Venerdi
A canadense 1 está totalmente recuperada, isso significa que o quarto está de novo, uma zona. Roupas, uvas, caroços, calcinhas, saquinhos de chá usados... Embora eu tente me divertir com a situação, começo a achar que está um pouco acima da minha capacidade de humor, razão pela qual, assim que eu puder tirar a capa da invisibilidade que peguei emprestada com o Harry Potter, vou falar muito a sério na Escola sobre a possibilidade de eu ser transferida de quarto.
Hoje na aula não houve nada que se aproveitasse. E no fim do dia, a novidade de que teríamos que proceder o inventário das coisas de sala de aula prática (são vinte e três bancadas); E claro que 60 % da turma já havia ido embora. E como sempre, eu fiquei. Esvazia armário, conta ítem , cata item, esvazia gaveta, conta item, cata item.
Em primeiro lugar, eu tenho o meu próprio kit. Apesar de ainda no Brasil eles terem advertido que não era necessário trazer porque a escola possuía tudo, eu fui a unica que não acreditei e trouxe minhas coisas. Isto porque odeio, ODEIO, passar a faca em um tomate e ver que pele não se rompe. Das minhas facas, eu mesma trato, e sei que isso não acontecerá. Além do que, me acostumei com certas facilidades da vida:: minha faca de abrir mariscos, minha pinça de limpar peixe, minha agulha de limpar camarão, meu pincel fácil de lavar, meu cutelo, enfim, eu tenho minhas coisas. E como sabem os meus, aonde eu vou, levo pelo menos minha 10" junto...
Muito bem. Você faz a sua receita. Geralmente, são três fichas técnicas por aula. Entre cada uma, a louça precisa ser limpa. Acho justíssimo. E a sala tem que ser deixada limpa ao fim de cada aula. Também, justo. A questão é que a vida nunca é como parece ser.
Você chega, e pega os itens que uma outra pessoa, numa outra aula, supostamente, limpou. Aí cozinha. Pausa. Você lava as suas louças. Veja, você não pode lavá-las na pia da bancada. Para este fim tem duas pias lá na frente, ao lado da bancada do chef e mais duas numa masmorrinha abaixo. Somos quinze, agora. Resultado? Congestionamento. Perda de tempo de aula. Nova receita. Você lava de novo. Última receita, você lava mais uma vez, guarda as coisas, dá uma limpada na bancada e se manda.
Agora eu pergunto, você acha que após usar a frigideira, ela é areada por alguém? Você acha que alguém lava o seu armário, a sua gaveta? Não, né? Resultado, as panelas podem ser limpas, mas tem aquela crosta de gordura acumulada por falta de limpeza adequada, ao menos sob elas. E mesmo que sejam adequadamente limpas, são postas em armários que na minha opinião são sujos. E mais, se tem gente que dorme sobre alho flocado, você acha que pega sempre louças limpas no início da aula? Resultado: tenho nojo de comer tudo o que eu faço na aula prática.
Apesar do meu post anterior sobre a faxina e esse problema com a sala de aula prática, eu juro que não sou a histérica da limpeza... mas não dá, né?
O que eu penso, é que precisava haver uma equipe que fosse responsável, não por lavar a minha louça, que eu lavaria de qualquer jeito, como lavo, ANTES e depois de cozinhar. Mas que se responsabilizasse da limpeza das áreas comuns, que até não é justo que nós, pagantes, numa escola, limpemos.
Eu já entendi que aqui na Itália eles são diferentes de nós. Até por causa de nosso excesso de mão de obra não qualificada e dos nossos caminhos histórico-sociais, nós temos gente que nos faça todos os trabalhos. Aqui não é assim.
A começar pelo hotel onde fiquei quando cheguei. Se no Brasil uma camareira deixa um quarto daquele jeito, gente, não consigo nem imaginar. Simplesmente não acontece. A xícara do chá fica lá. A roupa que estava sobre a cama é jogada na cama depois de a cama ser feita. A camareira da Cascina, é ainda pior. Atrás da porta há cartazes dizendo: não removo as garrafas, não levo o lixo, não beijo na boca! Se ela entrar e houver muitas roupas espalhadas ela volta no mesmo pé. A arrumação dela é: Caso haja condições, fazer as camas, e eventualmente trocar a roupa de cama (agradeço muito por isso, porque arrumar a cama é uma das piores coisas para a minha coluna, porque fico muito tempo abaixada). Dar uma varrida, passar um paninho no chão e no banheiro, e arrivederci! Resultado: meu quarto, como sempre tem coisas jogadas, nunca é convenientemente arrumado. Mas até aí eu entendo, mesmo.
Aqui, se você entra num café, por exemplo. Quem está atrás do balcão não é uma mocinha desta ou daquela região menos favorecida. Aliás, não são três mocinhas que vão te atender prontamente. É um único senhor ou senhora que obviamente são donos do negócio, que fazem o café, lavam a xícara, recebem o dinheiro, dão o troco, repõem o estoque, arrumam a geladeira. Então você demora para ser atendido e brasileiro não gosta disso, tenho ouvido várias reclamações a respeito. Especialmente porque aquele senhor ou senhora é uma pessoa séria, sem laivos de serventia, o que mexe com nossos recalques socialmente mais abjetos.
Mas tudo é relativo. Veja bem, uma escola de culinária num castelo. Ilaria, a diretora, corre o dia inteiro de um lado para o outro e está sempre exaurida. Ela cuida de todos os aspectos administrativos da escola. Elisa, a secretária, é uma gerente, em verdade, além dos afazeres habituais de uma secretaria, ela cuida de tudo que tenha a ver com os alunos, a minha acupuntura, o estágio do outro que não deu certo, o visto, o passaporte perdido, o carro que precisa ser alugado, a mudança de alojamento a alojamento. Então também tem-se a impressão de ela vai gritar a qualquer momento. Paola, a Chef descabelada, é responsável pela cozinha, onde tem um ajudante, o Marco e agora dois estagiários, o nosso Marcos e Duchan, do Sri Lanka. Tem também o Gianni, que nos deu aulas de vinhos, e cuida do serviço, e tem uma sala só para ele, acho que é meio relações públicas, e é quem, com ou sem relógio de algibeira, arrasta pra fora as sacas de toalhas de mesa sujas para serem recolhidas pela lavanderia, e tem ainda duas moças que lavam a louça das refeições realizadas na escola e que varrem o chão no fim do dia. Os outros são contratados para outras funções, sempre temporárias: as tradutoras para cada curso, os chefs que nos dão aulas, etc...
Mas peraí, Jacozinho, quem lava o chão do hall do castelo, na entrada, que já está, como se diz no Brasil, "russo" de sujeira? Quem lava atrás das geladeiras? Quem faz as coisas que não cabem a ninguém? Quem pega as panelas pra arear, de vez em quando? Quem lava os armários? E, sobretudo, quem se ocupa de fiscalizar se pedagogicamente a coisa está funcionando?
Assim sendo, quando mencionei à Fernanda, minha impressão de que devia haver uma equipe de limpeza para as áreas comuns, o que ouvi foi: ah, mas na Itália é assim. As equipes são pequenas, inclusive nos restaurantes e quando você estiver no seu estágio vai ver que vai ter que fazer tudo.
Não me convence. Embora eu saiba que não adianta argumentar. O problema é que tem que encontrar um meio termo. Independente das razões histórico-sociais que me fazem me incomodar com isso, e das deles, que os fazer serem assim, somos todos racionais, e preciso que o mundo funcione. E limpo, de preferência. E afinal, num restaurante, a equipe é paga pra isso. Eu, aqui, estou pagando. Queria pelo menos encontrar a louça limpa.
Mas isso tudo é bem mais do que parece ser. São minhas tentativas de compreensão do que está ao meu redor.
O caso é que saí da escola tão irritada com a suajeira, com ter que fazer isso e sacrificar minha coluna, e com outras coisas que não cabe dizer num espaço que, afinal, é público, que passei na padaria, comprei um pão campagnola, e vim embora. E nem aproveitei do primeiro dia do Barbera D´Asti, de cujo, só falarei amanhã.
É isso aí.
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