Puxa uma cadeira, e relaxe...

31 de mar. de 2010

Katyn


Curiosamente, há 15 dias comprei para meu irmão uma camiseta estilosa, vermelha, onde se destacam, em veludo branco, as letras: CCCP. Ainda não dei a ele. E agora estou com vergonha de dar.



Antes de ver este filme, e proceder a habitual pesquisa acerca do fato, Katyn era mais uma entre as várias atrocidades cometidas em um mesmo período, a esta altura já nebuloso. Perpetrada por alemães? Por russos? Não me importava muito.
Como não? Não é o caso de contar o milagre e não dizer o nome do santo. Foram 15.ooo pessoas, bolas.
E como membro da espécie, envergonho-me tanto agora, 70 anos depois, em outro continente, que beira a dor.
E só me resta, muda, vestir a carapuça que vai lentamente nos cobrindo a cabeça durante o silêncio que se segue ao réquiem da última cena.
E lamentar.
E lamento tanto. Pelo que não sabemos. Pela ignorância. Pelos descendentes que não existiram. Por sermos comunistas, capitalistas, anarquistas, como se quaisquer dessas coisas tivessem qualquer valor.
Como se não fosse tudo poder, ao fim e ao cabo.
O filme é fundamental porque esta é uma carapuça fundamental. Concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008, não levou, a estatueta foi para Os Falsários, este sim, um filme inserido no contexto nazista.
Em algumas matérias, culpando-se os suspeitos de sempre, O Globo é acusado de se omitir em relação à autoria do massacre, contudo, em todas as fichas catalográficas que encontrei do filme, o episódio é ligado aos nazistas, o que demonstra, simples assim, que os resenhadores não assistiram à obra...
Katyn é um filme polonês de 2007, dirigido por Andrzej Wajda, cujo pai foi morto pela NKVD, depois, KGB.
O filme conta o que realmente aconteceu aos milhares de oficiais poloneses que são presos durante a invasão soviética e enviados a Campos de Trabalho, e mostra o sofrimento das famílias que esperaram por anos seu retorno, ignorando que eles haviam perecido logo após sua prisão.
Além da beleza estética, um grande mérito da obra é ater-se ao fato histórico sem subterfúgios, sem romances paralelos que desviem a atenção, sem tentar preencher lacunas.
Em 1943 foram abertos - e imediatamente rearquivados - os arquivos secretos que acabam por provar que a ordem do massacre partiu dos russos, na pessoa do agente Blokhin, subordinado direto de Stalin, por ele escalado para executar o serviço macabro, o qual levou a cabo à perfeição.
Segundo minhas pesquisas, num relatório destinado ao chefe da NKVD, Blokhin declarou que ter equipado uma cabana com paredes à prova de som - e que causa grande choque no filme - em Ostachkov, Rússia, e estabeleceu a cota de 250 fuzilamentos por noite. Ele relata que usou um avental de couro e gorro de açougueiro, matando, em 28 noites, 7.000 oficiais, com uma pistola alemã Walther, para evitar identificações futuras. Os corpos foram enterrados em vários lugares, mas os 4500, do campo de Kozelsk foram jogados em uma vala comum na Floresta de Katyn.
No elenco, como Anna, Maja Ostaszewska. Como Andrzej, Artur Zmijewski, todos solenes, como o filme exige.
Um momento especial, para mim, foi aquele em que Agnieszka - vivida pela brilhante Magdalena Cielecka - que teve seu irmão, tenente, morto na ocasião, vende seu cabelo para pagar a lápide que manda fazer para ele, com sua fotografia e a data real da morte, ou seja, 1940. Naquele momento, em 1945, com a Polônia ainda sob a ocupação russa, os nazistas ainda são apontados como responsáveis pelos assassinatos em massa, e seria impossível, para a moça, conseguir seu intento de que a lápide seja posta na igreja frequentada pelo irmão. Ela vai a um teatro para vender seu cabelo para uma atriz egressa de um campo de concentração, portanto, careca. Enquanto o cabelo é cortado, é dito para ela que quem usa uma peruca do cabelo de outra pessoa, herda a sua sorte. E Agniezka diz que não deseja isso nem a um inimigo. Ela recebe pelo cabelo e sai em direção à rua e de relance aparece o cartaz da peça que será montada e, portanto, a personagem a quem o cabelo dela servirá: Antigona, a trágica personagem que recusa-se a deixar de lutar por um enterro para seu irmão insepulto. É um parêntesis genial e quase imperceptível dentro do filme, e que torna a história ainda mais tocante. É também de uma cena da mesma Agnieszka que retiro um diálogo notável em que a outra irmã/Ismênia a acusa de morbidez, por ficar do lado dos mortos e se recusar a seguir com a vida. Ela responde que não está do lado dos mortos, mas dos assassinados, e não dos assassinos. É mesmo uma Antígona.
Andrzej Wajda, na foto, nasceu em 1926 na Polônia, recebeu um Oscar honorário pelo conjunto da obra, lutou na Resistência Francesa em 1942 e é diretor entre MUITOS outros filmes, além de Katyn, de Danton e Cinzas & Diamantes.

4 de mar. de 2010

Isabel Allende


Nesse período em que estive em Campos, por conta da cirurgia e recuperação de papai (capítulo que ainda não acabou), caíram-me em mãos, através de dinda, dois livros de Isabel Allende: Paula e A Casa dos Espíritos. Li-os nesta ordem e a primeira coisa que quero destacar é a excelência da tradução, de Carlos Martins Pereira.
Em segundo lugar, observo que gostaria de tê-los lido na ordem inversa uma vez que A Casa dos Espíritos foi o primeiro livro da autora, e Paula, escrito bem mais tarde, quando ela já está consagrada explica muitas coisas a respeito do primeiro, que teriam sido melhor absorvidas se eu os tivesse lido nesta outra sequencia.
E finalmente digo que adorei ambos.
Paula é resultado das cartas que ela escrevia à filha durante o longo período em que esta esteve num coma que acabou por levá-la à morte. Não se trata de uma compilação mas do desenvolvimento destas cartas, em memórias, que afinal, são meu gênero predileto. Apesar das circunstâncias é uma narrativa muito agradável, o que constitui por si só, um mérito para autora.
Animada, peguei o segundo livro que tinha à disposição, que foi justamente A Casa dos Espíritos, o que pareceu muito conveniente já que o filme já era muito de meu agrado.
A primeira nota que faço é que o filme é uma adaptação da história, e tendo-o lido agora, me pareceu uma adaptação muito boa. Talvez eu ache isso porque li o livro depois de ver o filme, coisa que não gosto de fazer. É possível que, se tivesse ocorrido o oposto, diante das tantas coisas suprimidas e amalgamadas, como exige um roteiro, eu tivesse me frustrado com o filme.
Mas, só posso falar de onde estou - tendo assistido primeiro o filme - e assim me pareceu que o reteirista foi muito inteligente, depois vou pesquisar mais a respeito.
Adorei o estilo do texto, mas não sei se ele se deve, em muitos aspectos, à tradução, que de qualquer forma terá sido prodigiosa em mante-lo.
Fez-me pena que não tivesse lido os dois livros antes de ir ao Chile, pois teria tido um outro olhar sobre a cidade e o povo, o que acaba por tornar imprescindível voltar lá! Enquanto isso não ocorre, visitei em minhas lembranças, o mercado, onde Blanca e Pedro Tercero comem centollas, como eu comi um dia com Mauro, O Palacio de la Moneda, onde tanta coisa terrível aconteceu, minhas observações sobre o caráter sério e organizado do povo, e acrescentei uma nota a mais de carinho pelo lugar e as gentes.
Em ambos os livros, em diversos momentos, é mencionada esta seriedade, que ela justifica como um medo endêmico de qualquer coisa que pareça ridícula. Fez-me graça, porque de algum modo eu já tinha intuído isto, e explica a firmeza com que se fazem diferenciar de nós, brasileiros, ridículos pela própria natureza.
Achei interessante a firme crença na democracia, e atentei para o fato de que é mesmo, eles foram o primeiro país a alcançar o socialismo por via democrática!
Ali ficaram patentes para mim, as diferenças entre os golpes chileno, argentino e brasileiro. Claro que no Chile também houve a "ingenuidade revolucionária", mas a construção da "consciência socialista" se deu ali de modo muito mais concreto, com os aspectos afinal fundamentais ao comunismo, que incluem a adesão camponesa.
O Brasil não é mencionado, senão para falar na culinária brasileira que aportou do outro lado da cordilheira como mais uma das muitas coisas importadas que ali abundaram após o golpe. E é perfeitamente compreensível que não se fale do Brasil, pois é quase como se a quartelada aqui fosse brincadeira de criança, diante do que foi lá.
Notei o sentimento óbvio, mas que me tinha passado despercebido e que me serviu para compreender melhor o país e as pessoas, que se tem no Chile, de que aquele é um país longínquo e diferente dos outros países sul-americanos, isso se deve a um europeísmo sim, mas ao indisfarçável fato de que entre eles e nós outros há uma sólida cordilheira. É preciso considerar os efeitos deste acidente no ânimo daquela gente que se refere aos vizinhos como "os trópicos".
Fiquei ainda mais frustrada por não ter ido às casas de Neruda em Viña del Mar e nem na Chacarrona, e revisitei, aumentando-a, a desolação com que fiquei sentada na porta desta última, sem poder entrar, pois acabara o horário de visita, em meu último dia de viagem. Na foto acima, apareço em frente a uma das cinco placas que compoem um belíssimo poema e ficam ao lado e acima desta Chacarrona que é a casa urbana do Poeta, no bairro da Bela Vista.
E voltando às questões literárias, o problema que sempre enfrento quando vejo o filme antes, de ter suprimida a capacidade de construir a aparência dos personagens, aqui foi avassalador. Porque Clara nada tinha a ver com Meryl Stripp fisicamente, embora eu ache que a atriz incorporou bem o ânimo da personagem e, sobretudo, Winona Rider é o oposto absoluto de Blanca/Alba, de maneira que empobreceu as duas personagens. E Antonio Banderas, apesar de estar bem no filme, me parece trair a aparência e espírito camponeses de Pedro Tercero, embora se pensarmos que ele também é Miguel, o meio termo resulta justo.
Mas Jeremy Irons está fantástico como o irascível Esteban Trueba, e sobretudo, o ator que faz Pedro Segundo É Pedro Segundo, vou procurar saber-lhe o nome.
Enfim, Chi-Chi-Chi Le-Le-Le, viva, Chile!
E obrigado, Isabel Allende.

Refúgios

Frejat disse "o meu exercício predileto é pensar / passo muitas horas do dia só pensando / às vezes levo o meu corpo pra passear / enquanto ele faz cooper eu fico esperando". Há em mim um movimento inverso. Frequentemente minha mente sai a passear. E meu corpo fica esperando.

Há pessoas que meditam, diante de altares, por via de posturas... há outras que oram, e seu espírito se refaz, eu sempre quis, sem nunca ter sido capaz de meditar, e embora recorra com freqüencia ao recurso da oração, jamais consegui a entrega e o desligamento que alguns depoimentos atribuem a estas práticas.

Em contrapartida não sei se alguém obtém da leitura, do cinema e da música, o nirvana que eu alcanço. E também não sei se alguém consegue o nível de entrega ao qual me abandono nas ocasiões em que, com meu fone de ouvido, me concentro na voz de Ella cantando Bewitched e conforme cada tom e timbre vão pipocando, as coisas do mundo que fica para fora de meus olhos fechados se apagam completamente. E meu corpo fica esperando, imóvel, que minha mente volte a animá-lo, quando chegar lá de onde está.

E ela está no mesmo recôndito onde moram Fraulein Maria, Jack Flash, Tadzio, Phillip Marlowe, Blanche, a Dubois. Onde a tabuleta de benvindo ao lar cai com estrépito cada vez que um novo personagem bate a porta após entrar e onde, pela terra vermelha de Tara, jurei que eles, ali, jamais passariam fome. E tenho cumprido.

Contudo, quando meu corpo fica mais inerte, quando minha alma vaga pelos cantões mais longíquos de minha mente, quando o desligamento é tão absoluto que os laços de meu peri-espírito devem correr mais riscos, é quando leio. E, na casa ao lado moram Estevan Trueba e aquelas mulheres com pés que são pequenos lírios de 8 cm (nasceram um para o outro, estou certa) , em pacífica convivência com Lestat e Miss Marple, que está sempre a tentar compreender os métodos investigativos de Nero Wolf. Lá estão a Carmem Miranda, o Garrincha de minha memória, e às vezes vão todos passear na dacha dos Dostoiévski, ou saracoteiam por Paris, que é uma festa. Vários cronópios dançam felizes a catala, em meio a este movimento, detendo-se eventualmente para trocar impressões vívidas sobre Buenos Aires, Rio de Janeiro e Paquetá, com aquela moreninha, que os aconselha a que não se hospedem com João Romão.

E nesses momentos, flutuando em minhas próprias espumas, sem fazer caso do mundo, sinto em mim o borbulhar do gênio. E percebo que é então que tenho a mesa posta, cada coisa em seu lugar. Quando fecho meus olhos ateus, de mulher morena e visito meus recantos.

Fico grata por ter em mim estes refúgios, curativos na alma, e compreender essas minhas referências são as senhas para estes meus recônditos. Senhas que meu corpo, tosco, não possui. Senhas, aliás, que ninguém possui.

Desafio-te. E ainda que me decifres, não te devoro.