
Nesse período em que estive em Campos, por conta da cirurgia e recuperação de papai (capítulo que ainda não acabou), caíram-me em mãos, através de dinda, dois livros de Isabel Allende: Paula e A Casa dos Espíritos. Li-os nesta ordem e a primeira coisa que quero destacar é a excelência da tradução, de Carlos Martins Pereira.
Em segundo lugar, observo que gostaria de tê-los lido na ordem inversa uma vez que A Casa dos Espíritos foi o primeiro livro da autora, e Paula, escrito bem mais tarde, quando ela já está consagrada explica muitas coisas a respeito do primeiro, que teriam sido melhor absorvidas se eu os tivesse lido nesta outra sequencia.
E finalmente digo que adorei ambos.
Paula é resultado das cartas que ela escrevia à filha durante o longo período em que esta esteve num coma que acabou por levá-la à morte. Não se trata de uma compilação mas do desenvolvimento destas cartas, em memórias, que afinal, são meu gênero predileto. Apesar das circunstâncias é uma narrativa muito agradável, o que constitui por si só, um mérito para autora.
Animada, peguei o segundo livro que tinha à disposição, que foi justamente A Casa dos Espíritos, o que pareceu muito conveniente já que o filme já era muito de meu agrado.
A primeira nota que faço é que o filme é uma adaptação da história, e tendo-o lido agora, me pareceu uma adaptação muito boa. Talvez eu ache isso porque li o livro depois de ver o filme, coisa que não gosto de fazer. É possível que, se tivesse ocorrido o oposto, diante das tantas coisas suprimidas e amalgamadas, como exige um roteiro, eu tivesse me frustrado com o filme.
Mas, só posso falar de onde estou - tendo assistido primeiro o filme - e assim me pareceu que o reteirista foi muito inteligente, depois vou pesquisar mais a respeito.
Adorei o estilo do texto, mas não sei se ele se deve, em muitos aspectos, à tradução, que de qualquer forma terá sido prodigiosa em mante-lo.
Fez-me pena que não tivesse lido os dois livros antes de ir ao Chile, pois teria tido um outro olhar sobre a cidade e o povo, o que acaba por tornar imprescindível voltar lá! Enquanto isso não ocorre, visitei em minhas lembranças, o mercado, onde Blanca e Pedro Tercero comem centollas, como eu comi um dia com Mauro, O Palacio de la Moneda, onde tanta coisa terrível aconteceu, minhas observações sobre o caráter sério e organizado do povo, e acrescentei uma nota a mais de carinho pelo lugar e as gentes.
Em ambos os livros, em diversos momentos, é mencionada esta seriedade, que ela justifica como um medo endêmico de qualquer coisa que pareça ridícula. Fez-me graça, porque de algum modo eu já tinha intuído isto, e explica a firmeza com que se fazem diferenciar de nós, brasileiros, ridículos pela própria natureza.
Achei interessante a firme crença na democracia, e atentei para o fato de que é mesmo, eles foram o primeiro país a alcançar o socialismo por via democrática!
Ali ficaram patentes para mim, as diferenças entre os golpes chileno, argentino e brasileiro. Claro que no Chile também houve a "ingenuidade revolucionária", mas a construção da "consciência socialista" se deu ali de modo muito mais concreto, com os aspectos afinal fundamentais ao comunismo, que incluem a adesão camponesa.
O Brasil não é mencionado, senão para falar na culinária brasileira que aportou do outro lado da cordilheira como mais uma das muitas coisas importadas que ali abundaram após o golpe. E é perfeitamente compreensível que não se fale do Brasil, pois é quase como se a quartelada aqui fosse brincadeira de criança, diante do que foi lá.
Notei o sentimento óbvio, mas que me tinha passado despercebido e que me serviu para compreender melhor o país e as pessoas, que se tem no Chile, de que aquele é um país longínquo e diferente dos outros países sul-americanos, isso se deve a um europeísmo sim, mas ao indisfarçável fato de que entre eles e nós outros há uma sólida cordilheira. É preciso considerar os efeitos deste acidente no ânimo daquela gente que se refere aos vizinhos como "os trópicos".
Fiquei ainda mais frustrada por não ter ido às casas de Neruda em Viña del Mar e nem na Chacarrona, e revisitei, aumentando-a, a desolação com que fiquei sentada na porta desta última, sem poder entrar, pois acabara o horário de visita, em meu último dia de viagem. Na foto acima, apareço em frente a uma das cinco placas que compoem um belíssimo poema e ficam ao lado e acima desta Chacarrona que é a casa urbana do Poeta, no bairro da Bela Vista.
E voltando às questões literárias, o problema que sempre enfrento quando vejo o filme antes, de ter suprimida a capacidade de construir a aparência dos personagens, aqui foi avassalador. Porque Clara nada tinha a ver com Meryl Stripp fisicamente, embora eu ache que a atriz incorporou bem o ânimo da personagem e, sobretudo, Winona Rider é o oposto absoluto de Blanca/Alba, de maneira que empobreceu as duas personagens. E Antonio Banderas, apesar de estar bem no filme, me parece trair a aparência e espírito camponeses de Pedro Tercero, embora se pensarmos que ele também é Miguel, o meio termo resulta justo.
Mas Jeremy Irons está fantástico como o irascível Esteban Trueba, e sobretudo, o ator que faz Pedro Segundo É Pedro Segundo, vou procurar saber-lhe o nome.
Enfim, Chi-Chi-Chi Le-Le-Le, viva, Chile!
E obrigado, Isabel Allende.
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