Puxa uma cadeira, e relaxe...

1 de nov. de 2010

DIA 24

Costigliole d´Asti, 01 de novembro de 2010
Segunda

São oito da noite. E estou um farrapo. Aqui chove chove chove, mas isso não agrava o frio, que não obstante, tá de matar!

Cheguei cansada, vim olhar e-mails e pasmei com o quebra-pau entre minha família por causa dessas eleições. Gente, é tão simples. Nós vimos a luz, eles não. Quem sai ganhando com a briga? Coisa de louco.


Por isso que até agora não vinha tomando altura de nada. Mas, hoje, fui chamada às falas. O que tenho a dizer, Chico Buarque já havia dito aos dezesseis anos: não chore ainda não que eu tenho uma razão pra você não chorar, amiga, me perdoa, se eu insisto à toa, mas a vida é boa, para quem canta-a-ar!

Tive agora uma longa conversa via msn com meu queridíssimo amigo João Gusmão que além de me injetar doses cavalares da mais pura felicidade, me fez lembrar do quanto a vida é boa, e de que o negócio é bola pra frente.

Dia cheio. De manhã, exercitazione di cucina. Hoje ficamos responsáveis pelo Pranzo (almoço) da Scuola. Cada um se encarregou de uma coisa. Tínhamos um roteiro geral mas podíamos fazer como quiséssemos. Estava todo mundo seco pra entrar numa cozinha. Então, mão na massa.

Teve um antipasto que era uma carne albese, que vem a ser um carpaccio mais grossinho. Ficou sob responsabilidade do Mauricio. Com essa carne, foi servida uma saladinha refogada de alho porro, e uma julienne de cenoura. Isso ficou por conta do Gilli, nosso companheiro que entra e sai da cozinha de gel no cabelo e uniforme, incluindo avental, de piquet branco, imaculado. Um lord. E uma chiffonade de alface bem sequinha. Tudo isso servido com um molhinho feito de laranja, mel e mostada por Joana e Rossiane, e também azeite. As meninas também fizeram a sobremesa que era pêra cozida no vinho servida com zabaglione. Caio, Guilherme, Bruno e Marssal se responsabilizaram pela produção dos tagliatelli. E eu e meu conterrâneo Guilherme nos responsabilizamos pelo molho. Disseram-nos que teria camarão. Então aloiramos muita, muita, muita cebola branca, roxa e scalogno no azeite, quando perdeu completamente a crocância pusemos quilos de tomates cortados em quatro com cascas e sementes. Aí pegamos todas as ervas da geladeira: salsinha, sálvia, orégano, manjericão e coentro (veja, era camarão!) e pusemos no refogado, quando estava tudo se desfazendo pusemos açúcar pra reduzir a acidez e depois passamos o mixer manual pra desfazer. Salgamos e deixamos reduzir, pois ainda havia uma hora para o almoço. Daí fomos ver os camarões, e deviam ser uns 200 g depois de limpos. Putz. Limpamos, usamos a carcaça para fazer um bisque com partes descartadas de alho porro, celola e aipo. Enquanto isso, cortamos várias echalotes e refogamos por muito tempo muito mesmo, até quase se desfazererm , aí salteamos o camarão e pusemos alguns tomates concassés em pétalas. Salgamos, desligamos o fogo e pusemos folhinhas de manjericão.


A idéia era que esse tagliatelli fosse salteado no molho que ficou bem grosso e saboroso, e ao qual íamos acrescentando o bisque e na finalização, já no prato, recebesse uma colher do outro molho, com o camarão.

Mas em todo o lugar, chefe é igual. No nosso caso, foi Paola, a chef descabelada que interviu, separou o molho grosso nas frigideiras de saltear se simplesmente misturou um pouco do outro molho em cada uma das frigideiras. Acabou com a nossa concepção do prato. Revoltante.

Fez o mesmo com as peras das meninas, que resolveu que deveriam ser temperada com canela e açúcar e só, Nem uma pimentinha, nem uma noz moscada... E ela mesma quis fazer o zabaglione, que pegou no fundo, pintando.

Ao menos, o antipasto saiu perfeito. Um punhado do alho porro, um punhado da cenoura, um punhado de alface, caindo pelo lado três fatias da albese, por cima de tudo uma fatia dobrada quase transparente de parmiggiano reggiano e o molho delicioso temperando. Ficou uma perfeição.

Nós, brasileiros, o pessoal de língua inglesa e o pessoal de língua espanhola, achamos que foi a melhor comida desde que chegamos na escola. Mas os professores, tradutores e funcionários acharam que tinha uma coisa estranha no macacarrão, que va bene, peró strani... era o coentro. E olha que aqui o coentro nem parece coentro. Acharam muito exótico...

Depois disso, aula magna de antipasti. Chef Mario Sobbia. Três receitas que adorei: uma tortinha deliciosa de alho porro com mascarpone e fonduta de gorgonzola. Mozzarela in Carroza, que eu sempre comia na argentina, mas que não tem nada a ver com a que aprendemos a fazer aqui. E por último um creme de feijão branco sevido com tirinhas de pancetta, manjericão e camarão cozido no bisque com vinho branco. As três deliciosas.

Fernanda, nossa valente tradutora estava meio impaciente o que por sua vez me deixou bem impaciente, pois detesto que me cobrem coisas que não me cabem serem cobradas.

O mais legal do dia foi que apesar da dor contínua mas suportável, disfarcei bem, não pedi ajuda a ninguém pra nada, não precisei ficar me sentando, e acho que deu pra diminuir a fama de doente, que estava me enervando. E não é nada bom para os negócios, Jacozinho.

Agora estou aqui, torta, exausta e de perna pro alto, mas isso é outra história.

Hoje é o último dia da Renata aqui, pois amanhã ela parte para o estágio em Govone. Então ela foi me encontrar na saída da aula, e, surpresa, a igreja estava aberta! Hoje, mais que nas outra segundas feiras a cidade está fechada, pois é dia dos mortos. Tinha missa. Eu adorei a missa, eles cantam muito, gostei da ênfase o padre, e da própria igreja. Adorei.

Depois de lá, passamos na confeitaria de nosso amigo Alessandro Del Tortti, a Dolce Vita, único lugar aberto na cidade e portanto cheio, tomamos um chá pra nos aquecer e ele nos convidou a entrar na cozinha, onde produzia folheadinhos caramelados de todos os modos, achocolatava torrones e candites (que ele mesmo faz) de limone, arancello e arancia, e, finalizava uma focaccia magnífica.

Ao chegar na cascina, as celeumas do dia: uma, que muito me preocupa: Marquito, o amigo tantas vezes aqui citado, que foi embora no sábado para seu estágio na Fermata, pediu pra sair do estágio. Sendo ele a pessoa calma e ponderada que é, estou preocupada! E não consigo fazer cotato direto com ele, então tudo o que sei, são rumores...

A segunda coisa é: parece incrível, mas estão querendo nos remanejar para o Best Western, o hotel onde eu estava até esses dias. Eu, por mim, tanto faz, contanto que eu não tenha que carregar minha mala e ter nova crise. Só acho que se essa turma for para o Best Western eles nunca mais alojam ninguém do ICIF... veremos...

Entretanto, são meia noite e meia e não se pode dormir, pois a sedição está armada e o povo está lá embaixo aos berros preparando o motim...

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