Puxa uma cadeira, e relaxe...

15 de out. de 2010

dia 7

Costiglioli D´Asti, 15 de Outubro de 2010 

Não teve picnic que resolvesse ontem. A mineira do quarto ao lado, despombalizou no skype e não teve jeito de eu dormir até que reuni coragem e disposição e fui bater no quarto dela com um vidrinho de rivotril. Que ela aceitou.

Diante da perspectiva de outro dia inteiro de aula de enologia na enoteca escura e quentinha, uma noite mal dormida é grave, muito grave.

Mas, na mesma bat hora acordei para minha rotina de hidratante (estou descascando inteira e minha boca está toda ferida) protetor solar, meia calça, meia, calça, bota, body, camiseta térmica, segunda pele, malha, dólmã, casaco, cachecol, gorro e yogurte de mirtillos com fibra, surpreendentemente bom!

A despeito dos indícios, a manhã foi muito proveitosa, participei ativamente da aula que foi sobre as regiões vitiviníferas da Itália, as uvas autocnes, e tudo o mais. Fiz seis páginas de anotações pra ver se fazia bonito pro professor pra compensar por ontem.

Tudo ia muito bem. Almoço e foto para o jornal local dos alunos devidamente uniformizados (agora já tenho o dólmã com o logo do ICIF...), voltamos pra aula e, avassalador, o sono.

Acho que o que está acontecendo é que eu não tenho o hábito de almoçar. E muito menos de ter que fazer coisas depois do almoço. E concluí que, se meus conterraneos são macacos a comerem-se os piolhos, eu sou uma jibóia que precisa hibernar depois do almoço, porque não é possível controlar o sono que se apodera de mim, à tarde. E pus tudo a perder com o Signori Lecara. Ai ai.

Mas também, vamos e venhamos. Acho muito legal aprender sobre vinhos, uvas e quetais. Mas essa história de análise organoléptica é história pra boi dormir. Não que eu não acredite. Sei que há pessoas capazes de sentir cheiro de suor de animal, couro curtido e geléia de ameixa em uma única taça de vinho. Mas eu não sou essa pessoa e não acho que essa seja uma coisa que se possa ensinar, porque é inteiramente subjetivo classificar um vinho de mais ou menos ácido, sápido, tânico, macio, e sei lá mais o que. Pra mim todos têm cor de vinho. Vinho escuro. Vinho claro. No máximo um rubizinho. E os brancos são todos dourados... no máximo meio esverdeados... não tem jeito de eu achar que um é granada e o outro é palha com reflexo oliva.

Acho sensacional que haja pessoas capazes deste tipo de análise. Mas, Jesus, Maria, José, eu não merecia aquele gráfico desenvolvido pela Emérita Associação Italiana de Sommeliers que mostra de modo colorido e inequívoco as qualidades gusto-táteis-olfativas dos vinhos e que, num cruzamento com o gráfico com as características dos pratos preparados é capaz de nos apontar por este simples método científico o que deve ser bebido com um ovo frito ou comido com um Sangue de Boi, safra 88.

Mas, devo ser justa. Apesar de eu não ter entendido rigorosamente nada, até porque dormi boa parte do tempo, no final, pela primeira vez entendi o que é um vinho que harmoniza com uma comida. E isso, meus amigos, é um Barollo, safra 2003 (ano excepcionalmente quente que resultou numa safra menos tânica, viu?????) com gordas lascas de grana padano. Realmente, a boca fica limpa, depois. Que delícia boa, como diz minha FeFê. O caso é que isso não se deve ao gráfico. Pra mim, basta que existam pessoas capazes de saber o que combina com o que, e que elas escrevam livros objetivos como referência. Mas não me faça fazer um gráfico!!! Desconfio até – que ninguém me leia – que o fenômeno pode ter sido possível somente pelo excelente vinho...

Fato é que tomamos o equivalente a muita grana em vinho, hoje. A Escola deve ganhá-los, o que faz sentido. Foi Barollo Cerrati, Dolcetto D´Alba, Cantina Sociale de Castagnole, Cantina Socialle de Canelli (bianco), Monferrato Cantine Sant´Agata (rosso), um Tizzonero da Umbria e um Giglio da Sicília. Tá bom pra vocês? Tudo devidamente fotografado.

Bem, está decidido que vai todo mundo pra Cinque Terre. Eles não iam dançar em Milão????? Eu queria ficar um pouco sozinha. Não consigo ficar muito tempo com muita gente ao meu redor. Acabo gastando mais do que preciso pra não precisar discutir e para abreviar as coisas. Acabo fazendo o que não quero pelas mesmas razões. Acabo não pensando direito. Acabo não vivenciando as coisas direito.

Vou ter que pensar nisso na próxima semana.

Tá. Então amanhã vamos de novo, bem cedo no bendito ônibus pra Asti. Lá pegamos um carro alugado por E 50 até segunda de manhã e vamos na direção de Gênova e Cinque Terre.
Voltamos domingo. Aguardem cenas dos próximos capítulos.

Parabéns Papai, Mamãe e Irmão, pelo dia dos abnegados professores!!!

2 comentários:

Unknown disse...

Flavia estou amando seu blog, leio atentamente cada dia e me divirto com que escreve, consigo imaginar cada cena como se estivesse ai, mesmo não conhecendo o local. Vou te seguir todos os dias. Pena nãosei como fazer para ver as fotos.... beijos a cada dia te admiro mais.... beijos Fabiana

Carlos Eduardo disse...

Cara, perdi a esperança com você no mundo dos vinhos, sua bárbara herege. Tem que tomar pinga, mané.

Beijo

C.