Puxa uma cadeira, e relaxe...

24 de dez. de 2012

conclusões de fim de ano

deixo pro Gonzaguinha:

eu preciso é ter consciência
do que eu represento nesse exato momento
no exato instante na cama, na lama, na grama
em que eu tenho uma vida inteira nas mãos

15 de dez. de 2012

no fim do túnel


às vezes não é que eu envelheci
às vezes é que, quem sabe, gente também muda o couro
às vezes é só que está começando
às vezes é que dói pra viver
às vezes nem é nada

13 de dez. de 2012

No calcanhar


Desde muito criança carrego comigo um medo cronópio. O de esmagar com meus pés, uma barata.
Eu talvez não temesse esmagar inteiro um tatu, ou um homem, mas uma barata, que Deus me ajudasse.
Para me guardar do perigo, olhei sempre para baixo, para o piso, para o espaço exato do meu próprio passo, esquadrinhando, cuidando que meu caminho estivesse livre.
Mas, não há cronópio que não se distraia, e com toda a minha cautela, vez por outra, passei o pavor de um estalo inesperado sob meus sapatos.
Casos em que, como quem pisa uma mina terrestre, não podia tirar do chão o pé, mais pesado que meu corpo inteiro, apavorada por não saber o que faria, se, Deus me guardasse, fosse enfim, uma barata.
Nem eu mesma entendo como, mas lhes conto que obtive sucesso. Jamais nestes 37 anos pisei uma barata! Ou se pisei, ela não estalou.
O que no es lo mismo, pero es igual.
E segui, serena, o meu caminho.
E assim tenho vivido, cuidando dos meus passos.
Eis que num destes dias, em casa havia gente, música e vinho. Estava eu em meu vestido de cores derretidas e decote generoso, os pés descalços, como é comum em mim, apesar do medo - contradição, teu nome é mulher.
Ia meio esquecida dos perigos da vida, cercada pelos meus, distraída, assobiando uma canção do Roberto e ali, na soleira da porta, no sacrossanto recôndito de meu lar, senti, naquela noite, finalmente, o estalo, sob meus pés: descalços, como é comum em mim.
Terminei com calma o passo, e ao me virar, ali estava: esmagada, fluidos brancos, antenas desmanteladas, a barata.
E precisei decidir, racionalmente, se teria uma reação passional, ou não - desde que envelheci, decido que reações devo ter, ainda estou me adaptando.
Não tive ânimo de ter um chilique.
Só conseguia pensar se lisoform seria adequado para limpar meu calcanhar.
Nem sequer contei a ninguém, que, Deus me ajudasse, havia pisado numa barata, com os pés descalços, numa noite quente do dezembro em que o mundo prometia acabar.
Então me sentei, e, olhando para o cadáver judiado da barata, perguntei, como quem entrega todos os pontos que ainda guardava em si:

Por que demorou tanto?

Achei que era um desgosto desnecessário encarar o estrago, ainda que para fins de higiene. Pedi a alguém que gentilmente retirasse o inseto morto do caminho, e segui, esfregando com força calculada o pé no chão, certa de que a caminhada iria limpá-lo.

E quase não pensei mais no assunto.


2 de dez. de 2012

Start spreading the news


Vou voltar para a cidade.
If I can make it there, I'll make it anywhere.
Mas gostei de saber que só no verão, canta o sabiá poca.
E um dia eu volto pra ver a campina quando flora.

30 de nov. de 2012

Do dito e o não dito.


Estava ali pelos sete anos e sentada na cadeira que ocupava durante a primeira série - ou o que quando eu tinha sete anos denominavam primeira série, que era o ano letivo que se seguia à alfabetização - escrevia, diligente, em meu caderflex verde oliva, aquilo que a professora ditava.

(...) recorte as figuras e cole blá blá blá blá

O lápis, em minha mão, paralisou, e não pude ouvir nada do que se seguiu ao vocábulo "COLE".

Eu não sabia, então, que tratava-se do presente do subjuntivo do verbo colar, embora evidentemente conhecesse e, teoricamente, compreendesse a palavra.

No entanto, ali, não era de um significante que se tratava. Algo como uma massa de moldar, a invadir-me os ouvidos, ricochetear pelo cérebro, até sair sibilante, por meus lábios que repetiam: cóle, cóóóóle, cólllllllle. Aflitivos segundos passaram-se sem que eu pudesse atinar no que seria aquilo, no que eu devia fazer, e perdi o ditado. Lastimável.

Descobria eu, ao que sabia uma palavra.

Apaixonava-me eu, por tais coisas, como palavras.

Aquele foi um de meus primeiros estranhamentos. Seguiram-se muitos, ao longo da vida. Tantas vezes olhei para as pessoas mais próximas sem ter, por igualmente desesperadores segundos, a menor idéia de quem elas pudessem ser. Tantas vezes perdi o fio da meada porque enguicei em uma palavra, e o som dela reverberava destituído de sentido e repleto de sons, na minha mente descolada de mim.

Quis saber como soava e o que dizia cada palavra. E busquei sempre o exato. E foi assim que o mundo adquiriu significado e se organizou em mim, através da linguagem, e só a minha confiança plena no que significa cada palavra me permite circular por entre os vivos. E creio firmemente que a dissolução da palavra, é a selvageria.

Eu preciso saber que compactuo com os outros seres, que temos um código que nos faz cúmplices, e que quando eu disser "flor", o outro não vai entender "mar".  E o jogo é bom, porque as coisas vão adquirindo contornos, e delicadezas, e se você me descrever com precisão e poesia o mundo, a realidade não fará dele tão completo quanto a minha compreensão.

Isso explica meu amor por Tolkien.

E explica também porque é que quando me explicaram, entre um e outro beijo, que a matemática nada mais é que uma linguagem que busca representar o mundo, eu me apazigüei com ela. Embora ainda não a entenda.

Enfim, isso tudo me vale para demonstrar que, no que me cabe, a palavra dada é da ordem do sagrado.

E cartórios são obsoletos.

E não acredito que possam coexistir em paz e felicidade, pessoas que não comunguem dessa liturgia: a liturgia da palavra empenhada.






24 de nov. de 2012



Na minha casa tem mato. Tanto.
Tem uma rosa vermelha e as hortênsias estão floridas.
No meio do mato, verde, tem um corrimão, rosa. E o céu azul faz bela figura. Mas agora chove.
A minha palheta de cores é tão díspar quanto as flores da minha casa.
Sou plácida e enlouquecida. Não sei bem mais por que.
Escolha se estou dentro ou fora. Os dois, não sei.
Você me faz mal, assim.

13 de ago. de 2012


A morte não me assusta.
Nem mesmo a solidão que a envolve.
Mas o fato de que algo possa ser tão absoluto quanto esta solidão, é, para mim, um vislumbre do Horror.

12 de ago. de 2012

11 de jul. de 2012


Como tenho ouvido muito, lá em casa, depois que se tira a sardinha da lata, é muito difícil coloca-la de volta.
Isto pôsto, estou seriamente preocupada com o resto da minha vida.
Hoje, no fim da tarde, dormi nos braços de minha mãe.

3 de jul. de 2012

a propósito





Dormi calma por duas pastilhas brancas embalada,
como quem não tem ocupada a alma por tudo que dói.
Talvez, apartada de mim, minha dor tenha andado por aí perdida
ou tenha ficado o tempo todo aqui bem próxima
estendida sobre a cadeira
como essas roupas que se despem na véspera
e se vestem sem pudor no dia seguinte

Simone Brantes.

12 de abr. de 2012

Acordei no susto com uma cãibra. E no susto voltei a dormir. Coisas incríveis passaram-se pela minha cabeça. Mas nada retive. Numa dessas, acabo solucionando as tensões no Oriente Médio, mas nada poderei fazer, simplesmente porque não me lembro.

Acordo cansada.

E permaneço deitada.

É muito desgastante sonhar o mundo.

12 de fev. de 2012

Whitney who?

O Papa podia até ser Pop... já eu... não poupo. Nem dinheiro, nem o pop.

2 de fev. de 2012

Ter 9 anos é ir a um casamento com sua roupa nova e maria chiquinha e não ter nenhuma dúvida de que você está mais bonita que a noiva.

30 de jan. de 2012

China, Choro & Chico



A experiência estética é a única via efetiva de conexão entre o ser humano e a realidade.

Aqui falo não sobre, mas a partir deste postulado. 

Há cerca de quinze anos li Cisnes Selvagens, de Jung Chang. O livro trata da saga de três gerações de  mulheres de uma mesma família. A avó, nascida no Império Manchu;  a mãe, que foi um jovem peão da Revolução Cultural de Mao Tse Tung e finalmente a própria autora, nascida sob os eflúvios da rebordosa deste regime. Tal livro foi o meu primeiro contato crítico com a China, e me causou grande impacto. Eu estava na faculdade de História, e finalmente perceber a Revolução Cultural por dentro surtiu efeitos que certamente não me tornaram a pessoa mais popular do ICHF/UFF. Além do que, perceber as minúcias, a beleza daquela cultura em comparação ao mundo que me cercava foi bastante revelador, razão porque menciono aqui aquela experiência legitimamente estética. 

Então, algum tempo depois, em 2003, veio para a Oca do Ibirapuera, em São Paulo, a exposição Os Guerreiros de Terracota de  Xi'an e os Segredos da Cidade Proibida. Novamente, por meio da China, fui confrontada com o que havia para além de mim e de meus parcos arredores. Seda, ouro e filigranas. Lambrequins de um portão do Palácio Proibido de Pequim. Instrumentos eficazes, bonitos, delicados. Trajes, técnicas, estratégias. Uma civilização refulgente enquanto, por aqui, ainda pulávamos de galho em galho. Eu, ocidental, fui jogada em queda livre, com todos os meus conceitos caindo por cima de mim. 

Isto talvez devesse ter sido um incômodo, mas a verdade é que viciei na desarrumação ética que a experiência estética promove. Assim como sou viciada na sensação que advém de um mergulho em um rio frio. A apatia que carrego só tem uma cura: o arrebatamento pela arte. 

Sendo a música a expressão artística que oferece a mais rápida experimentação sensorial do belo, é sob o impacto desta beleza que escrevo agora. 

Música é meditação. Captar, através de fones de ouvido, o primeiro acorde de Ellis Larkins e a respiração da Ella antes de emitir o primeiro som. Cada nota, cada pausa. Alerta, atenta, mas inteiramente relaxada. A mente que se esvazia para se preencher de som. O feio, o aflito, desvanecem. E quando o mundo reclama o retorno da consciência, é outra, a que volta. Reciclada, apaziguada e esclarecida. 

Tal intróito me serve para contar que no último sábado fui assistir ao espetáculo de Chico Buarque, na etapa carioca da turnê de lançamento de seu CD "Chico".
É preciso admitir que minha opinião a respeito de qualquer feito do artista é suspeita, porque infiltrada por um amor e admiração tais que poderiam, eventualmente, cegar meu senso crítico. Mas se isso é verdade, também o é o fato de que procuro ser conscenciosa no que tange a música, e prova disso é que penso que o penúltimo CD, o Carioca, por mais simpático que seja o conceito, poderia, sem prejuízo, ser extirpado da discografia do autor. 

Tenho ido a todos os shows que Chico fez no Rio de Janeiro, desde 1987, lançamento de "Francisco", e para que fossem maravilhosos, bastaria quase que simplesmente que ele comparecesse ao evento. Contudo este show que acabo de ver, já ocupa um  lugar muito claro e especial no que chamo aqui de "experiência estética". 

Em um bocadinho mais que uma hora e meia, Chico exibiu e exaltou o novo CD. Isso podia ter sido chato. A gente sempre quer cantar junto as canções que estão impressas na vida de cada um de nós. Mas ele cerca o novo repertório de outras canções mais antigas, não necessariamente grandes sucessos, que fazem todo o sentido pelas afinidades melódicas e temáticas com as do novo disco.  

A banda é a mesma ação entre amigos (tímidos) de sempre (desde Calabar, em 1973):  o violonista Luiz Cláudio Ramos, guardião eterno dos arranjos, agora de cabelos inteiramente brancos - como convém a um guardião. Tais arranjos me pareceram menos refinados que os dos três discos anteriores (Paratodos, Cidades e Carioca), mas longe de ser um defeito, isto permitiu que as canções atingissem sem a intermediação da elaboração melódica e lírica, quem as ouve. 

Na banda, também, João Rebouças, ao piano. No teclado e vocais, que sempre me parecem insuficientes (eu acho a voz dela sensacional), Bia Paes Leme. Na bateria,  com uma presença que por si só já impõe terno respeito, Wilson das Neves. Chico Batera na percussão, Jorge Helder no contrabaixo acústico e Marcelo Bernardes no sopro. Não sou a pessoa mais abalizada para dizer, mas o sopro, nos arranjos das canções do Chico vem criando uma identidade.  Uma pequena intervenção de Bernardes, numa melodia meio irreconhecível, ao longe, me dá a saber que se trata de Chico Buarque, assim como o violão, em Toquinho, é marca inequívoca. 

E toda essa gente interagia sob o cenário de Hélio Eichbauer  que se resumia ao revezamento de três grandes reproduções em tecido: A Mulher Nua, de Niemeyer, a receber o público; e duas de Portinari, de fases distintas entre si: O carnavalesco e O Circo. Esta última tocou-me especialmente por sua conexão com uma de minhas obras prediletas de Goya, As dores do mundo, que menciono no link: Goya, repetido   mais abaixo neste mesmo texto.  

Atrás e acima da banda pairava uma Fita de Moebius, investida de cores e texturas que se modificavam conforme a iluminação, de Maneco Quinderé, a incidir sobre esses elementos cenográficos - os músicos, inclusive - de um jeito tão bonito, que comovia.

Entretanto, nenhum destes elementos funcionaria se não ocorresse também de cada nota atingir um órgão da gente, ora o baço, ora o pâncreas, ora o hipotálamo. A conta exata. E a cada canção se seguia outra que ressaltava aquela - continuamente, e ouso crer que por isso havia uma Moebius Strip flutuando ali. Exemplos de um tal encadeamento foram o rap em homenagem a Criolo que terminava com uma citação de Cálice, e também quando, depois da canção composta com Ivan Lins, "Sou eu",  cantada em dueto com Wilson das Neves ambos emendam a primeira parte de Tereza da Praia de Billy Blanco e Tom Jobim e era aquilo mesmo, era aquilo mesmo…

E esse sistema, esse roteiro, criado pelo próprio Chico,  contava uma história melódica e significante de uma beleza, uma delicadeza estupefacientes. 

Se meu temperamento me afasta da realidade,  e me faz inábil para as lides do mundo, e se sou destituída do couro necessário para nele circular, de vez em quando, por merecimento ou acaso, em momentos como estes, sou submetida à arte. Ungida. 

Como quando vi a China. Como quando vi Goya em Florença. Como quando vi Giorgio Conte, em Costigliole.  Como quando vi uma escultura de Quinquela num terraço em Buenos Aires. Como quando vi Olinda. Como quando vi os leões marinhos na praia em Viña del Mar. Como quando ouvi o Galo Preto tocar um choro no Encantado. Como quando, cozinhando, cantei Mestre-Sala dos Mares com amigos batucando ao redor. Como quando comi foie gras com sauternes pela primeira vez. Como quando li O Abusado, de Caco Barcellos, e passei três dias chorando pelo esforço de reverter à força todos os valores boçais que meu preconceito e desinformação haviam arraigado em mim. Como quando o Lula ganhou as eleições. Como quando minha sobrinha nasceu.

E então Moebius faz mesmo todo o sentido, porque me reconecto e me apaziguo com o mundo e sua necessária experimentação. E recorro a essa paz, nas procelas. 

A paz da ciranda singela e catártica do show de Chico Buarque. 

Epifanias.





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Pra quem se interessar, aqui vai a lista das canções conforme elas foram apresentadas:

- Velho Francisco (Chico Buarque) – 1987
- De Volta ao Samba (Chico Buarque) – 1993
- Desalento (Vinicius de Moraes / Chico Buarque) – 1970
- Injuriado (Chico Buarque) – 1998
- Querido Diário (Chico Buarque) – 2011
- Rubato (Jorge Helder / Chico Buarque) – 2011
- Choro Bandido (Edu Lobo / Chico Buarque) – 1985
- Essa Pequena (Chico Buarque) – 2011
- Tipo um Baião (Chico Buarque) – 2011
- Se Eu Soubesse (Chico Buarque) – 2011
- Sem Você 2 (Chico Buarque) – 2011
- Bastidores (Chico Buarque) – 1980
- Todo o Sentimento (Cristóvão Bastos / Chico Buarque) – 1987
- O meu Amor/Teresinha (Chico Buarque) – 1977-1978 / 1977-1978
- Ana de Amsterdan (Ruy Guerra / Chico Buarque) – 1972-1973
- Anos Dourados (Tom Jobim / Chico Buarque) – 1986
- Sob Medida (Chico Buarque) – 1979
- Nina (Chico Buarque) – 2011
- Valsa Brasileira (Edu Lobo / Chico Buarque) – 1987-1988
- Geni e o Zepelin (Chico Buarque) – 1977-1978
- Barafunda (Chico Buarque) – 2011
- Sou Eu (Ivan Lins / Chico Buarque) – 2009
- Tereza da Praia (Tom Jobim / Billy Blanco) – 1954
- A Violeira (Tom Jobim / Chico Buarque) – 1983
- Baioque (Chico Buarque) – 1972
Citação: My Mammy (Walter Donaldson / Joe Young e Sam M. Lewis) – 1918
- Cálice (Gilberto Gil / Chico Buarque) – 1973
- Sinhá (João Bosco / Chico Buarque) – 2011

Bis:
- A Felicidade
- Futuros Amantes
- Na Carreira


23 de jan. de 2012

Ride Palhaço

Em 1998 fiz minha primeira e arrebatadora viagem à Buenos Aires. 

Para além da beleza e da ebulição criativa da cidade, o que me encantou foi um certo espírito com o qual me defrontei pela primeira vez e que a mim, brasileira, me causou espécie desde então. 

Eu e Denise, minha querida companheira de tantas viagens, de tanto pedir informações, acabamos estabelecendo uma relação muito cordial com o concierge do hotel em que ficamos. Nós o chamávamos - por razões que para o bem do tamanho desta postagem não convém explicar - de Anito Carlos. Ele era extremamente gentil e divertido. Perguntava coisas sobre o Brasil e contava muitos causos. Certa noite, voltando da movida porteña, não conseguimos abrir a porta de nosso quarto e para nossa sorte, era ele quem estava de plantão e veio prontamente nos socorrer. 

Depois de alguma peleja, nosso mais novo amigo de infância conseguiu abrir a porta, e nós, exultantes,  influenciadas por todas aquelas imagens, mausoléu, ruas e cafés com o nome de San Martín, exclamamos: Anito Carlos, El Libertador! Imediatamente aquele semblante feliz e bonachão transmutou-se  numa máscara de solenidade e desagrado, e então ouvimos a  voz de Anito Carlos pela derradeira vez, a dizer: ¡No! Esto no es una broma! Es sagrado!

E foi ali naquele corredor de hotel na Calle Florida que eu, brasileira, tomei altura de que há países onde existem coisas intocáveis, sagradas, com as quais não se faz piada. 

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Poucos anos depois deste evento, por ocasião do dia dos pais, boa parte de minha família paterna e alguns agregados, reunia-se ao redor da mesa de minha tia, na pequena porém decente Campos dos Goytacazes.

O assunto versava por todas as coisas, nenhuma de grande importância, todas muito divertidas.  Para fins de compreensão desta pequena história, suponhamos que falássemos sobre as atividades nucleares no Irã (como se vê, diversão maior não há). Todos emitiam a sua opinião mais ou menos ao mesmo tempo, como soe acontecer às famílias tupiniquins quando, meu digníssimo marido, lembrando-se muito oportunamente de uma notícia lida naquela manhã, disse, num tom mais alto que os demais:

- Ih! Vocês viram? Jogaram betume no Itabapoana!

Oi????

Paramos todos por alguns segundos, nos entreolhamos e caímos numa gargalhada conjunta.

Vejam bem, não é que minha família não se importasse com o destino do simpático rio Itabapoana, onde quer que ele se localize, nem com as práticas ecologicamente espúrias a assolar o planeta. A questão foi o inusitado da declaração, feita como ato contínuo do.... do que mesmo? Nem o próprio Mauro sabe responder.

Fato é que a gargalhada durou horas. E muito depois alguém desatava a rir sozinho lembrando-se do tom novidadeiro.

E a frase virou um bordão entre nós. Sempre que acontece uma coisa inusitada ou descabida alguém sapeca, com o mesmo tom: Ih! Jogaram betume no Itabapoana!

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Meme é o termo aplicado  à situação de alguma frase, palavra ou imagem ganhar grande repercussão, sendo repetida exaustivamente na internet. 

Sexta-feira última, pela manhã, à rotina de abrir minha página no Facebook, deparei-me com o mais sólido exemplo de Meme que já havia visto: a cada cinco postagens, quatro falavam de uma tal de Luísa que estava no Canadá.

Algumas, furiosas com a repercurssão, teciam teses sociológicas. Outras, desavisadas (como eu), buscavam entender do que se tratava. Mas a maioria apenas ressaltava dos mais diversos modos, o fato de que Luísa - fosse quem fosse - estava no Canadá.

Fui então pesquisar o ocorrido, que descrevo sucintamente para aqueles - os há? - que por ventura dele não saibam: um colunista social paraibano foi escalado para o comercial na TV de um empreendimento imobiliário em João Pessoa. No filme, veículado localmente, o colunista, rodeado de mulher, filhos, sogra, cachorro, periquito et caterva,  diz que aquele é um empreendimento de tal monta que recrutou a família toda para vir falar dele, "menos Luísa, que está no Canadá".

OI???? Jogaram betume no Itabapoana???

Luísa, a filha do colunista, estava fazendo intecâmbio no Canadá. E daí? E o Kiko, minha gente??? Mas aí é que está a graça, no inesperado, de onde o riso costuma nascer. 

E isso bastou para que a frase fosse repetida pelo país inteiro, tomando proporções tais que, na própria sexta, Luísa, em carne e osso, voltou do Canadá. 

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Engrossando o caldo, pulularam desde então no Facebook e na grande mídia, opiniões de ares severos a respeito desta banalidade que doutro modo teria permanecido o que é: uma bobagem divertida.  

E já que é assim e como todos sabem que eu sou uma moça latino americana, vim dar o meu pitaco também.

De minha parte, diverti-me a valer com o caso e seus desdobramentos. Pela mesma razão que me diverti com o betume no Itabapoana. Senti-me tão íntima de meus compatriotas quanto dos famíliares ao redor daquela mesa, em Campos dos Goytacazes. Faz parte das dores e delícias de ser brasileiro a capacidade sensacional de fazer graça com absolutamente tudo. 

Por mais que eu admire a solenidade no que tange aos ícones, dos hermanos, a quem muito sinceramente admiro e amo, comportamento que aliás pude conferir em outros países, eu sou essencialmente brasileira, e penso que esta é a raiz de nossa identidade, para o bem ou para o mal: a iconoclastia, o riso que vem sem olhar a quem. 

Desde as charges do século XIX achicalhando o querido D. Pedro II, passando pelas piadas imediatas nas ocasiões mais fúnebres, a despeito da comoção que tenham causado à nação - como o caso das mortes de Ayrton Senna, Mamonas Assassinas, Ulysses Guimarães e do padre incauto que se amarrou a balões e saiu por aí levando um GPS inoperável debaixo do braço, até a mimetização do selo do governo federal: BRASIL, UM PAÍS DE TODOS, ao qual se acrescentou um gaiato: MENOS DE LUÍSA, QUE ESTÁ NO CANADÁ.

Do mesmo modo que a comida que você desperdiça não é o que vai resolver o problema da fome que lamentavelmente  passam as criancinhas somalis, deixar de rir das bobagens que acontecem não vai te deixar mais concentrado nos problemas nacionais. Na verdade só vai fazer de você um cara um tantinho arrogante e imensamente chato. 

A fome mundial e os problemas nacionais requerem um pouco mais que isso. Requerem - o que pode ser uma surpresa para muitos -  mais que a virtual adesão à passeatas e movimentos revolucionários que acabam nunca ocorrendo, com a finalidade de exibir um engajamento inexistente, mas deveras apaziguador das (faltas de) consciências individuais. 

Assim que, até onde percebo, se não rir de puerilidades como essa é de uma flagrante falta de humor, tecer falações engajadas a respeito do assunto é de uma chatice capciosa.

E provo a minha tese com o fim deste texto. Beijo.