Puxa uma cadeira, e relaxe...

7 de dez. de 2010

Dia 52

Costigliole D'Asti, 30 de novembro
Martedi

Hoje tem visita ao Café Lavazza. Fica lá pras bandas de não sei onde então vai ser de dia inteiro. Adoro quando a visita é lá pras bandas de não sei onde que dá pra dormir um tantão de tempo no ônibus. Sei que era pra lá de Torino.

Primeiro, na palestra, tornei-me conhecedora de que a Café Lavazza, presente em tantos países que já não me lembro, pertence a uma única família e seus papéis não são negociáveis no mercado.

Aqui vale um parêntesis. Não sei se já comentei mas eu tenho medo de algumas coisas na vida. Tenho medo do Tutu Marambá. Tenho medo do Zé do Caixão, um homem que vagava portando um cabo de vassoura nas costas pelas ruas de Araruama, a quem meu irmão ameaçava me entregar. Tenho medo de bolinha. E tenho medo, muito medo, mais medo do que de tudo, do Mercado. Especialmente quando as pessoas começam a dizer que ele está nervoso, indócil, e outras coisas estranhas. Por isso gostei muito de saber - e vos faço sabedores - que a Lavazza nada tem a ver com o Mercado. Me senti muito segura em estar ali.

Além desta feliz descoberta, aprendi as diferenças e características dos grãos de café Arabica e Robusta. Ninguém perguntou, mas eu vou contar que o Arabica, por alguma razão da qual não me lembro, será que eu não anotei? Bom, o arábica é mais doce, lembrando flores e cítricos, sendo, porém menos intenso que o robusta, que tem tendência ao amargo e sabe a chocolate;

Eu também esqueci de dizer que tenho medo (mas menos do que do Mercado) de gente que jura que sente cheiros improváveis nas coisas, tipo suor de animal molhado no vinho, liquirizia no azeite, flores no café. Comecei a me sentir insegura na Lavazza. Não se pode mais estar segura em lugar algum. Que coisa.

Também tomei conhecimento de que a Índia é auto-suficiente na produção cafeeira e que não há um café melhor que o outro. Que as características de cada grão de café de cada país produtor são fundamentais  para a composição do blend do café. Por exemplo, eles podem misturar um ou vários arábicas com um ou vários robustas, ou podem fazer um blend só de arabica ou só de robusta, mas, quando você vir num saco que ele é 100% arabica, ainda assim será um blend porque sempre são misturados grãos das mais diversas regiões. Não é mesmo incrível?

E além de tudo isso, ainda observei o que seria a confecção de um capuccino perfeito, com cremosidade ímpar e um tom caramelo.

De quebra, conheci a fábrica e tomei ciência de todo o processo, desde a chegada dos grãos nos silos até, vejam vocês, o empacotamento, e vi, com meus próprios olhos, os palets serem postos no armazén. Tudo mecanicamente e com o mínimo manuseio humano. E quase congelando, porque não sei por que cargas        d´água a dona que guiou a visita falava tudo do lado de fora. Considerando que tivemos que tirar os casacos pra por aquela roupinha de visita que eles amam e que nos deixam sexies (como mostra a foto abaixo), e que a temperatura estava negativa, foram momentos difíceis.



Bem, a volta foi muito proveitosa para o meu sempre insuficiente sono.

E ao chegar na Escola, prova, de língua italiana.

Como o dileto leitor terá observado, eu faço poucos comentários acerca do funcionamento da escola e minha opiniões sobre ela. Claro que menciono o lugar, já que passo parte significativa de meus dias lá, afinal isso aqui é um blog, mas não faço juízos de valor, embora eu os tenha. Mas tenho boas razões, também, para não emitir opiniões.

Contudo, todavia, entretando, é preciso dizer que foi ridículo. A moça a quem entre diversas funções, cabe nos dar aula da língua italiana, é ótima desenhista. E mais não digo. A não ser que, para que se tenha uma idéia, só na penúltima aula foi que ocorreu a ela que era uma boa idéia conjugar verbos, tipo ser, haver, estar... e reservou mais ou menos dez minutos da "aula", para isto.

Pois a prova tinha algo como 40 questões. E foi a gota d´água pra mim. É raro de acontecer, mas quem me conhece sabe que quando dá pra mim, fica bem claro para os arredores. Fiz a primeira página, olhei o resto, e para não ter um faniquito, entreguei a prova. Que eu não tô aqui pra ser cobrada pelo que não é devido. E fui-me embora, que eu tenho mais o que fazer, como por exemplo, lavar, secar e passar minha roupa.

E foi o que fiz, até altas horas, pra desopilar o fígado.

Vocês não vão acreditar, mas, a quatro dia do fim das aulas, vou mudar de quarto. De novo. Pelo bem estar da nação, como sempre, e dessa vez, pelo meu, também, vou dividir um quarto com Joana, a Bela, a moça do meio da foto aí acima. De modo que decidi deixar as malas prontas, porque como sempre chego cansada, não me animo a arrumar tudo e mudar, então hoje, que estou de sangue quente e com menos dor, resolvi arrumar tudo e amanhã só ter que arrastar as malas até dois quartos à frente, no mesmo corredor.

Mas preciso ainda mencionar uma figura, do meu quarto, uma paranaense sábia de 18 anos, Rafaela, que cunhou frases brilhantes como "de leve na neve", "sossegado no mercado" e outras rimas líricas. Pois essa peça adentrou o quarto durante a minha arrumação e disse: você tem um filme para chorar? Ante minha perplexidade ela lembrou-se de que tinha um. Uma babozeira lá sobre um cachorro e seu dono, que no caso era o Richard Gere. E foi ver. E eu arrumando mala. Horas depois volta ela com essa cara que mostro aqui, toda inchada, feliz da vida, aos prantos. Eu achei pertinente fotografar. Ao que ela disse: não fotografa a minha cara assim, e, diante da minha insistência, vaticinou: isso é pior do que bater numa pessoa de óculos.

Isso sim é aprender coisas. Não é aquela baboseira de italiano.

Ah! Se você quer saber como é a cara da Rafaela menos inchada, ela é a mocinha da direita na foto sexy! Garanto que ela é muito lindinha!

(amigo de leitor que não pode ver fotos, perdo-me, mas esse post tinha muitas referências visuais, eu sei... não deu pra evitar...)