Puxa uma cadeira, e relaxe...

30 de jan. de 2012

China, Choro & Chico



A experiência estética é a única via efetiva de conexão entre o ser humano e a realidade.

Aqui falo não sobre, mas a partir deste postulado. 

Há cerca de quinze anos li Cisnes Selvagens, de Jung Chang. O livro trata da saga de três gerações de  mulheres de uma mesma família. A avó, nascida no Império Manchu;  a mãe, que foi um jovem peão da Revolução Cultural de Mao Tse Tung e finalmente a própria autora, nascida sob os eflúvios da rebordosa deste regime. Tal livro foi o meu primeiro contato crítico com a China, e me causou grande impacto. Eu estava na faculdade de História, e finalmente perceber a Revolução Cultural por dentro surtiu efeitos que certamente não me tornaram a pessoa mais popular do ICHF/UFF. Além do que, perceber as minúcias, a beleza daquela cultura em comparação ao mundo que me cercava foi bastante revelador, razão porque menciono aqui aquela experiência legitimamente estética. 

Então, algum tempo depois, em 2003, veio para a Oca do Ibirapuera, em São Paulo, a exposição Os Guerreiros de Terracota de  Xi'an e os Segredos da Cidade Proibida. Novamente, por meio da China, fui confrontada com o que havia para além de mim e de meus parcos arredores. Seda, ouro e filigranas. Lambrequins de um portão do Palácio Proibido de Pequim. Instrumentos eficazes, bonitos, delicados. Trajes, técnicas, estratégias. Uma civilização refulgente enquanto, por aqui, ainda pulávamos de galho em galho. Eu, ocidental, fui jogada em queda livre, com todos os meus conceitos caindo por cima de mim. 

Isto talvez devesse ter sido um incômodo, mas a verdade é que viciei na desarrumação ética que a experiência estética promove. Assim como sou viciada na sensação que advém de um mergulho em um rio frio. A apatia que carrego só tem uma cura: o arrebatamento pela arte. 

Sendo a música a expressão artística que oferece a mais rápida experimentação sensorial do belo, é sob o impacto desta beleza que escrevo agora. 

Música é meditação. Captar, através de fones de ouvido, o primeiro acorde de Ellis Larkins e a respiração da Ella antes de emitir o primeiro som. Cada nota, cada pausa. Alerta, atenta, mas inteiramente relaxada. A mente que se esvazia para se preencher de som. O feio, o aflito, desvanecem. E quando o mundo reclama o retorno da consciência, é outra, a que volta. Reciclada, apaziguada e esclarecida. 

Tal intróito me serve para contar que no último sábado fui assistir ao espetáculo de Chico Buarque, na etapa carioca da turnê de lançamento de seu CD "Chico".
É preciso admitir que minha opinião a respeito de qualquer feito do artista é suspeita, porque infiltrada por um amor e admiração tais que poderiam, eventualmente, cegar meu senso crítico. Mas se isso é verdade, também o é o fato de que procuro ser conscenciosa no que tange a música, e prova disso é que penso que o penúltimo CD, o Carioca, por mais simpático que seja o conceito, poderia, sem prejuízo, ser extirpado da discografia do autor. 

Tenho ido a todos os shows que Chico fez no Rio de Janeiro, desde 1987, lançamento de "Francisco", e para que fossem maravilhosos, bastaria quase que simplesmente que ele comparecesse ao evento. Contudo este show que acabo de ver, já ocupa um  lugar muito claro e especial no que chamo aqui de "experiência estética". 

Em um bocadinho mais que uma hora e meia, Chico exibiu e exaltou o novo CD. Isso podia ter sido chato. A gente sempre quer cantar junto as canções que estão impressas na vida de cada um de nós. Mas ele cerca o novo repertório de outras canções mais antigas, não necessariamente grandes sucessos, que fazem todo o sentido pelas afinidades melódicas e temáticas com as do novo disco.  

A banda é a mesma ação entre amigos (tímidos) de sempre (desde Calabar, em 1973):  o violonista Luiz Cláudio Ramos, guardião eterno dos arranjos, agora de cabelos inteiramente brancos - como convém a um guardião. Tais arranjos me pareceram menos refinados que os dos três discos anteriores (Paratodos, Cidades e Carioca), mas longe de ser um defeito, isto permitiu que as canções atingissem sem a intermediação da elaboração melódica e lírica, quem as ouve. 

Na banda, também, João Rebouças, ao piano. No teclado e vocais, que sempre me parecem insuficientes (eu acho a voz dela sensacional), Bia Paes Leme. Na bateria,  com uma presença que por si só já impõe terno respeito, Wilson das Neves. Chico Batera na percussão, Jorge Helder no contrabaixo acústico e Marcelo Bernardes no sopro. Não sou a pessoa mais abalizada para dizer, mas o sopro, nos arranjos das canções do Chico vem criando uma identidade.  Uma pequena intervenção de Bernardes, numa melodia meio irreconhecível, ao longe, me dá a saber que se trata de Chico Buarque, assim como o violão, em Toquinho, é marca inequívoca. 

E toda essa gente interagia sob o cenário de Hélio Eichbauer  que se resumia ao revezamento de três grandes reproduções em tecido: A Mulher Nua, de Niemeyer, a receber o público; e duas de Portinari, de fases distintas entre si: O carnavalesco e O Circo. Esta última tocou-me especialmente por sua conexão com uma de minhas obras prediletas de Goya, As dores do mundo, que menciono no link: Goya, repetido   mais abaixo neste mesmo texto.  

Atrás e acima da banda pairava uma Fita de Moebius, investida de cores e texturas que se modificavam conforme a iluminação, de Maneco Quinderé, a incidir sobre esses elementos cenográficos - os músicos, inclusive - de um jeito tão bonito, que comovia.

Entretanto, nenhum destes elementos funcionaria se não ocorresse também de cada nota atingir um órgão da gente, ora o baço, ora o pâncreas, ora o hipotálamo. A conta exata. E a cada canção se seguia outra que ressaltava aquela - continuamente, e ouso crer que por isso havia uma Moebius Strip flutuando ali. Exemplos de um tal encadeamento foram o rap em homenagem a Criolo que terminava com uma citação de Cálice, e também quando, depois da canção composta com Ivan Lins, "Sou eu",  cantada em dueto com Wilson das Neves ambos emendam a primeira parte de Tereza da Praia de Billy Blanco e Tom Jobim e era aquilo mesmo, era aquilo mesmo…

E esse sistema, esse roteiro, criado pelo próprio Chico,  contava uma história melódica e significante de uma beleza, uma delicadeza estupefacientes. 

Se meu temperamento me afasta da realidade,  e me faz inábil para as lides do mundo, e se sou destituída do couro necessário para nele circular, de vez em quando, por merecimento ou acaso, em momentos como estes, sou submetida à arte. Ungida. 

Como quando vi a China. Como quando vi Goya em Florença. Como quando vi Giorgio Conte, em Costigliole.  Como quando vi uma escultura de Quinquela num terraço em Buenos Aires. Como quando vi Olinda. Como quando vi os leões marinhos na praia em Viña del Mar. Como quando ouvi o Galo Preto tocar um choro no Encantado. Como quando, cozinhando, cantei Mestre-Sala dos Mares com amigos batucando ao redor. Como quando comi foie gras com sauternes pela primeira vez. Como quando li O Abusado, de Caco Barcellos, e passei três dias chorando pelo esforço de reverter à força todos os valores boçais que meu preconceito e desinformação haviam arraigado em mim. Como quando o Lula ganhou as eleições. Como quando minha sobrinha nasceu.

E então Moebius faz mesmo todo o sentido, porque me reconecto e me apaziguo com o mundo e sua necessária experimentação. E recorro a essa paz, nas procelas. 

A paz da ciranda singela e catártica do show de Chico Buarque. 

Epifanias.





*******

Pra quem se interessar, aqui vai a lista das canções conforme elas foram apresentadas:

- Velho Francisco (Chico Buarque) – 1987
- De Volta ao Samba (Chico Buarque) – 1993
- Desalento (Vinicius de Moraes / Chico Buarque) – 1970
- Injuriado (Chico Buarque) – 1998
- Querido Diário (Chico Buarque) – 2011
- Rubato (Jorge Helder / Chico Buarque) – 2011
- Choro Bandido (Edu Lobo / Chico Buarque) – 1985
- Essa Pequena (Chico Buarque) – 2011
- Tipo um Baião (Chico Buarque) – 2011
- Se Eu Soubesse (Chico Buarque) – 2011
- Sem Você 2 (Chico Buarque) – 2011
- Bastidores (Chico Buarque) – 1980
- Todo o Sentimento (Cristóvão Bastos / Chico Buarque) – 1987
- O meu Amor/Teresinha (Chico Buarque) – 1977-1978 / 1977-1978
- Ana de Amsterdan (Ruy Guerra / Chico Buarque) – 1972-1973
- Anos Dourados (Tom Jobim / Chico Buarque) – 1986
- Sob Medida (Chico Buarque) – 1979
- Nina (Chico Buarque) – 2011
- Valsa Brasileira (Edu Lobo / Chico Buarque) – 1987-1988
- Geni e o Zepelin (Chico Buarque) – 1977-1978
- Barafunda (Chico Buarque) – 2011
- Sou Eu (Ivan Lins / Chico Buarque) – 2009
- Tereza da Praia (Tom Jobim / Billy Blanco) – 1954
- A Violeira (Tom Jobim / Chico Buarque) – 1983
- Baioque (Chico Buarque) – 1972
Citação: My Mammy (Walter Donaldson / Joe Young e Sam M. Lewis) – 1918
- Cálice (Gilberto Gil / Chico Buarque) – 1973
- Sinhá (João Bosco / Chico Buarque) – 2011

Bis:
- A Felicidade
- Futuros Amantes
- Na Carreira


23 de jan. de 2012

Ride Palhaço

Em 1998 fiz minha primeira e arrebatadora viagem à Buenos Aires. 

Para além da beleza e da ebulição criativa da cidade, o que me encantou foi um certo espírito com o qual me defrontei pela primeira vez e que a mim, brasileira, me causou espécie desde então. 

Eu e Denise, minha querida companheira de tantas viagens, de tanto pedir informações, acabamos estabelecendo uma relação muito cordial com o concierge do hotel em que ficamos. Nós o chamávamos - por razões que para o bem do tamanho desta postagem não convém explicar - de Anito Carlos. Ele era extremamente gentil e divertido. Perguntava coisas sobre o Brasil e contava muitos causos. Certa noite, voltando da movida porteña, não conseguimos abrir a porta de nosso quarto e para nossa sorte, era ele quem estava de plantão e veio prontamente nos socorrer. 

Depois de alguma peleja, nosso mais novo amigo de infância conseguiu abrir a porta, e nós, exultantes,  influenciadas por todas aquelas imagens, mausoléu, ruas e cafés com o nome de San Martín, exclamamos: Anito Carlos, El Libertador! Imediatamente aquele semblante feliz e bonachão transmutou-se  numa máscara de solenidade e desagrado, e então ouvimos a  voz de Anito Carlos pela derradeira vez, a dizer: ¡No! Esto no es una broma! Es sagrado!

E foi ali naquele corredor de hotel na Calle Florida que eu, brasileira, tomei altura de que há países onde existem coisas intocáveis, sagradas, com as quais não se faz piada. 

--------------------------------------

Poucos anos depois deste evento, por ocasião do dia dos pais, boa parte de minha família paterna e alguns agregados, reunia-se ao redor da mesa de minha tia, na pequena porém decente Campos dos Goytacazes.

O assunto versava por todas as coisas, nenhuma de grande importância, todas muito divertidas.  Para fins de compreensão desta pequena história, suponhamos que falássemos sobre as atividades nucleares no Irã (como se vê, diversão maior não há). Todos emitiam a sua opinião mais ou menos ao mesmo tempo, como soe acontecer às famílias tupiniquins quando, meu digníssimo marido, lembrando-se muito oportunamente de uma notícia lida naquela manhã, disse, num tom mais alto que os demais:

- Ih! Vocês viram? Jogaram betume no Itabapoana!

Oi????

Paramos todos por alguns segundos, nos entreolhamos e caímos numa gargalhada conjunta.

Vejam bem, não é que minha família não se importasse com o destino do simpático rio Itabapoana, onde quer que ele se localize, nem com as práticas ecologicamente espúrias a assolar o planeta. A questão foi o inusitado da declaração, feita como ato contínuo do.... do que mesmo? Nem o próprio Mauro sabe responder.

Fato é que a gargalhada durou horas. E muito depois alguém desatava a rir sozinho lembrando-se do tom novidadeiro.

E a frase virou um bordão entre nós. Sempre que acontece uma coisa inusitada ou descabida alguém sapeca, com o mesmo tom: Ih! Jogaram betume no Itabapoana!

----------------------------------------

Meme é o termo aplicado  à situação de alguma frase, palavra ou imagem ganhar grande repercussão, sendo repetida exaustivamente na internet. 

Sexta-feira última, pela manhã, à rotina de abrir minha página no Facebook, deparei-me com o mais sólido exemplo de Meme que já havia visto: a cada cinco postagens, quatro falavam de uma tal de Luísa que estava no Canadá.

Algumas, furiosas com a repercurssão, teciam teses sociológicas. Outras, desavisadas (como eu), buscavam entender do que se tratava. Mas a maioria apenas ressaltava dos mais diversos modos, o fato de que Luísa - fosse quem fosse - estava no Canadá.

Fui então pesquisar o ocorrido, que descrevo sucintamente para aqueles - os há? - que por ventura dele não saibam: um colunista social paraibano foi escalado para o comercial na TV de um empreendimento imobiliário em João Pessoa. No filme, veículado localmente, o colunista, rodeado de mulher, filhos, sogra, cachorro, periquito et caterva,  diz que aquele é um empreendimento de tal monta que recrutou a família toda para vir falar dele, "menos Luísa, que está no Canadá".

OI???? Jogaram betume no Itabapoana???

Luísa, a filha do colunista, estava fazendo intecâmbio no Canadá. E daí? E o Kiko, minha gente??? Mas aí é que está a graça, no inesperado, de onde o riso costuma nascer. 

E isso bastou para que a frase fosse repetida pelo país inteiro, tomando proporções tais que, na própria sexta, Luísa, em carne e osso, voltou do Canadá. 

----------------------------------------

Engrossando o caldo, pulularam desde então no Facebook e na grande mídia, opiniões de ares severos a respeito desta banalidade que doutro modo teria permanecido o que é: uma bobagem divertida.  

E já que é assim e como todos sabem que eu sou uma moça latino americana, vim dar o meu pitaco também.

De minha parte, diverti-me a valer com o caso e seus desdobramentos. Pela mesma razão que me diverti com o betume no Itabapoana. Senti-me tão íntima de meus compatriotas quanto dos famíliares ao redor daquela mesa, em Campos dos Goytacazes. Faz parte das dores e delícias de ser brasileiro a capacidade sensacional de fazer graça com absolutamente tudo. 

Por mais que eu admire a solenidade no que tange aos ícones, dos hermanos, a quem muito sinceramente admiro e amo, comportamento que aliás pude conferir em outros países, eu sou essencialmente brasileira, e penso que esta é a raiz de nossa identidade, para o bem ou para o mal: a iconoclastia, o riso que vem sem olhar a quem. 

Desde as charges do século XIX achicalhando o querido D. Pedro II, passando pelas piadas imediatas nas ocasiões mais fúnebres, a despeito da comoção que tenham causado à nação - como o caso das mortes de Ayrton Senna, Mamonas Assassinas, Ulysses Guimarães e do padre incauto que se amarrou a balões e saiu por aí levando um GPS inoperável debaixo do braço, até a mimetização do selo do governo federal: BRASIL, UM PAÍS DE TODOS, ao qual se acrescentou um gaiato: MENOS DE LUÍSA, QUE ESTÁ NO CANADÁ.

Do mesmo modo que a comida que você desperdiça não é o que vai resolver o problema da fome que lamentavelmente  passam as criancinhas somalis, deixar de rir das bobagens que acontecem não vai te deixar mais concentrado nos problemas nacionais. Na verdade só vai fazer de você um cara um tantinho arrogante e imensamente chato. 

A fome mundial e os problemas nacionais requerem um pouco mais que isso. Requerem - o que pode ser uma surpresa para muitos -  mais que a virtual adesão à passeatas e movimentos revolucionários que acabam nunca ocorrendo, com a finalidade de exibir um engajamento inexistente, mas deveras apaziguador das (faltas de) consciências individuais. 

Assim que, até onde percebo, se não rir de puerilidades como essa é de uma flagrante falta de humor, tecer falações engajadas a respeito do assunto é de uma chatice capciosa.

E provo a minha tese com o fim deste texto. Beijo.