Milano, 13 de novembro de 2010
Sabato
E lá fui eu combalida e alquebrada com Caio e Amanda por o pé na estrada.
Tínhamos um mapa (eu sou boa de mapas!), quatro guias (pra que tantos??) e nenhuma idéia de pra onde ir. Folheando um dos guias achei um lugar que me pareceu magnífico: Bolzano. Olha gente, tem isso, tem aquilo, aquilo outro (e o carro andando!), deixa ver aqui no mapa que estrada tem que pegar... ops... é quase na Áustria... ah.... vamos então pro leste, não! vamos pra Veneza! Que tal Parma? Quiçá Tóquio? (e o carro andando).
Dizem que todas as estradas levam a Roma. Olha, eu não sei não. Mas aqui no norte da Itália neguinho não dá a mínima pra Roma. É tudo Milano. Escreveu, não leu, cê tá indo pra lá. E foi assim que estávamos na direção de Milano. Mas não queríamos ir para uma cidade grande. O que há além de Milano? hum.... mapa.... ôpa! o Lago Como! Bora lá! E fomos.
O caso é que eu estava muito ruim, meu povo. Só mesmo uma pessoa despombalizada do juízo pra se atrever a sair no meu estado. A sorte é que Caio e Amanda são gente muito boa, e se ocorreu a eles me afundar no Lago, disfarçaram direitinho. O dia estava nublado, portanto inadequado para esse tipo de passeio. O Lago Como é considerado uma das mais bonitas regiões da Itália. É um y invertido, estando Como na ponta esquerda e Lecco na direita. Na bifurcação do y há um paese mais alto e lindíssimo que dizem que não se deve perder, e na outra extremidade do Y é a Suíça. Bem, graças ao meu estado depauperado acabamos tendo que nos ater a uma parte muito pequena de Como, a piazza central, charmosíssima com seus cafés e sua Igreja.
Comemos por lá, fomos a uma loja de cozinha muito tentadora, vimos o lago, ao menos uma parte dele, a que minhas pernas me permitiram chegar, Caio catou um bocado de água para a minha coleção (espero não beber esta, pois tem exatamente a mesma cor e sabor da água de garrafinha!) e fomos ao funicular, como estava mesmo muito dolorida, fiquei sentada enquanto Caio e Amanda davam uma volta. Mas na volta disseram que eu não perdi muito!
Entramos em uma Igreja, e lá estava começando uma missa. Incrível como isso acontece comigo. Adoro Igreja, e gosto de missas, e minha tia tem me pedido muito para ir a uma missa... então, foram dois coelhos numa só cajadada.
De lá, decidimos ir a Milão e depois voltar para Costigliole para dormir e não gastar com hotel. Foi bem rápido até Milão. Começamos a andar pela cidade, eu procurando um albergue em guias e na internet, o carro andando a esmo e de repente, gente, vou abrir outro parágrafo que é o mínimo que posso fazer para descrever o sucedido.
Na praça, um monumento a Victorio Emanuelle II em seu imponente cavalo, e lá no fundo todo iluminado (já era noite) O Duomo. A gente vê fotos de coisas góticas... vai a Canela, no Rio Grande do sul, onde tem aquela linda igreja gótica, até estuda o gótico, e sabe que a idéia é esmagar o humano, deixá-lo pequeno diante de Deus. Tem uma noção de arquitetura, arcos ogivais, rosáceas, pináculos, e tudo mais. Esqueça tudo isso. O ohhhhh não precisa de nada disso.
Ver o duomo, iluminado, no seu ofuscante mármore branco, gigantesco, vertical, vertiginoso, não requer nenhum conhecimento prévio, nem raciocínio. Ver o duomo é cair de joelhos. É prostrar-se.
É uma catedral enorme, toda de mármore branco, toda cheia de pináculos, uma enormidade deles sobre cada triângulo que compõe a estrutura, e são muitos! É muito, muito, muito grande. Ficamos sentados os três aos pés de Victorio Emanuelle, olhando, embasbacados aquela estrutura, e entendemos o que quer dizer "velho mundo". Nós, no "Novo Mundo" não temos a mais menor noção do que seja uma construção daquelas.
Lembrei-me imediatamente do Pilares da Terra, de Ken Follet. Não sei como pode o Homem ter construído aquilo. Não falo só do tamanho, mas da engenhosidade, da estética. Como é lindo. Como é lindo!
À esquerda de quem olha o Duomo, está, perpendicular a ele, a também enorme Galeria Victorio Emanuelle II. Toda em um neo-clássico retumbante. Toda iluminada. Como seu enorme arco de entrada, e o piso em mosaicos.
Dentro, tem assim Victorio Ferragamo, ao lado da Louis Vuitton, ao lado da Armani, ao lado da Vivienne Westwood, ao lado do Dolce & Gabbana. Quem me conhece, sabe que eu não dou a mínima pra nada disso. Mas é novidade para mim, exceto pelo Iguatemi de SP que foi o lugar mais desprezível onde eu já tive o desprazer de entrar. Mas a Galeria não tem nada de Iguatemi, falta-lhe a empáfia, a arrogância, a pretensão. A Galeria é beleza para os seus olhos! Há vários restaurantes, com antipasti em média a 17 euros... de modos que dicidimos ser excêntricos e comemos no... MC DONALD'S!!! Mas se você contar a alguém, eu nego.
Depois disso, decidimos ficar por lá mesmo. Achamos um hotel pela internet, demos vários rodopios para encontrá-lo, o que me valeu para notar um pouco da cidade. Primeiro. Não, Milão não é São Paulo. Não, Milão não se parece NEM UM POUCO com São Paulo. Embora eu ame São Paulo, achei uma injustiça essa comparação que sempre me fizeram.
Como eu havia dito num post anterior, ainda não tinha ido a nenhuma grande cidade italiana, agora posso dizer que fui. E definitivamente não é São Paulo. Não há uma concentração de prédios e arranha-céus nem sequer parecida. Os edifícios são antigos e quando muito tem 10 andares. É uma cidade moderna, nitidamente, mas sin perder la ternura jamás. Há amplidão. Monumentos. Um comércio espetacular que é um monumento à propalada vaidade italiana. Dei graças por ser de noite, tudo estar fechado e eu não poder comprar nem se quisesse. Lojas lindas, criativas, variadas... uma loucura!
Finalmente chegamos ao hotel, exaustos. Conseguimos um quarto triplo, e cama.
A idéia é partir amanhã cedo. Não me importo, minha dor é tanta, que nem levantei para tocar no Duomo, por exemplo. Entrar não teria mesmo sido possível, estava fechado. Mas, como em Gênova, fiquei tranqüila. Pois sei que vou voltar, sei que ainda vou voltar. E será rápido.
Porém, a dor, a dor, ah! a dor... não me deixou dormir, e nem a pobre da Amanda, que lá pras tantas já queria me levar a um hospital...
Nota: Hoje é aniversário de meu Tio Imortal, Sílvio. Dedico a visão do Duomo de Milano a toda a beleza que ele me mostrou na vida.