Há muitos beija-flores onde moro.
Por causa disso, comprei uma daquelas coisas de dar de comer a eles.
E agora, na Glória da minha varanda, toda a fauna aflora e grita de amor.
Beija-flores são arredios e belicosos. Só podem comer sozinhos, e são atacados por seus pares, batem-se como bisões.
As maritacas, que só aparecem ao fim da tarde, são astutas. Pousam no parapeito e ficam na contenção, quando não há ninguém por perto, vão rapidamente pegar o seu.
Os caga-sebos são criaturas diáfanas, tudo indica que os outros os consideram café-com-leite, pobrezinhos, pequenos, frágeis, feinhos, simplesmente vão e comem, e ninguém mexe com eles. Já houve dias em que estando um a se alimentar, um beija-flor compassivo e calmo, possivelmente chapado do açúcar que a mulher da janela do outro lado provê, se uniu a ele.
Disseram-me que o açúcar faz mal aos bichos, a começar por nós, e por isso invisto uma quantia mensal na aquisição de néctar, também porque acho poético gastar dinheiro com néctar.
Quando o céu começa a passar de azul celeste para aquele cobalto meio lilás com que só os crepúsculos cariocas conseguem nos presentear, é nessa hora que chegam os morcegos. Gosto de morcegos. Se eu alimento os beija-flores, por que não alimentaria os morcegos? Ocorre que eles são carentes e andam em bandos, daí que a varanda virou a sucursal da Transilvânia, toda a gente tem medo, e passei a, não sem pena, recolher o comedouro logo após o arrebol, (porque durante, todas as criaturas da Criação tem passe livre para serem felizes).
E há também as abelhas. Como são persistentes as abelhas! Enervam os outros pássaros, claramente muito cautelosos com elas. Vêm sempre juntas, passam o dia comendo, zanzando e espantando os outros. Depois se deixam morrer por ali mesmo, as barriguinhas para cima, enfastiadas.
Eu, que não sou disciplinada como elas, eventualmente me esqueço de pendurar o comedouro pela manhã, e elas ficam ali o dia todo, zumbindo desoladas em lamento ao redor do arame vazio, em busca do que tinham, do que poderiam ter, do que precisavam ter, do que já não têm mais.
Depois, deixam-se morrer do mesmo jeito, dramaticamente caídas pela varanda, as asinhas tortas, a imagem do desalento.
Muita coisa ocorre em minha varanda.
Há vida para além dos juros bancários.

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