Puxa uma cadeira, e relaxe...

14 de mai. de 2013

tríplice mistério


E vou sendo como posso
Jogando o meu corpo no mundo
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encantos
Eu deixo e recebo um tanto

(Moraes Moreira)

13 de mai. de 2013

Rebu




Há em mim uma cota de carinho contingenciada para situações inesperadas.

Hoje recorri a esta reserva para sentir enorme ternura por aquelas pessoas que num escritório, têm por ofício criar nomes para as tintas de paredes e tonalidades de esmalte de unha.

Todo o meu respeito a quem chama um cinza esmaecido de “Alvorecer Melancólico” e um vermelho vivo de  “Desmesura”.

Poesia em série.


12 de mai. de 2013

E assim, chorando, acalentar.


Quando me casei, houve vestido, bolo e madrinha.

Ganhei um presente contra mandinga que consistia em um vaso de barro onde havia uma guiné, espadas de São Jorge e um pé de felicidade. O mato cresceu ao redor, ao redor, ao redor, e o vaso foi conosco, em cada uma de nossas casas, até que o lar não mais existisse e ninguém volta ao que acabou. Mas se você quer saber como termina aquela canção do Chico, ponha tento na história que ora conto…

Uma casa perdida no tempo, o biscoito que eu comi, ali pela metade, os livros que eu li, ainda fora da estante, o frasco de remédio, inacabado, na mesma posição, o bilhete dele para mim, o meu postal para ele, as coisas da gente, mas principlamente as minhas, úmidas e inúteis.  Quase não percebo a tua presença e me pergunto se você se retirou, ou se nunca esteve aqui.

É como se eu tivesse morrido e me fosse concedido voltar à casa que ninguém teve coragem de arrumar. Um canto mofado no cosmos, onde os retratos de nós dois se fazem companhia. Eu, fantasma de mim, rondo entre paredes descascadas,  a desfazerem-se em grandes placas de barro, esfareladas pelo chão. E duvido que já houve sons humanos nessa casa que sabe a cemitério em tarde quente, exceto por hoje estar tão frio, e ser noite. 

Tenho medo deste mausoléu erguido em minha memória, Por mãos caprichosamente cínicas e insanas.

Choro os filhos que não tive. Choro meus anos. Minha loucura. Choro. Choro esse reverso de casa, esse avesso do amor, essa raiva infinita.

Minha voz que me explica que estou sozinha. Que não há no mundo quem não o esteja. Que eu sempre estive sozinha. E percebo que isso é verdade,  em vislumbres dolorosos que me fisgam o dorso e me contraio, incrédula de que esta seja eu. O choro trágico de quem percebe a morte. E desdenha da vida, assim, tão sem destino. Choro as estrelas que não tenho mais e solidão tardia da consciência de mim.

Nesta meia casa, esse meio caminho de mim para mim mesma onde me perdi, e só dei conta de amar. Enquanto pássaros medonhos comiam as migalhas que deixei para trás.

É tarde. Cada um deles voltou para os seus, as suas, os deles. É tarde e faz escuro. E esse rio me atormenta. Cada um deles foi por um caminho onde eu não coube, onde não fui chamada. Como quem brinca de dança das cadeiras com a vida, esqueci de garantir para mim um assento, um caminho possível. É tarde. E faz escuro. Mas mesmo que migalhas houvesse, eu não haveria de retornar.

Hoje já é dia das mães e, entorpecida e calma,  canto em silêncio: dorme meu pequeninho, dorme que a noite já vem, tua mãe tá muito sozinha, de tanto amor que ela tem.

Ao redor, todas as coisas. 

E naquele vaso, a espada de São Jorge finalmente subjugou o pé de Felicidade. 



9 de mai. de 2013

6 de mai. de 2013



Bem-aventurados os que entrelaçam suas almas a um solo.

Aqueles que conseguem se definir a partir de seus lugares de origem ou escolha.

Eu, de minha parte, consigo apenas amar os lugares. Amar com devoção. Observá-los à exaustão. Tomá-los para mim, e dar-me a eles. Sem contudo, jamais pertencer a parte alguma.

Sou carioca. Mas não exerço. Amo esta tanto quanto a outras cidades de meus afetos. E amo, sobretudo, aquilo que não é urbano.

Sempre a confusão entre amar e pertencer. 

Aproprio-me do sapo martelo, e de um sabiá inconveniente. E a água do rio continua a me queimar.

Mas não pertenço. 

E posso seguir.

Ainda que doa.