Puxa uma cadeira, e relaxe...

26 de ago. de 2018


Tinha que ter vista.
Havia de ter um tiquinho de amplidão reservado nesse mundo para mim.
Mas numa cidade como o Rio, vista quer dizer dinheiro. De modo que entre os apartamentos com vista disponíveis na cidade, coube a mim um adorável e inteiramente torto imóvel na Glória. Havia um bônus: vinha com uma varandinha dotada de dois ganchos de rede, onde eu já me via deitada observando os postes lunares da Lota Gonzaga. A desvantagem é que entre mim e minha tão ansiada vista, havia uma uma monumental torre de rádio. 
A base da antena, bem em frente, ocupava coisa de 1/3 da paisagem (já limitada por dois edifícios laterais), enfim, convenhamos, não era um empecilho desprezível, mas quem dera que por entre todos os empecilhos da vida eu pudesse observar as copas das árvores do Aterro, os aviões subindo e descendo no Santos Dumont, a Ponte Rio-Niterói...
Enfim, era a minha vista, e eu adorava aquele quinhão de horizonte que me fora destinado. Ademais, quando veio conhecer a casa, minha sobrinha exclamou, fascinada: - mas Dinda, é a Torrei Eiffel!!
Quase dois anos após minha mudança, numa manhã branca do inverno carioca, sem nenhum aviso, veio os homi com as ferramenta que o dono mandou derrubar!
Restou-me ir pro meio da varanda apreciar a demolição.
Aguardava o êxtase de sentir que nada mais separava minha doce varandinha com rede da visão dos iates da Marina. 
Mas a verdade é que “cada tauba que caía, doía no coração".
Contei a uma amiga querida que estavam desmontando a antena e ela disse: fotografa o desmonte!
Achei coerente e me posicionei, apontei o celular, pensei no melhor ângulo, enquadrei, tudo certo, exceto que eu relutava em fotografar. Pus-me a imaginar se os gaviões arranjariam outro lugar pra ficar manjando o mundo onde eu ainda pudesse vê-los. Observei por um longo tempo os homens trabalharem, presos por fios de segurança, demorando um tempo enorme para tirar cada parte da estrutura, que ficavam pendentes por alguns instantes como braços com os quais ela cobrisse suas vergonhas. 
Por fim, vi serem arrancadas as ervas de passarinho que lhe assentavam como uma charmosa echarpe de arminho verde.  
Que aflição senti ao vê-la sendo despojada de si mesma, como uma velha senhora sendo despida. Guardo muito respeito pelas velhas senhoras. Não pude fotografar tamanha indignidade. 
Dela, restam as fotos no meu instagram, uma bonita vista da Marina da Glória, e o holograma da Torre, que meus olhos vez por outra vislumbram num relance. 
Foto do Henrique Menezes



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