Puxa uma cadeira, e relaxe...

27 de jul. de 2023

29 de set. de 2018

Quando eu era criança, o meu irmão, que pouca gente sabe mas no fundo é uma pessoa má, dava um jeito de eu entrar num quarto escuro e me trancava lá só pra assistir ao meu horror, aquele pérfido.
E eram segundos de horror mesmo, um pavor inexplicável, um não saber o que faça, a soma das incertezas, uma miudez encolhida num choro sentido e desesperançado.
Viver em um mundo sem meus pais, é aquele pânico revivido continuamente.
Eu quisera ser madura.
Não sou.

26 de ago. de 2018


Tinha que ter vista.
Havia de ter um tiquinho de amplidão reservado nesse mundo para mim.
Mas numa cidade como o Rio, vista quer dizer dinheiro. De modo que entre os apartamentos com vista disponíveis na cidade, coube a mim um adorável e inteiramente torto imóvel na Glória. Havia um bônus: vinha com uma varandinha dotada de dois ganchos de rede, onde eu já me via deitada observando os postes lunares da Lota Gonzaga. A desvantagem é que entre mim e minha tão ansiada vista, havia uma uma monumental torre de rádio. 
A base da antena, bem em frente, ocupava coisa de 1/3 da paisagem (já limitada por dois edifícios laterais), enfim, convenhamos, não era um empecilho desprezível, mas quem dera que por entre todos os empecilhos da vida eu pudesse observar as copas das árvores do Aterro, os aviões subindo e descendo no Santos Dumont, a Ponte Rio-Niterói...
Enfim, era a minha vista, e eu adorava aquele quinhão de horizonte que me fora destinado. Ademais, quando veio conhecer a casa, minha sobrinha exclamou, fascinada: - mas Dinda, é a Torrei Eiffel!!
Quase dois anos após minha mudança, numa manhã branca do inverno carioca, sem nenhum aviso, veio os homi com as ferramenta que o dono mandou derrubar!
Restou-me ir pro meio da varanda apreciar a demolição.
Aguardava o êxtase de sentir que nada mais separava minha doce varandinha com rede da visão dos iates da Marina. 
Mas a verdade é que “cada tauba que caía, doía no coração".
Contei a uma amiga querida que estavam desmontando a antena e ela disse: fotografa o desmonte!
Achei coerente e me posicionei, apontei o celular, pensei no melhor ângulo, enquadrei, tudo certo, exceto que eu relutava em fotografar. Pus-me a imaginar se os gaviões arranjariam outro lugar pra ficar manjando o mundo onde eu ainda pudesse vê-los. Observei por um longo tempo os homens trabalharem, presos por fios de segurança, demorando um tempo enorme para tirar cada parte da estrutura, que ficavam pendentes por alguns instantes como braços com os quais ela cobrisse suas vergonhas. 
Por fim, vi serem arrancadas as ervas de passarinho que lhe assentavam como uma charmosa echarpe de arminho verde.  
Que aflição senti ao vê-la sendo despojada de si mesma, como uma velha senhora sendo despida. Guardo muito respeito pelas velhas senhoras. Não pude fotografar tamanha indignidade. 
Dela, restam as fotos no meu instagram, uma bonita vista da Marina da Glória, e o holograma da Torre, que meus olhos vez por outra vislumbram num relance. 
Foto do Henrique Menezes



17 de ago. de 2018

Anjocapitalismo

Uma amiga enviou anjos aqui para casa (esse é meu tipo de amiga!)
Em troca de flores brancas e velas , eles ficam sete dias e nos concedem três desejos.
Devemos também, quando da chegada, indicar três outros lares a quem eles devem visitar na próxima semana.
Aqui em casa somos dois. Íamos fazer juntos os pedidos, as flores, as velas.
Eis que decidimos que o melhor a fazer é um indicar o outro ao final da semana, assim os anjos permanecerão conosco por não sete, mas quatorze dias!
Nestes tempos, não se deve dispensar a companhia de anjos.
Mas agora me sinto culpada por fundar um novo sistema etéreo-econômico:
A exploração do Anjo pelo homem.
Oh, a consciência de classe...

16 de ago. de 2018


Há muitos beija-flores onde moro.
Por causa disso, comprei uma daquelas coisas de dar de comer a eles.
E agora, na Glória da minha varanda, toda a fauna aflora e grita de amor. 
Beija-flores são arredios e belicosos. Só podem comer sozinhos, e são atacados por seus pares, batem-se como bisões. 
As maritacas, que só aparecem ao fim da tarde, são astutas. Pousam no parapeito e ficam na contenção, quando não há ninguém por perto, vão rapidamente pegar o seu.
Os caga-sebos são criaturas diáfanas, tudo indica que os outros os consideram café-com-leite, pobrezinhos, pequenos, frágeis, feinhos, simplesmente vão e comem, e ninguém mexe com eles. Já houve dias em que estando um a se alimentar, um beija-flor compassivo e calmo, possivelmente chapado do açúcar que a mulher da janela do outro lado provê,  se uniu a ele. 
Disseram-me que o açúcar faz mal aos bichos, a começar por nós, e por isso invisto uma quantia mensal na aquisição de néctar, também porque acho poético gastar dinheiro com néctar.
Quando o céu começa a passar de azul celeste para aquele cobalto meio lilás com que só os crepúsculos cariocas conseguem nos presentear, é nessa hora que chegam os morcegos.  Gosto de morcegos. Se eu alimento os beija-flores, por que não alimentaria os morcegos? Ocorre que eles são carentes e andam em bandos, daí que a varanda virou a sucursal da Transilvânia, toda a gente tem medo, e passei a, não sem pena,  recolher o comedouro logo após o arrebol,  (porque durante, todas as criaturas da Criação tem passe livre para serem felizes).
E há também as abelhas. Como são persistentes as abelhas! Enervam os outros pássaros, claramente muito cautelosos com elas. Vêm sempre juntas, passam o dia comendo, zanzando e espantando os outros. Depois se deixam morrer por ali mesmo, as barriguinhas para cima, enfastiadas. 
Eu, que não sou disciplinada como elas, eventualmente me esqueço de pendurar o comedouro pela manhã, e elas ficam ali o dia todo, zumbindo desoladas em lamento ao redor do arame vazio, em busca do que tinham, do que poderiam ter, do que precisavam ter, do que já não têm mais. 
Depois, deixam-se morrer do mesmo jeito, dramaticamente caídas pela varanda, as asinhas tortas, a imagem do desalento.  
Muita coisa ocorre em minha varanda. 
Há vida para além dos juros bancários. 

16 de jan. de 2015

Me desculpa, Mãe.
E se você puder, me mostre o caminho.

21 de nov. de 2014

Calma, confia em mim. Garanto que vai passar.

Eis que ela reiventou o conceito.

Que se reformule o bordão:

Calma. Ainda não começou, desta vez pegastes pesado demais… então a história não vai ainda pela metade. Há de desenvolver-se com todos os elementos que cuidadosamente inseriste. Tudo ainda por suceder…  sentirás dor a cada minuto, esta que ora imaginas sentir, sequer conta como medida. A seguir, tudo ruirá de fato, e só então poder-se-á dizer: calma! vai passar.

Algo como: calma que assim que chover essa tempestade de raios que formaste sobre a tua cabeça, e após seres fustigada pelos choques e a chuva e ensurdecida pelos trovões, a tendência é melhorar. Tudo isso vai passar, calma! Seguras-te firme, entretanto!

Acho que é por estas alturas que o cidadão, atordoado, explodido em lucidez, grita:

PÁRA!  NÃO SUPORTO MAIS!

E então, o mundo em entorpecido descompasso precisa silenciá-lo em diazepam.

É quando um ser humano adquire o olhar vazio, ou pleno demais, quando põe-se a comer os próprios piolhos em praça pública, quando um barulho estranho é ouvido, e não se sabe o que seja. É quando pequenos elementos da desordem afloram, um que grita 'não suporto mais'!

Um frame de todos os que se voltam para trás nesta pausa sinistra que é o incomum, o desespero. No instante  seguinte voltam a atravessar as ruas, apressados, e não se lembram mais, porque dói lembrar-se, a dor paralisa e é preciso ir avante, porque ao menos desta vez não é com você.

Calma. É caso apenas de encontrar a faixa de pedestres. O momento em que não será contigo.