Costigliole, 23 de outubro de 2010
sabado
Dormi até mais tarde pela primeira vez desde que cheguei na Europa, acordei às 9:40!!
Ilaria, a jovem, estressada e simpática diretora do ICIF veio nos buscar para nos levar ao alojamento.
Já é hora de explicar que o tal alojamento, ao qual passo, a partir de agora a me referir como Cascina, se chama Cascina Salério. O ICIF (pra você que não se lembra: Institute of Italian Culinary for Foreigners) funciona num espaço pertencente à prefeitura de Constigliole que é o Castello di Costigilolle d´Asti. Falarei mais especificamente sobre o castelo num post mais pra frente. Agora, cabe dizer que a prefeitura cedeu para o Instituto este pequeno prédio para fazer as vezes de alojamento estudantil. É um prédio branco de três andares em L, com pequenos apartamentos constituídos por um pequeníssimo hall, dois quartos e um banheiro, cada. Pelo que percebo cada quarto tem duas ou três camas. Embaixo tem a cozinha, a qual os estudantes não têm acesso, e onde só é produzido o café da manhã (já que almoço e jantar são na Escola). Contígua a ela o refeitório com uma geladeira mínima cheia de bolsas de todo mundo e um cheiro horrível, um microondas e uma máquina de café espresso. Há também uma dessas máquinas de bebidas com moedas e uma outra, no mesmo estilo com coisas fundamentais como amendoins e wafers.
É lá que o sinal da internet é melhor, mas no meu quarto, felizmente pega bem. Como isso não é a regra, todo mundo usa o refeitório para ficar com seus laptops fazendo as coisas que se faz num laptop. Não há mesa pra todos porque juntaram algumas no centro do refeitório à guisa de mesa de ping pong. Que aqui, democraticamente se joga a cinco ou seis, com todo mundo correndo em volta da mesa. Enfim, um lugar sossegado, o refeitório.
Há poucos quartos nesse andar térreo, e todos de homens. No subsolo há a lavanderia com duas máquinas de lavar e uma de secar, todas de fichas que se compram na escola e também duas tábuas de passar e dois ferros de passar roupas. Nesse subsolo se pode ver a origem antiga do edifício.
No vão do L que a construção compõe, há um quintal com apenas uma árvore sob a qual foi montada a churrasqueira improvisada com blocos de concretos roubados do exasperado vizinho e ao redor da qual ficam todos se aquecendo à noite. Ao som de música brasileira já que Guilherme, o brazuca do primeiro andar (aquele que está percorrendo a Europa numa bicicleta, embora eu desconfie que ele chegou aqui montado num unicórnio) pendurou uma verde e amarela na janela e pôs umas caixinhas de som embaixo.
Ouve-se todas as línguas. Há japoneses, filipinos, coreanos, brasileiros, peruanos, espanhóis, paraguaios, argentinos, brasileiros, turcos, ingleses, americanos, canadenses... isso para ficar nos que eu conheço.
Assim é a Cascina Salério. A torre de babel que será meu novo lar pelos próximos meses.
Depois de ser rejeitada pelas coreanas (sofriiii...) me puseram num apartamento com duas canadenses. Uma de origem indiana e outra loiiiiiira que fala como um bebê. Ela é de Toronto,e divide o quarto comigo. A outra está sozinha no outro quarto. Elas tomam banho! Mas não abrem o quarto, que tem um cheiro bem saturado, pra ser elegante. Há roupas de todos os tipos espalhadas por todas as partes e muitas garrafas vazias. Meu quarto é o 312, no último andar. Sempre as escadas, no meu caminho...
O pior de tudo é que me separaram da Renata. Que é uma criatura doida dos quatro costados, mas a quem eu já tinha me adaptado e a quem já estava francamente afeiçoada.
Ela ficou no 205, num apartamento com mais três brasileiras da nossa turma. Aproveito que todas viajaram e comunico às canadenses que vou dormir no quarto da Renata, hoje.
Após deixar nossas muitas coisas na Cascina, vamos para a escola, para o bendito mise-en-place... chegando lá, está rolando uma faxina, e Paola, a chef descabelada tem um treco, porque isso não é dia de mise-en-place, porque nós não somos o grupo responsável e isso não é justo (com o que concordo integralmente), porque está tendo faxina e nós vamos sujar tudo de novo, porque os japoneses estão tendo aula agora e não podemos atrapalha-los (todo mundo sabe que os japoneses não são um povo passível de contrariedades) e porque na Itália não tem escova progressiva e ela tem que ficar com o cabelo daquele jeito!
Daí ela, o Marco, que é o assistente dela muito bonitinho, com cara de argentino e que não conseguimos decidir se é gay ou não e a pobre da Ilaria que tem metro e meio de altura e uns 40 quilos começam a gritar uns com os outros. Gritar mesmo. Eu e Renata saímos de fininho e vamos lá pra fora esperar uma decisão. Não sei porque essas coisas sempre acontecem comigo.
Uns dez minutos depois de muita gritaria a Ilaria vem e diz: comecciamo, ragazzi!
Como assim???????
Sem discutir, pegamos as receitas, e, gente boa, são 4 de aula magna, ou seja, precisamos separar, pesar e medir os ingredientes das receitas que o chef que vai vir demonstrar. E 2, DUAS receitas práticas. Isso significa que, precisamos medir, pesar e separar os ingredientes que os 20 alunos da turma mais o chef vão usar para executar as duas receitas. TODOS os ingredientes, lula, camarão, carne de porco, lardo, farinha de trigo 00, farinha de trigo 000, farinha de trigo de grão duro (que tipo de lugar tem tanta farinha de trigo diferente????), tomate, cardo (o que, diabos, é cardo?) e mais um monte de coisas. Temos que fazer tudo isso sem sujar nada (afinal já houve a faxina), e sem entender muita coisa porque afinal vem tudo em Italiano e vai saber assim, de chofre o que é cardo, manzo, prezzaiolo, farro e sabe-se lá mais o que. E, o principal, entrando o menos possível na cozinha onde afinal estão todos os ingredientes, porque tá um clima que, se a gente abusar da sorte, Paola, como uma viúva negra, nos prende em uma teia de cabelos e ninguém nunca mais vai saber de nós.
Começo a ficar realmente irritada.
Diante de tal quadro, ligamos para Fernanda, a tradutora, que vai nos ajudar. A esta altura estou descalça (fui de roupa civil, já que havia levado meus uniformes para lavar na quinta, quando fui abordada pelo duende, Ângelo, lembram?), cheia de farinha e meio sequelada andando de um lado pro outro inconformada e eu e Renata já estávamos brigando entre nós, porque, como já esclareci ela é louca e não va bene para mim, pessoa sensata.
Duas horas depois, acabamos a mise-en-place e estamos definitivamente exauridas.
Se você revir o dia de hoje vai notar que foi totalmente vão.
Revolta. Decidimos, mesmo brigadas, pegar um ônibus para Asti, para pelo menos fazer coisas práticas como comprar o Chip do telefone, arranjar uma bateria nova pra máquina, esses lances, e, adivinha? O ônibus acabou de sair. Outro? Só em uma hora e meia! Sem nos dar por vencidas e sem nos falar direito, chamamos o taxista que, chama outro taxista, que, chama outro taxista que finalmente chega. Dez minutos antes de sair o ônibus que custaria 1,75. Vamos então de taxi para Asti, pelo que pagamos 30 euros, mas a essa altura o desespero já nos levou a fazer as pazes.
Finalmente consigo olhar para Asti e descubro que é bem legal. Já é noite, a cidade está cheia. Vamos para a Piazza San Secondo e, antes de mais nada compramos o chip da Wind. Isso significa que agora tenho um telefonino na Itália! E um plano de ligações internacionais que me custa 12 centavos de euro o minuto de ligação para o Brasil e um plano de internet limitado por 4,90 mensais! Incrível! Vocês podem me ligar! (00 39) 38024.43182.
De lá íamos em direção à loja de material fotográfico quando, surge, à nossa frente uma loja de... chapéus. Todos vocês sabem da minha fixação em chapéus. Renata compartilha esta fixação comigo (o que foi muito conveniente, pois pudemos trocar nossas capelli sem nunca repeti-los, ao menos na mesma cabeça). Não prestou.
Depois de um dia desses uma mulher precisa fazer compras, para desopilar o fígado. Daí que saímos com um total de quatro chapéus (sendo um para neve), dois cachecóis e uma luva de pelica. Considerando que cada uma de nós tinha levado uns quatro chapéus cada uma, precisaremos de uma mala só para eles.
O mundo pareceu bem mais agradável depois.
Especialmente porque chegando na loja de fotografia o gentil atendente após experimentar a bateria, informou que o problema era comigo, e não com ela. E não é que é verdade? Não sei explicar o que aconteceu, o fato é que voltei a ter uma máquina fotográfica.
Como o próximo ônibus era só às 21 h e ainda eram 19:30 e estávamos mortas de fome e cansaço, pegamos outro táxi. O que foi ótimo pois, dando continuidade à minha tradição de taxistas figura, agora já tenho o meu no Piemonte, o Signor Gallo, que falou conosco sobre vários assuntos.
Ele nos esclareceu, por exemplo, que o milho que se planta na região, e que me causava espécie era pra alimentação dos animais, sendo raramente o mais píu piccolo utilizado na polenta.
O signore Gallo era tão buona gente que resolvemos mudar os planos e pedimos que ele nos apanhasse no dia seguinte de manhã para irmos a Asti pegar o trem para Alba, plano do qual já havíamos desistido, já que domenica don´t have autobus em Costigliole.
De volta à Costigliole fomos encontrar Fernanda, conforme combinamos mais cedo para jantar no restaurante Signória, o piu chique da comune. Desconfio um pouco do gosto decorativo dos Italianos pós-renascentistas. Eles tem mania de paredes adamascadas. Sei não, não me parece muito saudável pôr tecido nas paredes e pior, nas cadeiras, cobrindo-as.
Mas a comida estava quelque chose!!! Ai ai, ando tão poliglota!
Deixamos Fernanda, praticamente uma local, escolher o cardápio. Veio então uma espumante rose do Piemonte para acompanhar o antipasti: ovo com trufas brancas. Minhas primeiras trufas brancas. O cheiro era sublime como eu já conhecia, e estava delicioso, não obstante a falta de sal característica. O primo piatti (e eu parei nele) foram pequenos escalopinhos de foie gras (os ecologistas que me desculpem, mas foie gras é fundamental) sobre uma caminha de uma folhinha agradavelmente insípida, porém não insossa. Meraviglia. De sobremesa veio para mim e para Renata uma coisa tão complicada que eu não sei reproduzir, mas era algo como um petit gateau de nocciola sobre o qual o chef em pessoa vinha colocar um CD de chocolate, ao lado, um copinho cúbico (não sei se eu sei o que é uma coisa cúbica, mas a palavra combina com o objeto) com uma coisa líquida e aveludada que tinha obviamente a ver com chocolate (uma palavra sobre os chocolates italianos: não gostei de NENHUM, venho passando a Lidt). Achei doce demais da conta e me pareceu combinar muito com o tecido das paredes. Já para a Fernando veio uma Bola de Pistache, que era uma mousse de pistache que parecia uma bavaroise, muito boa mesmo, vinha num formato perfeitamente esférico e era coberto por chocolate endurecido que o chef (ele tem que dar um jeito de vir ao salão.... ah, esses chefs... so vain...) vinha – de novo – quebrar com um martelinho de bater bife. Depois, antes do café (que aqui é uma obrigação cívica, o que me faz pensar que cedo ou tarde serei presa, uma vez que detesto café!) vinha uma colher torta e nela pequenos grãos de chocolate com a recomendação de que os enfiássemos todos na boca ao mesmo tempo, após o que eles explodiram! Muito legal. Eram injetados com anidrido de carbono, o que me soa tão pouco saudável quanto cadeiras cobertas por tecidos, mas enfim, foi bem pitoresco!
Chegamos de volta à Cascina, cansadas, alimentas, enchapeladas, felizes e totalmente de bem.
Como se não bastasse, ao ligar o computador, estava a minha família toda reunida na minha casa e pudemos nos falar no MSN com câmera. Mauro, mamãe, papai, Edissa, Carlos, Eliane, Fernandinha e Fátima!!! E chorei até quase vomitar o petit gateau açucarado!
29 de out. de 2010
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2 comentários:
Oi, meu nome é Sinval e gostaria de conversar com vc! Estou indo pro ICIF fazer um curso e tô me divertindo com suas histórias. Espero que vc leia esse comentário. Meu email é sinvas@gmail.com
Aguardo!!!
Oi, meu nome é Sinval e gostaria de conversar com vc! Estou indo pro ICIF fazer um curso e tô me divertindo com suas histórias. Espero que vc leia esse comentário. Meu email é sinvas@gmail.com
Aguardo!!!
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