Puxa uma cadeira, e relaxe...

4 de nov. de 2010

DIA 25

Cosigliole D´Asti, 2 de novembro de 2010
Terça

Então, hoje me dei conta que dois de novembro daqui foi ontem, ou seja, o primeiro de novembro é que é o dia dos mortos, após o helloween, um feriado! Muito conveniente! Mas não pra nós, pois teve aula normal.

Para alegria de uns e decepção de outros, o motim não foi necessário. Os conjurados não precisaram agir, e, já que os coreanos não gostam de gente, reclamam do batuque, não interagem, acabaram facilmente convencidos de que o Best Western seria muito mais apropriado pra eles.

Assim, permanecerei aqui! Já que é assim fui à secretaria da escola solicitar que me mudassem de quarto, sob o pretexto nada mentiroso de que dois lances de escada são demais para minha combalida coluna. E fui informada de que os quartos que vagarão serão inteiramente ocupado por este novo grupo que chegará sei lá quando. Ai.

Hoje, na hora do almoço, Marcos chegou à Scuola, vindo do estágio. Como eu disse, as conexões que se fazem aqui quando estamos tão longe dos nossos, são muito fortes. Quando nos vimos, só faltamos cair no berreiro! Então foram uns minutos de reboliço em torno dele, e depois conseguimos nos afastar para conversar e ele pôde me contar o que aconteceu. Ele foi mandado para estágio num Resort chamado La Fermatta, em Alessandria, não muito longe daqui, no sábado. La chegando, foi levado às suas acomodações: um quarto com um jardim numa ala do resort inteiramente vazio. No quarto acima, duas Filipinas. Todos sabem que as Filipinas, como as Coreanas, não são lá de muita conversa. E para ajudar, tinha ainda uma coreana. Considerando que estamos na baixa temporada, um restaurante com seu quadro de funcionários completo não tem muito trabalho a dar para QUATRO estagiários. Então ele ficou o sábado e domingo inteiros sem fazer nada, sem internet, sem televisão, sem condução para nenhum lugar, e meio que surtou. No domingo à noite, decidiu ligar pra Escola para perguntar se não havia um outro lugar onde ele fosse mais requisitado e então pudesse aprender mais. Ele fez esta ligação pelo telefone do Restaurante, a conselho pantomímico da coreana. Na segunda pela manhã, apresentou-se normalmente na cozinha pra trabalhar, e foi perguntado pelo chef se havia usado o telefone, ele aquiesceu. O Chef então pediu que ele tirasse o dolmã e se retirasse imediatamente para a Escola de volta! Gente, se vocês conhececem a criatura pacífica que é o Marcos, iam ficar surpresos como eu fiquei. O que ele supõe que tenha acontecido é que a camareira, tendo-o visto falar em português com a Fernanda, tradutora, contou para o chef que ele ligou para o Brasil e o cara teve um chilique... muito comum no metiê;

O pobre está tão traumatizado que aceitou com alegria o duvidoso convite para ficar na Escola ajudando na cozinha, até que encontrem um novo estágio para ele, apesar do fato de que desde ontem há um novo funcionário na cozinha, o Duchan, que é do Sri Lanka (não é fantástico conhecer alguém do Sri Lanka?????) e é muito legal. Ele se comunica conosco em uma mistura de italiano, francês, espanhol, inglês, e desconfio que use também uma ou outra palavra em holandês, o fato é que nos entendemos, e eu adorei o Duchan!

Bem, agora são três na cozinha: o Marco, o cozinheiro bonitinho com cara de argentino, o Duchan e o meu, o seu, o nosso Marcos! Além de Paola, a chef descabelada, supervisionando.

Sim, mas hoje é o dia em que Renata parte, e ela está uma pilha. Decidimos cortar o cabelo para relaxar. Primeiro ela, enquanto isso, ensaio minha fala: Ciao! Vorrei tagliare il capello. Guarda questa coda cá? É molto pesada! Vorrei un piú po di legerezza, pero desfilato, e adesso storto, si? Quando finalmente muito confiante recitei minha fala, a cabeleleira ficou me olhando como se eu estivesse recitando versos dos Lusíadas em português arcaico, e me mandou sentar. Eu não sei o que eu disse, mas o que eu tentei dizer, com a voz mais simpática que meu ar naturalmente retardado de turista me permitiu, foi: Olá (Sorriso)! Gostaria de contar o cabelo. Vê este rabo aqui? (apontando o lado direito da cabeça com um sorriso ainda maior} Está muito muito pesado. Gostaria de um pouco mais de leveza! Mas que continue torto e desfiado, sim? Com uma certa impaciência de quem vai fazer o que bem entender, ela começa. Fecho os olhos, seguro na mão de Deus e vou. Ela usa quatro tesouras diferentes e a cada vez cai uma quantidade tão mínima de cabelo que eu acho que é gozação. No fim, ela fez exatamente o que eu queria. Meu contentamento torna ainda mais patente meu ar de turista retardada! Grazie mille, Debora!

E lá se vai Renata. Boa sorte e até breve!

Uma confidência: na minha mente doentia, toda a vez que tenho que agradecer por algo (isto é, o dia inteiro, pois faz parte da mise èn cene de todo o turista retardado ficar agradecendo sem parar, certamente para evitar que lhe taquem algo), meu impulso é dizer: disgrazie mille. E toda a vez que alguém diz: grazie, meu impulso é dizer: nadzie!

Volto para a Cascina decidida a, já que vou ter que ficar naquele quarto, e que minha coluna parece melhor, fazer uma faxina. Vou ao supermercado (mais tarde falarei sobre os inacreditáveis produtos que se encontram nos supermercados daqui), e escolhi meticulosamente entre os vinte tipos de sprays para 25 particulares tipos de sujeira que eu nem sabia que uma casa pode ter, aquele que talvez me conviesse mais. A folhas tantas tinha dez sprays nos braços e não lembrava qual servia para que. Optei por um que prometia acabar com il sporco, porque me pareceu adequado. Completei a artilharia com 4 rolos de papel toalha, e vim embora decidida de que hoje era dia!

Ao chegar, porém, deparei-me com minha canadense de estimação contorcendo-se de dor. "Oh!!! It´s so painful! My stomac! Ohhhh". Ela dizia algo sobre "medicaments for my period", achei que era cólica, ofereci ajuda para o que necessitasse, e informei que ia fazer uma faxina rapidinha no quarto. Eram umas 19:30. Para não atrapalhar, comecei pelo corredor. Tirei tudo de cima da mesa comum e espreiei tudo, limpando com papel toalha. Foi então que a canadense número dois chegou e disse que se eu quisesse poderia por "my food stuffs, at the wardrobe, with her stuff", agradecida por poder por minha comida em algum lugar, abri o tal guarda-roupa que virou dispensa e ... e... visão do inferno, amigos... sachês de amaciante de roupas, azeite, balas, o.b, pão de forma, grissini, chocolate, tudo junto no mesmo espaço, e embolado... tirei tudo, espreiei o sporco forrei com papel toalha e re-arrumei.

Voltei para o quarto, onde a canadense 1 continuava a se contorcer. E utilizei meu método muito particular de faxina, que é, literalmente, o seguinte: virei todo o conteúdo de todas as minhas malas, bolsas, caixinhas, caixas, sacos, enfim, tudo o que tenho de meu neste pedaço do mundo foi vertido na cama... "ohhhhhh", dizia a canadense. Arrumei o pequeno armário que divido com o boyler, espreiei o sporco, fui recolocando as coisas, rearrumando a mala, e ao mesmo tempo comecei a limpar o chão, arrastar a cama, essas coisas. Eu não tinha vassoura, então tive que varrer tudo agachada com meu super spray e o papel toalha. Vidro, calcinhas microscópicas como no Brasil não se acha igual (mas a gente que leva a fama, vai vendo...) embalagens, notas fiscais... de tudo um pouco... O chão, parecia a mesa do computador do Carlos Eduardo. Havia manchas grudadas formadas por coisas úmidas e gosmentas que caiam, sobre as quais se depositavam poeira, e que conheceram o poder de meu spray para sporco. Convencida de que não tinha cabimento ficar em uma stanza mezzo sporcata, fui devagarinho me chegando pra metade dela... levanta um pé de sapato aqui, um sutiã ali, spray, papel toalha... até que perdi a vergonha e tirei TUDO de cima da mesa dela... "ohhhhh". Vou poupá-los da discriminação dos ítens. Dá-lhe spray. Recoloquei tudo arrumadinho. E discretamente comecei minha varredura sob a cama. Mas isso eu tenho que dividir com vocês.

Sob aquela cama, meus amigos, havia garrafas e copos de vinho, alguns vazios outros não, garrafas vazias de água, as roupas sujas jogadas, cascas de tangerinas, cabos de todos os tipos e formatos (nem meu pai tem tanto cabo, e quem conhece, terá uma idéia de quanto fio tinha ali), e, coroando tudo, entre as meias e calcinhas sujas um vidro de alho flocado desidratado esparramado. Pelo menos descobri a razão do cheiro, uma delas, ao menos.

A pessoa passa por cada coisa nessa vida, né, não?

Pois tirei tudo, e joguei direto no lixo... o meu spray, se falasse, diria que mágica ele ainda não fazia não.

Quarto limpo na medida do possível (eu teria que tirar ela dali pra limpar como se deve), totalmente descadeirada e muitos ohhhhhs depois, me sentindo muito competente, dirigi-me ao banheiro, que era a última parte que faltava. É preciso dizer que já eram quase meia noite e que no corredor estavam CINCO sacos com o lixo que recolhi, várias toalhas e fronhas que usei à guisa de pano de chão, a lata de lixo com o saco trocado e outras coisas que julguei conveniente deixar no corredor ate acabar... o povo passava e olhava como se faxina fosse um vocábulo, de novo, saído dos Lusíadas.

Ao entrar no banheiro ouvi um ohhhhhh mais intenso e um barulho que, minha senhora, meu senhor, era o último que uma pessoa na minha situação quereria ouvir... algo assim "ugluiuhurhussdraullll ohhhhhhh".

E foi assim que a canadense vomitou em minha stanza polita. A outra canadense, solidária toda a vida, disse: ohhhh poor thang, e se mandou pra jogar ping pong. Eu juro, nunca havia ficado paralisada na vida. Eu não conseguia pensar em nada. A única coisa que me fez me mover foi um novo "ohhhhh ugluii" interrompido, abafado, e passos apressados vindos na direção do banheiro.



Vou novamente poupá-los dos detalhes, mas saibam todos que o almoço estava ali, intacto, no chão do meu quarto, e ameaçava espalhar-se pelo banheiro, também. Vocês vejam como mãe é uma coisa muito útil mesmo. A minha, quando eu vomito, segura a minha testa. Eu sempre achei que era um gesto de conforto e carinho, mas agora eu sei que era pra evitar que eu sujasse o banheiro inteiro!!

Então, saí de minha letargia e corri meio mancando pra segurar a testa da canadense vomitante. Deu certo!!! Ela só sujou mais ou menos 1/4 do banheiro, e até isso poderia ter sido evitado se eu tivesse sido um pouco menos lerda! Porca Miseria!

Quando ela acabou o serviço, estava meio azul e só me ocorreu dizer: Well, I don´t think that this is for you period, but I guess you´ll be fine, now. Ela se arrastou para o quarto, imaginando qual verso dos Lusíadas eu teria citado e, surpreendentemente, levou consigo um rolo de papel toalha, um saco plástico e o indefectível spray. Me senti mal em deixar uma pessoa passando mal fazer aquilo (porque ao contrário da canadense de número 2 eu também sou gente) mas não pude intervir, pra tudo tem limite nessa vida. Menos pro sporco, claro.

Foi então que decidi ligar pro Mauro para reclamar porque alguém tem que ser responsabilizado por isso, porque assim não pode, assim não dá. Enquanto reclamava, finalizava a faxina do banheiro. Desliguei muito brava. Com ele.

Dei uma reforçada na limpeza que a canadense fez e, durante o banho que ela tomava, talvez para me contentar por eu ter segurado a testa dela (isso é muito confortante), Renata ligou dizendo um Caraca! ao invés de alô e contando como uma metralhadora que as Filipinas (por que, diabos, tem tantas Filipinas aqui?) estagiárias não a queriam no quarto com elas de modo que ela preferiu ficar no quarto dos dois italianos funcionários do restaurante. O que ela está achando muito bom porque eles são ótimos, e há dois beliches, mas ela está preocupada pois a cidade não tem sequer uma venda, e blábláblá.

Depois dessa, fui dormir, pensando nos acontecimentos do dia. E resolvida que nas próximas
eleições vou votar no Spray Italiano. Ele promete acabar com o sporco. E cumpre!

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