Puxa uma cadeira, e relaxe...

21 de out. de 2011

Revolução de Shopping Center

Diariamente recebo solicitações de assinaturas em prol das mais variadas causas. Chegam-me Avaaz propondo mundanças no mundo.  Recebo convites para eventos em que o povo vai se reunir contra tudo e contra todos - em geral, na Cinelândia, possivelmente porque, em algo dando errado, sempre tem o Amarelinho para um choppinho.

Vejo pulularem em meu facebook, selos em letras garrafais, convocando TODOS CONTRA A CORRUPÇÃO. TODOS CONTRA A VIOLÊNCIA. TODOS CONTRA O RAIO QUE O PARTA.

Leio também muitas reclamações sobre a passividade de nosso povo, nas quais o reclamante jamais se inclui. Ao mesmo tempo críticas supostamente espirituosas ao fato de que a Marcha contra o Orgulho Gay e a Marcha contra a Maconha reunem milhares de pessoas que, contudo,  não são capazes de mobilizar-se contra a corrupção.

Sempre ignoro todas essas bobagens. Ignoro para o bem de minha saúde mental e social. Cada um desses "gritos" equivale, para mim, a um meio público de fingir reivindicar algo, do qual, na verdade só se está se eximindo.

Funciona assim: pronto, confirmei minha participação na Marcha contra a violência na Cinelândia. Certamente eu não vou, mas o que vale é a intenção. E de qualquer modo, marquei minha posição.
Pronto, publiquei um quadrinho TODOS CONTRA A CORRUPÇÃO no meu facebook, fiz minha parte. Pronto, publiquei uma frase de efeito contra a passividade da população, e esculachei os políticos, vês? como sou politizado?

Noto também uma admiração generalizada de que as redes sociais possam servir às revoluções populares. O que a um tempo ressalta a suposta função revolucionária de tais redes e a patética passividade brasileira.


Mas jamais vi no facebook ou em qualquer rede social, e diria até em qualquer conversa particular com ninguém, uma indignação real, guarnecida de argumentos, contra qualquer coisa que se passe neste país ou em qualquer outro país. Qualquer grito que ultrapasse o ato anestésico de  repetir frases feitas, publicar clichês.


Prova desta anestesia é a muda anuência com que o mundo assistiu primeiro à invasão do Iraque, e, diante de tal anuência, o passo à frente que foi invasão americana a um país estrangeiro para executar alguém, como no caso de Osama Bin Laden.


E agora, o silêncio sorridente sorridente diante da chacina*. A muda anuência com que o vimos um ser humano se arrastado e linchado, sem direito a julgamento.

Não está em questão, nessa minha ponderação, as atrocidades cometidas por ninguém. O fato é que não reconheço como legítima nem representativa dos meus interesses como ser humano e como cidadã, a decisão unilateral de uma execução. Crer num sistema que proteja A TODOS dessas arbitrariedades é crer que não vivo na barbárie.

Que então publiquemos quadrinhos abrindo mão da Onu, de Haia e de todo o dinheiro e complexidade investidos nestes sitemas que deveriam, eles sim, dar conta das atrocidades dos líderes que as cometam contra seus povos e, contra outros líderes. Protegendo-nos assim, repito, da barbárie

A indignação que sinto agora e que preciso expressar, é o tipo de indignação que acredito ser capaz de mover as coisas, e não os quadrinhos publicados no facebook. Mas as pessoas estão tão anestesiadas que escondidas sob seus selos revolucionários, permitem, com seu silêncio, que indivíduos sejam mortos sem julgamento, até que sejam elas próprias exterminadas com a legitimidade de uma jurisprudência que sua própria passividade permitiu.


Eu não publico selos convocando a nação às armas. Eu não conclamo ninguém à Marcha revolucionária. Tenho declarado orgulho pelos políticos em que votei e considero que eles me representam muito bem.

Mas estou PRONFUNDAMENTE CONSTERNADA com a morte de Muamar Kadafi, e com a anuência do mundo diante desta morte e sobretudo com a passividade diante dos interesses que têm levado à morte de líderes, legítimos ou não, no Oriente Médio.


Isso tudo não cabe num quadrinho no facebook. Poucos lerão o que tenho a dizer. E pouca diferença fará. Mas escrevo com sincera revolta. O único tipo de revolta que acredito seja capaz de mobilizar e revolucionar. Mas não em um mundo de Marchas semanais na Cinelândia. Se contudo, alguém quiser falar sério, de agora para daqui a pouco, viro a UlrikeMeinhoff.

Sabe porque a Marcha do Orgulho Gay tem quórum? Porque são pessoas comprometidas com uma causa que realmente lhes aflige e diz respeito. Essa dimensão de perceber que algo nos diz respeito de fato, é o que nos falta. Experiemente deixar-se afligir de dentro para fora, pela corrupção, para além das adesões vazias. É capaz até de você ir parar na Cinelândia.

*Caetano Veloso, em Haiti