Puxa uma cadeira, e relaxe...

16 de dez. de 2013

domingo


He'll look at me and smile
I'll understand
Then in a little while
He'll take my hand
And though it seems absurd
I know we both won't say a word
Maybe I shall meet him sunday

(The man I love, Gershwin)

9 de dez. de 2013

haicai





Vem cá passarinho
E vamos brincar nós dois
Que não temos ninho

(Matsuo Bashô, 1644-1694)

7 de dez. de 2013


a casa é sua
por que não chega agora?
até o teto tá de ponta-cabeça 
porque você demora…

A casa é sua - Arnaldo Antunes

29 de nov. de 2013

rivotril


Sejamos então, patéticos.
Mas que a minha mão esteja na sua, e não me restem apenas horas a cumprir, antes do porvir.

23 de nov. de 2013

SAMSA


Minha alma apodrece a cada dia, junto com o teu corpo doente.
Entendi que a angústia é a dor que dói mais.
Meu amor se esconde em mim, envergonho-me.
Deve ser de pavor.



20 de nov. de 2013



… o que você vive ninguém rouba, não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor.

Gabriel Gacía Marquez, Memórias de minhas putas tristes.





18 de nov. de 2013


É, talvez, mais triste do que eu esteja disposta a suportar, não ter a quem dizer de mim.
O amparo da palavra. O regaço mudo.
Não sei qual seja, assim, no mundo.

5 de nov. de 2013

Notas para um futuro próximo:


Lembrar-me de que os atos são meus.
Meus são os ônus. Meus serão os bônus.
Lembrar-me, a propósito, de que ninguém acenou-me com bônus.
Lembrar que são minhas as escolhas.
Lembrar que minhas são as conjecturas.
Lembrar-me de que raramente o mundo se adequa às elas.
Lembrar-me de que estou fundamentalmente sozinha.
Lembrar-me de comprar leite e lâmpadas coloridas.




4 de nov. de 2013

O seu amor estava escuro
Eu clareei, dei outro tom
E enfeitei com rosas claras, raras,
Rara rima, raro rumo

Desprenda o seu corpo na minha vida
Dorme aqui comigo
Oh doçura, oh ternura, meu bibelô
Com o meu coração na mão dividindo emoção

(Cuidando de você, Luís Melodia)

16 de out. de 2013

das grandes verdades e de meu profundo pesar por você...







de orvalho sobre a pétala da flor


o terceiro me chegou
como quem chega do nada
ele não me disse nada
também nada perguntou
não sei como ele se chama
mas entendo o que ele quer
se deitou na minha cama
e me chama de mulher
me encontrou tão desarmada
que antes que eu dissesse não
se instalou feito um posseiro
dentro do meu coração

13 de out. de 2013

anunciação canônica



aquele lapso no tempo em que hoje é ainda, ontem
a feira que acontece em gritaria
como a bolsa de Tokio,
adiantada uma rotação inteira
o cheiro do lenço que remove a maquiagem
o corpo exausto de desejo e dor
vivem eles num presente onde ainda não cheguei
apenas amo que lá estejam,
e pularei matinas,
laudes, noas, vésperas
e os alcançarei, nas completas
seja como for, chegarei.


19 de set. de 2013


"o teu amor é uma mentira
que a minha vaidade quer
e o meu, poesia de cego,
você não pode ver
não pode ver que no meu mundo
um troço qualquer morreu
um corte lento e profundo
entre você e eu
o nosso amor a gente inventa
pra se distrair"

17 de set. de 2013

Plenitude



Houve uma tarde na praia do Leme.
Não havia nomes para o que eu sentia. 
Nem planos.
Dentro de mim, tudo.
O tempo de uma tarde. 

13 de set. de 2013

a falta de uma clave de sol

E essa vontade de deitar contigo,
e ler-te, entusiasmada, 
aquela pequena história de cronópios...
a que traz em si toda a verdade dos tempos.
Essa vontade de que não fosses pronome, 
mas verbo e carne.
E de que ao menos existisses
e me trouxesses teu cheiro.
E fosse eu, tua. E fostes tu, meu.
E que nos brotassem cactus e filhos.
e também eles fossem Cronópios, 
colcheias nos fios tensos de nossa pauta de metal.
E, quando se dissipe  nosso amor em pólen,
fossemos pelo mundo com o gosto bom um do outro 
num canto qualquer da boca.

4 de set. de 2013

Sinapses


Toda a minha experiência estética até o momento baseava-se no estímulo dos meus sentidos e da minha reflexão. E é inevitável perceber (e muito difícil admitir) que minha experimentação da arte é irremediavelmente hedonista, ainda que o prazer se dê, eventualmente, por via do incômodo ou até do horror.

Eis que então, a esta altura dos fatos, tenho essa experiência fugaz - que sorte, nunca recusa-las - com o Heavy Metal e percebo que uma nova cognição estética foi ativada em mim.

O prazer que posso obter com a audição de uma obra de Metal não é imediato. E para nota-lo, foi preciso estar exposta àquilo quase à contragosto, e passar pela Redenção.

Toda a organização rítmica, vocal e melódica (quando há melodia) conduz minhas próprias conturbações a colidirem com o tormento daquela estrutura musical. E se eu não rejeito o incômodo de imediato, sobrevém a Redenção. E a partir dela o Prazer. E então, o Apaziguamento.

Como quando eu ouço Beethoven, Carl Orff. Como o alumbramento estético que me acomete toda vez que sou envolvida pela beleza, e me conecta com a realidade, da qual sempre nos noto a todos tão perigosamente afastados.

Num momento em que me sinto tão forte, tão segura, tão de pele trocada, encontro esta representação estética do vigor que sinto em mim.

Talvez, como a serotonina e o THC, nossos neurônios tenham um receptor para Heavy Metal.





2 de set. de 2013

Constrange-me que sejam as minhas, questões humanas.
Tão humanas.
Demasiado humanas.
Tenho vergonha do analista, pelo banal de mim.

23 de ago. de 2013

Eu tive fora uns dias
Eu te odiei uns dias
Eu quis te matar...

23 de jun. de 2013

O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amargo de provar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida.

Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E assustada eu disse não.

8 de jun. de 2013

14 de mai. de 2013

tríplice mistério


E vou sendo como posso
Jogando o meu corpo no mundo
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encantos
Eu deixo e recebo um tanto

(Moraes Moreira)

13 de mai. de 2013

Rebu




Há em mim uma cota de carinho contingenciada para situações inesperadas.

Hoje recorri a esta reserva para sentir enorme ternura por aquelas pessoas que num escritório, têm por ofício criar nomes para as tintas de paredes e tonalidades de esmalte de unha.

Todo o meu respeito a quem chama um cinza esmaecido de “Alvorecer Melancólico” e um vermelho vivo de  “Desmesura”.

Poesia em série.


12 de mai. de 2013

E assim, chorando, acalentar.


Quando me casei, houve vestido, bolo e madrinha.

Ganhei um presente contra mandinga que consistia em um vaso de barro onde havia uma guiné, espadas de São Jorge e um pé de felicidade. O mato cresceu ao redor, ao redor, ao redor, e o vaso foi conosco, em cada uma de nossas casas, até que o lar não mais existisse e ninguém volta ao que acabou. Mas se você quer saber como termina aquela canção do Chico, ponha tento na história que ora conto…

Uma casa perdida no tempo, o biscoito que eu comi, ali pela metade, os livros que eu li, ainda fora da estante, o frasco de remédio, inacabado, na mesma posição, o bilhete dele para mim, o meu postal para ele, as coisas da gente, mas principlamente as minhas, úmidas e inúteis.  Quase não percebo a tua presença e me pergunto se você se retirou, ou se nunca esteve aqui.

É como se eu tivesse morrido e me fosse concedido voltar à casa que ninguém teve coragem de arrumar. Um canto mofado no cosmos, onde os retratos de nós dois se fazem companhia. Eu, fantasma de mim, rondo entre paredes descascadas,  a desfazerem-se em grandes placas de barro, esfareladas pelo chão. E duvido que já houve sons humanos nessa casa que sabe a cemitério em tarde quente, exceto por hoje estar tão frio, e ser noite. 

Tenho medo deste mausoléu erguido em minha memória, Por mãos caprichosamente cínicas e insanas.

Choro os filhos que não tive. Choro meus anos. Minha loucura. Choro. Choro esse reverso de casa, esse avesso do amor, essa raiva infinita.

Minha voz que me explica que estou sozinha. Que não há no mundo quem não o esteja. Que eu sempre estive sozinha. E percebo que isso é verdade,  em vislumbres dolorosos que me fisgam o dorso e me contraio, incrédula de que esta seja eu. O choro trágico de quem percebe a morte. E desdenha da vida, assim, tão sem destino. Choro as estrelas que não tenho mais e solidão tardia da consciência de mim.

Nesta meia casa, esse meio caminho de mim para mim mesma onde me perdi, e só dei conta de amar. Enquanto pássaros medonhos comiam as migalhas que deixei para trás.

É tarde. Cada um deles voltou para os seus, as suas, os deles. É tarde e faz escuro. E esse rio me atormenta. Cada um deles foi por um caminho onde eu não coube, onde não fui chamada. Como quem brinca de dança das cadeiras com a vida, esqueci de garantir para mim um assento, um caminho possível. É tarde. E faz escuro. Mas mesmo que migalhas houvesse, eu não haveria de retornar.

Hoje já é dia das mães e, entorpecida e calma,  canto em silêncio: dorme meu pequeninho, dorme que a noite já vem, tua mãe tá muito sozinha, de tanto amor que ela tem.

Ao redor, todas as coisas. 

E naquele vaso, a espada de São Jorge finalmente subjugou o pé de Felicidade. 



9 de mai. de 2013

6 de mai. de 2013



Bem-aventurados os que entrelaçam suas almas a um solo.

Aqueles que conseguem se definir a partir de seus lugares de origem ou escolha.

Eu, de minha parte, consigo apenas amar os lugares. Amar com devoção. Observá-los à exaustão. Tomá-los para mim, e dar-me a eles. Sem contudo, jamais pertencer a parte alguma.

Sou carioca. Mas não exerço. Amo esta tanto quanto a outras cidades de meus afetos. E amo, sobretudo, aquilo que não é urbano.

Sempre a confusão entre amar e pertencer. 

Aproprio-me do sapo martelo, e de um sabiá inconveniente. E a água do rio continua a me queimar.

Mas não pertenço. 

E posso seguir.

Ainda que doa. 

27 de abr. de 2013


Hoje tomei um ônibus.

Acordei, tomei um banho, e pus a roupa que havia escolhido para o dia.

Tomei um yakult, comi um pedaço de pão.

Desci, e andei sobre os passos de minha dor e sob as janelas de minha solidão. Assim, fazendo o caminho de volta para a vida que ainda não tive cheguei ao ponto do ônibus, que, parado, esperava pelas pessoas que contam sempre com a sua presença. De algum modo elas sabem que ele estará ali.

Porque as pessoas conhecem os sistemas segundo os quais move-se o planeta.

Eu desconfio sempre. Nada foi combinado comigo e me sinto intrusa nas atividades corriqueiras.

Mas hoje eu tomei aquele ônibus, paguei com um cartão que não subtrai o meu dinheiro, assim como todos ali fizeram e nenhum deles desconfiou de que há um fecho eclair sob as minhas roupas, e que sou de fato um lagarto verde.

Tenho em mim o comum das gentes.

20 de abr. de 2013


Eu gosto tanto de Beatles.

Às vezes tenho a sensação de que é a única coisa de que gosto realmente. Sem subterfúgios, sem dúvidas, sem qualquer razão que não seja o devastador prazer de ouvir Paul dizendo "I'd love to turn you on" e o John gritando lá atrás.

É. Tenho quase certeza de que os Beatles são a única coisa de que gosto de fato.

É aterrador

29 de mar. de 2013

Uma hora dessas, vai parar de doer. Tenho quase certeza.

7 de mar. de 2013



meta para a encarnação: o brilho eterno de uma mente sem lembrança


30 de jan. de 2013




Aquele momento em que você percebe que as pessoas ao redor estão certas de compreender e antever os movimentos do seu pensamento torto.

E você olha para elas, debaixo das camadas obscuras, placas tectônicas que protegem seu ego, seu id e sua cara de pau, e imagina que certamente é uma pessoa falsa.

E que não há muito o que se fazer.

Só livrar-se do mal, amém.