E lamentar.
31 de mar. de 2010
Katyn
E lamentar.
4 de mar. de 2010
Isabel Allende

Nesse período em que estive em Campos, por conta da cirurgia e recuperação de papai (capítulo que ainda não acabou), caíram-me em mãos, através de dinda, dois livros de Isabel Allende: Paula e A Casa dos Espíritos. Li-os nesta ordem e a primeira coisa que quero destacar é a excelência da tradução, de Carlos Martins Pereira.
Refúgios
Frejat disse "o meu exercício predileto é pensar / passo muitas horas do dia só pensando / às vezes levo o meu corpo pra passear / enquanto ele faz cooper eu fico esperando". Há em mim um movimento inverso. Frequentemente minha mente sai a passear. E meu corpo fica esperando.
Há pessoas que meditam, diante de altares, por via de posturas... há outras que oram, e seu espírito se refaz, eu sempre quis, sem nunca ter sido capaz de meditar, e embora recorra com freqüencia ao recurso da oração, jamais consegui a entrega e o desligamento que alguns depoimentos atribuem a estas práticas.
Em contrapartida não sei se alguém obtém da leitura, do cinema e da música, o nirvana que eu alcanço. E também não sei se alguém consegue o nível de entrega ao qual me abandono nas ocasiões em que, com meu fone de ouvido, me concentro na voz de Ella cantando Bewitched e conforme cada tom e timbre vão pipocando, as coisas do mundo que fica para fora de meus olhos fechados se apagam completamente. E meu corpo fica esperando, imóvel, que minha mente volte a animá-lo, quando chegar lá de onde está.
E ela está no mesmo recôndito onde moram Fraulein Maria, Jack Flash, Tadzio, Phillip Marlowe, Blanche, a Dubois. Onde a tabuleta de benvindo ao lar cai com estrépito cada vez que um novo personagem bate a porta após entrar e onde, pela terra vermelha de Tara, jurei que eles, ali, jamais passariam fome. E tenho cumprido.
Contudo, quando meu corpo fica mais inerte, quando minha alma vaga pelos cantões mais longíquos de minha mente, quando o desligamento é tão absoluto que os laços de meu peri-espírito devem correr mais riscos, é quando leio. E, na casa ao lado moram Estevan Trueba e aquelas mulheres com pés que são pequenos lírios de 8 cm (nasceram um para o outro, estou certa) , em pacífica convivência com Lestat e Miss Marple, que está sempre a tentar compreender os métodos investigativos de Nero Wolf. Lá estão a Carmem Miranda, o Garrincha de minha memória, e às vezes vão todos passear na dacha dos Dostoiévski, ou saracoteiam por Paris, que é uma festa. Vários cronópios dançam felizes a catala, em meio a este movimento, detendo-se eventualmente para trocar impressões vívidas sobre Buenos Aires, Rio de Janeiro e Paquetá, com aquela moreninha, que os aconselha a que não se hospedem com João Romão.
E nesses momentos, flutuando em minhas próprias espumas, sem fazer caso do mundo, sinto em mim o borbulhar do gênio. E percebo que é então que tenho a mesa posta, cada coisa em seu lugar. Quando fecho meus olhos ateus, de mulher morena e visito meus recantos.
Fico grata por ter em mim estes refúgios, curativos na alma, e compreender essas minhas referências são as senhas para estes meus recônditos. Senhas que meu corpo, tosco, não possui. Senhas, aliás, que ninguém possui.
Desafio-te. E ainda que me decifres, não te devoro.
