13 de dez. de 2012
No calcanhar
Desde muito criança carrego comigo um medo cronópio. O de esmagar com meus pés, uma barata.
Eu talvez não temesse esmagar inteiro um tatu, ou um homem, mas uma barata, que Deus me ajudasse.
Para me guardar do perigo, olhei sempre para baixo, para o piso, para o espaço exato do meu próprio passo, esquadrinhando, cuidando que meu caminho estivesse livre.
Mas, não há cronópio que não se distraia, e com toda a minha cautela, vez por outra, passei o pavor de um estalo inesperado sob meus sapatos.
Casos em que, como quem pisa uma mina terrestre, não podia tirar do chão o pé, mais pesado que meu corpo inteiro, apavorada por não saber o que faria, se, Deus me guardasse, fosse enfim, uma barata.
Nem eu mesma entendo como, mas lhes conto que obtive sucesso. Jamais nestes 37 anos pisei uma barata! Ou se pisei, ela não estalou.
O que no es lo mismo, pero es igual.
E segui, serena, o meu caminho.
E assim tenho vivido, cuidando dos meus passos.
Eis que num destes dias, em casa havia gente, música e vinho. Estava eu em meu vestido de cores derretidas e decote generoso, os pés descalços, como é comum em mim, apesar do medo - contradição, teu nome é mulher.
Ia meio esquecida dos perigos da vida, cercada pelos meus, distraída, assobiando uma canção do Roberto e ali, na soleira da porta, no sacrossanto recôndito de meu lar, senti, naquela noite, finalmente, o estalo, sob meus pés: descalços, como é comum em mim.
Terminei com calma o passo, e ao me virar, ali estava: esmagada, fluidos brancos, antenas desmanteladas, a barata.
E precisei decidir, racionalmente, se teria uma reação passional, ou não - desde que envelheci, decido que reações devo ter, ainda estou me adaptando.
Não tive ânimo de ter um chilique.
Só conseguia pensar se lisoform seria adequado para limpar meu calcanhar.
Nem sequer contei a ninguém, que, Deus me ajudasse, havia pisado numa barata, com os pés descalços, numa noite quente do dezembro em que o mundo prometia acabar.
Então me sentei, e, olhando para o cadáver judiado da barata, perguntei, como quem entrega todos os pontos que ainda guardava em si:
Por que demorou tanto?
Achei que era um desgosto desnecessário encarar o estrago, ainda que para fins de higiene. Pedi a alguém que gentilmente retirasse o inseto morto do caminho, e segui, esfregando com força calculada o pé no chão, certa de que a caminhada iria limpá-lo.
E quase não pensei mais no assunto.
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