frente.

Você sabe que hoje é a prova, né? Prova final... Pois é... pois pra mim, como sempre, caiu a única categoria de comida que eu não estava nem um pouco a fim de fazer: Peixe.

Mais precisamente Triglie alla Livornese. É, trilha, aquilo que a gente come aí, em qualquer birosca, um pouco maior que a manjubinha. Aqui ela tem a mesma aparência rosinha e chinfrim, mas é maiorzinha.

A mim, trilha é uma palavra que remete a sábados ensolarados depois da praia, em Copacabana, voltando pra casa com meus primos e dinda Marina, mas parando antes para petiscar na Adega Del Rey... foi lá que comi trilha pela primeira vez. Mas aqui, a coisa é mais séria. Como o nome diz, é um prato típico da cidade de Livorno, na Toscana. A trilha, na verdade é um símbolo da cidade. Consiste em filés bem limpinhos de trilha, os quais se sela rapidamente com a pele para baixo numa frigideira bem quente com pouco azeite, sem virar. Aí serve-se com um molhinho ao sugo, caprichado na salsinha. Sugere-se batatas, de acompanhamento.

Eu decidi dar uma ousada, porque afinal era uma prova e acho que sempre se espera que um cozinheiro seja criativo.

Resolvi fazer filés perfeitos, fiquei mais de uma hora filetando e retirando todas as espinhas com a pinça, tomando cuidado para não machucar a carne e nem romper a pele. Reservei na geladeira. Com as cabeças e a espinha, cenoura, cebola, alho porro, aipo e pimenta do reino, improvisei um brodo de peixe bem honesto.

Parti para o contorno. Para ninguém dizer que descaracterizei o prato, torneei umas batatinhas e cozinhei na água salgada até ficar al dente, esse ponto que eles adoram, e eu também, mas que um brasileiro em geral  acharia cru.

Decidi então fazer um molho grosso, e não ralinho, de tomate e deixa-lo picante para contrastar com as echalotes caramelizadas que eu queria servir.

Como já contei antes, eles não são muito de cebola aqui, sobretudo não são nada de cebolas cuja textura crocante se pode sentir. Assim, considerando que eu já ia servir echalotes na guarnição, para não irritar ninguém, para o molho, cortei cebola roxa e aipo em brunoise bem pequenininha. Pus a cebola para refogar no azeite, písica para não deixar pegar cor, outro crime, aqui. Depois o aipo. E fui pingando o brodo de peixe. Demorou uns 40 minutos até que eu achasse que a textura estava correta. Aí então coloquei o tomate concassé (sem pele e sem semente, cortado em cubinhos) e deixei refogar e soltar água. Quando já estava secando, coloquei vinho branco, esperei evaporar e recomecei o processo de ir molhando com o brodo até o tomate se desfazer. Mais 40 minutos. Então salguei, coloquei peperoncino picadinho com semente e tudo, porque eu queria que ardesse, e a salsinha picadinha, e cozinhei mais um pouco. Reservei.

Parti para as echalotas. Molhei a frigideira com azeite. Coloquei as metades viradas para baixo, quando começou a querer fritar, brodo nelas, até quase cobrir, pra tirar um pouco a crocância e homogeneizar o sabor do prato no todo. Quando já estava quase seco, comecei a jogar açúcar, e pingar brodo. Quando o açúcar ficou caramelo, virei delicadamente as metades para que não se desfizessem e joquei mais açúcar.

A esta altura, chegou a minha vez. Tudo certinho, por o molho para esquentar, passar as batatinhas na água quente, molhar com azeite, e por último, selar a trilha. Aí foi que o barraco desandou. Não sei explicar o que aconteceu. Elas não grudaram, que seria o erro mais previsível, mas quando eu tirava e colocava no papel absorvente, continuavam molhadas, como se tivessem cozinhado no óleo. Isso é típico de fritura em óleo frio. Mas não estava frio, eu tenho certeza, tanto é que não grudou! Não consigo entender o que houve.

Naquelas alturas, o Zé Guilherme, que era antes de mim, já estava no meio da apresentação dele e eu ainda tinha que esquentar a louça e montar os pratos. Não dava pra voltar atrás. Veja, eu só pirei no molho picante contrastando com a echalota adocicada, mudando a textura original do molho, servindo um legume que não é da preferência local e deixando o molho picante, porque concebi tudo isso com a estrela principal perfeita, e elas estavam molhadas. Oh, horror!

Eu tenho essa coisa de quanto mais grave a situação, mais calma eu fico. Então pensei cá comigo "em menos de dez minutos, aconteça o que acontecer, terá acabado, o esculacho vai durar talvez uns três minutos, eu não vou fazer nada, vou ouvir, e em dez minutos terei acabado esse curso e tire quanto tirar jamais terei que voltar a pensar em nada disso".

Respirei fundo, montei os pratos o melhor que pude. E fui.

Entre a sala de aula prática e a sala restaurante onde a banca aguardava o meu já atrasado prato, há o hall do castelo, sem aquecimento, com uma porta enorme deixando passar um ventinho que trazia parte dos ligeiramente negativos graus para o hall, é como se passássemos por um refrigerador rápido, aqui chamado abbatittore.

Quando cheguei na sala, a banca composta por cinco homens em seus ternos escuros e uma senhora, permanecia parada, aguardando. A banca se compunha pelo senhor Massimo Ferrari, sua mulher a senhora Ghiselli Maria, o senhor Giulio Gresele, sócio do ICIF e seu filho, chef, Leonardo Gresele, o senhor Bruno Libralon, diretor do ICIF e o senhor Piercarlo Tealdi, ragioniere, que eu não sei bem o que vem a ser.

Pus os pratos na frente de cada um deles. Eles me perguntaram sobre a história do prato e como eu o estava propondo. Expliquei, resumidamente, tudo o que disse aí acima, da maneira mais encantadoramente simpática que consegui. Eles perguntaram de onde eu era, e, enquanto teciam loas ao Rio de Janeiro, começaram a mexer no prato, e eu comecei a localizar as possíveis saídas da sala. Começaram - ah, meu Deus! - por retirar o molho de cima das trilhas para verificar a textura (comecei a me sentir tonta), e levavam os garfos à boca, foi quando realmente minha respiração desgovernou. O primeiro comentário unânime foi: é mesmo uma pena que os pratos todos estejam chegando aqui frios, por causa do vento no hall, precisamos resolver isso da próxima vez... diziam uns para os outros, e eu pensava... ai... eles só notaram que estava frio.... agora vão comer mais... vão notar que além disso está horrível... ai... aí, eles provaram de novo, um dos senhores, não sei qual, porque eles parecem muito iguais em seus ternos escuros, disse, também para eles: nossa, muito bom molho, e eu me senti em um episódio do Além do Imaginação, do Hitchcock, onde a gente consegue coisas incríveis como uma banca especializada não notar que a trilha está molhada e fora do ponto de cozimento graças ao poder de um medalhão, por exemplo. A partir daí comecei a não prestar atenção em mais nada até que :Juliano disse: ei!! eles estão perguntando em que cidade, afinal, você mora. Eu, retomando meu sorriso expliquei onde era Cachoeiras de Macacu, falei do Parque Estadual dos Três Picos e Juliano disse, em italiano que eu mostrei para ele a foto da Sílvia Sibila, a cobra que mora no meu telhado, então foi um festival de ohs que só arrefeceu quando eu prometi mostrar a foto, no final. Recolhi os pratos, um bocadinho trêmula e arrependida de estar usando o bendito colete medieval para a coluna, me dificultando a respiração, e saí, com a bandeja. De lá para cá, venho tentando entender o que aconteceu.

A gente sabe quando faz uma coisa que não está boa. E a trilha, o elemento principal do prato, estava péssima! Antes de mim teve o Gilli, que serviu um risotto de não sei o que, que eles disseram que foi o melhor risotto que já comeram! Teve também a Joana, metida que só, que serviu um agnolotti ao plin ao burro e salvia em tovagliolos de linho, e ao chegar na mesa, sacou tartufo bianco que ela mesma comprou e deu uma gratugiatta no prato de cada um, eles babaram! Depois de mim teve a Rafaela, que fez um gnochi que eles disseram que foi o melhor prato do dia. E eu sei que vários colegas foram duramente criticados.

Eu permaneci sentada na sala de aula magna, meio catatônica, esperando que todos acabassem as suas provas para que então houvesse a entrega de notas e provas e finalmente a entrega do diploma. E esse momento chegou. Eu pensei de novo que em 15 minutos teria passado e ninguém ia lembrar da minha nota depois. Bem, aquela prova de italiano que eu larguei no meio, valia 81 (que tipo de valor é esse, eu não sei!), eu tirei 49. A prova de enologia valia 10, tirei 10, e o Giani ainda me cumprimentou... e então, a diretora disse que entregaria os diplomas com as médias finais e que quem quisesse ver a avalição da prova prática deveria ir à sala dela.

Fulano! Entrega do diploma (por Ilaria e o Chef Simone), beijinho, foto. Beltrano! De novo! Flávia Gomes! E lá fui eu, meio flutuando, ainda perplexa, receber meu diploma. Quando me sentei, vi que minha média tinha sido 27. Em 30. Ué. O que aconteceu? Eu esperava algo como 23, 24... no mááááximo uns 25. E aí notei o mais estranho: alguns outros colegas tiraram 27, mas nenhum tirou mais que isso. Nem o Gilli risotto perfeito, nem a Jô, agnolotti com tartufo, nem a Rafa Gnochi delicioso. Como pode? Assim que deu, subi para ver minha avaliação, que são as fichas dos cinco jurados. E... eu tirei 28. E conferi que esse foi o somatório das avaliações que incluiam quesitos como apresentação, untuosidade, criatividade, suculência, ponto de cocção e outras coisas.

Eu não sei. Não ia discutir, claro. Mas essa vai ser uma daquelas coisas que nunca vou entender, como na cena final daquele filme com o Brad Pitt e o Anthony Hopkis, Meeting Joe Black em que o Brad Pitt faz a Morte que veio experienciar a vida e levar o multimilionário personagem do Hopkins e acaba se apaixonando pela filha dele, e no final, bem, é complicado explicar, mas a morte tinha tomado o corpo de um rapaz por quem a moça havia se interessado no início do filme, e ela passa o tempo todo acreditando que era com esse rapaz que ela estava lidando, mas achando ele muiiito estranho. Até que no fim, a Morte tem que ir embora levando o pai dela, e na cena eles vão andando e sumindo por uma ponte que desce, enquanto ela olha, chorando, e em seguida o Brad Pitt vem subindo de volta a ponte e já no andar você percebe que aquele corpo voltou a ser o do rapaz do início do filme (o que comprova a minha tese de que, além de lindo, o Brad Pitt é um grande ator). E então ela junta as peças e compreende tudo que se passou e quando ele chega perto, ela, chorando, diz: que bom que você voltou. E ele, com uma cara engraçada, responde: sabe quando acontece uma coisa que você sabe que nunca vai entender, e que não adianta tentar?

Pois eu sou o Brad Pitt ressuscitado;

Deu pra entender? Não? Paciência.

O fato é que eu fiquei meio adormecida e quando o Juliano veio me convidar para ir com ele, Fernando e o grupo de brasileiros que também havia acabado de fazer o curso de sommelier e estava saindo dali com o certificado da AIS (Associação Italiana de Sommeliers) eu esqueci que tinha a minha própria comemoração com a minha turma, e aceitei.

E então, eles foram me pegar, ainda esquisitofrênica, na Cascina, pois eu era a única da minha turma que ia. E fomos, ao paese vizinho, Isola D'Asti, ao Il Casinalenuovo, o restaurante uma estrela onde o próprio Juliano trabalhou até uma semana antes.

Eu estava totalmente alheia a tudo o que acontecia e mal experimentei os vinhos que no final custaram 500 euros, e ao que me lembre eram um champagne gosset, um vinho rosso nero d'Avolo muito bom e outro esquisto, israelense e para fechar, um Pape Clement. Mas quero mencionar o antipasti perfeito que era um Migliefoglie de língua afiambrada com uma mousse muito delicada de fígado de pato servido com um cubinho de gelatina de vinho do porto, ácida, degradée, fantástica.

Depois, de volta à Cascina, pude abraçar o pessoal da minha turma, muitos dos quais iriam embora para seus respectivos estágios já na manhã seguinte e fui dormir, certa de que eu nunca vou entender esse dia e seus bizarros acontecimentos.

7 de dez. de 2010

Dia 54

Costigliole D'Asti, 2 de dezembro de 2010
Giovedi

Nova visita. Sim, esta é a semana das visitas técnicas. Acompanhe-me, nobre leitor. Hoje saberemos mais sobre o Riso Gallo.

Essa era pertinho, Bobbio, paese pertinho de Torino. Nem deu para dormir no ônibus.

A estrela da visita não foi o arroz, mas o senhor Alejandro Titiunik, uma figura adorável que nos recebeu para falar da fábrica como quem senta em frente à lareira de casa (bem que a gente merecia) para falar do cachorrinho. E é bem assim.

Argentino de tripla nacionalidade: argentino-ítalo-suíço, o senhor Alejandro trabalhou a vida toda na empresa desde a Argentina até vir para a Itália. E tem evidente conhecimento e amor pelo trabalho dele.

Contou empolgado de como tudo começou há c'èra una volta, no fim do século XIX quando um genovês muito empreendedor, emigrou para a Argentina e lá, comercializando o arroz que vinha da itália, teve a idéia de vendê-lo em pequenos pacotes na quantidade exata para a dona de casa. Cada qualidade do grão empacotada recebia o nome de um animal e a qualidade preferida foi eliminando todas as outras, e essa qualidade era o Riso Gallo. Lá pras tantas, um outro italiano, da família Preve, uma das donas da Riso Gallo, fugido da Segunda Guerra Mundial, foi também para a Argentina, e ao ao fim da Guerra, rotornou para a Itália trazendo consigo a marca (não obstante tenha permanecido o negócio na Argentina) e três filhos. E então ele começou também aqui a empacotar e comercializar a marca Gallo.

Eles não produzem nada, todo o arroz é comprado de produtores piemonteses e ensacado e distribuído pela Gallo, que é a maior comercializadora de Riso (lembrando que este é o arroz que resulta em risotto, o que é um produto bastante consumido por aqui e graças ao qual, aliás, toda a minha saga italiana começou) da Itália. Em nenhum outro lugar do mundo se produz este arroz, a não ser uma variedade de carnaroli na argentina, levado por aquele primeiro emigrante genovês e que hoje tem características diferentes das do grão  daqui.

Hoje, a empresa beneficia, empacota e distribui 11 tipos de grão, dos quais, os principais são Carnaroli, Vialone Nano e... Arbório. Lembrar-se-á o leitor que fizemos antes uma visita a uma Azienda Agrícola que cultivava e vendia seu próprio arroz, a Cascina Veneria. E que lá, nos disse o guia que eles não tinham arroz arbório porque esta variedade não existia mais, mas que como o nome é muito conhecido e tem aderência entre as donas de casa, as grandes empresas comercializavam outro grão sob o nome de arbório, e que o Carnaroli era superior a esse, o que explicava a informação gastronômica que eu já tinha de que atualmente o Carnaroli era o melhor grão para risottos.

E aí, como é que fica, seu Alejandro?

Ele explicou que, de fato, isso é verdade, que quase não há mais a variedade de arbório (e agora percebo que esqueci de perguntar também porque é que atualmente há tão pouco, se era tão valorizado...) e que sob a marca arbório são empacotados 10 % desta variedade e 90 % de uma outra, chamada Valono. Veja você. Eu não fiquei zangada porque ele explicou isso com tanta graça que eu até fingi que não notei que sob o ar de sala de estar estava uma grande indústria.

Grande indústria que aliás, produz também risottos expressos que ficam prontos em 12 minutos (e não são liofilizados!) e outros, especialmente para o bizarro mercado japonês que ficam prontos em 2, eu disse, DOIS minutos. É meus amigos... a concorrência hoje é sagaz.

Depois do parlatório do querido Alejandro, seguimos para visitar a fábrica e foi aquele itinerário que já conhecemos: o grão chegando, o controle do grão recém-chegado (se não estiver idôneo, graças a uma intempérie ou sei lá o que, o produtor que se dane, volta tudo... não é mesmo uma sala de estar...), o beneficiamento... sai a casca, com ela se faz ração animal ou combustível (toda a fábrica aqui vem com essa história de bio-resíduos combustíveis, mas eu fui procurar onde é que se aplica isso aqui na Itália, e ainda não entendi, se alguém souber, me conta...); Dá-se polimento no grão em vários estágios, e daí vai saindo a pulone, que é um pozinho muito proteico, também usado para enriquecer ração animal. Aí já se pode ver o grão como conhecemos. Mas ele é sacudido, remexido, assoprado, passa por diversas peneiras e raios infravermelhos até que grãos quebrados, grãos imaturos, grãos escuros ou manchados são eliminados... mais ou menos como os gregos faziam com as pessoas. Só que o arroz eliminado segue para virar ração animal (os animais são muito bem tratados por aqui) e os eliminados gregos não serviam nem pro Hades.

Dopo di ché finalmente segue o grão perfeitinho, o mais popular da escola, para pesagem, empacotamento sob vácuo, palets, armazém, aquela coisa toda.

Há riso de tudo que é jeito. Parbolizado, pra não dar errado nunca. Ribe, nero, basmati, pilaf, para sushi... uma risada danada.

Mas, caro leitor, advirto que depois de tudo isso nem adianta você correr para o supermercado mais próximo que não vai encontrar essa maravilha que é o riso Gallo.

Lembra-se que o senhor Ricardo Preve veio depois da guerra trazendo a marca e três filhos? Pois é, uma hora este bom senhor veio a empacotar. Os filhos asusmiram e, como soi acontecer nessas circunstâncias, começaram a quebrar o pau. Corriam os anos 70 e a empresa já era uma holding, praticamente, Argentina, Suíça e Itália. Cada irmão ficou com uma.

A vida ia correndo muito bem quando o irmão mais velho parece ter cansado da brincadeira e vendeu sua empresa argentina. E com ela a marca. Veja que triste. Foi assim que o senhor Alejandro, que nesta época era um jovem e promissor trabalhador da Riso Gallo Argentina, fiel toda a vida, veio para a Itália. Bem, vai daí que o Riso Gallo passou a ser comercializado com outro nome na Argentina e, como a empresa compradora detém a marca no país (embora eu não entenda como pode ser isso, deve ser coisa do tal Mercado... quer apostar?) o riso Gallo que vem da empresa original, na Itália, tem que receber um nome fantasia por lá e em toda a América Latina. É, definitivamente é coisa do Mercado. Bom, o Brasil está incluso na América Latina (não fique surpreso), de modo que aqui acontece a mesma coisa. Assim, se você quiser muito provar essa preciosidade, deve ir ao supermercado Pão de Açúcar mais próximo e procurar o Arroz Inverne para Risottos. Parece que eles conservaram o galinho na embalagem. Se fizer isso, não deixe de me contar se presta ou não.

O pessoal aqui parece achar que presta, pois além de ser a marca líder, é a utilizada por 8 entre 10 chefs em sua versão carnaroli simples e na carnaroli envecchiatto, que é o arroz carnaroli posto para envelhecer por um ano, assim que chega nos silos, diz que é uma beleza.

Eu talvez deva começar a pensar em patrocínio para o blog...

Após essa educativa visita fomos almoçar num simpatissíssimo restaurante chamado Da Mino, onde o ex-marido Roberto recepciona no salão e a ex-mulher, Antonieta, cozinheira auto-didata (o que quer que seja isso, porque eu não deixei de ser auto-didata só porque depois de uma vida inteira me metendo na cozinha, resolvi fazer faculdade de gastronomia) manda ver lá nas panelas. E de fato, tava muito boa a bóia, de verdade, embora eu agora não consiga me lembrar o que foi, pra contar pra vocês.

Neste almoço fizemos um brinde aos meus DEZ anos de casamento!! E aproveito para renovar o brinde agora.

Voltamos para a Escola onde teríamos uma esplanação sobre azeite. Sob pena de que essa seja a maior postagem da história, não posso me furtar a dividir algumas descobertas. A primeira: esquece esta história de primeira prensagem a frio, segunda prensagem a frio, azeite virgem. É o seguinte: até um tempo atrás as olivas iam todas para uma prensa, da primeira prensagem, saia o azeite extra virgem, da segunda prensagem, o azeite virgem, e daí por diante, depois de três prensagens se cozinha a massa e vira óleo lampante, impróprio para consumo humano. Só que agora não é mais assim, agora existe uma magnífica prensa hidráulica cujo manejo não requer prática nem habilidade. Põe-se as azeitoninhas lá, e a prensa aplica a força exata para extrair delas todo o óleo de boa qualidade. A partir daí, é óleo lampante. E pronto. Então hoje, só se diz azeite extra virgem. E tem o óleo de oliva. Atenção, porém, porque este último é óleo de semente, sei lá de qual, ao qual se acrescenta uma quantidade não definida por lei de azeite de oliva extra-virgem, o que aí a gente chama de óleo composto. Como não é definido por lei, há caso de 1% de azeite  no óleo de oliva, e ele é aromatizado artificialmente. Triste, né? Abre o olho, companheiro.

Eu tenho sempre falado aqui do azeite da Ligúria. É que pra mim foi uma experiência, provar o tal azeite. Acho perfeito, aveludado, sem muito amargor. Mas fomos informados pela nossa expositora, a senhora Isabel Abbo, descendente de uma família que produz azeite há 150 anos, em Impéria, prestigiosa região produtora na Riviera Ligure, onde estive no começo da viagem, mas fui mais abaixo, nas Cinqueterre, lembra? Pois a Signora Abbo nos falou dos olios das outras regiões da Itália. Que o Toscano tem o sabor de azeitona mais acentuado, o do sul tem amargor mais pronunciado, e daí por diante. Eu não sei, porque nunca vi vem comi, só ouço falar, e do que eu sei, fico com o Ligure, que certamente é o melhor que já comi na vida.

Ah, interessante dizer também que segundo ela, o azeite da Espanha e de Portugal é um azeite defeituoso, por causa do método como se faz azeite na Península Ibérica. Ele tem aquele sabor mais forte porque eles colhem as azeitonas todas ao mesmo tempo e esperam que elas amadureçam. Daí o que acontece é que as que já estavam maduras, iniciam a fermentação antes do tempo e conferem esse sabor ao azeite.

Agora preciso lhes contar de como eu meu tornei a Miss Bola Fora.

Ainda no ônibus, voltando da visita ao Riso, perguntamos ao Juliano, marido da Fernanda, que a está substituindo como tradutor nesta semana, se haveria degustação de azeites. Ele disse que sim, que a expositora levava o que ela produzia e a escola fornecia os outros. Guarde esta informação. Após as quase três horas de exposição, ia começar a degustação. Saí da sala para pegar os copinhos. Quando voltei, ela estava abrindo uma garrafa do azeite que se utiliza na escola, que na minha opinião é ótimo para cozinhar, mas banal, para comer, por exemplo, na salada, com pão, etc... lembrem da informação que Juliano deu ainda no ônibus. Eu imaginei que ela estava primeiro oferecendo o azeite da escola para compararmos com o dela, aí disse, em italiano: ah... este não, este nós já sabemos que é ruim... E, E, E... era o azeite dela. E não teve nenhum azeite para comparação, que a escola supostamente forneceria. Foi saindo um para cada lado...

Bem, sem mais comentários e delongas, com essa, despeço-me.

Ah sim, a respeito das três últimas visitas que você teve o prazer de acompanhar aqui nesta transmissora, devo informar que as três empresas, Lavazza, Grana Padano e Riso Gallo, são as fornecedoras da escola. O azeite Abbo, também, mas desconfio que eles nem vão querer me pagar o patrocínio. Eu não queria, mesmo.

Pra constar: nível da dor - chata, mas perfeitamente suportável.

Dia 53

Costigliole D'Asti, 1o de dezembro de 2010
mercoledi

I fa la nevica! De novo! O mundo branquinho é muito bonitinho. E frio!

Excelente! Dia de visita de novo! Dessa vez ainda mais longe! Na Emiglia Romagna! Dorme-se no aconchego quentinho do ônibus, rumo à Grana Padano.

Novas descobertas interessantíssimas que não posso me furtar a dividir com o amigo leitor.

Em primeiro lugar: Há cento e tantos caseifícios produtores de Grana Padano dentro da área DOC delimitada, que é a maior que já vi, dentre as coisas DOC que tenho visto. Eu fui naquele de número 102, que era o Caseifício Stallone, onde fomos recebidos pelo simpático Alberto que nos levou a conhecer a produção.

Para quem não sabe, meu avô materno, vovô Hermógenes, era químico de laticínios e a maioria das recordações de infância da minha mãe têm uma fábrica de queijo, no meio, de maneira que me senti muito familiarizada e feliz, com tudo o que vi.

O leite chega e é posto em uma sisterna redonda de aço inox que tem dois andares, como uma ampulheta, só que achatada. Fica ali resfriado, parado por algumas horas, e o leite vai descendo para o andar inferior enquanto o creme de leite fica retido na parte superior. O creme vai para a produção de manteiga e o leite vai para a produção do queijo.

O queijo é obrigatoriamente produzido com o leite cru, coisa que no Brasil e na França é proibido, o que gera aquela polêmica com o Camembert. Ele vai para uns enormes tachos de cobre cujo fundo, afunilado, fica abaixo do nível do chão e contém uma hélice bem grandona. Bem, ali se acrescenta o coalho retirado do estômago do vitello do boi dessa raça pimentesa cujo nome não me recordo. Aí se forma aquela massa no leite que vai para o fundo. Lega-se a hélice e a massa vira um monte de bolinhas. Desliga-se a hélice e um infeliz fica com um mega bastão de madeira mexendo aquilo tudo,
Os infelizes, o tacho, o bastão e o tecidinho
até que finalmente vira uma massa feita das bolinhas. Aí ele vem com um tecido e remexe aquilo de um lado para o outro dentro do leite, ou do soro, não sei, mas parecia leite, e vem um outro infeliz e cada um segura numa ponta e ficam mexendo aquilo, que aliás pesa 100 quilos, de um lado para o outro até que vira um disco, após o que o infeliz número um corta o disco e sei lá como cada metade fica no tecidinho de um infeliz e eles as transportam para uma maca e escrevem nela aquelas informações numéricas que se escreve nas coisas que se produz. Ah, e em cima do queijo põem uma etiqueta feita de caseína com as informações de lote, e sei lá mais o que.
os elevadores da salmoura
O queijo na telinha furadinha e o martelinho

a telinha que tem os relevos
E aí, já é um formato de queijo. E fica lá, coberto pelo tecidinho para dessorar, por umas horas. Daí tiram da redinha, põem uma tela fininha que tem em relevo escrito grana padano e mais informações numéricas e por fora da telinha uma forma plástica para apertar o relevo e pra sair mais soro. Depois vai para uma sala mantida a 13 graus onde se lhes põem umas telas furadinhas de aço inoxidável onde além de começar a secar, o queijo começa a tomar aquela forma abauladinha característica do Grana Padano e do concorrente, o Parmeggiano Reggiano. Para ele entrar nessa tela tem um martelinho e algum outro infeliz tem que ir lá toda hora bater nos queijos... Depois de um tempo, tiram o queijo da telinha e ele fica na mesma sala para secar mais. Fica lá uns dias, uns vinte. Aí vai para umas piscinas de salmoura, onde são mergulhados em elevadores de uns 2 metros de altura, e lá fica por mais um tanto de dias, salgando.

Da salmoura o queijo é levado aos armazéns de staggionatura onde finalmente vai ter paz por no mínimo 18 meses que é o tempo mínimo obrigatório de cura. Diz-nos Alberto que o tempo ideal é entre 24 e 27 meses, mas que eles têm queijos de até 5 anos de cura. É durante a cura que as informações em relevo, e, sobretudo a marca, vão escurecendo e tomando um tom ocre, e o queijo, amarelando.
armazén de staggionatura

Agora veja você que o processo de produção do Parmiggiano Reggiano, segundo ele nos disse, é idêntico. O que muda é a área de produção, que no caso do Parmiggiano é, obviamente Parma e arredores. Há uma grande contenda entre chefes, especialistas e curiosos para saber qual é o melhor. Dizem que o Parmiggiano, após o a cura, é "mais elegante", mas desconfio que isso é que nem sentir cheiro de suor de animal em vinho.

Fato é que são queijos diferentes, e se eu não acredito nem em campo magnético nem em cheiros improváveis no vinho, no azeite e no café, sei, por experiência própria, que o tal de microclima tem incrível influência no sabor das coisas. O caso é que a área de produção do Grana Padano é tão extensa quanto a própria planície padana, em parte da qual também é produzido o parmiggiano. De modo que eu não sei bem a que se deve a diferença. Ainda aposto no micro-clima, pois quando visitamos o a produção de Culatello de Zibello vimos vários parmiggianos em staggionatura lá. Eu perguntei à guia, e ela explicou que ali não era zona de produção do parmiggiano mas que a legislação permitia a cura lá, de modo que eu acho que eles meio que alugam as estantes para a staggionatura do parmiggiano ali, então, pelo menos no caso do parmiggiano, acredito que o micro-clima influencie sim. Para entender melhor, precisava visitar um produtor de parmiggiano, coisa que tentarei fazer por minha conta. Cabe ainda observar que o valoroso Alberto garantiu que o Grana Padano não pode ser curado fora do Caseifício produtor. Quindi, não sei como fica o micro-clima nesse caso, e continuo apostando nele, mas lá no Parmiggiano.

Em todo o caso, declaro que com ou sem elegência, eu prefiro o Grana Padano, porque acho aquele granuladinho, o máximo. Gostaria de ter dinheiro para comprar pedaços de várias staggionaturas e ver quando ele atinge o grau granuloso de minha preferência.

Alberto, o queijo e o martelinho
Talvez um dia dê, mas não vai dar pra ser agora (diria o Nasi). Enquanto isso, me contento de muito bom grado em degustar o Grana 27 meses que o querido Alberto generosamente nos oferece, e do qual comprei dois pedaços que seguem para a turma no Brasil.

A certificação também é um caso interessante, vem lá os especialistas (tem especialista pra tudo, nesse mundo) e batem no queijo com um martelinho especial, feito artesanalmente, e ouvem, e pelo som eles sabem  o quilate do queijo e se podem receber a certificação. Coisa de louco, né?

Volta para Costigliole e para meu novo quarto! Como já contei, os apartamentos aqui na Cascina tem dois quartos, um hall e um banheiro. Em geral, cada quarto tem uma cama, como era o caso do outro, onde em um ficavam Rafaela e Thaís e no outro eu e Rossiane. Neste novo apartamento, como no lá de baixo onde fiquei com as coreanas, há dois quartos, um com  duas camas, do qual Joana se apossou, e um com uma, que é o meu novo lar até que eu parta para o estágio, espero! Fiquei tão feliz! Só tive um quartinho pra mim no breve e dolorido período com as coreanas. Arrumei todo bonitinho, com minha joaninha de pelúcia sobre a cama e o Ed, o pequeno Grito de Edward Munch, também de pelúcia, que Joana trouxe de Madrid para mim, depois que eu contei pra ela que queria tatuar o quadro. Ambos sobre a cama. Comprei até três velinhas vermelhas para acender!

Acho que vou dormir muito bem!

Dia 52

Costigliole D'Asti, 30 de novembro
Martedi

Hoje tem visita ao Café Lavazza. Fica lá pras bandas de não sei onde então vai ser de dia inteiro. Adoro quando a visita é lá pras bandas de não sei onde que dá pra dormir um tantão de tempo no ônibus. Sei que era pra lá de Torino.

Primeiro, na palestra, tornei-me conhecedora de que a Café Lavazza, presente em tantos países que já não me lembro, pertence a uma única família e seus papéis não são negociáveis no mercado.

Aqui vale um parêntesis. Não sei se já comentei mas eu tenho medo de algumas coisas na vida. Tenho medo do Tutu Marambá. Tenho medo do Zé do Caixão, um homem que vagava portando um cabo de vassoura nas costas pelas ruas de Araruama, a quem meu irmão ameaçava me entregar. Tenho medo de bolinha. E tenho medo, muito medo, mais medo do que de tudo, do Mercado. Especialmente quando as pessoas começam a dizer que ele está nervoso, indócil, e outras coisas estranhas. Por isso gostei muito de saber - e vos faço sabedores - que a Lavazza nada tem a ver com o Mercado. Me senti muito segura em estar ali.

Além desta feliz descoberta, aprendi as diferenças e características dos grãos de café Arabica e Robusta. Ninguém perguntou, mas eu vou contar que o Arabica, por alguma razão da qual não me lembro, será que eu não anotei? Bom, o arábica é mais doce, lembrando flores e cítricos, sendo, porém menos intenso que o robusta, que tem tendência ao amargo e sabe a chocolate;

Eu também esqueci de dizer que tenho medo (mas menos do que do Mercado) de gente que jura que sente cheiros improváveis nas coisas, tipo suor de animal molhado no vinho, liquirizia no azeite, flores no café. Comecei a me sentir insegura na Lavazza. Não se pode mais estar segura em lugar algum. Que coisa.

Também tomei conhecimento de que a Índia é auto-suficiente na produção cafeeira e que não há um café melhor que o outro. Que as características de cada grão de café de cada país produtor são fundamentais  para a composição do blend do café. Por exemplo, eles podem misturar um ou vários arábicas com um ou vários robustas, ou podem fazer um blend só de arabica ou só de robusta, mas, quando você vir num saco que ele é 100% arabica, ainda assim será um blend porque sempre são misturados grãos das mais diversas regiões. Não é mesmo incrível?

E além de tudo isso, ainda observei o que seria a confecção de um capuccino perfeito, com cremosidade ímpar e um tom caramelo.

De quebra, conheci a fábrica e tomei ciência de todo o processo, desde a chegada dos grãos nos silos até, vejam vocês, o empacotamento, e vi, com meus próprios olhos, os palets serem postos no armazén. Tudo mecanicamente e com o mínimo manuseio humano. E quase congelando, porque não sei por que cargas        d´água a dona que guiou a visita falava tudo do lado de fora. Considerando que tivemos que tirar os casacos pra por aquela roupinha de visita que eles amam e que nos deixam sexies (como mostra a foto abaixo), e que a temperatura estava negativa, foram momentos difíceis.



Bem, a volta foi muito proveitosa para o meu sempre insuficiente sono.

E ao chegar na Escola, prova, de língua italiana.

Como o dileto leitor terá observado, eu faço poucos comentários acerca do funcionamento da escola e minha opiniões sobre ela. Claro que menciono o lugar, já que passo parte significativa de meus dias lá, afinal isso aqui é um blog, mas não faço juízos de valor, embora eu os tenha. Mas tenho boas razões, também, para não emitir opiniões.

Contudo, todavia, entretando, é preciso dizer que foi ridículo. A moça a quem entre diversas funções, cabe nos dar aula da língua italiana, é ótima desenhista. E mais não digo. A não ser que, para que se tenha uma idéia, só na penúltima aula foi que ocorreu a ela que era uma boa idéia conjugar verbos, tipo ser, haver, estar... e reservou mais ou menos dez minutos da "aula", para isto.

Pois a prova tinha algo como 40 questões. E foi a gota d´água pra mim. É raro de acontecer, mas quem me conhece sabe que quando dá pra mim, fica bem claro para os arredores. Fiz a primeira página, olhei o resto, e para não ter um faniquito, entreguei a prova. Que eu não tô aqui pra ser cobrada pelo que não é devido. E fui-me embora, que eu tenho mais o que fazer, como por exemplo, lavar, secar e passar minha roupa.

E foi o que fiz, até altas horas, pra desopilar o fígado.

Vocês não vão acreditar, mas, a quatro dia do fim das aulas, vou mudar de quarto. De novo. Pelo bem estar da nação, como sempre, e dessa vez, pelo meu, também, vou dividir um quarto com Joana, a Bela, a moça do meio da foto aí acima. De modo que decidi deixar as malas prontas, porque como sempre chego cansada, não me animo a arrumar tudo e mudar, então hoje, que estou de sangue quente e com menos dor, resolvi arrumar tudo e amanhã só ter que arrastar as malas até dois quartos à frente, no mesmo corredor.

Mas preciso ainda mencionar uma figura, do meu quarto, uma paranaense sábia de 18 anos, Rafaela, que cunhou frases brilhantes como "de leve na neve", "sossegado no mercado" e outras rimas líricas. Pois essa peça adentrou o quarto durante a minha arrumação e disse: você tem um filme para chorar? Ante minha perplexidade ela lembrou-se de que tinha um. Uma babozeira lá sobre um cachorro e seu dono, que no caso era o Richard Gere. E foi ver. E eu arrumando mala. Horas depois volta ela com essa cara que mostro aqui, toda inchada, feliz da vida, aos prantos. Eu achei pertinente fotografar. Ao que ela disse: não fotografa a minha cara assim, e, diante da minha insistência, vaticinou: isso é pior do que bater numa pessoa de óculos.

Isso sim é aprender coisas. Não é aquela baboseira de italiano.

Ah! Se você quer saber como é a cara da Rafaela menos inchada, ela é a mocinha da direita na foto sexy! Garanto que ela é muito lindinha!

(amigo de leitor que não pode ver fotos, perdo-me, mas esse post tinha muitas referências visuais, eu sei... não deu pra evitar...)

Dia 50

Costigliole D'Asti, 28 de novembro de 2010
Domenica


E vejam vocês que fui acordada por um telefonema semi-histérico de Renata: Flá! Tá nevando aqui!!! Vou eu para a janela e eis a imagem que se me descortina:


Minha primeira neve!!! 

E em segundos, a histeria era geral! Uns davam cambalhotas pelados (e nenhum médico precisou pedir!), outros se dedicavam a fazer um boneco de neve que no fim, parecia um espantalho de neve, e todos tacavam bolas uns nos outros! Eu inclusive. Lá pras tantas me recolhi num canto e me pus a comer quilos de neve! Ai que delícia!

Renata chegou, deu fome e fomos andando, parando para chapinhar na neve até a Maddalena para comer. Muito interessante esse negócio de neve.

Mas é domingo, e essa será a última semana de aulas. Preciso me preparar! 


6 de dez. de 2010

Dia 49

Costigliole D'Asti, 27 de novembro de 2010
sabato

E então às 9 em ponto a abnegada Elisa veio me buscar. Gilli e Marcos foram junto. E deu-se em Alba, pelas hábeis mãos do dottore Valério Curtto, minha primeira infiltração.

Mas como foi isso? Bem, fui para o médico achando que se iniciaria o burocrático e longo processo que eu esperava, terminaria em minha infiltração. Mas esse senhor, anestesista, explicou-me que, sendo estrangeira, eu iria embora antes de conseguir fazê-la. E veio o já habitual: tira a roupa! A essa altura eu já tô craque. Aí pôs-se a examinar minha combalida coluna e a preparar a mega injeção habitual. Ué! É agora? Sim!!! E foi.

Acontece que, como no Brasil, deveria ter sido feita em ambiente hospitalar. Contudo, como ele disse, a burocracia impediria a realização do procedimento. Vai daí que ele resolveu fazer no consultório. No entanto, a quantidade de anestésicos e corticóides de que eu necessito é muito grande para uma apicação única fora de ambiente hospitalar, então terei que fazer 3 aplicações e, sem anestesia, pela mesma razão. Topei, porque nenhuma agulha pode doer mais que a minha coluna. E, feito! Assim, sentadinha na maca do consultório.

Já ficou marcada a próxima para o sábado que vem, e a seguinte para o dia 18 de dezembro. O detalhe escabroso: cada uma por 150 euros. E preciso adquirir um colete que custa outros 150. E, como não está sendo por vias oficiais, o seguro não cobrirá. Melhor não pensar nisso agora.

Dopo di chè, Elisa nos deixou no centro de Alba e lá fui eu, lépida e fagueira, com a perna inteiramente dormente, caminhar com os meninos por aquela rua comercial principal, para acharmos itens de que necessitávamos...

Dobramos a primeira esquina e: caraca!!! que friaca! Que que a gente faz? Volta? Se abraça? Se mata? Não tinha como voltar, Elisa já tinha ido embora, pra chegar à estação precisávamos andar a rua inteira. Vambora. A gente tremia literalmente. Eu, com minhas camadas, até estava bem, o problema é que o meu nariz sempre parece querer fugir do meu rosto e, sem as luvas, minhas mãos pareciam querer acompanhá-lo.

Na primeira barraquinha Gilli comprou uma luva. E eles estava piores do que eu! Foi quando descobri, horrorizada, que os meninos machistas não conhecem as delícias da meia-calça térmica! Resolvi levá-los a uma loja onde eu sabia que tinha, só que... era no início da rua, e estávamos no  fim. Ninguém sabe o que foram aqueles 100 metros em nossas vidas. E quando olhamos o termômetro: 0 graus!! meus primeiros zero graus! eu ficaria feliz, se não tivesse perto de ter as mãos necrosadas.

Enfim, conseguimos a meia, eles ficaram impressionadíssimos com o progresso da indústria têxtil, adquiri uma luva, e pudemos seguir nosso passeio... olhamos as modas, cada um fez o que tinha que fazer... passamos por Asti, ainda, e Cascina.

Nenhuma dor!

Ô vida boa!

ei! não leiam a última postagem

Estou trabalhando nos rascunhos dos dias transcorridos até agora, pois foi semana de provas e visitas, enfim, a última semana, e não consegui parar pra escrever no blog. Postei um dia por engano, nem está corrigido. Já retirei a postagem do ar, mas quem recebe por e-mail, recebeu! sorry, folks! em breve, tim tim por tim tim...

Ana, a você que até já respondeu, desculpa!!

Mas só pra não perder o hábito, são 6:13 da manhã da segunda feira, 06 de dezembro, aniversário de minha super-cunhada Miriam, day after do bi-campeonato do Fluzão e minha primeira noite insone aqui na Itália, só trabalhando no blog, após esse tempo todo sem escrever.

Ainda bem que não tenho aula amanhã. Dia reservado para arrumar malas, postar caixas e postais pelo correio e dormir pra tirar o atraso (será que um dia consigo?).

Aguardem, mas por ora é só!

Beijo!

Dia 51

Costigliole D'Asti, 29 de novembro de 2010
lunedi

A neve é muito legal. Mas no dia seguinte, parece que teve festa no apartamento da gente na noite passada. Ainda bem que não tenho que lavar as taças.

O mundo ficou encardido. Amanheceu um dia limpo, de sol, muito frio, mas jogaram sal no asfalto e ao longo da rua tudo era cinza. As coisas encobertas pela neve começavam a aparecer. A escadaria virou um escorrega. Caos na intrépida Costigliole!

Demorei horrores pra chegar na escola, com medo de cair, andando pé ante pé. Lá, soube que fiz muito bem, quatro chegaram molhados após seus tombos. Mas se eu caísse, não ia ser nada engraçado. Especialmente porque não estou mais com zero dor. Embora a dor seja bem tolerável. Mas o médico avisou que não ia ser cura total, após a primeira.

Bem, é a última semana de aula! Vejamos o que nos aguarda...

Aula prática de molhos, pela manhã. Com o Chef Simone, que é ótimo. Foram três pratos, o tema era molho. Adorei tudo, acho que pela primeira vez. Os molhos foram: matricciana, ragu di carne bianca (coelho, galinha d´angola, que aqui se chama faraona, e peru) e ragu di agnello.

Estômagos mais fracos, como o de meu amigo Paulo César, devem pular os próximos parágrafos. Avisei.

À tarde, o tema era cortes de porco e salames. E, para esta aula, veio um salumaio de Montferrato. Um senhor muito legal, cujo sobrenome eu não sei, mas que se chamava Giane. Ele me lembrou muito meu tio Orlando, rústico, com os anos de trabalho impressos na cara... já está aposentado, mas não perdeu o talhe. Foi tirando da bolsa mortadela, salame cru, salame cozido, presunto cru, speck, e outras coisas, dentre as quais, nada menos que um leitão inteiro, semi-evicerado.

Entre muitos causos, explicou os modos de fazer aqueles salames... reclamou das modernidades como usar alguma coisa que não seja película de víceras para embutí-los, falou dos embutidos que não estavam ali, mostrou de que parte saíam, como o zampone e o culachaio, que é o culatello feito fora de Zibello... e foi assim que eu descobri as mil e uma utilidades do guanciale, a bochecha do porco e o resto da cabeça também... e ia desossando o porquinho... uma beleza... foi  aí que descobri que não dá pra obter lombo, costela e carré de um só animal. Sim, eu sei que é óbvio, mas eu não sabia, só vendo a desossa é que entendi! Só sobrou a espinha vertebral... tive vontade de levar para o dottore pra ver se ele implanta em mim... tão perfeitinha, sem uso... Adorei meu amigo salumaio...

Depois, prova de enologia... tranquilo...

Engraçado... o céu está limpíssimo. Mas vejo no máximo uma ou duas estrelas. Todo o dia me esqueço de comentar isso aqui no blog, mas é uma coisa impressionante... eu sempre quis saber como, afinal, era o céu no hemisfério norte... quais eram as constelações... mas nunca vejo mais que duas estrelas. Não vou embora no Brasil enquanto não vir a tal da Ursa Maior. E tudo o mais que devia estar no céu e fazê-lo tão diferente do céu da minha casa. Outra coisa. Diz que aqui a água da pia fazia um redemoinho pro outro lado. Cadê? Fico horas enchendo a pia e esvaziando e não noto nada diferente. Acho que é porque eu não me lembro pra que lado a água da pia desce, lá na terrinha. E não vem me dizer que é o tal do campo magnético que isso é crendice.

Aniversário do Tio Zebão!

27 de nov. de 2010

TRIBULAÇÕES DE UMA BRASILEIRA NA ITÁLIA

Antes de mais nada, até para meu próprio registro, duas dicas de ouro: Azeite Ligure Cascina Verde Sole e Vinho Cinqueterre Ciaccetra. Depois você me conta, amiguinho...

Então, tem esse problema: França x Itália. É um caso sério. Não se pode falar da França, nem de nada que seja francês. E nem pensar em imaginar que talvez, quem sabe, a crema catalana possa ser parecido com a creme brulée. O que eu noto é que o ponto máximo da tensão entre os dois países se dá na comida assim como entre Brasil e Argentina se dá no futebol. Quer dizer, me parece, mas ainda tenho que comprovar a tese, que seu um italiano e um francês se encontrarem em uma loja de departamentos, falando sobre perfumes, vão se dar bem, mas num restaurante quebram o pau.

Os Italianos. Allora. São pessoas que tem nariz. E eu acho isso o máximo. Eles e elas. E que nariz. São elegantes, bonitos de modo geral, embora nem todos aqui compartilhem deste meu ponto de vista. Eu achei todo mundo bonito. São longilíneos. Independente de serem magros ou não (e geralmente o são), a maneira como se arrumam, a postura, os faz assim, longilíneos. Tem mania de bronzeamento artificial, e boa parte deles ostenta este estranho cor-de-abóbora. A proporção de botox per capta é maior que no Brasil, mas não tão grande quanto na Argentina. O mesmo quanto à maquiagem.

Disseram que eu tomasse cuidado com os italianos, que eles eram safados, que tomavam brasileiras por prostitutas, a priori. Não posso dizer isso. Sou bem tratada onde chego. Quando digo que sou brasileira as pessoas são ainda mais simpáticas. Só me dão indicações corretas. Todos me respeitam. Será que o problema é comigo?

Para não dizer que nada aconteceu neste setor, numa dessas minhas idas ao médico, estava eu na sala de espera e uma senhora puxou assunto e lá pelas tantas perguntou de onde eu era. Quando eu falei que era brasileira, ela, muito surpresa, disse: no se disserebe, fa bella figura! (Não se diria, é bonita!). Eu ri, claro... mas não agradeci, que era demais para o orgulho nacional.

Todas, eu disse TODAS as mulheres usam botas. São chiques, com seus cachecóis amarrados de tantos modos que já desisti de aprender.

Os homens. Como as mulheres, em geral são muito bonitos. Usam calça skinny (tá, pai, eu explico: é uma calça jeans que vem justa até o pé, muito na moda), e óculos iguais, esses retangulares, finos, de armação acrílica, colorida. Sapato de bico fino. Gel no cabelo. Esse conjunto e mais alguma coisa que eu não sei descrever exatamente o que é, faz com que todos eles, apesar de lindos e elegantes tenham um jeito um tanto afeminado demais para mim, que vim lá do Catete.

Penso que isso explica a obsessão mundial pelo assim chamado “latin lover”; Os americanos são mocorongos. E os europeus são abicharados. É claro que as mulheres vêm um brasileiro com sua natural troglodice e piram... tô com elas, inclusive. Isso é bem claro, aqui.

O sino. Gente, como toca, o sino da igreja! Toca músicas inteiras... a das 18 horas é aquela: no céu, no céu, com minha mãe estarei... acho lindo, até gravei... aí, dia desses, estou eu voltando da escola ouvindo o sino, idílico, e olho pra torre, e: o sino tá parado! Como assim??? Aí – veja você como caem os mitos – vejo uma senhorinha apertando um botãozinho... e o sino é eletrônico! Eles têm uma DJ de sino. O mundo tá perdido quando até numa aldeia italiana o sino é eletrônico. Não sei não o que vai ser do mundo.

Ao contrário do que me disseram que seria, os preços de unha, depilação, cabelo, nem são impeditivos, aqui. Claro que é mais caro que no Brasil, e pior, certamente, mas não impeditivos. Tem depilação, mas não arrisquei fazer, porque tenho problemas com cera sintética. A mão custa 15 euros, e a calista cobra 22, com a ressalva de que desde que não tenha calos... ah tá. Para cortar o cabelo é 18 euros (já estou no segundo corte) e para pintar custa 20, com a tinta, mais barato que num salão razoável do Brasil...

Agora, de tudo, o mais assombroso é o sistema de funcionamento do comércio. Eu vou falar daqui de Costigliole, mas é assim em todo o canto, ao menos aqui no Piemonte. As coisas abrem por volta de 8:30. Aí fecham 12:30. Todos dormem. Não fica NINGUÉM na rua. Reabrem às 15:30 e fecham às 19:30. Se fosse só isso até que era fácil. Mas tem as variações sobre o tema. Segunda TUDO fecha. Menos um dos três cafés da cidade, a farmácia e o Carrefour. Em compensação, aquele café fecha na terça, e na quinta fecha o Carrefour. O Correio funciona até as 14 h, quando fecha pra sesta. A farmácia, na quinta feira, só fica aberta até o almoço, depois não abre mais. No domingo também pouca coisa fica aberta. E, nem todas as lojas obedecem a esses horários. E nas portas tem um quadrinho com quatro reloginhos que eu me recuso a entender como funcionam, mas que, supostamente informam os horários de funcionamento. Dá pra acreditar? O resultado é que nada nunca está aberto quando você precisa. É meio como os coreanos, agora que eu estou conseguindo entender, vou embora...

Quando eu digo desses momentos em que não tem ninguém na rua, não é força de expressão. Ninguém é ninguém mesmo. Nem uma alma. Ninguém. Persone. Nessuno. Nobody. Nadie. Nem se vê ninguém nas janelas. Aliás, eu não sei onde ficam as pessoas dessa cidade, porque além de não circularem pelas ruas, também não ficam nas janelas. E poucas são as luzes nas casas. Depois falam da limpeza das ruas européias como se fosse um grande sinal de civilização. Não sujam porque não tem ninguém na rua! Se no Brasil não circulasse gente também ia ser limpinho, limpinho!

E não é só de gente que as ruas carecem. Estou muito preocupada com os animais italianos. Cadê os bichos??? Poucas vezes vi cachorros e gatos. Poucas mesmo. Tipo, vi dois gatos e dois cachorros desde que cheguei aqui.  A não ser, claro, os cachorros das pessoas. Isso é um capítulo à parte. Eles andam com seus cachorros e vão a todo lugar. Você entra em uma loja e tem um cachorro confortavelmente deitado em uma cadeira, e mais de uma vez pensei que fosse de pelúcia. Eles entram nas lojas puxando seus cachorrinhos pela coleira, nos outlets é uma profusão de cachorros! Até nos restaurantes. Os cachorros italianos são educadíssimos e arrolhados, porque não se vê cocô de cachorro por aí. Não tem muitos pássaros também. E nem muitos insetos. Que louco, né? Mas eu vi um rato, um ratinho de rua, e quis até fazer carinho nele, de tão fofo... parecia o Bernardo ou a Bianca.. não tem aquele focinho longo, mas um focinho achatadinho e é bem peludinho.

É, minha gente. O fato é que novembro já vai alto. Os Alpes, finalmente estão nevados. E fa freddo.... molto freddo. De manhã, quando chego na escola, tenho a nítida impressão de que meu rosto vai explodir, de frio, e a dor que isso me provoca nos ouvidos me fez comprar um pompom de orelha! Um mimo! A média, agora, são 3 graus, e em breve nevará.

As notícias do mundo de lá são as piores possíveis. Tenho medo de que o Rio de Janeiro acabe e eu fique como o Tom Hanks, em o Terminal, expatriada... morando meses no Galeão... se for assim, me avisem que eu peço asilo, aqui!

A partir de amanhã retomo a cronologia direitinho, prometo!

Bacci per tutti!
         

Dias 37 a 48

Costigliole D’Asti,  26 de novembro de 2010

Eu, durante todos estes dias tinha a esperança de que pararia e escreveria dia por dia o que tinha rolado.

Hoje, finalmente me dei conta de que não, isso não ia acontecer, e se eu ficase esperando os dias iam passar e eu não retomaria a escrita.

Mas, por que isso aconteceu?

Bem, a semana que transcorreu após este sofrido fim-de-semana da viagem foi horrenda. Pavorosa. Mas passou. O fato é que eu não me sentia animada para escrever nada sobre coisa alguma. Faltei algumas aulas, perdi algumas visitas. Fui a médicos, massagistas, acupunturistas e só não fui a um pai de santo porque, infelizmente, não achei nenhum.
Assim, penso que não vale a pena recuperar ipsis literis esses dias tão sofridos. Mas, durante este tempo, tomei notas. Muitas notas de observações que considerei que valiam a pena postar aqui. Então, vou fazer um grande post atemporal com essas notas que valem bem mais a pena serem lidas que o meu cotidiano dolorido.

Cabe, contudo, dizer que hoje é uma sexta-feira, e eu estou bem, entupida de medicamentos mas bem. Acho que sou novamente carta no baralho dos bons estágios. Amanhã tenho consulta com o médico que me fará a infiltração. Ou seja, o blog parou, mas a vida seguiu.

Não viajei para lugar algum, neste meio tempo, e, a única coisa digna de nota, até para que o nobre leitor se situe, é que eu mudei de quarto... de novo! Sim, agora estou no segundo andar, com mais três brasileiras... minha vida é andar por esta Cascina...

E também vale dizer que na sexta-feira passada fizemos na escola uma feijoada, para angariar dinheiro para o Gilli, que foi roubado em Gênova no primeiro fim-de-semana. Foi um sucesso. Fizemos até a carne seca, defumamos a costelinha, teve caipirinha, quindão, pão de queijo e pastel com receita de tia Vanir. Teve ambrosia, arroz, farofa e a couve foi substituída, com relativo sucesso, por verza. Teve também roda de samba e dança. No fim, emocionada, Paola veio nos dizer que foi a melhor festa que a escola já teve e que ela ficou impressionada com a organização e limpeza, pois a cozinha, mesmo depois de tudo, nunca esteve tão limpa! É por isso que me ufano de meus conterrâneos! E de quebra, Gilli ainda embolsou 666 euros. É, o número foi este mesmo...

Enquanto escrevo, dezenas de coreanos bêbados festejam ao meu redor. É a despedida deles e houve muita comida apimentada. Fico triste porque quando eu finalmente consegui distingui-los, eles vão embora. Bem, c’est  la vie!



DIA 36

Costigliole D’Asti, 14 de novembro de 2010
Domenica

De manhã, dor, e a esperança de um dia melhor.

A decisão é: vamos descer para Alba, pois é o último dia da Feira do Tartufo. Mas vamos descer pelo leste, parando em Verona, talvez Mantova, talvez Pádua e finalmente Alba, depois Costigliole. Se você olhar no mapa vai ver que era um plano um tantinho pretensioso...

Fomos. Mas como eu estava com muita dor, decidi deitar no banco para estar bem descansada na próxima parada. E, claro, acabei dormindo. Quando acordei, estávamos no Largo de Garda. HEIN?

Tá bom, eu queria mesmo conhecer o Largo de Garda. Entramos por Desenzano Del Garda. Garda é o maior lago da Itália. Mas estava um dia muito enevoado e não conseguíamos ver muito. Eu, de qualquer forma, mancando como estava não teria mesmo visto muito. Mas fiquei feliz, sentada em umas pedras, olhando a água, completamente transparente e cheia de patinhos, desses que a gente vê nos desenhos animados, nos filmes, esses que tem uma coleirinha branca, e asinhas verdes e corpo marron, que tem umas estatuazinhas de madeira.  Muito lindos.

Sei que Garda tem muito mais a mostrar que seus patinhos, mas eu não tinha mesmo condições de ver mais. A cidade é obviamente rica, com casas espetaculares, hotéis com lindos terraços e restaurantes à beira-rio.  Deve ser uma loucura no verão. Demos uma volta de carro ao redor de lago, porque meu passeio tinha que ser quase um drive-thru! O lugar é lindo!

Seguimos em direção a Verona e no caminho, rios, castelos, vinhedos, igrejas. Lindas fotos. Roubamos uvas de um vinhedo, e elas eram as mais doces que eu já provei.

E então, Verona.

Eu tinha uma imagem do que seria Europa. O clima, as pessoas, os prédios, as flores, o urbanismo, tudo. E Vernona é a expressão do que eu imaginava.

E é mais, muito mais.

Lá fui eu, claudicante, dolorida, à Arena de Verona. Datada do século 1 d.C, com os dois anéis centrais perfeitamente preservados, apesar do terremoto do século XII que destruiu parte da cidade.

Subi à arquibancada e me deitei, olhando a arena e me lembrando de Nietsche. O Nascimento da Tragédia. Consciente da importância vital daquele lugar como consolidador dos valores daquela sociedade, que, como de praxe, cabia inteira ali dentro. Pensando no tempo em que teatro não era algo eletivo, mas formador, educativo. Pensando nas mortes exemplares. Nas pessoas sentadas naquelas pedras geladas que me causavam ainda mais dor. Tudo o que consegui fazer foi ficar ali, pensando. Pensando em Jorge Aragão que sabiamente nos ensina “e quando pisar no terreiro, procure primeiro saber quem eu sou”. Pensando em que era aquele lugar. Em quem era eu ali. Com respeito.

Ao sair, fomos andando em direção ao Castellovecchio.  Andando pelas ruas com pessoas lindas e bem arrumadas. Prédios antigos, portas romanas, cafés, estátuas.

Não pude andar tanto que me permitisse ver tudo quanto havia na cidade. Não pude ver a estátua de Dante. Nem todas as portas, e praças, e igrejas, e as construções dos Scaligero, o Teatro Romano e o Giardino Giusto. Nem mesmo o duomo de Verona.

Mas mesmo assim, pude entrar na Chieza de San Lourenzo, linda. E sobretudo, mesmo sem entrar e ver meu primeiro Caravaggio, tive o prazer de andar pelos jardins do Castelvecchio. O mais medieval dos castelos, como os que a gente desenhava quando criança. De tijolos vermelhos, com ameias. Fantástico.  Às margens dele, o Rio (aqui Fiume) Adige. Lindo, largo, calmo. Ligando o Castelvecchio ao Borgo Trento, do outro lado do rio, a ponte Castelvecchio, imponente, sólida. Fiquei sentada ali, olhando aquilo tudo, e lá atrás de mim, a Ponte Vittoria.

Aí nos demos conta de que ainda não havíamos comido nada. E então fomos a um café. Na verdade um café/cantina. Eu não podia beber nadinha, por causa dos remédios. Mas Caio e Amanda puderam usufruir de um belíssimo Amarone. Descobrimos ali que o Amarone é o Valpolicella superior. Assim, quando a colheita não proporciona uvas com as características perfeitas para o Amarone, ele vira Valpoliccela! Interessante, não? Bem, acompanhando esse amarone, pra mim, acqua naturale (aqui só bebo isso, pelo menos acho que perdi o vício de comer acompanhada de guaraná antártica zero! Menos um...) veio um pratinho, onde, sobre um guardanapo bordeaux, estavam alguns grissinis quebrados pela metade, e neles, enroladas fatias de prosciutto crudo. Grossas lascas de grana padano para se comer com uma mostarde (o termo aqui designa um tipo de geléia, que pode ser picante ou dulce, neste caso, era dulce) de cipolle rossa, gente, ocês não queiram saber. Sensacional. Não valia por um almoço, mas já eram quase cinco da tarde, ainda queríamos ver pelo menos a Casa de Giulietta e partimos.

A esta altura eu já estava francamente manca. Fazia frio, e lá no fundo eu não queria ver mais nada... mas, mesmo que Giulietta não tenha existido, ir a Verona e não ver o tal balcão (a propósito só agregado à construção na década de 30 do século passado) era como ir a Roma e não ver o papa (embora eu não tenha a menor intenção de prestigiá-lo assim quando lá estiver). Assim, fomos. Muita gente, muita foto. Tem uma história de tirar foto com a mão no seio esquerdo da estátua de bronze de Giulietta sob o balcão, pra dar sorte, o bichinho até brilha, de tão lustroso... Tiramos foto, com a máquina descartável que tivemos que comprar, porque acabaram as baterias de todas as máquinas! Mas não saiu flash, veremos se saiu alguma coisa quando acabarmos com o filme e fizermos essa coisa pré-histórica que é revelar fotos.

De lá uma passada numa confeitaria que tinha uma cara ótima. Eu, como sempre, renovei o estoque de lindts e me aventurei num marzipan, que amo. Decepcionante.

E entramos numa livraria onde finalmente consegui adquirir esta Bíblia da Gastronomia Italiana que nos foi apresentada por Caio: Il Cucchiaio d’argento. Não sei bem como vou levar tanto peso pra casa... mas Deus proverá.

Ao entrar no carro, ainda ouvi uma conversa de ir pelo menos jantar em Alba, e novamente deitei no banco, convencida de que, fosse como fosse, eu ficaria no carro!

Além do que, domingo, depois das 22 h começa a folga da Renata e ficamos de passar em Govone e busca-la.

Quando acordei, já estávamos quase em Asti. E ainda era cedo para pegar Renata. Então meus nobres companheiros, para quem eu adoraria ter sido tão boa companhia quanto eles foram para mim, tiveram o bom senso de me deixar em Costigliole e voltar mais tarde para pega-la.

Como eu já disse, qualquer tentativa que eu faça de me transformar no Gregor Samsa – por mais que o sentimento seja legítimo – fracassa. Foi uma romaria no quarto. As coreanas re-apareceram e ficaram muito assustadas com aquilo. Só lamento. Não estou em condições de recusar amizade. E quando Caio e Renata voltaram, me trouxeram uma pizza.

Com toda a dor, foi um bom fim-de-semana.