A experiência estética é a única via efetiva de conexão entre o ser humano e a realidade.
Aqui falo não sobre, mas a partir deste postulado.
Há cerca de quinze anos li Cisnes Selvagens, de Jung Chang. O livro trata da saga de três gerações de mulheres de uma mesma família. A avó, nascida no Império Manchu; a mãe, que foi um jovem peão da Revolução Cultural de Mao Tse Tung e finalmente a própria autora, nascida sob os eflúvios da rebordosa deste regime. Tal livro foi o meu primeiro contato crítico com a China, e me causou grande impacto. Eu estava na faculdade de História, e finalmente perceber a Revolução Cultural por dentro surtiu efeitos que certamente não me tornaram a pessoa mais popular do ICHF/UFF. Além do que, perceber as minúcias, a beleza daquela cultura em comparação ao mundo que me cercava foi bastante revelador, razão porque menciono aqui aquela experiência legitimamente estética. Então, algum tempo depois, em 2003, veio para a Oca do Ibirapuera, em São Paulo, a exposição Os Guerreiros de Terracota de Xi'an e os Segredos da Cidade Proibida. Novamente, por meio da China, fui confrontada com o que havia para além de mim e de meus parcos arredores. Seda, ouro e filigranas. Lambrequins de um portão do Palácio Proibido de Pequim. Instrumentos eficazes, bonitos, delicados. Trajes, técnicas, estratégias. Uma civilização refulgente enquanto, por aqui, ainda pulávamos de galho em galho. Eu, ocidental, fui jogada em queda livre, com todos os meus conceitos caindo por cima de mim.
Isto talvez devesse ter sido um incômodo, mas a verdade é que viciei na desarrumação ética que a experiência estética promove. Assim como sou viciada na sensação que advém de um mergulho em um rio frio. A apatia que carrego só tem uma cura: o arrebatamento pela arte.
Sendo a música a expressão artística que oferece a mais rápida experimentação sensorial do belo, é sob o impacto desta beleza que escrevo agora.
Música é meditação. Captar, através de fones de ouvido, o primeiro acorde de Ellis Larkins e a respiração da Ella antes de emitir o primeiro som. Cada nota, cada pausa. Alerta, atenta, mas inteiramente relaxada. A mente que se esvazia para se preencher de som. O feio, o aflito, desvanecem. E quando o mundo reclama o retorno da consciência, é outra, a que volta. Reciclada, apaziguada e esclarecida.
Tal intróito me serve para contar que no último sábado fui assistir ao espetáculo de Chico Buarque, na etapa carioca da turnê de lançamento de seu CD "Chico".
É preciso admitir que minha opinião a respeito de qualquer feito do artista é suspeita, porque infiltrada por um amor e admiração tais que poderiam, eventualmente, cegar meu senso crítico. Mas se isso é verdade, também o é o fato de que procuro ser conscenciosa no que tange a música, e prova disso é que penso que o penúltimo CD, o Carioca, por mais simpático que seja o conceito, poderia, sem prejuízo, ser extirpado da discografia do autor.
Tenho ido a todos os shows que Chico fez no Rio de Janeiro, desde 1987, lançamento de "Francisco", e para que fossem maravilhosos, bastaria quase que simplesmente que ele comparecesse ao evento. Contudo este show que acabo de ver, já ocupa um lugar muito claro e especial no que chamo aqui de "experiência estética".
Em um bocadinho mais que uma hora e meia, Chico exibiu e exaltou o novo CD. Isso podia ter sido chato. A gente sempre quer cantar junto as canções que estão impressas na vida de cada um de nós. Mas ele cerca o novo repertório de outras canções mais antigas, não necessariamente grandes sucessos, que fazem todo o sentido pelas afinidades melódicas e temáticas com as do novo disco.
A banda é a mesma ação entre amigos (tímidos) de sempre (desde Calabar, em 1973): o violonista Luiz Cláudio Ramos, guardião eterno dos arranjos, agora de cabelos inteiramente brancos - como convém a um guardião. Tais arranjos me pareceram menos refinados que os dos três discos anteriores (Paratodos, Cidades e Carioca), mas longe de ser um defeito, isto permitiu que as canções atingissem sem a intermediação da elaboração melódica e lírica, quem as ouve.
Na banda, também, João Rebouças, ao piano. No teclado e vocais, que sempre me parecem insuficientes (eu acho a voz dela sensacional), Bia Paes Leme. Na bateria, com uma presença que por si só já impõe terno respeito, Wilson das Neves. Chico Batera na percussão, Jorge Helder no contrabaixo acústico e Marcelo Bernardes no sopro. Não sou a pessoa mais abalizada para dizer, mas o sopro, nos arranjos das canções do Chico vem criando uma identidade. Uma pequena intervenção de Bernardes, numa melodia meio irreconhecível, ao longe, me dá a saber que se trata de Chico Buarque, assim como o violão, em Toquinho, é marca inequívoca.
E toda essa gente interagia sob o cenário de Hélio Eichbauer que se resumia ao revezamento de três grandes reproduções em tecido: A Mulher Nua, de Niemeyer, a receber o público; e duas de Portinari, de fases distintas entre si: O carnavalesco e O Circo. Esta última tocou-me especialmente por sua conexão com uma de minhas obras prediletas de Goya, As dores do mundo, que menciono no link: Goya, repetido mais abaixo neste mesmo texto.
Atrás e acima da banda pairava uma Fita de Moebius, investida de cores e texturas que se modificavam conforme a iluminação, de Maneco Quinderé, a incidir sobre esses elementos cenográficos - os músicos, inclusive - de um jeito tão bonito, que comovia.
Entretanto, nenhum destes elementos funcionaria se não ocorresse também de cada nota atingir um órgão da gente, ora o baço, ora o pâncreas, ora o hipotálamo. A conta exata. E a cada canção se seguia outra que ressaltava aquela - continuamente, e ouso crer que por isso havia uma Moebius Strip flutuando ali. Exemplos de um tal encadeamento foram o rap em homenagem a Criolo que terminava com uma citação de Cálice, e também quando, depois da canção composta com Ivan Lins, "Sou eu", cantada em dueto com Wilson das Neves ambos emendam a primeira parte de Tereza da Praia de Billy Blanco e Tom Jobim e era aquilo mesmo, era aquilo mesmo…
E esse sistema, esse roteiro, criado pelo próprio Chico, contava uma história melódica e significante de uma beleza, uma delicadeza estupefacientes.
Se meu temperamento me afasta da realidade, e me faz inábil para as lides do mundo, e se sou destituída do couro necessário para nele circular, de vez em quando, por merecimento ou acaso, em momentos como estes, sou submetida à arte. Ungida.
Como quando vi a China. Como quando vi Goya em Florença. Como quando vi Giorgio Conte, em Costigliole. Como quando vi uma escultura de Quinquela num terraço em Buenos Aires. Como quando vi Olinda. Como quando vi os leões marinhos na praia em Viña del Mar. Como quando ouvi o Galo Preto tocar um choro no Encantado. Como quando, cozinhando, cantei Mestre-Sala dos Mares com amigos batucando ao redor. Como quando comi foie gras com sauternes pela primeira vez. Como quando li O Abusado, de Caco Barcellos, e passei três dias chorando pelo esforço de reverter à força todos os valores boçais que meu preconceito e desinformação haviam arraigado em mim. Como quando o Lula ganhou as eleições. Como quando minha sobrinha nasceu.
E então Moebius faz mesmo todo o sentido, porque me reconecto e me apaziguo com o mundo e sua necessária experimentação. E recorro a essa paz, nas procelas.
A paz da ciranda singela e catártica do show de Chico Buarque.
Epifanias.
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Pra quem se interessar, aqui vai a lista das canções conforme elas foram apresentadas:
- Velho Francisco (Chico Buarque) – 1987
- De Volta ao Samba (Chico Buarque) – 1993
- Desalento (Vinicius de Moraes / Chico Buarque) – 1970
- Injuriado (Chico Buarque) – 1998
- Querido Diário (Chico Buarque) – 2011
- Rubato (Jorge Helder / Chico Buarque) – 2011
- Choro Bandido (Edu Lobo / Chico Buarque) – 1985
- Essa Pequena (Chico Buarque) – 2011
- Tipo um Baião (Chico Buarque) – 2011
- Se Eu Soubesse (Chico Buarque) – 2011
- Sem Você 2 (Chico Buarque) – 2011
- Bastidores (Chico Buarque) – 1980
- Todo o Sentimento (Cristóvão Bastos / Chico Buarque) – 1987
- O meu Amor/Teresinha (Chico Buarque) – 1977-1978 / 1977-1978
- Ana de Amsterdan (Ruy Guerra / Chico Buarque) – 1972-1973
- Anos Dourados (Tom Jobim / Chico Buarque) – 1986
- Sob Medida (Chico Buarque) – 1979
- Nina (Chico Buarque) – 2011
- Valsa Brasileira (Edu Lobo / Chico Buarque) – 1987-1988
- Geni e o Zepelin (Chico Buarque) – 1977-1978
- Barafunda (Chico Buarque) – 2011
- Sou Eu (Ivan Lins / Chico Buarque) – 2009
- Tereza da Praia (Tom Jobim / Billy Blanco) – 1954
- A Violeira (Tom Jobim / Chico Buarque) – 1983
- Baioque (Chico Buarque) – 1972
Citação: My Mammy (Walter Donaldson / Joe Young e Sam M. Lewis) – 1918
- Cálice (Gilberto Gil / Chico Buarque) – 1973
- Sinhá (João Bosco / Chico Buarque) – 2011
- De Volta ao Samba (Chico Buarque) – 1993
- Desalento (Vinicius de Moraes / Chico Buarque) – 1970
- Injuriado (Chico Buarque) – 1998
- Querido Diário (Chico Buarque) – 2011
- Rubato (Jorge Helder / Chico Buarque) – 2011
- Choro Bandido (Edu Lobo / Chico Buarque) – 1985
- Essa Pequena (Chico Buarque) – 2011
- Tipo um Baião (Chico Buarque) – 2011
- Se Eu Soubesse (Chico Buarque) – 2011
- Sem Você 2 (Chico Buarque) – 2011
- Bastidores (Chico Buarque) – 1980
- Todo o Sentimento (Cristóvão Bastos / Chico Buarque) – 1987
- O meu Amor/Teresinha (Chico Buarque) – 1977-1978 / 1977-1978
- Ana de Amsterdan (Ruy Guerra / Chico Buarque) – 1972-1973
- Anos Dourados (Tom Jobim / Chico Buarque) – 1986
- Sob Medida (Chico Buarque) – 1979
- Nina (Chico Buarque) – 2011
- Valsa Brasileira (Edu Lobo / Chico Buarque) – 1987-1988
- Geni e o Zepelin (Chico Buarque) – 1977-1978
- Barafunda (Chico Buarque) – 2011
- Sou Eu (Ivan Lins / Chico Buarque) – 2009
- Tereza da Praia (Tom Jobim / Billy Blanco) – 1954
- A Violeira (Tom Jobim / Chico Buarque) – 1983
- Baioque (Chico Buarque) – 1972
Citação: My Mammy (Walter Donaldson / Joe Young e Sam M. Lewis) – 1918
- Cálice (Gilberto Gil / Chico Buarque) – 1973
- Sinhá (João Bosco / Chico Buarque) – 2011
Bis:
- A Felicidade
- Futuros Amantes
- Na Carreira
- Futuros Amantes
- Na Carreira


Um comentário:
Só para constar, acho que essa foi a pior coisa que eu já escrevi na vida. Conquanto verdadeira.
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