Costigliole D'Asti, 06 de novembro de 2010
Sabato
Agora é.
Hoje foi um daqueles raros Momentos Cajuína onde a gente responde: ah! é pra isso! à questão: existirmos, a que será que se destina?
Antes de prosseguir, um parêntesis, se acharem por aí, tomem o Barbera D´Dasti da Cascina Castlet, aqui custa 10 euros a garrafa.
Bem, além de um programa cultural, feiras de produtores, todos os restaurantes da região estão fazendo um menu degustazzione a 15 euros, incluídas duas taças do Barbera, rosso ou bianco.
Ontem, dada a tensão da semana, a irritação com a escola, o cansaço do dia, decidi não ver o movimento. Resolvi deixar para hoje, o meu flanar.
Assim, acordei tarde e ainda fiquei na cama até três da tarde, atualizando o blog, escrevendo e-mails, e só saí dela porque não aguentava mais a fome...
Já acordei decidida quanto ao que ia fazer hoje. E impressionada porque nem na escola e nem na cascina ninguém falava a respeito. Mas EU sabia o que ia fazer.
Prossegui célere em minhas atividades do dia com a objetividade e calma de quem sabe exatamente o que vai fazer. Comi pão com azeite (me sinto o Telêmaco quando faço isso, que, aqui, é, todo o dia!), e fui para o subsolo lavar roupa, e fiz minhas unhas neste meio tempo.
Os programas para a noite do pessoal aqui se dividiam entre: balada em Neive ou estreiar a churrasqueira de Caio.
Declinei e segui, incólume.
Comecei a me arrumar. Meia calça comum, meia calça térmica preta, body, segunda pele preta, suéter justo de lã preta, bota preta e: saia rosa! Meu chale preto de lã de alpaca que comprei na Recoleta, em Buenos Aires preso com o "pinche" também porteño, mas da feira de Santelmo, de latão trabalhado, em forma de camafeu. Perolinha na orelha, rímel nos olhos (porque hoje é sábado) e meu bonezinho friburguense de veludo cinza, minhas novas luvas de pelica preta que me fazem sentir muito européia, e, quando estava escolhendo o anel (que acabou sendo o de prata com madrepérola rosa), a Canadense 1 surge e informa que vai comigo. Tá então, né. Fazer o que?!?Ao descer, encontramos Guilherme, meu conterrâneo, que me faz um lindo elogio: nossa!!! parece a Lapa no Piemonte.
O cenário para a estréia da churrasqueira estava montado, já tendo até saído uma ótima linguiça. A canadense balançou. Quando olhamos na direção da rua, uma névoa nos impedia de ver o portão, ao que, a canadense, em sua vozinha de gato: what if we stay?? Eu não titubeei: feel free to stay! I´m fine!! Go girl, to eat a brasilian barbecue, e, fui!
Caminhava eu pelas brumas do bosque de Costigliole (minha mãe teria um treco, se me visse!!) ouvindo o som de meus passos e a voz de sir Mick Jagger entoar Wild Horses, quase achando que era em minha homenagem.
Subi vagarosamente por dentro da névoa que cobria os 109 degraus que me separam da rua principal de Costigliole e, caí direto numa cidade muda, cheia de carros estacionados, mas com pouquíssima gente na rua. Não é a idéia que tenho de um Festival...
Passo para dor um alô ao querido Alessandro e sigo para o Teatro Comunale, onde vi, no cartaz, ontem, acontecerá um espetáculo teatral às 21 horas.
Pouca gente, era cedo. Pessoas mais idosas, todas. Um casal com uma bambina.
Comecei a fotografar o teatro, que foi se enchendo vagarosamente. No geral, pessoas mais maduras, não necessariamente idosas, e algumas mais jovens, também. Os homens muito elegantes em seus ternos escuros sob seus sobretudo e as mulheres com a clássica combinação meia calça chique, saia, e as famigeradas botas. E seus cachecóis que elas empunham tão bem. Torço para não estar fazendo feio com minha indumentária Lapa no Piemonte.
Notava-se que a ocasião ensejava encontros. Dois senhores elegantes sobem ao palco para agradecer à Comune, as presenças, e para anuciar a mezza stagione 2010/2011 que se inicía em 27 de novembro e vai até março com dez apresentações de música, pantomima, Moliére, pois é tempo di teatro, musica, cinema, gastronomia e art figurative!! Adesso, o Concerto di Giorgio Conte!!!
Ué, mas não era teatro??
Apagam-se as luzes.
Eu tenho verdadeira obsessão por este momento no cinema, no teatro, em que se apagam as luzes e tudo é só expectativa entre um pigarro discreto, o ranger das cadeiras e o barulho das cortinas se abrindo. Ainda que elas não revelem grandes coisas, a adrenalina daquele momento sempre salva a noite.
Mas não essa noite.
Essa noite é que ia me salvar.
Em primeiro plano, no meio do palco, quatro cadeiras, num discreto semi-círculo. Elas eram de madeira de cor de cerejeira e tinham os espaldares e os assentos forrados com veludo vermelho. As duas cadeiras das pontas, estavam vazias. Sobre os acentos das do meio, repousavam os seguintes objetos: na da esquerda um boneco de neve de pelúcia idêntico ao que minha cunhada, Miriam, trouxe do Texas. Ele é branco meio azulado e carrega uma cartolinha vermelha. Na cadeira ao lado desta, portanto a da direita, um pequeno carousel, da mesma altura que o boneco de neve, com luzinhas, e pequenos assentos de cavalinho, a rodar ininterruptamente.
Da coxia sai um homem, de preto, que senta na cadeira da esquerda. Pega um acordeón, e se põe a tocar como um possuído uma canção que, no segundo acorde já me fez desabar em prantos. Não sei porque insisto em usar rímel. Ao final desta canção, ele aperta um botão no bonequinho de neve que, como eu já sabia que faria, começa a cantar uma música de natal e a rebolar mexendo a cartolinha. E ao som desta música entra il Signore Giorgio Conte, meio dançando. Até que se senta na cadeira vaga da ponta direita (posição de craques) e pega seu violão. Ele tem a voz profunda, e é difícil para mim, discernir tudo o que diz, mas entendo que ele "não nega que é afeito à chanson française" e fala várias outras coisas, com muito humor, e começa a cantar, e, gente! é um chansonnier italiano! Que pode ser melhor nessa vida? E são duas horas de palavras recitadas, risos e música. E beleza, e tanta beleza que eu, sem um pingo de rímel, me senti tão feliz como não aconteceu desde que aqui cheguei. Destas felicidades que só a arte, a leitura e a música conseguem nos dar. E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou!
E eu entendi, quase que imediatamente, que finalmente havia chegado à Itália. Ao Piemonte. Ao mundo, porque até então era um limbo.
Finalmente eu estava na Itália. Finalmente me conectei. Finalmente uma sensação de reconhecimento do que desconheço! Finalmente entendi a Itália, pra onde a estrada que tomei me trouxe. Essa que eu vinha racionalizando há dias, sem entender niente! Porque eu sempre preciso do coração para entender. Pronto, obtive em duas horas, doses cavalares de compreensão.
O acordeonista, que, descobri agora, no abençoado google, não toca acordeón, e sim vibrandoneon (o que quer que seja, é lindo de doer) chama-se Valter Porro, era realmente magnífico, e tocou até Piazzola, só pra machucar meu coração.
Mas mesmo antes de ele tocar Piazzola, ouvindo aquele acordeón, percebendo a harmonia perfeita entre aquele som, a língua, e sobretudo os trejeitos italianos do cantor, eu já tinha feito a conexão com a Buenos Aires dos meus amores, ali representada pelo meu chale de lã de alpaca e pelo meu pinche de Santelmo.
E il cantante, Giorgio Porro, na verdade, cantautore (esta palavra que mistura cantor/compositor) de 69 anos, com a voz de um Dick Farney, a interpretação de um Ivon Curi, esbanjou. Esbanjou voz, charme, violão, talento, tudo! Naquele seu chanson de breque.
É dali, digo, é daqui que saiu Buenos Aires. Entendi Benito Quinquella, entendi a vuelta do Rocha, entendi La Boca e o lunfardo, entendi a beleza, o charme e o nariz dos porteños. Entendi até a arrogância. Entendi a comida porteña. Entendi tin-tin por tin-tim, no espaço de algumas músicas. Entendi Balada para un loco.
E, ao entender mais alguma coisa de Buenos Aires, que me havia escapado até hoje, comecei a entender a Itália. A finalmente experimentar a Itália. Onde aquela estrada me trouxe.
E agora tenho fome e sede de ver tudo!
É como quando eu li o Abusado, do Caco Barcellos e fiquei dois dias aos prantos tentando reorganizar o mundo na minha cabeça com as novas conexões que o livro me trouxe e que bagunçaram toda a minha ordem mental.
Já tive outros momentos assim. Do clique. Uma coisa que me faz viver o que até então era observação passiva.
O clique sempre vem da beleza. Já veio de um outro lindo livro, o Cisnes Selvagens, Chang Yung. Já veio da revelação da cidade de Recife. Já veio do impacto da beleza da China em outra ocasião, quando fui à exposição dos Guerreiros de Terracota, em São Paulo. Já veio da beleza de descobrir que o Rio de Janeiro não era o Centro do mundo (e foi tarde que descobri isso). Já veio de outras fortes emoções.
Pois agora, imersa na beleza, finalmente a Itália me deu seu chega-pra-lá, ou pra cá. E aqui estou.
Quando o Concerto acabou, eu quis ir dar um abraço nele, que desceu para falar com as pessoas, na platéia. Sem essa de ir ao camarim... Consegui chegar até ele e disse: Io faccio la cuoca, sono brasiliana! (Sou cozinheira, brasileira!) ele fez uma cara engraçada que só mudou quando eu acrescentei: a ICIF! E ele: pensei que era cocaína!!! E foi assim, rindo desta, que eu fui fotograda ao lado do senhor Giorgio Conte na noite em que a Itália começou a se revelar para mim!
Depois. Bem , tudo que veio depois é pouco. Depois foi Agnolotti Plin ao burro e salvia, com barbera na Maddalena, escrevendo para este blog. Depos foi o caminho de volta sem querer ouvir música, pela cidade deserta e o bosque brumado. Depois foi este quarto e reviver os fatos aqui.
E agora é o sono.
E para vocês, que não são ruins da cabeça e nem doentes do pé, aconselho que vão AGORA ao you tube, ouvir Valter Porro (há algumas entradas) e também, claro, Giorgio Conte. Vi algumas lá: No sono Maddalena (liiinda!), Veille Chanson, Cos'è mai la vita, Marina Vlady, Cannelloni, Com'é bella la luna, Eccomi qua, Un vero acrobata, de profundis, gné gné, e outras...
Buona sera!