Costiglioli D´Asti, 13 de outubro de 2010
Eu, Flávia G. Nascida e crescida no Catete, tenho longo histórico de observação de turistas. Coisa que sempre me fez espécie era como os gringos de modo geral, sempre têm cara de otário. Até mesmo aqueles que no cinema fazem boa figura, quando os via de perto, achava um desastre.
Agora sou eu a gringa. E otária!
A questão é que, quando você não entende bem a língua fica inseguro em relação a tudo o que faz e ao que se passa ao redor. A boca fica permanentemente aberta, e saem sons estranhos, guturais e inesperados dela boca. E você fica dizendo Si Si Si na tentativa vã de compensar sua estupidez.
O mais frustrante é que posso me gabar de poucas coisas, uma é a coleção milenar de papéis de carta, que ainda mantenho, a outra é domínio de minha língua mãe. Eu teria várias coisas pra dizer, aqui, mas não posso!!! E tudo que eles vão saber de mim é que... eu sou mais uma gringa otária.
Prometo olhar com mais carinho para os seres estranhos que vagam pelo Catete;
E por falar em diversidade de nacionalidades, um capítulo a parte aqui é a hora do rango.
Trata-se de um grande e bonito salão com oito mesas de dez lugares cada uma. Nós, brazucas, ocupamos duas, na extremidade esquerda, depois de nós, tem uma mesa com coreanos e outra com filipinos. Nas próximas duas o pessoal de língua inglesa, há americanos, ingleses, australianos, turcos e até brasileiros que preferiram fazer o curso em língua inglesa. E nas outras mesas ficam professores, funcionários e eventuais convidados.
Até que em se tratando de brasileiros, a nossa mesa não é tão clichê quanto seria de se esperar. Claro que falamos o tempo todo, durante a refeição, mas é tranqüilo. Os de língua inglesa também são bem normais. Mas, entre eles e nós, tem a mesa do pessoal de olho puxadinho. E gente, é bizarro.
A tradutora deles é uma coreana que parece um barrilzinho, e usa um tamanco croc verde-água e uma calça de oncinha. Ela fica permanentemente perto deles, na escola, e na hora do almoço não é diferente. Eles comem de cabeça baixa e temos a impressão de que se disserem alguma coisa serão chicoteados e se, por ventura derrubarem uma taça serão deportados para o país deles e lá serão executados sendo mandada a conta da bala utilizada na execução para a família. Eu não me dirijo a eles porque tenho medo de acabar responsável pela tortura de alguém...
A comida. Bem, a comida é boa, mas TOTALMENTE sem sal. Então, nós, brasileiros, aproveitando que eles já nos acham selvagens mesmo, nos organizamos e, antes de nos sentar, um de nós passa no laboratório e rouba um pouco de sal num guardanapo e aquele pozinho branco vai passando de mão em mão, porque sim, é proibido pedir sal – barbárie!
Sempre vem o primo piato que pode ser massa ou risotto e o secondo piatto que em geral é uma carne com acompanhamento, que não necessariamente é um legume ou verdura. Às vezes, é carne com batata! Depois de um prato de macarrão! Resultado? Estamos todos desesperados por salada ou legumes cozidos, e impressionados que não sofram todos de gota. O outro resultado é que TODAS as mulheres estão constipadas e estou pensando em vender 46 da Almeida Prado no mercado negro.
Aí tem as frutas. Tem uma pêra bem grandona que eu acharia ótima se gostasse de pêra. Tem uma laranja linda e ácida, e banana. Desde que cheguei estou desesperada por uma banana. Mas quando chego pra pegar os coreanos acabaram com elas. Hoje eu abdiquei do secondo piatto e fui pra fila decidida a conseguir uma banana. Eu sempre desconfio de banana sem pintinha preta. E banana muito grande. Mas não obstante as que estavam ali quase ao meu alcance fossem perfeitamente amarelas, enormes e peculiarmente curvas, eu peguei uma de bom grado. Não tinha gosto de nada. E tinha cica. Sinto uma depressão se aproximando. E a pergunta que não quer calar é: por que os coreanos devoram aquilo? Povo estranho.
Ah! Sempre tem pão na mesa, e a bebida é água, com ou sem gás.
Hoje teve aula de panificação. Descobri que o pão que chamamos “ italiano” aí no Brasil, aqui se chama pão de Almabora (não tenho certeza se é assim que se escreve). E o pão que fizemos aqui foi um pão caseiro normal e ciabatta, cuja massa eu reconheci, mas o formato não. Ambos ficaram bem cascudos e duros por fora. Fizemos também grissini que ficou bem gostosinho, mas tudo precisava de mais sal.
Quanto à panificação, eu tenho a dizer somente o seguinte: Gerci Trevenzolli, você é o cara! E está aí, em terra brasilis.
Depois da aula, todos resolveram ir a Asti, a cidade “grande” mais próxima. Como eu também tinha providências práticas a tomar, tipo comprar chip pro celular, luva, protetor solar, essas coisas, fui junto. Pegamos o ônibus que sai em horários fixos e fomos. Asti parece Vila Isabel, sem a parte feia. Mas, fiquei enlouquecida na farmácia, onde os cremes da Vichy e da Roche-Posay custavam em média 19 euros, e com isso o resto do comércio fechou. A mim restou sentar, pedir uma cioccolatte mocca e ver passar as pernas coloridas pelo sol. Meantime, comprei uns biscoitos amaretti por E 3,50. Costumo comprar na Lidador a mesma quantidade por R$ 75,00...quero nem pensar nisso... Enfim, na hora marcada fui para o ponto de ônibus esperar a tchurma que foi chegando aos poucos. Até que chegou toda. E nada no ônibus. E nada do ônibus. O último ônibus... e 20 brasileiros juntos na rua, você sabe como é, né? Tinha nego no meio fio, nego cantando samba, nego fazendo o diabo. E nada do ônibus. O último ônibus. Parou em frente a nós, porém, uma van branca. E ficou lá, por, digamos, meia hora. O motorista dentro. E foi-se a Van. E nada do ônibus. Até que quase uma hora depois da hora que o tal ônibus devia passar, resolvemos perguntar ali perto, e, guess what? O último ônibus era a Van. Terror! Assombro! Despero! Voltamos de taxi... e foram-se mais E 30. Pra aprender a deixar de andar com brasileiro.
Mas pelo menos o Fluminense tá na vice-liderança. E à frente do Corinthias.
15 de out. de 2010
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