Puxa uma cadeira, e relaxe...

31 de out. de 2010

DIA 23

Costigliole, 31 de outubro de 2010
Domingão

Fa freddo. Piogge.

Acordei 10 e tanto da manhã. Essa madrugada, finalmente acabou o horário de verão (tão de gozação comigo, não tão não?) Então, agora só estou há 3 horas de distância do Brasil.

De manhã, giro rápido pela cidade, porque juraram que aos domingos era possível ver gente por aqui. Efeméride... fui ver, né? De fato, todas as oito mesas do café onde tomo cioccolatta calda i tosta estavam cheias. Fiz meu lanche em pé e fui ver as modas.

Aqui também tem uma feirinha como a de Asti, mas em proporções menores. Com tudo misturado. Tinha gente na feirinha. E na rua, umas três pessoas, u-la-lá! Bombando, Costigliole! Tá explicado, domenica não tem autobus!

Hoje é halloween e depois das 18 horas haverá uma festa onde as crianças sairão pedindo doces em troca de travessuras.... abóboras em todas as vitrines.

A esperta aqui saiu com o sobretudo normal e não o impermeável, quindi, começou a bater queixo.

Passei então no mercado para garantir meu almoço/janta: pane, basilico, azeite e tomate. Os tomates aqui são divinos! Docinhos, vermelhinhos, com o cabinho, uma coisa maravilhosa. Sei que são da América, mas aqui atingiram a perfeição. Nem precisava, mas como sou gulosa, comprei prociutto crudo san danielle (que continuo preferindo ao parma) e queijo de cabra.

Na volta, fotografei várias passagenzinhas medievais, o bosque por onde passo para ir e vir da escola o céu griggio...

De volta à Cascina fui para meu quartinho e resolvi fazer uma faxina, porque me desculpem as canadenses, mas higiene é fundamental. Catei garrafas e embalagens vazias vocês nem queiram saber aonde! Mas também, só de raiva, usei metade da caixa de lenços umedecidos demaquilantes de uma delas pra fazer limpeza no banheiro, porque já estava com nojo de lavar as mãos e sentar no vaso sanitário, o que, para quem tem a coluna baleada, é complicado.

blade runner...
Depois, fui colocar os e-mails em dia e tentar entender como funciona o bendito i pod e esse tal de i tunes. E, a caixinha que comprei pra poder ouvir as músicas do I pod, com o qual consegui me entender melhor. A questão é que em cima da caixinha, o treco ao qual eu deveria conectar o meu I pod é uma coisinha saliente que parece uma USB fininha e comprida. Não tem como eu conectar o meu usb rosinha ali porque ele só tem uma entrada circular onde ponho o fone de ouvido ou o cabinho que tem uma usb na outra ponta pelo qual ele se comunica nessas códigos secretos que os gadgets utilizam e com os quais irão dominar o mundo.
Então, como o I Pod e a caixinha irão se falar? Devo ter que compra algum cabo, mas qual o nome disso? alguém sabe? facilitaria muito minha vida, pois estou louca pra por som na caixa.

Ainda no assunto traquitandas, receio ter que informar ao papai e á Edissa que o fervedor elétrico de água que comprei não será despachado com a mala inútil pro Brasil. Dei pra tomar chá quinhentas vezes por dia. Primeiro pra ter motivo para comer a piccola pasticceria. Segundo porque aquece a alma. O caso é que a brazucada descobriu meu boilidor de água e vem toda aqui fazer chazinho... um verdadeiro convescote. As canadenses estão atazanadas!

Bem, a essa altura meu primeiro halloween vai ficar para o meu próximo primeiro halloween, pois cá estou acompanhando as eleições e, com 73 % das urnas apuradass e 10 pontos de frente acho que posso finalmente abrir minha botilleta de frizzante comprada especialmente para a ocasião!

Ah! Minha coluna. Melhorou muito. Estou sem muitos remédios. Só tomei, acho, um corticóide pela manhã. A dor está concentrada no bumbum e naquele ponto de sempre na lateral da panturrilha esquerda. Mas consigo andar bem mais e ficar sentada e deitada em mais posições e mais confortavelmente.

Parece que tudo vai dar certo, afinal e mamãe nem vai precisar vir no Hidenburg...

30 de out. de 2010

DIA 22



Costigliole, 30 de outubro de 2010
sábado

Dormi até 11 da manhã. Acordei e decidi lavar roupa! Já que não tenho mais quase nada limpo. Fingi que a dor não doía e com a ajuda da Renata fui pra lavanderia. Enquanto esperava, fiz as unhas e me sinto até mais humana, agora.

Resolvemos ir para Asti, pois temos que comprar calças de uniformes.

Tomamos uma cioccolatta calda com tosta (o mixto quente daqui, só que é com mozzarela de búfala e prociutto) e pegamos o ônibus.

Em Asti, nos deparamos com uma feirinha. Quem me conhece sabe que eu nunca fui capaz de resistir a uma feirinha. Malhas a 5 euros, casacos, calças, pães, queijos, flores, tudo misturado. Contento-me com uma bota preta de salto a 24 euros, porque acho que Deus até castiga a gente vir uma coisa dessas e deixar passar.

A coluna aperta a reclamação, e, mesmo eu decidida a ignora-la, percebo que tenho que tentar pelo menos um tandrilax.

Vamos procurar a tal loja de uniformes, e ninguém conhece. Entramos então numa loja de cosméticos e lá dentro, duas surpresas: meu shampoo daquela linha especial da L´Oreal que aí no Brasil custa algo em torno de 150 reais, aqui custa 15 euros. Compro, claro. E a segunda surpresa, o rapaz que nos atende é liiindo, como a maioria dos italianos que vimos, mas com um fator a se considerar: é o primeiro dos italianos que não achamos que parece gay! E ele fala! Fala muito! conta que é sul e que lá tem peixes maravilhosos como a spigola e o cherne, que ele também gosta de cozinhar, que bom mesmo é o sul (estamos bem inclinadas a acreditar nisso0!, mostra a foto da linda praia rochosa onde nasceu, pergunta como é o Brasil e conta que se chama Samuelle. Meio tontas (veja, são 20 dias sem ver homens que se pareçam com homens, exceto pelos brasileiros do nosso grupo, mas eles não contam! já achávamos que não existia isso por aqui!) nos despedimos parecendo duas lesmas e saímos correndo para o frio e a chuva mais seguros que a loja do Samuelle (mas seguramente daremos o endereço para algumas das meninas que acharmos merecedoras!) e onde me lembro que estou com muita dor de coluna!

Vamos ver os uniformes, muito legais, por sinal e minha coluna já implora por um descanso. Mal consigo andar, de novo. No caminho para o ponto de ônibus achamos uma loja de uns africanos onde se vendem todo o tipo de coisas exóticas. Muito tranqüilizador, pois lá tem aipim (a raiz!!) e arroz parbolizado... de que faremos uso em uma outra ocasião. E, surpresa das surpresas do dia: GUARANÁ ANTÁRTICA. Depois de momentos tão difíceis, achar um italiano que não parece gay, aipim e guaraná antártica me provoca uma crise de choro de felicidade! Comprei só três latinhas porque não posso carregar peso. Cada uma a 2,80 euros. Argh!

Voltamos para esperar o ônibus sentadas e tomar mais um capuccino e venho no ônibus ouvindo Nina Simone, com a perna esticada e dormindo profundamente!!!

Ao chegar, decidimos comer alguma coisa na Madalena. Fernanda, com quem encontramos, nos acompanha... Como uns camarões graúdos ao molho rosé, perfeitos, durinhos e umas batatinhas. Tudo acompanhado de meu recém-adquirido Guaraná. Crema Catalana de sobremesa; E, com ou sem dor de coluna, o mundo está parecendo bem mais agradável.

De volta à cascina, e à zoeira habitual somos convidadas pra uma balada, no club techno da comune vizinha, Isola D´Asti. Rimos, né? E juro que não é a idade, quem me conhece sabe que desde sempre é o tipo do programa que não me pega. Ainda mais nas atuais circunstâcias.

No quarto, vejo que minha tática de deixar a sacada aberta o dia inteiro deu certo, e está até bem habitável. Guardo minhas coisas, admiro minha bota pensando em quando minha coluna vai me permiti usa-la e deito para finalmente chegar a hoje, em tempo real, nesse blog fajuto!!!

Ah sim!! Hoje finalmente acaba o horário de verão. Então estou confusa em relação a que horas são agora, mas o fato é que a diferença entre nós e o Brasil, diminuem, né?

Pioggia. Freddo.

Vou dormir.

DIA 21


Costigiliole, 29 de outubro de 2010
sexta

Como o diabo faz hora com o cristão, para realçar a maravilha do momento, hoje é o dia da primeira prova. Obviamente não posso me levantar agora. Peço à Renata que diga à Elisa, a secretária, que por favor venha me buscar por volta das 10 h.

Decido não tomar nenhum remédio mais e tentar me desintoxicar e segurar a dor, enquanto isso.

Quando todos saem e a cascina se esvazia, ainda investida da minha personalidade último dos mortais, lembro-me de que a prova de hoje significa que o Grupo que veio para fazer o Corso Breve (ao qual eu inicialmente pertencia)) vai todo embora amanhã; O Marcos, a Lu, o Paulão, a Adriana e a Renata. E eu vou ficar aqui. Nessa situação.

Recebo uma ligação da escola dizendo que é melhor eu não ir, pois os 5 graus podem piorar minha coluna e que na próxima semana eu serei avaliada em separado pelo chef Andrea.

Diante disso tudo e da dor, noto que o caso pede um rivotril. Meu último ato é abrir o quarto para ventilar e, dormir. E dormi. Dormi até 3 da tarde. Tendo sido acordada por uma Renata desesperada querendo saber se eu ainda vivia. Notei que sim, vivia e que a dor de cabeça finalmente tinha cedido. E que, ao fim, alguém queria saber se eu ainda vivia.

Lembrem-se que eu sou filhinha de papai, de mamãe, irmãzinha de irmão e xodózinho de xu, de modo que sim, sou superprotegida, mimada e muito, muito feliz por isso.

Mirella, a camareira desse hospício apareceu com uma tigela de cereais e o iogurte de mirtillo que eu gosto.

De repente me senti tão feliz que resolvi tomar banho!

A coluna continuava doendo, mas, o que é uma dor de coluna diante do horror das últimas 24 horas? Arrumei a cama, como minha mãe teria dito pra eu fazer, e deitei, bem mais animada num quarto bem menos fedido.

Me senti tão feliz que achei que já podia ligar para meu pai e dar notícias sem deixa-lo doido. Assim fiz. E falei, e contei, e proseei.

Só não liguei pra mamãe porque ela ia saber, tenho certeza. E ou mandava me buscarem de balão, ou vinha num zepelin me resgatar, e afinal, eu ainda não fiz o que vim fazer aqui e não é hora de ser resgatada.

Fiquei quietinha de lado, para ver se dava um descanso à coluna.

E então, lá pras 19 h, vieram me buscar aqui porque ia ser o jantar de despedida do pessoal do curso breve. Pus minha roupa mais louca, e saída dos anos 20, com direito a chapéu e poncho com camafeu, brinco e anel de marcassita, lá fui eu para uma noite que foi realmente muito agradável, especialmente porque lá chegando tive a notícia de que Renata só parte na terça feira, pois aos 44 do segundo tempo conseguiu um estágio em Govone, cidade medieval a 6 km daqui, e, embora ela não vá admitir, acho que foi também pra ficar mais perto de mim. Pois não é sempre que duas pessoas com esse calibre de loucura de cruzam!

Voltei cedo, dolorida, mas bem mais animada, e dormi, num quarto ainda mais fedido que nunca.

Aliás, decisão para segunda feira: implorar a Elisa que me mude de quarto, porque afinal aqui é o terceiro andar e tenho que subir muitas escadas!

O mundo não é de todo mal e é bem capaz de ela me ajudar!

Continuo sem remédio nenhum.

DIA 20


Costigiliole, 28 de outubro de 2010
quinta

Acordei com muita dor, me agasalhei alucinadamente, tipo, a meia calça térmica, a ceroula térmica, a calça jeans, a meia soquete térmica, a bota da timberland, o body de manga comprida a segunda pele preta, uma malha por cima e o casaco de lona, fora cachecol, luva e gorro. Porque o médico disse que durante a crise eu tinha que me proteger muiiiito do frio.

Estava tão protegida que passei o dia com calor e com a certeza de que partes deste conjunto se desgrudariam de mim a qualquer momento. Não deve ser o jeito certo, esse...

Comprei logo cedo os remédios indicados. A codeína, que aí, pura, chama-se Tylex e me custa em torno de 60 reais, aqui, custou associada com os corticóides e o paracetamos, 9 euros.

Tomei correndo os remédios e fui, confiante, para a escola.

O problema é que está muito difícil para andar, para sentar e sobretudo para ficar de pé, parada. Mas fui, parecendo um astronauta.

De mannhã, aula magna de carnes. Que bonito. Fizemos uma costeleta de porco com o osso, empanada com um desenho, uma coisa deliciosa. A carne aqui é muito boa. Mais clara e mais macia que no Brasil. A impressão é que é de vitello, e de fato, o boi que conhecemos aí é chamado manzo. A carne do boi mais jovem, que é a mais comumente consumida é de vitello e tem ainda o vitelinho ao leite, que é piu buono! Mas mesmo o vitello já é um boi adulto, e a carne é tão clara e macia que parece de porco. Fizemos também um lombinho de porco com mirto que é uma erva daqui, e que lindo o ponto, rosado e tenro por dentro, é assado envolto em lardo que é como o bacon, mas eles aqui tem uma infinidade de cortes como o bacon, e todos mais gostosos que o bacon, tem o lardo, que é a gordura abdominal lateral, que é um bacon branco, sem ser defumado, como a pancetta, que é da barriga, e é curada com umas ervinhas e a aparência lembra mais o bacon, mas o sabor é muito suave, tem, a guancia, que literalmente é bochecha, mas é mais a papada do porco. Todas deliciosas. E teve mais uma receita, que era Guancia (bochecha de boi) com gnocchi de polenta. Só que a dor e os remédios me derrubaram e eu precisei pedir licença, juntar três cadeiras no fim da sala e deitar um pouco.

Hora do pranzio, almoço, e o serviço ainda era do meu grupo. Participei menos ativamente do que gostaria, mas participei. Observei que nós, brasileiros - e não deixo de levar em conta que isso é dito por mim, brasileira - somos os que temos melhores modos. O pão dos coreanos tinha que ser trocado o tempo inteiro. Eles sujam, amassam e espalham os guardanapos nestas condições, pela mesa. E deveriam sempre ganhar sobremesa, pois comem absolutamente tudo, não importa o que venha, nem que seja frango meio cru, como noutro dia. Deve ser por isso que eles sempre pegam todas as bananas e tangerinas, estas últimas deliciosas. O pessoal de língua espanhola é um caos. Eles põem tudo em cima da mesa, chapéus, celulares, canetas, e o que mais carregarem consigo e pedem pra repetir cada prato. Os de língua inglesa são bastante civilizados. Mas nós, damos um show. Nossos guardanapos restam impecavelmente dobrados, ainda que usados, ao lado dos pratos. Nossos talheres repousam na posição correta sobre eles. E não ficamos pedindo coisas para ninguém o tempo todo, Quando queremos água, levantamos e vamos apanhar a garrafa. Enfim, somos uns fofos e não à toa o squindim de iaiá da escola.

E daí, aula prática. Começamos fazendo uma brasciola, que, ao contrário do que se pensa aí, não é um bife rolé, é o carré do cavalo (mas, sob protesto, fizemos com porco porque não havia cavalo pra nós) com o osso que deve ser solto e limpo até um determinado ponto. Deve-se aparar gorduras e pelancas e nivelar a carne, aí se cobre esta carne com uma brunnoise de alho, alcaparras e pecorino, já que o prato é típico do sul. Então deve-se ir enrolando paralelamente ao osso, aí sim, como um rolé, mas quando chega no osso, prende-se com palitos e se o osso estiver bonito, ele deve ser posto na perpendicular. Concomitantemente está na panela um molho feito de cebola refogada no azeite e concentrado de tomate, sal e açúcar. Numa numa frigideira sela-se a carne para dourar e põe-se neste molho onde ela irá cozinhar lentamente.

Não, eles aqui não usam panela de pressão, é a terra do slow food, lembra? A comida precisa ter cocção lenta pra que dela se extraiam os sabores e texturas convenientes, naturalmente. O alho, praticamente não é utilizado senão para aromatização, e embora apareça na maioria dos pratos, é sempre retirado da preparação antes de ela ser servida. E tem o capítulo "A Cebola". A cebola é tão utilizada aí quanto aqui. Porém aqui ela não pode nunca, jamais, em tempo alguem, sob nenhuma hipótese, pegar qualquer cor. E ao mesmo tempo, tão radicalmente quanto a cor, não pode apresentar nenhuma crocância. Pra mim, isso não foi difícil, pois fui treinada assim na faculdade, tanto pelo chef que nos deu Cozinha francesa, Claude Lepeyre quanto pelo chef que nos deu Cozinha Italiana, Jonathan Lauriola. Mas todos tiveram muita dificuldade. Especialmente porque nossas práticas e preferências culinárias nos levam sempre a dourar a cebola. Por exemplo, aqui não se aquece nem a panela e nem a gordura antes do refogado.

A esta altura tomei a segunda dose do remédio.

E passamos à segunda receita que foi uma costeleta de cordeiro recheada com fígado de coelho selado. A costeleta era empanada primeiro em trigo, depois em ovo e finalmente em uma farofa feita de nocciolla picadinha, pão torrado, sálvia e salsinha, sal e pimenta do reino. Depois, frita na manteiga clarificada. Absolutamente delicioso. Achei o fígado de coelho divino, até mais delicado que o foie gras.

Houve uma terceira receita, mas essa eu não tive mais condições de fazer e fiquei sentada observando chef perpetrando um magret du canard devidamente caramelado de mel, selado e assado até o ponto certo, que me parece sempre uma loteria, acompanhado de maçã ácida caramelada com manteiga clarificada, mel e açúcar.

Além da dor de coluna, a esta altura estava com exaqueca, de um tipo que já conheço, e é de origem medicamentosa.

Como eu já havia me comprometido com a segunda parte daquele compromisso secreto que começou na terça, fui. E participei de boa parte do tempo, mas fui ficando ruim, ruim, com ânsias de vômito e começou meu inferno particular.

De novo, tive que me afastar do grupo e me deitar em três cadeiras que juntei em uma sala escura. Fiquei ali quieta pensando em como eu era uma criatura desafortunada que veio pra cá ficar doente, como eu tinha tanto medo que me acontecesse, e pensando em como eu ia voltar pra Cascina depois, com os 5 graus que estavam fazendo, e em como minha cabeça e minhas costas doíam. O retrato do mal-estar.

Quando todos chegaram e acenderam as luzes, eu não conseguia abrir os olhos, ouvia todo mundo falar e se aproximar de mim, e simplesmente desatei a chorar e me desculpar por isso, dizendo que eu não era assim, que não era uma pessoa fresca e doente e que estava tendo uma reação ao remédio da coluna, e que não era a primeira vez e quanto mais falava mais chorava, sem coneguir abrir os olhos direito. Patético.

Uma boa alma veio me trazer na Cascina, onde na minha cama, cozida pela calefação imposta pela Canadense 2 e enjoada pelo cheiro que as coisas espalhadas da canadense 1 provoca, segui por uma noite insone, dolorosa e dolorida em que nenhuma dor ou enjôo cedeu, e, pelo contrário, comecei a pensar que eu estava aqui longe e ninguém ia abrir a porta pra saber se eu queria ou precisava de alguma coisa, e como eu queria minha mãe, porque só ela sabe tornar as coisas menos pavorosas nessas circunstâncias e assim amanheci, pior e mais apavorada do que tinha ido deitar.

Donde se conclui que na Europa, sente-se as dores mesmas que no Brasil.

DIA 19

Costigliole, 27 de outubro de 2010
quarta

Hoje acordei com muita dor ainda. Me entupi de tandrilax, peguei na mão de Deus e fui.

Dia de aula magna de manhã. Peixes, lula, sépia. Dor. Almoço. O serviço era do meu grupo. Arrumar toalha, colocar a água com o rótulo na posição certa, intercalar com os pratos de pão. Cortar os pães. Colocar os talheres, as taças, os guardanapos. Bandejas com os pratos. Dois pratos no braço esquerdo, mão direita para trás. O logo na frente do "cliente", mas o prato não pode ser rodado, tem que chegar à mesa na posição certa. Retirar pratos. Lixo no lugar do lixo. Reposição de água e pão. Secondo piatto. Tudo de novo. Depois tirar tudo. E sob o atento olhar do mestre Giancarlo Lecara e seu Pateck Phillippe de algibeira;

Troppo fredo, oggi!

Pomeriggio, aula prática. Peixes. Não gostei de nenhuma das duas receitas, apesar de o chef convidados ser um fofo. O fato é que como já mencionei, temos que lavar toda a louça e limpar a bancada, perde-se muito tempo de aula!

Na verdade iam ser três receitas, mas eu estava péssima, e, pedi pra sair. Fui encaminhada ao médico.

Chegando lá, expliquei, como podia, à burocrática secretária o que tinha antes pesquisado no guia de conversação: sonno malattia de schienna, far male!! Tenho dor de coluna, dói! Ela perguntou, sob os óclinhos: ha prenotado? Fiz cara de paisagem: no! emergência! far male, signora! E ela: tché un saco de gente. Aspeta. Aspetei, sentada e com dor, por DUAS HORAS. A coisa aqui é tão burocrática que embora eu não tivesse prenotado, houve vários vácuos de pessoas que ou não vieram, ou foram atendidas rápido, e ainda assim a simpática signora solo repetia: lui te chiama!!! ai mas me chiama quando??? Esperei.

Neste meio tempo a aula acabou e Renata veio ficar comigo. Estava HISTÉRICA. Basicamente ela não fica mestruada e nem vai ao banheiro desde que chegou aqui (ah, o comércio do 46 realmente me renderia uma fábula), pelo que percebo ela está tendo uma crise muito séria de TPM misturada com intoxicação pelas coisas que não saem do corpo dela. O rosto está todo cheio de espinhas num padrão incomum, como se algo realmente estivesse sendo expulso. E ela chora alucinadamente e tem certeza que todas as pessoas a desprezam, inclusive eu, desconfio. Fico feliz que eu não seja a única com problemas por aqui. Luciane chega e eu peço discretamente que ela a leve à farmácia e compre quilos de laxantes e alguma coisa que faça a pobre menstruar. É muito difícil a vida de uma criatura nessa situação. Quando elas voltam, REnata já tomou um sachê de fibras e dois laxantes. Se não morrer, vai ficar bem, creio. Mas o outro remédio incluía hormônios e ela preferiu esperar mais.

Chega Fernanda, a tradutora. Explico minha situação pra ela. Que tenho isso há muitos anos. Que estou passando por uma crise desencadeada pelo peso da roupa molhada e das malas que carreguei para a cascina, além de ter andado mais do que devia. Mas que vou ficar bem se tiver os remédios certos, que preciso de codeína mas não creio que ele vá me dar. E que se ele negar devemos pedir que faça aquele exame do martelinho, pois então verificarã que eu não tenho resposta neurológica do lado esquerdo e me dará o bendito remédio. Ela diz: ih... os médicos aqui dão qualquer coisa, e não fazem exame nenhum não.

E, finalmente sou chamada.

Eu vou explicando tudo isso e Fernanda vai traduzindo. Sem que eu peça ele vem me examinar, aperta minhas costas, os pontos de dor, me manda deitar e... faz o exame do martelinho. Me olha com aquela cara de: ih.... brucutu, pergunta o que eu tomava no Brasil. Explico que em caso de crises agudas, codeína. Ele faz que sim, e arescenta que vai associar a codeína com corticóides e paracetamol. Ufa.

Saio de lá mais aliviada.

Tanto que aceito o convite das meninas para ir jantar ao lado, no Café Roma, uma Enoteca Cocina. Não gostei de nada, a não ser do vinho Barbera D´Asti da garrafa das menininhas que custa 10 euros e é magnífico. A sobremesa fazia schifo. E na verdade eu queria mesmo era vir dormir. Far male!

E assim fiz.

DIA 18

Costigliole, 26 de outubro de 2010

Sensa condicione. Acordei cedo e notei que, ou repousava hoje ou amanhã já não levantava. Assim, faltei minha primeira aula. E justo no dia do Risotto. Vou ver se assisto essa aula depois, com a turma de língua espanhola.

Passei o dia encolhida, em posição fetal, rezando para não ser uma crise.

Elisa, a secretária da Escola, deu uma incerta na hora do almoço para ver se eu estava bem e se queria que chamasse um médico. Eu agradeci e continuei deitada. Me sentindo a última das criaturas.

Aí lembrei que sempre que estou doente e modorrenta minha mãe me obriga a tomar banho e quando eu volto pra deitar estou fresca e ela arrumou tudo ao redor e o mundo parece bem melhor. Então, o dia já ia alto quando fui tomar um banho. Troquei a roupa de cama, abri o quarto e, tinha sol lá fora. Dei uma geral nas minhas coisas, e voltei pra cama, me sentindo menos coitada.

À noite fui, mancando, a um compromisso secreto que por seu caráter confidencial não posso contar aqui, né? Só posso contar que voltei com muitos bacci di dama, canolli da Sicília, brutte i boni...

E agora estou aqui, atualizando esse blog que me está sendo cobrado e no qual não publico nada há mais de uma semana.

Mas acho que valeu a espera, né?

Bem, quanto à coluna, melhorou, mas não de todo. Ainda não sei se é uma crise ou o resultado de uma série de esforços que eu eu não podia ter feito, mas não pude evitar como passar dias de pé por conta de aulas práticas, exercitazione di cocina, mise-en-places, sacolas com roupas molhadas, visitas, carregar malas por conta da mudanças, andanças várias, enfim, foi tudo ao mesmo tempo.

Torço para começar a responder aos remédios, o tandrilax e o treco efervecente e ruim que o farmacêutico me deu, e seguir em frente.

Chegar e encontrar meu cantinho arrumado foi muito reconfortante (é só não olhar ao redor...)

Vou dormir. Finalmente fiquei quites com o texto do blog, e agora me resta corrigir e publicar. Mas só farei isso amanhã, chega de passar dos meus limites. São 2 horas da manhã! Acabo de me dar conta que a canadense loira ainda não está no quarto! Que terá sucedido à canadense loira nessa noite fria? Aguardemos....

DIA 17

Costigliole, 25 de outubro de 2010
segunda

Continuava chovendo!

Primeira manhã de aula a partir da Cascina. Como não tinha a Renata pra garantir que eu acordasse, comecei a despertar às 5:38 da manhã achando que já tava na hora.

Finalmente me levantei às 7, torta de cansaço e dor, na coluna e nos pés. E, aula!

Aula magna de manhã, com receitas que eu teria aproveitado melhor em outras circunstâncias. Gnocchi di patate i Nero di Sepia, uns outros molhos. E aula prática à tarde. A essa altura a minha coluna já doía de tal modo que eu não me concentrava mais.

Passei no Carrefour (o único estabelecimento comercial que abre na segunda) e Cascina. Comprei um treco efervescente para Malattia di schiena (já que os milhões de tandrilax que tomei durante o dia não surtiram efeito) e pé no bosque.

Já é o caso de explicar que a cascina fica abaixo do ICIF. Para se ir de um lugar ao outro é preciso passar por uma enorme ladeira medieval ou encarar uma mega escadaria, e passar por dentro de um bosque, congelando. Ótimo, pra minha situação...

A canadense fecha tudo e liga o aquecedor. Ninguém merece! Fui dormir meio cozida, dolorida, e com a sensção de que, a coisa assim como está, não está bem.

29 de out. de 2010

DIA 16

Costigliole, 24 de outubro de 2010
domingo

O signor Gallo provou que, como Renata diz, é ponta firme, e às 9:15 estava lá para nos apanhar! Em Asti soubemos que havia um problema nos trilhos no caminho pra Alba e então fomos enviadas pra lá num ônibus da Trenitalia, ainda não foi desta vez que andei de trem por aqui...

Uma hora de viagem (de carro teria sido bem mais rápido, são só 40 km de Costigliole que está aliás, entre Asti e Alba...) e chegamos a Alba e congelamos. Entramos correndo em um café e nos enchemos de chocolate quente (que aqui é uma beberagem cheia de amido) e fomos correndo procurar um lugar onde pudéssemos comprar meias-calças térmicas para colocar sobre aquelas que já vestíamos. Só depois desta providência singela é que consegui me focar no que fui fazer em Alba e que era afinal uma das minhas grandes expectativas para a viagem: O Mercato de Tartufo Bianco di Alba. Tantas vezes estudado, sonhado, desejado. E lá estava eu, entre aquela gente bonita e bem vestida, com meu chapéu vintage novo, na rua onde, um mês por ano, civis e chefs do mundo inteiro se digladiam por uns míseros gramas deste produto que pode chegar a preços exorbitantes, geralmente só pagos pelos japoneses, que são estranhos mesmo.

A feira era num enorme galpão nesta rua onde as pessoas iam e vinham. O nosso ticket de entrada custou 8 euros e dava direito à degustação de vinhos. Ao entrar no galpão, o cheiro. Ahhhh, o cheiro. Nos separamos e fomos andar. E eu provei. Ah, eu provei tudo. Vinho, grapa, tartufo dolci (que não tem nada a ver com o que fazemos aí, que prefiro), tarocco di ciocolato, burro trufatto, crema trufatta, olio trufatto, aceto trufatto, riso trufatto, provei tudo! Comprei manteiga, crema e azeite. E mais não comprei porque dinheiro não tinha. De qualquer maneira estou com a intenção de fazer algo como um menu degustação em casa quando voltar ao Brasil, então não deixa de ser um investimento (entendeu, papai?).

Quando finalmente reencontrei Renata, estávamos ambas exaustas, congeladas e notamos que não íamos conseguir aproveitar mais nada. A essa altura minha coluna já estava doendo e depois de ver passar três, bem, não sei como se chama, algo como “blocos” de burgos, vestidos a caráter, corremos para a Estação de onde o ônibus tinha acabado de sair. Duas horas de espera. E desta vez não dava pra chamar o signor Gallo, pois não tínhamos mais dinheiro!

Fiquei na estação sentada com as bolsas pra tentar poupar minha coluna e Renata ainda foi andar.

Duas horas e uma sonequinha depois, finalmente pegamos o ônibus, onde dormi mais e cheguei de volta à Cascina, onde cumprimentei minhas colegas de quarto canadenses e, fui dormir, exausta!

Chovia.

DIA 15

Costigliole, 23 de outubro de 2010
sabado

Dormi até mais tarde pela primeira vez desde que cheguei na Europa, acordei às 9:40!!
Ilaria, a jovem, estressada e simpática diretora do ICIF veio nos buscar para nos levar ao alojamento.

Já é hora de explicar que o tal alojamento, ao qual passo, a partir de agora a me referir como Cascina, se chama Cascina Salério. O ICIF (pra você que não se lembra: Institute of Italian Culinary for Foreigners) funciona num espaço pertencente à prefeitura de Constigliole que é o Castello di Costigilolle d´Asti. Falarei mais especificamente sobre o castelo num post mais pra frente. Agora, cabe dizer que a prefeitura cedeu para o Instituto este pequeno prédio para fazer as vezes de alojamento estudantil. É um prédio branco de três andares em L, com pequenos apartamentos constituídos por um pequeníssimo hall, dois quartos e um banheiro, cada. Pelo que percebo cada quarto tem duas ou três camas. Embaixo tem a cozinha, a qual os estudantes não têm acesso, e onde só é produzido o café da manhã (já que almoço e jantar são na Escola). Contígua a ela o refeitório com uma geladeira mínima cheia de bolsas de todo mundo e um cheiro horrível, um microondas e uma máquina de café espresso. Há também uma dessas máquinas de bebidas com moedas e uma outra, no mesmo estilo com coisas fundamentais como amendoins e wafers.

É lá que o sinal da internet é melhor, mas no meu quarto, felizmente pega bem. Como isso não é a regra, todo mundo usa o refeitório para ficar com seus laptops fazendo as coisas que se faz num laptop. Não há mesa pra todos porque juntaram algumas no centro do refeitório à guisa de mesa de ping pong. Que aqui, democraticamente se joga a cinco ou seis, com todo mundo correndo em volta da mesa. Enfim, um lugar sossegado, o refeitório.

Há poucos quartos nesse andar térreo, e todos de homens. No subsolo há a lavanderia com duas máquinas de lavar e uma de secar, todas de fichas que se compram na escola e também duas tábuas de passar e dois ferros de passar roupas. Nesse subsolo se pode ver a origem antiga do edifício.

No vão do L que a construção compõe, há um quintal com apenas uma árvore sob a qual foi montada a churrasqueira improvisada com blocos de concretos roubados do exasperado vizinho e ao redor da qual ficam todos se aquecendo à noite. Ao som de música brasileira já que Guilherme, o brazuca do primeiro andar (aquele que está percorrendo a Europa numa bicicleta, embora eu desconfie que ele chegou aqui montado num unicórnio) pendurou uma verde e amarela na janela e pôs umas caixinhas de som embaixo.

Ouve-se todas as línguas. Há japoneses, filipinos, coreanos, brasileiros, peruanos, espanhóis, paraguaios, argentinos, brasileiros, turcos, ingleses, americanos, canadenses... isso para ficar nos que eu conheço.

Assim é a Cascina Salério. A torre de babel que será meu novo lar pelos próximos meses.

Depois de ser rejeitada pelas coreanas (sofriiii...) me puseram num apartamento com duas canadenses. Uma de origem indiana e outra loiiiiiira que fala como um bebê. Ela é de Toronto,e divide o quarto comigo. A outra está sozinha no outro quarto. Elas tomam banho! Mas não abrem o quarto, que tem um cheiro bem saturado, pra ser elegante. Há roupas de todos os tipos espalhadas por todas as partes e muitas garrafas vazias. Meu quarto é o 312, no último andar. Sempre as escadas, no meu caminho...

O pior de tudo é que me separaram da Renata. Que é uma criatura doida dos quatro costados, mas a quem eu já tinha me adaptado e a quem já estava francamente afeiçoada.

Ela ficou no 205, num apartamento com mais três brasileiras da nossa turma. Aproveito que todas viajaram e comunico às canadenses que vou dormir no quarto da Renata, hoje.
Após deixar nossas muitas coisas na Cascina, vamos para a escola, para o bendito mise-en-place... chegando lá, está rolando uma faxina, e Paola, a chef descabelada tem um treco, porque isso não é dia de mise-en-place, porque nós não somos o grupo responsável e isso não é justo (com o que concordo integralmente), porque está tendo faxina e nós vamos sujar tudo de novo, porque os japoneses estão tendo aula agora e não podemos atrapalha-los (todo mundo sabe que os japoneses não são um povo passível de contrariedades) e porque na Itália não tem escova progressiva e ela tem que ficar com o cabelo daquele jeito!

Daí ela, o Marco, que é o assistente dela muito bonitinho, com cara de argentino e que não conseguimos decidir se é gay ou não e a pobre da Ilaria que tem metro e meio de altura e uns 40 quilos começam a gritar uns com os outros. Gritar mesmo. Eu e Renata saímos de fininho e vamos lá pra fora esperar uma decisão. Não sei porque essas coisas sempre acontecem comigo.

Uns dez minutos depois de muita gritaria a Ilaria vem e diz: comecciamo, ragazzi!

Como assim???????

Sem discutir, pegamos as receitas, e, gente boa, são 4 de aula magna, ou seja, precisamos separar, pesar e medir os ingredientes das receitas que o chef que vai vir demonstrar. E 2, DUAS receitas práticas. Isso significa que, precisamos medir, pesar e separar os ingredientes que os 20 alunos da turma mais o chef vão usar para executar as duas receitas. TODOS os ingredientes, lula, camarão, carne de porco, lardo, farinha de trigo 00, farinha de trigo 000, farinha de trigo de grão duro (que tipo de lugar tem tanta farinha de trigo diferente????), tomate, cardo (o que, diabos, é cardo?) e mais um monte de coisas. Temos que fazer tudo isso sem sujar nada (afinal já houve a faxina), e sem entender muita coisa porque afinal vem tudo em Italiano e vai saber assim, de chofre o que é cardo, manzo, prezzaiolo, farro e sabe-se lá mais o que. E, o principal, entrando o menos possível na cozinha onde afinal estão todos os ingredientes, porque tá um clima que, se a gente abusar da sorte, Paola, como uma viúva negra, nos prende em uma teia de cabelos e ninguém nunca mais vai saber de nós.

Começo a ficar realmente irritada.

Diante de tal quadro, ligamos para Fernanda, a tradutora, que vai nos ajudar. A esta altura estou descalça (fui de roupa civil, já que havia levado meus uniformes para lavar na quinta, quando fui abordada pelo duende, Ângelo, lembram?), cheia de farinha e meio sequelada andando de um lado pro outro inconformada e eu e Renata já estávamos brigando entre nós, porque, como já esclareci ela é louca e não va bene para mim, pessoa sensata.

Duas horas depois, acabamos a mise-en-place e estamos definitivamente exauridas.

Se você revir o dia de hoje vai notar que foi totalmente vão.

Revolta. Decidimos, mesmo brigadas, pegar um ônibus para Asti, para pelo menos fazer coisas práticas como comprar o Chip do telefone, arranjar uma bateria nova pra máquina, esses lances, e, adivinha? O ônibus acabou de sair. Outro? Só em uma hora e meia! Sem nos dar por vencidas e sem nos falar direito, chamamos o taxista que, chama outro taxista, que, chama outro taxista que finalmente chega. Dez minutos antes de sair o ônibus que custaria 1,75. Vamos então de taxi para Asti, pelo que pagamos 30 euros, mas a essa altura o desespero já nos levou a fazer as pazes.

Finalmente consigo olhar para Asti e descubro que é bem legal. Já é noite, a cidade está cheia. Vamos para a Piazza San Secondo e, antes de mais nada compramos o chip da Wind. Isso significa que agora tenho um telefonino na Itália! E um plano de ligações internacionais que me custa 12 centavos de euro o minuto de ligação para o Brasil e um plano de internet limitado por 4,90 mensais! Incrível! Vocês podem me ligar! (00 39) 38024.43182.

De lá íamos em direção à loja de material fotográfico quando, surge, à nossa frente uma loja de... chapéus. Todos vocês sabem da minha fixação em chapéus. Renata compartilha esta fixação comigo (o que foi muito conveniente, pois pudemos trocar nossas capelli sem nunca repeti-los, ao menos na mesma cabeça). Não prestou.
Depois de um dia desses uma mulher precisa fazer compras, para desopilar o fígado. Daí que saímos com um total de quatro chapéus (sendo um para neve), dois cachecóis e uma luva de pelica. Considerando que cada uma de nós tinha levado uns quatro chapéus cada uma, precisaremos de uma mala só para eles.

O mundo pareceu bem mais agradável depois.

Especialmente porque chegando na loja de fotografia o gentil atendente após experimentar a bateria, informou que o problema era comigo, e não com ela. E não é que é verdade? Não sei explicar o que aconteceu, o fato é que voltei a ter uma máquina fotográfica.

Como o próximo ônibus era só às 21 h e ainda eram 19:30 e estávamos mortas de fome e cansaço, pegamos outro táxi. O que foi ótimo pois, dando continuidade à minha tradição de taxistas figura, agora já tenho o meu no Piemonte, o Signor Gallo, que falou conosco sobre vários assuntos.

Ele nos esclareceu, por exemplo, que o milho que se planta na região, e que me causava espécie era pra alimentação dos animais, sendo raramente o mais píu piccolo utilizado na polenta.

O signore Gallo era tão buona gente que resolvemos mudar os planos e pedimos que ele nos apanhasse no dia seguinte de manhã para irmos a Asti pegar o trem para Alba, plano do qual já havíamos desistido, já que domenica don´t have autobus em Costigliole.

De volta à Costigliole fomos encontrar Fernanda, conforme combinamos mais cedo para jantar no restaurante Signória, o piu chique da comune. Desconfio um pouco do gosto decorativo dos Italianos pós-renascentistas. Eles tem mania de paredes adamascadas. Sei não, não me parece muito saudável pôr tecido nas paredes e pior, nas cadeiras, cobrindo-as.

Mas a comida estava quelque chose!!! Ai ai, ando tão poliglota!

Deixamos Fernanda, praticamente uma local, escolher o cardápio. Veio então uma espumante rose do Piemonte para acompanhar o antipasti: ovo com trufas brancas. Minhas primeiras trufas brancas. O cheiro era sublime como eu já conhecia, e estava delicioso, não obstante a falta de sal característica. O primo piatti (e eu parei nele) foram pequenos escalopinhos de foie gras (os ecologistas que me desculpem, mas foie gras é fundamental) sobre uma caminha de uma folhinha agradavelmente insípida, porém não insossa. Meraviglia. De sobremesa veio para mim e para Renata uma coisa tão complicada que eu não sei reproduzir, mas era algo como um petit gateau de nocciola sobre o qual o chef em pessoa vinha colocar um CD de chocolate, ao lado, um copinho cúbico (não sei se eu sei o que é uma coisa cúbica, mas a palavra combina com o objeto) com uma coisa líquida e aveludada que tinha obviamente a ver com chocolate (uma palavra sobre os chocolates italianos: não gostei de NENHUM, venho passando a Lidt). Achei doce demais da conta e me pareceu combinar muito com o tecido das paredes. Já para a Fernando veio uma Bola de Pistache, que era uma mousse de pistache que parecia uma bavaroise, muito boa mesmo, vinha num formato perfeitamente esférico e era coberto por chocolate endurecido que o chef (ele tem que dar um jeito de vir ao salão.... ah, esses chefs... so vain...) vinha – de novo – quebrar com um martelinho de bater bife. Depois, antes do café (que aqui é uma obrigação cívica, o que me faz pensar que cedo ou tarde serei presa, uma vez que detesto café!) vinha uma colher torta e nela pequenos grãos de chocolate com a recomendação de que os enfiássemos todos na boca ao mesmo tempo, após o que eles explodiram! Muito legal. Eram injetados com anidrido de carbono, o que me soa tão pouco saudável quanto cadeiras cobertas por tecidos, mas enfim, foi bem pitoresco!

Chegamos de volta à Cascina, cansadas, alimentas, enchapeladas, felizes e totalmente de bem.

Como se não bastasse, ao ligar o computador, estava a minha família toda reunida na minha casa e pudemos nos falar no MSN com câmera. Mauro, mamãe, papai, Edissa, Carlos, Eliane, Fernandinha e Fátima!!! E chorei até quase vomitar o petit gateau açucarado!

Dia 14

Costigliole, 22 de outrubro de 2010 
sexta

Hoje é o dia em que deveríamos ter logo cedo nos mudado para o alojamento, contudo, como ontem não consegu secar minhas roupas, favelizei o hotel e espalhei tudo na sacada. Só que tá tão frio que nada seca!

Assim, ignoramos o fato de que precisávamos nos mudar e fomos normalmente começar o dia que era especial.

O ônibus da escola nos pegou para uma visita a Zibello para ver de perto a produção do embutido mais nobre da Itália, o Culatello di Zibello. Zibelo fica na Planície Padana, às margens do Rio Pó, na Emilia-Romagna. Isso significa que precisávamos atravessar o Piemonte, parte da Ligúria e da Lombardia, para chegar ali no início da Bota, na Emilia Romagna. Dormi, lógico.

Quando acordei, me vi num lugar plaaaano (alôô, PLANÍCIE PADANA!) nem um morrinho à vista. Plantações e mais plantações. Muito solo sendo preparado... vários rolos enoooormes de feno. Sol. Enormes terrenos cultiváveis e suas casinhas no meio, sempre altas, de tijolos, cinzas. Um celeiro, algumas árvores ao redor, de copa cuneiformes mas não necessariamente pinheiros... e a plantação.... até a próxima casinha. Não são como fazendas do Brasil... sem fim... aqui, qualquer pedaço de terra é cultivado, e vive-se dele. O curioso é que vejo muito milho...

E finalmente chegamos. Zibello, Emiglia-Romagna. Antica Corte Pallavicina Rellais.
Uma casa medieval que existe desde por volta de 1300, quando naquela região se explorava sal. Não sei bem como, já que não tem mar... era a casa de uma família aristocrática, acabou de ser reformada e é fantástica. Todos os cômodos tem afrescos, a copa com frutas e embutidos, a sala de estar com os brasões das famílias mais ricas, como um cartão de boas vindas, o que me faz supor que apesar das distâncias, que deviam ser ser enormes, eles se visitavam. Outra com os deuses do Olimpo, para mostrar que era também uma família culta, com acesso à informação.

A casa fica literalmente às margens do Rio Pó. Isso garante um micro-clima adequado a várias coisas. Ao cultivo da uva Fortana, por exemplo. Então ali se encontram os vinhos DOC P, desta uva, provamos três, o tinto frizante, delicioso, a espumante rose, que não gostei tanto e um branco. Só podem ser feitos com uvas cultivadas nessa região. Já a legislação de queijos, é diferente. Ali é uma área adequada para a cura do queijo Parmiggiano Reggiano, embora esta propriedade em particular, não o produza, apenas seu subsolo é utilizado para a cura. Então vem queijo de várias regiões autorizadas a produzi-lo, para a cura. O queijo tem que ser produzido ali, mas o leite pode ser trazido de outras regiões ao redor, assim, a diferença entre eles está na procedência do leite. Se as vacas são vermelhas, marrons ou brancas, se são da planície ou das colinas e tudo isso é consignado.

E finalmente, o Culatello di Zibello. Trata-se de uma faixa específica do pernil do porco de duas raças, a branca e a negra (mais nobre porque mais rara). E aquela faixa é posta para curar envolta pela própria bexiga do porco e amarrada em cordas e pendurada no subsolo da propriedade. Ali, durante o tempo mínimo de cura, que é de 18 meses, chega a perder 50 % de seu peso. E ali, a neblina propiciada pelo micro-clima do Pó, faz com que penetrem na carne os aromas das uvas fortanas, pois há vários barris sob os culatellos. Além disso, cresce um mofo branco, nobre, que dá sabor e aroma ao embutido, dá pra ver nitidamente que as peças então envoltas por este mofo.

Há uma sala onde estão as provisões anuais encomendadas pelas famílias reais, inclusive a da Inglaterra, Giorgio Armani, tudo com plaquinha!

Fiquei um pouco destacada do grupo, ouvindo no meu I Pod novo, um Girassol da Cor dos Teus Cabelos enquanto andava na margem do pó, pegando sol pra aquecer o frio, muito emocionada por estar ali.

Almoçamos dentro da propriedade, num restaurante chamado AL Cavallino Bianco; Foi lá que degustamos os três vinhos, durante o almoço que se constituiu de uma farta amostra dos embutidos da região, inclusive o Cullatello. Muito bom, suave e elegante. Mas o copa, minha gente, o copa, vocês não queiram saber. Comprei um pra mandar pra minha turma, claro.

Nunca comi e nem nunca vou comer uma focaccia igual a que serviram lá. Macia e saborosa por dentro com uma casquinha que ia num crocante crescente, com cheiro de azeite.

Sobre o almoço, tenho a observar que era bom, mas nada espetacular. Depois dos embutidos veio uma saladinha deliciosa de algo que parecia ser chicória crespa com porcini e balsâmico, depois um ravióli mago (que é como se chama o recheio de espinafre com ricota), gnocchi de porccini ao pomodoro, cujo molho, a mim, pareceu ter pegado um pouco no fundo da panela, além de estar com um nível de acidez que anulava o funghi fresco, delicado, uma pena. De sobremesa, semifredo de nocciola e crostatta de marmelada.

Então partimos para ir a Modena, numa produtora de Aceto Balsamico. Ia demorar. Eu não queria dormir, então fui lá pro fundo do ônibus e propus uma cantoria braisleira ufanista, prontamente aceita e me senti o Ronaldinho Gaúcho batucando no ônibus da Seleção. Mas mais feliz, um pouco.

Modena, assim como Asti, equivale ao que chamamos estado. Asti fica no Piemonte, e Modena na Emilia-Romagna, que são regiões no norte da Itália. O lugar onde estávamos chama-se Vignole que é uma comune (equivale às nossas cidades) de Modena. Toda a região de Modena é legamente autorizada a produzir o Aceto. Vignole parecia um bairro suburbano com seus prediozinhos baixos, com gerânios coloridos nas sacadas, comércio pequeno. Entre cada prédio, cada casa, uvas plantadas. É engraçado, acho que não temos correspondente no Brasil, porque é uma região residencial urbana. Você nunca imagina que ali se produzem coisas como Aceto Balsamico. Mas não se engane.

Em primeiro lugar, pelo que percebo, há uma diferença entre os conceitos “urbano” e “rural” no modo como eu, brasileira, os entendia, e como estou vendo aqui. Eu cheguei por Malpensa, Milão, mas não fui a Milão e a nenhuma grande cidade, até agora, além de Gênova, onde só fiquei no centro histórico. Desde que cheguei, não vi um único arranha-céu, nem sequer um edifício alto. Há eventualmente, como em Vignole, esses pequenos conjuntos residenciais com prediozinhos de não mais do que quatro andares. São sempre de tijolinhos vermelhos. Todos os lugares que eu fui eram cultivados. Então, o que é rural, o que é urbano? Como a legislação aqui é bem rígida em termos da origem de seus produtos, tendo várias certificações, como Denominação de Origem Controlada, Protegida, Garantida, e o escambau, os produtos precisam necessariamente utilizar a matéria prima produzida e cultivada nas regiões delimitadas, já que a legislação se dá por conta da excelência da matéria prima daquelas regiões baseando-se em seu micro-clima;

Deste modo, pense, se onde você mora, e só lá se pode plantar a uva x que é usada no vinho y, o que você vai fazer como complemento de renda, ou não, dependendo da extensão da sua terra, ou mesmo se você só tiver 5 m de quintal (literalmente)? Plantar a uva x. Isso se não resolver fazer você mesmo o vinho y.

Vai daí que é tudo baseado na produção familiar de pequena escala, pelo que noto. E por isso há tantos consórcios. Consórcio de produtores de riso (o arroz para risotto que é DOP, denominação de origem protegida do Piemonte) consórcio de produtores de parmiggiano reggiano, consórcio de produtores de grana padano, de aceto balsâmico, de azeite da Ligúria (ah! O azeite da Ligúria...) de tudo o que se possa imaginar... porque em primeiro lugar a legislação é restritiva e eficaz, e em segundo lugar, cada um desses consórcio tem cerca de cem produtores, por exemplo, mas significa dizer que são cem famílias que produzem quantidades em geral bem pequenas daqueles produtos ou matérias primas, e que são fiscalizadas e protegidas pelas certificações.

Genial.

Vejamos por exemplo o Aceto Balsamico de Modena. Chegamos neste pequeno bairro residencial, onde cada metro de quintal tinha suas uvas e as ruas eram como aléias no meio de vinhedos. La Cá dal Nono era o nome da propriedade específica que fomos conhecer. Fomos recebidos pela simpática, linda e grávida proprietária, Mariangela Montanari. Entre um tchau e outro para a filhinha que brincava no colo da nona, ela nos contava em sua varanda, entre botillettas de aceto e brinquedos infantis que o Aceto Balsamico é produzido a partir do mosto cozido de uvas, mas não de quaisquer uvas, de uvas produzidas naquela região, são três tipos, uma, cujo nome não me recordo agora, nem é vitivinífera, outra é a trebbiano e tem também a lambrusco. Pois então, se cozinha o mosto até que ele vire um melaço, melaço mesmo, igualzinho ao de cana, eu provei, o cheiro delicioso e o sabor, muito parecido. Grosso modo, esse melaço é posto a envelhecer num barril pequeno cheio até 2/3 de sua capacidade. Contudo, antes de receber o melaço, esse barril, é embebido em ácido acético, acho, de modo que as leveduras (como cachaça!) trabalharão acidificando o mosto cozido. É necessário um lugar com as estações bem marcadas porque no verão e no inverno, por serem temperaturas muito extremas, a levedura não trabalha. Assim, a época de trabalho é a primavera e o outono. Num sistema que me pareceu muito similar ao sistema de cortes pelo qual o Cognac é produzido, esse mosto acidificado vai sendo passado por vários barris e em cada um deles há mosto do ano anterior, e então são baterias de barris de madeira, com a tampa coberta só por um paninho para que não entrem insetos nem poeira. Cada bateria, porém, tem sua peculiaridade. Há aquelas onde o mosto vai envelhecer por um período mínimo de 12 anos. Há baterias cuja madeira é especial, de frutas selvagens, por exemplo, há baterias de mosto que vai envelhecer por 25 anos, há baterias de vários jeitos.

Assim, há famílias que até hoje obtém garrafinhas de acetos que começaram a ser envelhecidos há 150 anos, por exemplo. Em Modena, nos contou Mariângela, dificilmente há uma casa onde não se tenha ao menos uma bateria de mosto envelhecendo. E há uma tradição de que a cada criança que nasce, é feita uma nova bateria que recebe o nome desta pessoa. Vimos a da Mariângela, a do pai dela, e a da filhinha dela. Isso me emocionou muito.

Para ficar no exemplo desta propriedade específica que eu visitei, a média de produção por bateria é de 12 garrafinhas por ano. Assim, pode-se imaginar o trabalho, o preço de um produto destes.

Acha-se vinagre balsâmico nos supermercados do mundo todo, e mesmo sob este nome: Aceto Balsamico de Módena. Mas vejam bem, amiguinhos, se não tiver o selo “DOP”, ou “DOC”, você estará consumindo vinagre com caramelo. Nem sequer é o mosto cozido, quanto mais, envelhecido!

Quando eu fui fazer meu passaporte, no Shopping Leblon, paguei uma pequena fortuna numa garrafinha de Aceto Balsamico de Trebbiano. E era realmente muito gostoso. Mas, depois de ter visto o processo e degustado o produto de Módena, sei que ele era ralo e ácido demais para ter sido feito por aquele processo.

Assim, paguei uma nova pequena fortuna por outra garrafinha (ah! Tem também o formato da garrafinha, o aceto di Modena vem necessariamente nessas garrafinhas aí da foto, não importa a família produtora) mas pelo menos não levei gato por lebre. Provamos os quatro tipos produzidos na Cá dal Nono. O 12 anos, o 12 anos em barris de frutas selvagens, o vechio com um envelhecimento de 25 anos, e o extra Vecchio, com um envelhecimento superior a 25 anos em barris de frutas selvagens. Aquele cujo sabor mais me agradou foi o segundo, e foi este que adquiri e pelo qual paguei 52 euros. Todos eles tem a viscosidade do mel e só não harmonizam com preparações que levem limão. A degustação é feita assim: coloca-se uma gotinha na boca, deixa-se escorrer pela língua, aí, respira-se pelo nariz e solta-se o ar pela boca, e, meu povo, não é frescura, é muito legal!!!! Prometo que quando voltar vou promover uma degustação. Mas só pra quem merecer...

Daí a volta. Dormi, feliz com o dia.

Acordei, entretanto com a seguinte notícia: todos da turma vão viajar, a maioria para a Terra Madre, feira gastronômica promovida pelo Slow Food, em Turino. Eu, mesmo sendo membro do Slow Food, decidi não viajar nesse fim de semana pra não gastar dinheiro. Como as visitas do dia demoraram muito, não tinha como chegar no Instituto a tempo de o grupo responsável fazer a mise-en-place. Assim acordei com a notícia de que, eu e Renata iríamos fazer a mise-en-place no sábado.

Também havia outra notícia: como nós não fomos hoje para o Alojamento, doravante estaríamos por nossa conta.

Isso, somado ao tempo no ônibus, que foi bem mais longo na volta do que na ida, me fez começar a passar mal de enjôo. Finalmente chegamos, comemos um Calzone na indefectível Madalena e hotel.

Fiquei arrumando as malas, com roupas molhadas ou não até de madrugada. É impressionante como cheguei aqui com duas malas e agora tenho três sacolas sobressalentes entre roupas de frio que tive que adquirir, material para lavar roupa e muita, muita comida. O que está me fazendo considerar seriamente a hipótese de despachar uma mala por navio para o Brasil.

DIA 13

Costigliole, 21 de outubro de 2010
quinta

Hoje cheguei no Instituto e fui informada de que, dado o fato de que vagaram algumas camas no alojamento estudantil, eu e Renata fomos intimadas a ir para lá.

Tchau hotel, tchau serviço de quarto, tchau camareira, tchau chuveiro poderoso, tchau privacidade.

A aula começou com a diretora da Escola pagando geral. Todos os dias os brasileiros fazem churrasco, com suas músicas tribais tocando, agora cataram blocos de cimento e lenha do vizinho para a churrasqueira improvisada, de onde, diz a lenda, sai até um feijão na lenha. O vizinho queria chamar os carabinieri. Os coreanos estão enlouquecidos. Ai, esses brasilianos...

Não sei se estou feliz ou triste de ir pra lá.

Como a mise-en-place foi do meu grupo, fui intimada a assistir o chef nas preparações da aula magna. Aula magna aqui, é simplesmente uma aula teórico-demonstrativa. Foi bem legal porque, pela primeira vez desde que cheguei aqui, pus a mão na massa.
As receitas de hoje foram Lasagneta ao Piccino, que vem a ser uma lasanha redondinha de pombo, bem bonita e gostosa. A massa era de trigo normal e farro, um cereal que eles têm aqui. Interessante. Embora eu quase tenha desmaiado quando o cara me mandou limpar o pombo, com a cabeça penachenta pendurada, a carne vermelha escura sob a pele arrepiada. Pelo menos ele garantiu que não eram da Piazza San Marco. Agnolottini Del Plin com dois molhos: fundo de arrosto e burro e salvia. Esse agnolottini é muito tradicional na região, plin é beliscão e se refere ao modo como a massa é fechada. O recheio é um ragu de carne de vitelo e porco processado com espinafre, contudo o chef falou que o espinafre deixa o recheio muito verde, o que sai do padrão e que, por isso pode-se com lucro, substituí-lo por escarola. Mas eu nunca consegui entender o que é escarola! Teve também Tagliolini com Bottorga e Uvetta su passata di spinaci. Eu que fiz todas as massas! Fiquei feliz.

O chef em questão chama-se Pier Busetti. Já teve um restaurante estrelado em Turino, o qual fechou para abrir, em junho deste ano, num castelo medieval em Govone, perto daqui, um novo restaurante que está badaladíssimo. Ele foi discípulo do Ferran Adriá. Chique, bem.

Mas, a verdade é que não lavo roupa desde que cheguei e tenho uma mega sacola de roupa suja. Assim, eu, Marquito e Renata combinamos de ir à Cascina juntos para lavar roupa e conhecer o ambiente, já que iremos pra lá, né?

Antes teve um quebra-pau com as coreanas que não queriam que eu, brasileira selvagem fosse pro quarto delas.

Lavamos as roupas, e... surpresa! A secadora estava quebrada, assim, depois de andar 1 km subindo e descendo do hotel até lá com a saca literalmente de lavadeira, tive que subir tudo de novo... só que dessa vez com as roupas molhadas. Nessuno merita.

Impressionante como herdei o azar do meu pai com eletroeletrônicos e gadgets em geral. Não tenho tempo para me adaptar ao netbook novo, então não tenho skype, nem realplayer para ver Dexter, não consigo baixar a novela por causa da conexão (estou pensando em pedir pra Globo passar Passione no próximo Vale a Pena Ver de Novo assim que eu chegar!), eu ponho o fone pra não atrapalhar a Renata e conseguir falar com o Brasil, mas o som vaza. Não tiro fotos desde domingo porque a bateria da máquina não carrega, não sei se o problema é a bateria ou o carregador. A TIM decidiu que eu não posso usar meu celular e não consigo tempo para ir a Asti comprar um chip da Wind.

Vai vendo...

DIA 12

Costigliole, 20 de outubro de 2010
quarta

Convenhamos, não está frio. Não sei se é porque eu esperava a tal queda brusca de temperatura que foi anunciada, mas lá em casa faz bem mais frio que isso!!! 13, 14 graus... humpf.

Bem, hoje a escola recebeu convidados americanos, e, sob o pretexto de Exercitazione di Cucina a minha turma foi inteira pra cozinha fazer um mega chique almoço.

A chef responsável por tudo que diz respeito ao funcinamento alimentar do Instituto chama-se Paola. Não sei muito o que pensar sobre ela, mas uma coisa que chama atenção são os cabelos. Sempre desgrenhados. Fico imaginando que se um de nós morresse hoje e fizessem autópsia, ela seria acusada na hora, pois deve haver monte de cabelos dela no estômago e nas roupas de cada um de nós.

O almoço incluía vários fingers food, cada um ficou responsável por uma coisa, o que é ruim porque só dava pra aprender o que você estava fazendo. Eu comecei com uma torta de nocciola que era mais um bolo, bem fácil de fazer, mas não sei se ficou bom... não provei! Como tudo o mais. Depois fui fazer um cordeiro bem legal, a gente pega a peça toda da costela com os ossinhos e ao invés de deixar e limpar os ossinhos pra servir daquele modo tradicional, extrai a carne, com um corte limpo, separando-a dos ossinhos. Fica um filé. Aí passa na gema de ovo temperada com sal e pimenta e depois na farinha de pão tostado com nocciolla com pimenta e ervas aromáticas e depois faz isso de novo, até ficar bem empanadinho. Aí coloca no filme de PVC como se fosse fazer sushi, apertando e enrolando, e, geladeira. Depois, quando está mais firme, tem que selar na frigideira com manteiga e azeite e cortar como hot Philadélfia. Não sei como se serve, mas imagino que sobre uma caminha de folhas delicadas. Bem legal.

Depois me puseram diante de duas abóboras para descascar e cortar para a sopa que seria o nosso jantar. Gente, a abóbora aqui é muiiiito maior que uma melancia, juro. A Renata me ajudou, minha mão ficou laranja e doída.

Sei não, desconfio que entrei de gaiato num navio...

Foi tão pauleira, que nem almoçamos. Eu estava tão estressada que assim que pude fui embora! Fui esperar na cidade pelo horário de voltar pra o encontro e pegar o ônibus que nos levaria a Asti para uma visita.

Com isso, finalmente consegui ir ao Correio minutos antes que fechasse e comprar o bendito cartão telefônico internacional.

A cidade já não tem muita gente, e fecha INTEIRA para a sesta. De 13 às 15:30 nada abre, não tem uma alma na rua, e todas as janelas são fechadas e você ouve o som dos seus passos caso, como eu, cometa a sandice de caminhar nas ruas. E foi nesse cenário que eu fui ao orelhão da praça. Comecei ligando para o meu irmão. Fiquei tão feliz!!! Ele disse que Fátima está andando e correndo e parece um pinguinzinho bêbado. Minha voz ecoava. Daí, quando fui fazer a segunda ligação veio andando um senhor baixinho e de bigode e ficou parado a uns 6 metros de mim, me olhando. Eu achei meio bizarro e continuei telefonando, mas aquela presença insistente me incomodou, e desisti, achei que talvez ele quisesse usar o telefone. Fui em direção a outra praça onde tinha um banquinho, e a criatura atrás de mim.

Eram dois conjuntos de passo para se ouvir. Fácil saber que se está sendo seguida.

Será um gnomo que veio lá de Boca do Mato com saudade de mim??

Sentei no banquinho, ele parou à minha frente. Eu perguntei no meu italiano perfeito se ele precisava de ajuda, ao que ele respondeu em seu italiano meio bêbado: como pode ser ajudada? Alguns minutos transcorreram eu explicando que não precisava de nada, ele se apresentando (chamava-se Ângelo, o duende, e queria por força me ajudar), eu já estava quase solicitando que ele fosse a Escola lavar a minha parte da louça quando ouço mais passos se aproximando.

E quando os donos dos passos se tornam visíveis, noto, feliz que são Adriana e Danton, vulgo, marido e marida. Marida faz o curso comigo. Marido está acompanhando. São curitibanos. Ei!!!! Me salvem aqui!!! Corri ao encontro deles me despedindo do Leprechaun e fomos pegar o ônibus.

É cada uma.

Bem, todo mundo pra Asti para visitar a D. Barbero, onde se produz um dos melhores torrones da região. O Piemonte é a região produtora de torrones, porque a nocciola aqui é De Denominação de Origem Controlada. Aliás, tudo é! Loucura, meu povo. A fábrica existe há anos e é da mesma família. Comprei uns pra mandar para o Brasil.

Depois, enquanto esperávamos o ônibus, vi uma nesga de sol, na rua. Eu, que no Brasil fujo do sol como uma vampira tive uma epifania e sentei na calçada bem onde o sol batia e fiquei lá, feliz, cantando baixinho. Depois, vieram me perguntar o que eu estava rezando. Pronto, não bastasse a fama de maluca, agora vierei curimbeira também. Mas eu mereço.

No ônibus fomos informados de que o meu grupo deveria voltar para a escola para fazer a mise-en-place do dia seguinte. Ai.

As japonesinhas adolescentes foram embora... e agora chegou um ônibus com uns 25 japorongas! Eles andam enfileirados dizendo Ciaôôô e rindo fininho com a mão na boca. Eu hein.

Cheguei tarde e muito, muito, muito cansada. O chuveiro do hotel é um acontecimento!!! Tem a água que sai de cima, a que sai de baixo, e a que sai do meio em quatro jatos! Bom pras costas!!

DIA 11

Costigliole, 19 de outubro de 2010
Terça

Pela manhã aula de Gelattos e Sorbettes. Incrível! Eu vi, assim, com meus olhinhos, como se faz o tal do sorvete italiano. Ele é tão fofo porque não é batido, a máquina fá-lo girar, como uma lava-roupas de modo que ele vai incorporando ar. Mas, pra mim, continua sendo excessivamente doce. Há o Fiordilatte que seria o nosso nata e é a base para vários outros. Não é aromatizado e nem leva ovos. Há o Crema de Uevos, que seria o nosso creme e é mais pesado, por causa das gemas e por fim a base para os sorvetes de fruta, que não levam leite nem ovo. Fizemos um de pêra, que ficou delicioso. Existe uma máquina chamada PacoJet. Queeeeeeeeeero. Com ela se pode deixar bases e aromas prontos no congelados e fazer sorvete conforme o cliente pede. Daí o sorvete não passa pelos problemas que tem mesmo quando bem conservado e não há desperdício. Custa 1500 euros.

À tarde, aula de Piccola Pasticceria, que seriam os petit four. Então bacci de dama e outros. Quem deu foi um chef, hiper conceituado, mas um chef. Assim, achei que as coisas não resultaram muito delicadas. E nem gostosas, pra falar a verdade.

Depois da aula fui à Pasticceria do Alessandro com a Luciane Daux (minha amiga Catarinense chiquéééérrima) e tomamos um vinho que ela achou meio vagabundo, mas eu, bagaceira toda a vida, achei que nunca tinha tomado um melhor!!! Me lembrou aquele que tomávamos no Pardal depois da UFF e que a língua ficava roxa. Hum, beleza! Marcos e Paulão foram buscar a gente, voltamos para o hotel e resolvemos tomar mais um vinho no quarto da Lu.

E, jogar buraco.

Impressionante como há variações de regras. Lu queria todo o tipo de trincas possíveis. Paulão queria que o morto e a batida não dependessem nem pontuassem nada, eu queria que houvesse canastras de 500 e 1000 e Marcos, bom, Marcos queria tanta coisa que o jogo ficaria inviável. Decidimos terminantemente pela proibição das trincas e eu eu Paulão perdemos a partida de 2000. Mas, o Barbera e o prociutto crudo San Danielle que a Lu colocou na roda compensaram.

E eu que achava que não bebia...

Ah sim! A despeito de todos os prognósticos terroristas de que na Europa não havia manicures, pedicures e nem – oh, horror – depilação, só nessa cidade micro há dois salões. Diz a Fernanda, nossa tradutora que nem a manicure nem a depiladora são assim, uma brasileira, mas, que quebram o galho. Manicure 15 euros, pedicure 25 euros (com a ressalva de que se NÃO houver calos!), drenagem linfática a 40 euros a sessão e fiquei com medo de perguntar o preço da depilação. Decidi deixar pra apelar a isto numa hora de desespero, ou quando eu estiver deprimida e precisar de um salão. Por hora, vou me virando com meu kit básico de manicure e o satinelle que roubei da mamãe, que tinha roubado de mim.

DIA 10


Costigliole, 18 de outubro de 2010
Segunda

Ontem a coisa rendeu. Fomos dormir bem tarde, tentando ajudar a resolver o caso do menino roubado e do povo do carro quebrado.

E, hoje, segunda feira, aula de dia inteiro com Giani!!! Não sei se é ótimo ou péssimo. Adoro o cara. Como resistir a um homem que usa um relógio de algibeira. Mas mesmo assim, algo nele me desperta o mais profundo sono. Esse homem vai achar que eu tomo mandrix!

A aula era de Serviço de Sala e Etiqueta de Serviço. Quem conhece sabe a grandeza da comparação que vou fazer: o Giani me lembra o seu Atelço!

No fim só bati cabeça umas duas vezes. Aprendi como carregar três pratos em um só braço, carregar um na ponta da mão e oito empilhados, só me falta fazer isso com o mínimo de elegância! Aprendi o serviço à italiana, y várias otras cositas.

À noite, enquanto fazia coisas como tentar atualizar este blog, quem me aparece lépido e fagueiro no MSN? Sim, ele! Papai! Colosso do Brasil!

DIA 9




Gênova, 17 de outubro de 2010
Domingo

Mas é um novo dia e o sol brilha em Gênova. E percebo que estou em Gênova!!! Gênova!!! Ontem, no calor da luta nem dei o devido valor ao fato. Estou em Gêêêênovaaa!!!

Guia em riste, eu já tinha uma idéia do que queria ver, que era basicamente... tudo!

Ventinho frio, céu azul! E Gênova! Vamos andando e observando aqueles prédios lindos, em camadas.... vê-se que um dia foram renascentistas, e foram sendo reformados, como quando tiramos os azulejos démodé do banheiro, e substituímos por ladrilhos hidráulicos e depois pomos uma faixa colorida, enfim, os pobres passaram de medievais a renascentistas, a rococó, neo-clássico e sabe-se lá mais o que, e no fim, a cidade é um amalgamado de prédios muito antigos e no geral, rosados, com passagens medievais entre eles, que se chamam Caruggi. Uma cidade velha mas viva, e cuja energia me lembra Buenos Aires. Sei que há uma Gênova moderna, uma Gênova residencial, mas o tempo não me permite procurar por ela. Tenho calma, porque sei que vou voltar.

Nessa Gênova pela qual me é dado transitar hoje, o que há é o antigo, os tocadores de sanfona nas ruas, os pais passeando com suas crianças e muitos turistas. Ando com as mãos frias no bolso e uma satisfação infinita no coração.

Percebo que meus companheiros não têm idéia da experiência que estamos tendo. Sentamos para o café e começo a falar. Falo sobre os burgos. Os castelos. Os príncipes e os Vassalos. Falo sobre os servos da gleba, os malfeitores e as trupes das florestas. Dá importância de se estar dentro dos muros e uma cidade medieval. Eles se interessam. Então falo das cidades-estado. Da importância náutica de Gênova. De Colombo e de Isabel de Castela. Eles olham ao redor impressionados. Falo da briga com Pisa, da briga com Veneza. Falo dos piratas do Mediterrâneo, da decadência, da ascensão, de Andréa Dória. Eles perguntam coisas. Falo de Napoleão, do Tratado de Viena, da anexação ao Piemonte, da revolta! Da Marcha dos mil de Garibaldi e finalmente da unificação. Quando percebo que estamos todos prontos, proponho que vamos abraçar Gênova.

Nos deparamos com o Pallazzo Reale dos Savoia. A maior parte do interior está fechada, mas é fantástico, mesmo assim. Lembro que o que chamamos “biscoito francês” nasceu ali, e aqui se chama savoiardi, aqui.

Andamos assim, maravilhados, pela Via Garibaldi, entramos e saímos por passagens descascadas com roupas penduradas até que entramos na Casa do Ressorgimento, e lá, uma exposição dos símbolos da re-unificação. Tudo que eu contei, ali, ilustrado, documentado em cartas, discursos e sobretudo pinturas. O leitmotiv da exposição é uma restauração de O Beijo de Hayez. Ali, à nossa frente, em três versões, um homem, de costas para o fundo, envolve uma mulher pela nuca e pela cintura e dá nela um beijo. Na primeira versão, há apenas a menção do beijo. Eles estão em roupas da época, com cores aleatórias, o vestido dela é de brocado marfim. Na segunda versão, as bocas se tocam, o vestido dela continua sendo de brocado marfim, e ambas as roupas já sofreram uma atualização de estilo, contudo, a dele, tem importantes destaques azuis, vermelhos e brancos. É a época da aliança com a França, contra o Império austro-húngado. Na terceira versão, totalmente enxuta, ela está de vestido virginalmente branco, o beijo é algo bem mais íntimo, e ele, de calça vermelha, porta garbosamente uma capa verde. É a época da unificação da Itália. Queremos apaludir!

Enquanto lhes chamo atenção para estes detalhes, um senhor, guarda do museu, nos ouve, imagino que sem entender. Ao fim, ele nos pergunta de onde somos e quando dizemos ele conta, alegre, que era cozinheiro da marinha e que veio várias vezes aos portos de Santos e do Rio, nos conta que Garibaldi não tinha uma orelha que perdeu ao cair de um cavalo e ficar preso , pelo que conseguimos entender. Quando dizemos que somme tutti cuochi, ele, animado, pergunta como se faz uma feijoada. Sem poder cantar Chico Buarque, uma descrição muito melhor que qualquer outra que pudéssemos dar, nos pomos a explicar macarronicamente a receita e ele fica horrorizado com a orelha e os pés de porco. Fazemos a concessão de que ele ponha então só as carnes DE PORCO de sua preferência e embutidos. E ele não se conforma de que não leve vinho! Mas essa concessão não fazemos, para horror dele, que promete não colocar nem uma gotinha.

Dali, partimos para, mais adiante, os interligados Palazzo Rosso e Palazzo Bianco, e lá, no acervo, me deparo com o meu primeiro Caravaggio, meu primeiro Van Dyck , um vilolino de Paganini e ainda, uma pauta escrita por ele! Uma escultura espetacular de Antonio Canova, Madalena Penitente. Em êxtase, demorei mais do que o devido lá, o que fez com que tivéssemos de cortar metade do roteiro.

Ainda assim, passamos pela Porta Soprana que era uma das entradas dos muros da Gênova medieval, vimos a Catedral de San Lourenzo onde se diz estarem as relíquias de São João Batista, mas estava fechada... passamos pela praça principal e... fomos almoçar.

O almoço. Ah! O almoço. No porto, há várias casinhas de teto bem baixo onde se preparam os mais frescos peixes e frutos do mar preparados à moda lígure. Lotado de famílias italianas. Veio um pão, como sempre e um azeite da região, e, em verdade, em verdade vos digo, nunca mais comam outro azeite que não seja da Ligúria! Espetacular!
Daí pedimos um trufette ao pesto para provar o famoso pesto genovês e um prato de lagostins, camarões enormes e um peixe delicioso que não conseguimos identificar qual era. Tudo magnífico.

O vinho era um Cinqueterre branco, derrubamos dois! É engraçado porque no Brasil, bebida me faz mal, como se fosse uma reação alérgica. Fico vermelha e com o rosto muito quente, mas aqui, nada disso acontece. Bebo muito mais do que jamais bebi aí, e não passo mal! Deve ser o clima, sei lá.

Aí pegamos o metrô e fomos pegar o carro para ir embora, seguindo com os planos.

Ficou faltando muita coisa! A Casa de Colombo, o Aquário, os bairros medievais, a estufa. Mas vou voltar, sei que ainda vou voltar. E será em breve, pois cismei de ir a uma ópera lá, e não no Sscala de Milão, que é muito clichê!

Seguimos caminho em direção a Asti e paramos em Serravale, onde tem um MEGA outlet. Nunca vi nada igual. Todas aquelas grifes famosérrimas, um estacionamento maior que Portugal. Uma monstruosidade! Fui na decatlon (tem um h em algum lugar, mas não sei onde é) comprar umas roupas quentinhas e numa tal de UniEuro. Se tem uma coisa que vale a pena comprar aqui são eletroeletrônicos! Muito mais baratos. Fora os cremes, vichy, La roc, La Roche Posay... as maquiagens, nossa! Na outra encarnação, quando eu for uma pessoa cosmética, vou voltar aqui e comprar tuuuuuudo!

E, quando estávamos a caminho de Costigliole, soubemos o destino do resto do grupo. Em um dos carros, o motorista colocou diesel ao invés de benzina (que é como eles chamam gasolina, aqui) e o outro, bem, no outro, estacionado numa praça, o pessoal deixou as mochilas dentro. Arrombaram e levaram todas, sendo que dentro de uma delas havia o passaporte e 4000 euros de um deles.

Pô, embotou nossa alegria. Estamos fazendo uma vaquinha pra ajudar o cara, mas mesmo assim... nos sentimos até culpados por tudo ter dado tão certo pra nós!

Mas hoje é aniversário de tio Hélio! E de vovó, sempre na minha memória.

19 de out. de 2010

DIA 8





Cinqueterre, Ligúria
15 de outubro de 2010

Aí, lá fomos nós; Sobe a lomba, pega o ônibus, Asti, locadora de carro. Carteira, passaporte, caução. Três carros, 13 pessoas, dois twingos e um pálio. Ao meu grupo coube um twingo. Minha entusiasmada trupe se compunha de mim, Renata, a minha fiel companheira de quarto, que tem a minha idade, e Marcos, piracicabano gente boa um pouco mais velho que nós.

Precisavam ir quatro em dois carros e cinco em outro. Tínhamos uma vaga, portanto. E os meninos, nos outros carros, discutiam quem é que vinha conosco. E me dei conta, pela primeira vez na vida, que o carro em que eu estava era o carro dos coroas! Não era atraente para um deles vir no nosso carro!!! Só não tive um treco porque percebi, na mesma hora, que eu também não fazia questão que nenhum deles viesse no nosso carro!! Mas, era necessário... e coube à Aline, 23 anos, goiana, a nossa vaga.

Eu, que já tinha a intenção de ir pra Cinqueterre desde o meio da semana, vinha estudando o lugar e os mapas, ofereci: nós vamos na frete. Deram-se conta, então, que ninguém sabia bem o caminho e que o melhor era alugar um GPS. Jà que eu era uma coroa, assumi que mapa eu sei usar, mas não tenho paciência pra programar GPS e nem sabia lidar com aquilo. De modo que o carro que portava o GPS foi na frente, quase como um andor.

E parte a carreata.

As estradas são muito bem sinalizadas, me lembraram as estradas do interior de São Paulo. E chega-se sem notar a 110 km/h. O problema é a quantidade absurda de pedágios. Tem a autoestrada e nada nela além das muretas. Se você quer abastecer o carro, ir ao banheiro, sei lá, tem que pegar uma das entradas para as cidadezinhas e aí, pedágio, em todas elas!

Vinte minutos de viagem, primeira entrada errada! Ai meu Deus! Mas o GPS disse que era aqui!!! Eu, que ia humildemente acompanhando no meu mapinha jurássico o caminho, apontei que entramos para o norte, quando devíamos ir para o sul e que talvez fosse o caso de fazer o teste do bafômetro no GPS. Para retornar, entramos numa cidade (logo, pedágio, à toa!) Nos solicitaram que tomássemos a dianteira e que o GPS devia ir conosco, então, just in case.... jogamos o GPS na mala, onde ele ficaria até domingo à noite. E seguimos viagem, Marcos dirigindo, eu de navegadora, Rê e Aline atrás.

Curiosamente, as rádios italianas só tocam música italiana... que são piú estranhas... assim, meu celular acabou virando o som do carro. Íamos nós, felizes, ao som de Tigresa, Cat Stevens, Lô Borges e The Doors, quando, de repente, começa a chover. Sabe aquelas chuvas estradeiras, super inadequadas para um dia de viagem num lugar estranho e para uma praia escarpada? Aquelas que começam do nada, num dia branco, e susurram: eu não vou parar.... eu vou aumentar... pois é. Foi dessas.

Bem, vou resumir bem resumido, os carros se perderam uns dos outros, vou contar a minha viagem e só volto a mencionar os outros viajantes no final.

Cinqueterre é Patrimônio da Humanidade da Unesco e trata-se uma serra que se projeta sobre o mar, com cinco praias, sendo apenas uma de areia, que descem sobre o mar em escarpas. Havia um castelo fortificado em cada uma, e constituiram-se aldeias de pescadores, então hoje o que se vê, além de várias ruínas e igrejas são casinhas rosas e caramelo penduradas nos morros, se projetando sobre o mar que é de um azul tão absurdo quanto o verde da baía da Ilha Grande. Lá também há vinhedos e tem dois vinhos DOC, o Cinqueterre Bianco e um que eu não consigo lembrar como se escreve o nome, mas é algo como Schiaccetrá, que é adoicado, e combina muito bem com as preparaçõe peixe da Ligúria, mas eu não consegui provar. E além dos vinhedos há muitas, muitas oliveiras, e essa é a época da colheita, então, todas as encostas tinham, ou vinhedos em terraços, que são como patamares com muros de contenção de pedra, ou muitas oliveiras entre as quais estendem-se telas azuis ou cor-de-abóbora, dessas de fazer tela anti-mosquito, e assim as azeitonas vão caindo sobre elas sem se machucar, o que adiantaria a fermentação e estragaria o azeite, que, pude comprovar, é magnífico! Procurem no supermercado, azeite da Ligúria.

A região toda hoje é um ponto de interesse turístico muito grande, mas estamos na baixa temporada. E não foi difícl entender por que. Essas teriam sido coisas lindas de se ver não fosse esse um dia de chuva e frio, comuns nessa época!

Nós, com nosso mapinha, partimos em direção a Riomaggiore de onde pretendíamos fazer uma trilha a pé até Manarola. Mas chovia e fazia tanto frio, que não pudemos descer do carro!

Entretanto, no caminho pra lá, a chuva estiou um pouco e pudemos descer do carro e ver as oliveiras de perto, eu nunca tinha visto uma!! Estavam repletas de azeitonas, umas verdes, outras já maduras, com um gosto pavoroso, mas a aparência que a gente conhece!

Vi tantas árvores lindas, inclusive um pinheiro copado que fotografei, uma mistura de araucária com amendoeira!!! Mas com os galhos voltados pra cima feito uma casuarina descabelada!!!

O caminho, por cima, tem um que de Santa Teresa, misturada com paineiras, mas com a vista da Niemayer. Espetáculo, enfim.

Nâo se chega a todos as praias de carro, a próxima praia onde se podia ir assim era Monterrosso Al Mare, pegamos a serra de novo, e fomos. A chuva cedeu um pouco, e ao chegar, o que vimos foi uma pequena enseada de areia cinzenta e um pouco pedregosa, mas linda linda linda! Na ponta esquerda havia um castelo medieval, que sõ conseguimos ver de longe, mas pareceu sensacional e muio emocionante, porque foi a primeira coisa medieval que eu vi. No meio tinha um ancouradouro, embora não houvesse muitos barcos, e na ponta direita, mais duas torres medievais. AS casinhas se estendiam para dentro da cidade, mas a chuva, mesmo fina, não nos animou a prosseguir, de modo que permanecemos bem no lioral, até porque ainda não havíamos almoçado.

Eu havia prometido a Mauro colher um pouco da água do Mar da Ligúria pra pormos numa garrafinha que fizesse companhia à água que trouxemos do pacífico, e assim fiz. Isso foi ótimo também porque provou que a bota da Timberland foi uma das melhores compras dos últimos tempos, ela molhou inteira e meu pé continuou absolutamente seco.

Bem, mas há que se falar do mar da Ligúria. A cor. Ninguém pode imaginar aquele azul que começa claro, é a verdadeira expressão da cor verde-água, tão claro que parece impossível e depois vai ficando azul marinho, mesmo com o céu tão cizento. É de chorar. Como carioca, poucas belezas naturais me chocam, mas jamais vou esquecer daquela cor. A água, na garrafa, é absolutamente transparente.

Que lugar lindo. Foi a única das Cinque Terre que conseguimos conhecer, dizem que Vernazza é a mais linda, mas eu adorei ter pelo menos visto Monterrosso com todas as adversidades.

Lá, comemos um trufette com pesto, que é a massa que se come com o famoso pesto genovês. Estava bom. E tomei um sovete de nocciola, o primeiro sorvete tipo italiano na Itália, e tive a mesma impressão que tenho aí no Brasil: a textura é perfeita, mas o gosto é excessivamente doce. E a nossa casquinha é bem melhor. Tomarei outros e depois conto!

Tirei muitas fotos desse lugar tão lindo, até que começou a chover e resolvemos ir pra Gênova, já que era besteira tentar ficar ali naquelas condições, e ainda tínhamos que pegar a serra de volta.

E olha, a serra não é de brincadeira. As meninas, atrás, passaram mal todo o longo caminho até chegarmos na auto-estrada. Eu, que costumo enjoar até em reta, não tive nenhum problema... mas de fato as curvas eram muitas e muito acentuadas.

Gênova, por fim.

Entramos por Nervi, nos perdemos, finalmente ligamos o tal do GPS que... apontou o caminho errado, e... chovia! Tínhamos fome, e não sabíamos aonde ficaríamos. Foi aí que entrou em campo essa figura chamada Aline, um GPS ambulante que tem um tal de um blackberry, blueberry, sei lá que resolve qualquer problema, e ali ela conseguiu se comuncar com o resto do grupo e consegui achar um Albergue, e conseguiu fazer miséria!

Foi assim que chegamos, não sem antes nos perder, ao Hostel AcquaVerde, na Via Balbi. Que era um lugar sensacional. Simples, aconchegante. Um conciérge que já tinha trabalhado em SP e por isso falava português, boa conexão de internet e 30 euros por pessoa, café da manhã incluído! Ôpa! Nem tudo estava perdido!!!

Dois quartos duplos, Aline e Rê em um, eu e Marquito em outro. Banho relaxante e fomos jantar na cantina ao lado, que de certo modo me lembrou o Lamas, pois não tinha frescuras nem pretensões mas o pessoal era extremamente simpático e a comida, divina! Aline comeu uma bisteca com legumes, eu comi um tagliateli com uns cogumelos que não conhecia, Marcos pediu um espaguethi à carbonara (eu prefiro o meu...) e Rê, bom, não me lembro o que Rê comeu! Vinho da casa!

De volta ao albergue, enquanto eu deixava o quarto livre para Marcos passar as horas habituais ao telefone com a namorada, tentava, do wi-fi da recepção falar com o pessoal em casa, e eles me ligaram para lá e foi muiiiiito bom falar com papai!

E, lá pelas duas da matina, o resto do grupo chegou, tão exaurido que não falaram nada. A falta que faz um GPS na vida de uma pessoa...

15 de out. de 2010

Fotos

Anexarei na segunda, mas já tem um monte no facebook...

dia 7

Costiglioli D´Asti, 15 de Outubro de 2010 

Não teve picnic que resolvesse ontem. A mineira do quarto ao lado, despombalizou no skype e não teve jeito de eu dormir até que reuni coragem e disposição e fui bater no quarto dela com um vidrinho de rivotril. Que ela aceitou.

Diante da perspectiva de outro dia inteiro de aula de enologia na enoteca escura e quentinha, uma noite mal dormida é grave, muito grave.

Mas, na mesma bat hora acordei para minha rotina de hidratante (estou descascando inteira e minha boca está toda ferida) protetor solar, meia calça, meia, calça, bota, body, camiseta térmica, segunda pele, malha, dólmã, casaco, cachecol, gorro e yogurte de mirtillos com fibra, surpreendentemente bom!

A despeito dos indícios, a manhã foi muito proveitosa, participei ativamente da aula que foi sobre as regiões vitiviníferas da Itália, as uvas autocnes, e tudo o mais. Fiz seis páginas de anotações pra ver se fazia bonito pro professor pra compensar por ontem.

Tudo ia muito bem. Almoço e foto para o jornal local dos alunos devidamente uniformizados (agora já tenho o dólmã com o logo do ICIF...), voltamos pra aula e, avassalador, o sono.

Acho que o que está acontecendo é que eu não tenho o hábito de almoçar. E muito menos de ter que fazer coisas depois do almoço. E concluí que, se meus conterraneos são macacos a comerem-se os piolhos, eu sou uma jibóia que precisa hibernar depois do almoço, porque não é possível controlar o sono que se apodera de mim, à tarde. E pus tudo a perder com o Signori Lecara. Ai ai.

Mas também, vamos e venhamos. Acho muito legal aprender sobre vinhos, uvas e quetais. Mas essa história de análise organoléptica é história pra boi dormir. Não que eu não acredite. Sei que há pessoas capazes de sentir cheiro de suor de animal, couro curtido e geléia de ameixa em uma única taça de vinho. Mas eu não sou essa pessoa e não acho que essa seja uma coisa que se possa ensinar, porque é inteiramente subjetivo classificar um vinho de mais ou menos ácido, sápido, tânico, macio, e sei lá mais o que. Pra mim todos têm cor de vinho. Vinho escuro. Vinho claro. No máximo um rubizinho. E os brancos são todos dourados... no máximo meio esverdeados... não tem jeito de eu achar que um é granada e o outro é palha com reflexo oliva.

Acho sensacional que haja pessoas capazes deste tipo de análise. Mas, Jesus, Maria, José, eu não merecia aquele gráfico desenvolvido pela Emérita Associação Italiana de Sommeliers que mostra de modo colorido e inequívoco as qualidades gusto-táteis-olfativas dos vinhos e que, num cruzamento com o gráfico com as características dos pratos preparados é capaz de nos apontar por este simples método científico o que deve ser bebido com um ovo frito ou comido com um Sangue de Boi, safra 88.

Mas, devo ser justa. Apesar de eu não ter entendido rigorosamente nada, até porque dormi boa parte do tempo, no final, pela primeira vez entendi o que é um vinho que harmoniza com uma comida. E isso, meus amigos, é um Barollo, safra 2003 (ano excepcionalmente quente que resultou numa safra menos tânica, viu?????) com gordas lascas de grana padano. Realmente, a boca fica limpa, depois. Que delícia boa, como diz minha FeFê. O caso é que isso não se deve ao gráfico. Pra mim, basta que existam pessoas capazes de saber o que combina com o que, e que elas escrevam livros objetivos como referência. Mas não me faça fazer um gráfico!!! Desconfio até – que ninguém me leia – que o fenômeno pode ter sido possível somente pelo excelente vinho...

Fato é que tomamos o equivalente a muita grana em vinho, hoje. A Escola deve ganhá-los, o que faz sentido. Foi Barollo Cerrati, Dolcetto D´Alba, Cantina Sociale de Castagnole, Cantina Socialle de Canelli (bianco), Monferrato Cantine Sant´Agata (rosso), um Tizzonero da Umbria e um Giglio da Sicília. Tá bom pra vocês? Tudo devidamente fotografado.

Bem, está decidido que vai todo mundo pra Cinque Terre. Eles não iam dançar em Milão????? Eu queria ficar um pouco sozinha. Não consigo ficar muito tempo com muita gente ao meu redor. Acabo gastando mais do que preciso pra não precisar discutir e para abreviar as coisas. Acabo fazendo o que não quero pelas mesmas razões. Acabo não pensando direito. Acabo não vivenciando as coisas direito.

Vou ter que pensar nisso na próxima semana.

Tá. Então amanhã vamos de novo, bem cedo no bendito ônibus pra Asti. Lá pegamos um carro alugado por E 50 até segunda de manhã e vamos na direção de Gênova e Cinque Terre.
Voltamos domingo. Aguardem cenas dos próximos capítulos.

Parabéns Papai, Mamãe e Irmão, pelo dia dos abnegados professores!!!