Giovedi
| Andrea Spagone, o Cara |
Claro que acordei ruim, né?
Uma faxina, um mise-en-place e uma noitada de scopa com martini são demais pra mim.
A canadense malade tinha uma aparência melhor, pela manhã.
Mas fui. Aos trancos, mancos e barrancos.
Já há um tempo vem rolando uma coisa que não mencionei aqui. Eu viajei pra Itália no dia 8 de outubro, meu Curso começou no dia 11 de outubro. No dia 28 de setembro eu havia ido com minha mãe ao Banco do Brasil fazer a remessa internacional equivalente ao pagamento do Curso. E até hoje este dinheiro não entrou.
Todo mundo sabe que eu sou uma negação, uma rematada idiota pra assuntos e trâmites que envolvem dinheiro.
Assim, na minha cabeça: eu fiz a remessa, a remessa vai chegar. Xi, a remessa não chegou, peraí. teve greve de bancos no Brasil, vai chegar. Ih, não chegou!!! Mããeeee, Carlos, Mauro, paaaai! o dinheiro não chegou, vê aí. Peraí que o povo lá em casa ta vendo. A lesma lerda que nos atendeu arquivou o papel durante a greve. (era MESMO uma lesma lerda, nem quero falar dele aqui pra não me irritar). Mamãe fez uma segunda remessa, no terça-feira passada digo, Martedi passada e prometeram que chegaria até ontem, dia 3. Não chegou. Vai minha mãe pro banco, e descobre que a documentação precisava ir pro banco central e que o envio somente foi feito no dia 01 de novembro. O dinheiro jamais teria chegado ontem.
Mas isto tudo que lhes estou a contar, amiguinhos, eu só soube hoje. Porque cheguei na escola e o circo estava armado! Aonde está o dinheiro? Eu expliquei que o gato comeu, o gato comeu. Mas as italianas da escola não pareceram entender e a coisa ficou feia.
Odeio ser cobrada. Eu sei que fiz a remessa, mas elas não. Então, tento ficar invisível até que a coisa se resolva. Mas é impossível.
O fato é que sigo sem a chave do meu quarto e nem do portão externo da Cascina. Já pedi que marquem acupuntura pra mim, e não marcam. Solicitei também a entrega da dolmã do ICIF pela qual paguei na primeira semana de aula, e que ainda não foi entregue. Preciso saber da remessa de remédios e do cartão de crédito que Mauro e mamãe enviaram também na primeira semana de aula, e que ainda não chegou. Não sei como proceder quanto a isso. É o Venlift e eu sou distímica. Estou sem tomá-los há duas semanas. (Portanto entendam eventuais surtos...) Preciso barganhar a minha mudança para um quarto mais baixo, e, preciso de fichas para a máquina de lavar e de secar roupas. Mas, como sou invisível, não posso ir lá reivindicar nenhuma dessas coisas, o que é absurdo, pois de um modo geral, acho que este Curso está devendo muito mais a mim do que eu a ele, e, afinal das contas, houve uma confusão bancária que independe da minha vontade, logo eu não sou uma criminosa, mas sabe aquele personagem do Notas do Subterrâneo, do Dostoievski? Foi inspirado em mim.
Aliás, ele e o cara do Grito, de Edward Munch. Aliás, salvo em caso de falta de dinheiro, não saio da Itália sem tatuar "O Grito". Já até achei o cara pra fazer, em Asti. Vou tatuar na parte interna do ante-braço, assim quando alguém me encher os pacová, como sói acontecer comigo, eu só levanto o braço, como quem vai coçar a cabeça e externo pro sujeito o meu interior pertubado por aquela conversa. Tem gente que te esmurra quando você é chato. Tem gente que diz palavrões medonhos. Tem uns que dão com a cabeça na parede, outros que matam as pessoas. Eu me contento em revelar todo o horror que Münch pôs naquele quadro, e vou me sentir bem mais leve, como o cara que disse o palavrão medonho. Ainda que o interlocutor jamais vá perceber o tamanho do insulto que estou dirigindo a ele: ô! insuportável! sabe O Grito de Edward Münch! Era pra esse teu papo! E pronto, menos possibilidades de eu morrer de coração, como meu pobre
avô paterno.
O caso é que não assisti a aula prática e a manhã foi gasta tentando resolver esta questão, que foi quando consegui mais ou menos entender o que estava acontecendo, e colocar as pessoas certas no circuito, enfim. E ainda ter a notícia de que mamãe teve um treco e foi parar no hospital. Mas ficou pouco e agora está bem.
Ela é dura na queda...
Todo mundo saiu reclamando da aula prática, que os preparos à base de verduras eram muito toscos e que não foi ensinada nenhuma técnica nova... então fiquei menos apoquentadada, porque ao menos poucpei minha coluna de uma aula prática (que é sempre desgastante) e não perdi grande coisa.
À tarde, aula magna.
A aula magna foi com o Chef que mais tem nos dado aula, e aqui cabe falar sobre ele. Seu nome é Andrea Spagone, e ele é muito, muito bom. É sócio do Restaurante Pier Busetti (que também nos dá aulas, às vezes) que fica no Castello de Govone, uma cidade medieval próxima, que é onde a Renata está fazendo o estágio.
Bem, o Andrea é inteiramente workaholic, muito gente boa, e além de bom chef é bom professor, e ainda por cima, é muito generoso. Ele não se atém às receitas da apostila da escola. Ele mostra outras maneiras, incrementa os pratos com técnicas interessantes, dá dicas, ensina truques. Sempre faz receitas a mais, mesmo na aula prática. As coisas que estou aprendendo com ele realmente farão diferença na minha vida profissional.
E fica docemente constrangido aguardando o que diremos sobre cada coisa que ele faz. Enfim, um fofo, o signor Andrea Spagone.
Hoje foram preparos com ênfase em ervas e conservação.
Fizemos o Carpione, um preparo típico da planície padana, que consiste num refogado e ligeira redução de cebola, sálvia, alhos inteiros, vinagre e azeite de vinho branco. Nele se imerge verduras empanados e carnes finas empanadas. Pusemos bastões de abobrinhas e bastonetes de cenoura empanados e também pedacinhos bem fininhos de carne de porco como bifinhos feitos à milaneza. Pusemos em imersão e serão degustados em dois dias. Aí eu conto. Eu não gosto de vinagre, mas ficou tão lindo que não poderá estar ruim!
O outro preparo foi Lardo Salato aromatizzato alle erbe. Lardo é um corte da barriga do porco que quase não tam carne, é pura banha, branca. Pode-se usar outras carnes, todas com restrições, mas não podem ser defumadas, e o tradicional nesse preparo é o lardo. Então, pica-se grosseiramente sálvia, manjerona, alecrim, tomilho, tosta-se pimenta preta para soltar o aroma, mistura-se a 3 kg de sal grosso, aí se põe o lardo num recipiente, se cobre inteiramente com esse sal, cobre-se com pvc, fura-se e deixa-se lá por duas semanas. Precisa virar duas vezes por semana e retirar a água que eventualmente se forme. Serve-se em fatias quase transparentes com crostini e uma saladinha verde e tenra coberta por castanhas e pistaches. Vamos degustar somente em duas semanas, aí eu conto, tá?
O outro preparo foi uma tortinha muito suave feita com ovos, leite, creme de leite, grana padano, cebola e todas as ervas do mundo. O nome é Tartrá que vem do dialeto piemontês, oriundo da palavra trito, que seria triturado, que é como devem ser as ervas e a cebola. O nome é Tartrà con passata di verdure di stagione, é típica do Piemonte, e sua característica principal é que deve ser muito aromática. É como um sformatino e é servida com um molhinho aveludado de espinafre, azeite, água e sal que não fica tranché. É um antipasto lindo. E muito gostoso.
E, por último, lamentei muito que meus pais não estivessem aqui para provar a Brandade di Baccalà Manttecato alla Ligure. Começa, que, creiam, se uma comida tem a expressão "Ligure" no nome, comam que o negócio é bom! Na verdade parece muito com a Brandade Portuguesa, só que a lusa leva mais creme. Essa de hoje foi muito, muito bem feita. Estava deliciosa. Leve, muito aromatica.
O bacalhau aqui não é de codfish, como o portugues e o noruegues, e o bom bacalhau que se come no Brasil. Bacalhau, aliás, pra quem não sabe, não é um peixe, é um preparo, uma maneira de preparar um peixe, qualquer um, para a conservação, e essa maneira surgiu aqui, na Itália. Eles têm o Bacallá e o Stoccafisso. Ambos são geralmente preparados com Merluzzo, que eu não sei se equivale à nossa Merluza. O Bacallá e a conservação do peixe por meio da salmoura, e o Stocafisso é primeiro defumado, depois salgado e pôsto a secar ao sol. Ainda não comi, mas dizem que tem cheiro e sabor mais fortes, o que faz sentido, que as lascas são mais bonitas para os preparos que exijam lascas, que é considerado mais nobre
que a baccalá, mas que, é legal como novidade, sendo o baccalá mais gostoso para a vida real. Espero ter a oportunidade e o prazer de poder julgar por mim mesma.
Essa é uma questão complicada, que pode parecer conversa, mas gastar dinheiro com comida, refeições e restaurantes variados faz parte do meu aprendizado, aqui e em qualquer lugar. Só que isso é geralmente mal compreendido o que me faz (lembrem-se, eu sou o cara do Notas do Subterrâneo) eventualmente omitir ou me envergonhar de comentar coisas que são absolutamente pertinentes. Por que eu deixo que isso aconteça?
Mas isso é outra história.
Vim embora direto pra Cascina decidida a ficar de perna pra cima e descansar, atualizando este blog, coisa que estou fazendo agora, precisamente às 23 horas, não obstante os gritos de "Flávia! Vem cantar!", "Flávia! Vamos jogar", "Flávia! Tem vodka com frutas vermelhas frescas". Ainda bem que eu não gosto de vodka. E pra falar a verdade nem de frutas vermelhas.
E, antes de terminar, quero só declarar que sou tricolor de coração e que esse campeonato ninguém tira da gente!
Uma observação, antes de postar. Acaba de subir um aqui, do Curso feito pelo pessoal de Língua Inglesa,
pedindo à Natasha, a Canadense 2 que fure a orelha dele e ponha, na falta de um piercing, uma argola enooorme que surgiu não dei de onde. Gritos, ohhhhhs e sangue no banheiro. Limpo. Esses moços, pobres moços... Disse a moça que vai tatuar o Grito...
Um comentário:
oi
Postar um comentário