Quando me
casei, houve vestido, bolo e madrinha.
Ganhei um
presente contra mandinga que consistia em um vaso de barro onde havia uma
guiné, espadas de São Jorge e um pé de felicidade. O mato cresceu ao redor, ao
redor, ao redor, e o vaso foi conosco, em cada uma de nossas casas, até que o
lar não mais existisse e ninguém volta ao que acabou. Mas se você quer saber
como termina aquela canção do Chico, ponha tento na história que ora conto…
Uma casa
perdida no tempo, o biscoito que eu comi, ali pela metade, os livros que eu li,
ainda fora da estante, o frasco de remédio, inacabado, na mesma posição, o
bilhete dele para mim, o meu postal para ele, as coisas da gente, mas
principlamente as minhas, úmidas e inúteis. Quase não percebo a tua presença e me pergunto se você se
retirou, ou se nunca esteve aqui.
É como se
eu tivesse morrido e me fosse concedido voltar à casa que
ninguém teve coragem de arrumar. Um canto mofado no cosmos, onde os retratos de
nós dois se fazem companhia. Eu, fantasma de mim, rondo entre paredes
descascadas, a desfazerem-se em
grandes placas de barro, esfareladas pelo chão. E duvido que já houve sons humanos nessa casa que sabe a cemitério em tarde quente, exceto por hoje estar tão frio, e ser noite.
Tenho medo
deste mausoléu erguido em minha memória, Por mãos caprichosamente cínicas e
insanas.
Choro os
filhos que não tive. Choro meus anos. Minha loucura. Choro. Choro esse reverso
de casa, esse avesso do amor, essa raiva infinita.
Minha voz que me explica que
estou sozinha. Que não há no mundo quem não o esteja. Que eu sempre estive
sozinha. E percebo que isso é verdade, em vislumbres dolorosos que me fisgam o dorso
e me contraio, incrédula de que esta seja eu. O choro trágico de quem percebe a morte. E desdenha da
vida, assim, tão sem destino. Choro as estrelas que não tenho mais e solidão
tardia da consciência de mim.
Nesta meia
casa, esse meio caminho de mim para mim mesma onde me perdi, e só dei conta de
amar. Enquanto pássaros medonhos comiam as migalhas que deixei para trás.
É tarde.
Cada um deles voltou para os seus, as suas, os deles. É tarde e faz escuro. E
esse rio me atormenta. Cada um deles foi por um caminho onde eu não coube, onde não fui chamada. Como
quem brinca de dança das cadeiras com a vida, esqueci de garantir para mim um assento, um caminho possível. É tarde. E faz escuro. Mas mesmo
que migalhas houvesse, eu não haveria de retornar.
Hoje já é dia das mães e, entorpecida e calma, canto em silêncio: dorme meu pequeninho, dorme que a noite já vem, tua mãe tá muito sozinha, de tanto amor que ela tem.
Ao redor,
todas as coisas.
E naquele
vaso, a espada de São Jorge finalmente subjugou o pé de Felicidade.
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