Puxa uma cadeira, e relaxe...

23 de jan. de 2012

Ride Palhaço

Em 1998 fiz minha primeira e arrebatadora viagem à Buenos Aires. 

Para além da beleza e da ebulição criativa da cidade, o que me encantou foi um certo espírito com o qual me defrontei pela primeira vez e que a mim, brasileira, me causou espécie desde então. 

Eu e Denise, minha querida companheira de tantas viagens, de tanto pedir informações, acabamos estabelecendo uma relação muito cordial com o concierge do hotel em que ficamos. Nós o chamávamos - por razões que para o bem do tamanho desta postagem não convém explicar - de Anito Carlos. Ele era extremamente gentil e divertido. Perguntava coisas sobre o Brasil e contava muitos causos. Certa noite, voltando da movida porteña, não conseguimos abrir a porta de nosso quarto e para nossa sorte, era ele quem estava de plantão e veio prontamente nos socorrer. 

Depois de alguma peleja, nosso mais novo amigo de infância conseguiu abrir a porta, e nós, exultantes,  influenciadas por todas aquelas imagens, mausoléu, ruas e cafés com o nome de San Martín, exclamamos: Anito Carlos, El Libertador! Imediatamente aquele semblante feliz e bonachão transmutou-se  numa máscara de solenidade e desagrado, e então ouvimos a  voz de Anito Carlos pela derradeira vez, a dizer: ¡No! Esto no es una broma! Es sagrado!

E foi ali naquele corredor de hotel na Calle Florida que eu, brasileira, tomei altura de que há países onde existem coisas intocáveis, sagradas, com as quais não se faz piada. 

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Poucos anos depois deste evento, por ocasião do dia dos pais, boa parte de minha família paterna e alguns agregados, reunia-se ao redor da mesa de minha tia, na pequena porém decente Campos dos Goytacazes.

O assunto versava por todas as coisas, nenhuma de grande importância, todas muito divertidas.  Para fins de compreensão desta pequena história, suponhamos que falássemos sobre as atividades nucleares no Irã (como se vê, diversão maior não há). Todos emitiam a sua opinião mais ou menos ao mesmo tempo, como soe acontecer às famílias tupiniquins quando, meu digníssimo marido, lembrando-se muito oportunamente de uma notícia lida naquela manhã, disse, num tom mais alto que os demais:

- Ih! Vocês viram? Jogaram betume no Itabapoana!

Oi????

Paramos todos por alguns segundos, nos entreolhamos e caímos numa gargalhada conjunta.

Vejam bem, não é que minha família não se importasse com o destino do simpático rio Itabapoana, onde quer que ele se localize, nem com as práticas ecologicamente espúrias a assolar o planeta. A questão foi o inusitado da declaração, feita como ato contínuo do.... do que mesmo? Nem o próprio Mauro sabe responder.

Fato é que a gargalhada durou horas. E muito depois alguém desatava a rir sozinho lembrando-se do tom novidadeiro.

E a frase virou um bordão entre nós. Sempre que acontece uma coisa inusitada ou descabida alguém sapeca, com o mesmo tom: Ih! Jogaram betume no Itabapoana!

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Meme é o termo aplicado  à situação de alguma frase, palavra ou imagem ganhar grande repercussão, sendo repetida exaustivamente na internet. 

Sexta-feira última, pela manhã, à rotina de abrir minha página no Facebook, deparei-me com o mais sólido exemplo de Meme que já havia visto: a cada cinco postagens, quatro falavam de uma tal de Luísa que estava no Canadá.

Algumas, furiosas com a repercurssão, teciam teses sociológicas. Outras, desavisadas (como eu), buscavam entender do que se tratava. Mas a maioria apenas ressaltava dos mais diversos modos, o fato de que Luísa - fosse quem fosse - estava no Canadá.

Fui então pesquisar o ocorrido, que descrevo sucintamente para aqueles - os há? - que por ventura dele não saibam: um colunista social paraibano foi escalado para o comercial na TV de um empreendimento imobiliário em João Pessoa. No filme, veículado localmente, o colunista, rodeado de mulher, filhos, sogra, cachorro, periquito et caterva,  diz que aquele é um empreendimento de tal monta que recrutou a família toda para vir falar dele, "menos Luísa, que está no Canadá".

OI???? Jogaram betume no Itabapoana???

Luísa, a filha do colunista, estava fazendo intecâmbio no Canadá. E daí? E o Kiko, minha gente??? Mas aí é que está a graça, no inesperado, de onde o riso costuma nascer. 

E isso bastou para que a frase fosse repetida pelo país inteiro, tomando proporções tais que, na própria sexta, Luísa, em carne e osso, voltou do Canadá. 

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Engrossando o caldo, pulularam desde então no Facebook e na grande mídia, opiniões de ares severos a respeito desta banalidade que doutro modo teria permanecido o que é: uma bobagem divertida.  

E já que é assim e como todos sabem que eu sou uma moça latino americana, vim dar o meu pitaco também.

De minha parte, diverti-me a valer com o caso e seus desdobramentos. Pela mesma razão que me diverti com o betume no Itabapoana. Senti-me tão íntima de meus compatriotas quanto dos famíliares ao redor daquela mesa, em Campos dos Goytacazes. Faz parte das dores e delícias de ser brasileiro a capacidade sensacional de fazer graça com absolutamente tudo. 

Por mais que eu admire a solenidade no que tange aos ícones, dos hermanos, a quem muito sinceramente admiro e amo, comportamento que aliás pude conferir em outros países, eu sou essencialmente brasileira, e penso que esta é a raiz de nossa identidade, para o bem ou para o mal: a iconoclastia, o riso que vem sem olhar a quem. 

Desde as charges do século XIX achicalhando o querido D. Pedro II, passando pelas piadas imediatas nas ocasiões mais fúnebres, a despeito da comoção que tenham causado à nação - como o caso das mortes de Ayrton Senna, Mamonas Assassinas, Ulysses Guimarães e do padre incauto que se amarrou a balões e saiu por aí levando um GPS inoperável debaixo do braço, até a mimetização do selo do governo federal: BRASIL, UM PAÍS DE TODOS, ao qual se acrescentou um gaiato: MENOS DE LUÍSA, QUE ESTÁ NO CANADÁ.

Do mesmo modo que a comida que você desperdiça não é o que vai resolver o problema da fome que lamentavelmente  passam as criancinhas somalis, deixar de rir das bobagens que acontecem não vai te deixar mais concentrado nos problemas nacionais. Na verdade só vai fazer de você um cara um tantinho arrogante e imensamente chato. 

A fome mundial e os problemas nacionais requerem um pouco mais que isso. Requerem - o que pode ser uma surpresa para muitos -  mais que a virtual adesão à passeatas e movimentos revolucionários que acabam nunca ocorrendo, com a finalidade de exibir um engajamento inexistente, mas deveras apaziguador das (faltas de) consciências individuais. 

Assim que, até onde percebo, se não rir de puerilidades como essa é de uma flagrante falta de humor, tecer falações engajadas a respeito do assunto é de uma chatice capciosa.

E provo a minha tese com o fim deste texto. Beijo.









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