Puxa uma cadeira, e relaxe...

27 de nov. de 2010

TRIBULAÇÕES DE UMA BRASILEIRA NA ITÁLIA

Antes de mais nada, até para meu próprio registro, duas dicas de ouro: Azeite Ligure Cascina Verde Sole e Vinho Cinqueterre Ciaccetra. Depois você me conta, amiguinho...

Então, tem esse problema: França x Itália. É um caso sério. Não se pode falar da França, nem de nada que seja francês. E nem pensar em imaginar que talvez, quem sabe, a crema catalana possa ser parecido com a creme brulée. O que eu noto é que o ponto máximo da tensão entre os dois países se dá na comida assim como entre Brasil e Argentina se dá no futebol. Quer dizer, me parece, mas ainda tenho que comprovar a tese, que seu um italiano e um francês se encontrarem em uma loja de departamentos, falando sobre perfumes, vão se dar bem, mas num restaurante quebram o pau.

Os Italianos. Allora. São pessoas que tem nariz. E eu acho isso o máximo. Eles e elas. E que nariz. São elegantes, bonitos de modo geral, embora nem todos aqui compartilhem deste meu ponto de vista. Eu achei todo mundo bonito. São longilíneos. Independente de serem magros ou não (e geralmente o são), a maneira como se arrumam, a postura, os faz assim, longilíneos. Tem mania de bronzeamento artificial, e boa parte deles ostenta este estranho cor-de-abóbora. A proporção de botox per capta é maior que no Brasil, mas não tão grande quanto na Argentina. O mesmo quanto à maquiagem.

Disseram que eu tomasse cuidado com os italianos, que eles eram safados, que tomavam brasileiras por prostitutas, a priori. Não posso dizer isso. Sou bem tratada onde chego. Quando digo que sou brasileira as pessoas são ainda mais simpáticas. Só me dão indicações corretas. Todos me respeitam. Será que o problema é comigo?

Para não dizer que nada aconteceu neste setor, numa dessas minhas idas ao médico, estava eu na sala de espera e uma senhora puxou assunto e lá pelas tantas perguntou de onde eu era. Quando eu falei que era brasileira, ela, muito surpresa, disse: no se disserebe, fa bella figura! (Não se diria, é bonita!). Eu ri, claro... mas não agradeci, que era demais para o orgulho nacional.

Todas, eu disse TODAS as mulheres usam botas. São chiques, com seus cachecóis amarrados de tantos modos que já desisti de aprender.

Os homens. Como as mulheres, em geral são muito bonitos. Usam calça skinny (tá, pai, eu explico: é uma calça jeans que vem justa até o pé, muito na moda), e óculos iguais, esses retangulares, finos, de armação acrílica, colorida. Sapato de bico fino. Gel no cabelo. Esse conjunto e mais alguma coisa que eu não sei descrever exatamente o que é, faz com que todos eles, apesar de lindos e elegantes tenham um jeito um tanto afeminado demais para mim, que vim lá do Catete.

Penso que isso explica a obsessão mundial pelo assim chamado “latin lover”; Os americanos são mocorongos. E os europeus são abicharados. É claro que as mulheres vêm um brasileiro com sua natural troglodice e piram... tô com elas, inclusive. Isso é bem claro, aqui.

O sino. Gente, como toca, o sino da igreja! Toca músicas inteiras... a das 18 horas é aquela: no céu, no céu, com minha mãe estarei... acho lindo, até gravei... aí, dia desses, estou eu voltando da escola ouvindo o sino, idílico, e olho pra torre, e: o sino tá parado! Como assim??? Aí – veja você como caem os mitos – vejo uma senhorinha apertando um botãozinho... e o sino é eletrônico! Eles têm uma DJ de sino. O mundo tá perdido quando até numa aldeia italiana o sino é eletrônico. Não sei não o que vai ser do mundo.

Ao contrário do que me disseram que seria, os preços de unha, depilação, cabelo, nem são impeditivos, aqui. Claro que é mais caro que no Brasil, e pior, certamente, mas não impeditivos. Tem depilação, mas não arrisquei fazer, porque tenho problemas com cera sintética. A mão custa 15 euros, e a calista cobra 22, com a ressalva de que desde que não tenha calos... ah tá. Para cortar o cabelo é 18 euros (já estou no segundo corte) e para pintar custa 20, com a tinta, mais barato que num salão razoável do Brasil...

Agora, de tudo, o mais assombroso é o sistema de funcionamento do comércio. Eu vou falar daqui de Costigliole, mas é assim em todo o canto, ao menos aqui no Piemonte. As coisas abrem por volta de 8:30. Aí fecham 12:30. Todos dormem. Não fica NINGUÉM na rua. Reabrem às 15:30 e fecham às 19:30. Se fosse só isso até que era fácil. Mas tem as variações sobre o tema. Segunda TUDO fecha. Menos um dos três cafés da cidade, a farmácia e o Carrefour. Em compensação, aquele café fecha na terça, e na quinta fecha o Carrefour. O Correio funciona até as 14 h, quando fecha pra sesta. A farmácia, na quinta feira, só fica aberta até o almoço, depois não abre mais. No domingo também pouca coisa fica aberta. E, nem todas as lojas obedecem a esses horários. E nas portas tem um quadrinho com quatro reloginhos que eu me recuso a entender como funcionam, mas que, supostamente informam os horários de funcionamento. Dá pra acreditar? O resultado é que nada nunca está aberto quando você precisa. É meio como os coreanos, agora que eu estou conseguindo entender, vou embora...

Quando eu digo desses momentos em que não tem ninguém na rua, não é força de expressão. Ninguém é ninguém mesmo. Nem uma alma. Ninguém. Persone. Nessuno. Nobody. Nadie. Nem se vê ninguém nas janelas. Aliás, eu não sei onde ficam as pessoas dessa cidade, porque além de não circularem pelas ruas, também não ficam nas janelas. E poucas são as luzes nas casas. Depois falam da limpeza das ruas européias como se fosse um grande sinal de civilização. Não sujam porque não tem ninguém na rua! Se no Brasil não circulasse gente também ia ser limpinho, limpinho!

E não é só de gente que as ruas carecem. Estou muito preocupada com os animais italianos. Cadê os bichos??? Poucas vezes vi cachorros e gatos. Poucas mesmo. Tipo, vi dois gatos e dois cachorros desde que cheguei aqui.  A não ser, claro, os cachorros das pessoas. Isso é um capítulo à parte. Eles andam com seus cachorros e vão a todo lugar. Você entra em uma loja e tem um cachorro confortavelmente deitado em uma cadeira, e mais de uma vez pensei que fosse de pelúcia. Eles entram nas lojas puxando seus cachorrinhos pela coleira, nos outlets é uma profusão de cachorros! Até nos restaurantes. Os cachorros italianos são educadíssimos e arrolhados, porque não se vê cocô de cachorro por aí. Não tem muitos pássaros também. E nem muitos insetos. Que louco, né? Mas eu vi um rato, um ratinho de rua, e quis até fazer carinho nele, de tão fofo... parecia o Bernardo ou a Bianca.. não tem aquele focinho longo, mas um focinho achatadinho e é bem peludinho.

É, minha gente. O fato é que novembro já vai alto. Os Alpes, finalmente estão nevados. E fa freddo.... molto freddo. De manhã, quando chego na escola, tenho a nítida impressão de que meu rosto vai explodir, de frio, e a dor que isso me provoca nos ouvidos me fez comprar um pompom de orelha! Um mimo! A média, agora, são 3 graus, e em breve nevará.

As notícias do mundo de lá são as piores possíveis. Tenho medo de que o Rio de Janeiro acabe e eu fique como o Tom Hanks, em o Terminal, expatriada... morando meses no Galeão... se for assim, me avisem que eu peço asilo, aqui!

A partir de amanhã retomo a cronologia direitinho, prometo!

Bacci per tutti!