Como legítimo exemplar da classe média carioca, também eu passei muitas férias na Região dos Lagos.
Numa destas, no longínquo ano de 1980, atravessei a primeira prova de fogo de minha incipiente existência: um interminável verão em Araruama, na condição de caçula de um irmão e alguns primos, em companhia de mãe, duas tias e dois discos: um do Roberto Carlos e outro do Julio Iglesias.
As rodinhas de minha bicicleta faziam de mim um estorvo para as outras crianças que subiam e desciam, velozes, as ladeiras arenosas e escaldantes do próspero balneário, assim, eu era frequentemente deixada na companhia das Gréias e seus LPs infernais.
Depois de um mês de bullying familiar, Manuela, e muito “eu quero ser sua canção eu quero ser seu tom”, percebi, ainda na Rural saia e blusa de meu tio, ali pela ponte Rio-Niterói, que a recuperação – se houvesse uma – tardaria, e fui tomada por um súbito repúdio à lagoas e casuarinas.
Mas o tempo que sempre apaga o fogo de qualquer paixão, naquela altura passava preguiçosamente, de modo que no fim da década, na sexta série, o destino me pôs na mesma classe que R., e foi então que minha índole lânguida revelou-se.
Numa noite fui flagrada, cantando, sentida, a plenos pulmões: das lembranças que eu trago na vida você é a saudade que eu gosto de terrrrrrr….. só assim, sinto você bem perto de mim, outra vez!!!!!
E o vaticínio foi certeiro, ainda na porta, com a chave na mão:
- Ah meu Deus. Minha filha está apaixonada.
Não passei a gostar de Roberto Carlos a partir dali, até porque precisamente naquele momento ele dava início à pior fase de sua produção. Mas insidiosamente, a cada paixonite, meu coração apelava tão secretamente quanto possível – seria uma traição a meu irmão e primos se, de uma hora para outra, eu me esquecesse dos suplícios daquele verão – para a coleção de LPs que minha mãe tem até hoje.
Quanto a R., jamais encontrei palavras para dizer como era grande o meu amor por ele, que nunca ficou sabendo que eu tinha o amor maior do mundo.
Porém, foi por aquela época que o tempo, de preguiçoso, passou a maratonista queniano, e a capciosa semente plantada pelo primeiro amor, resultou em que eu fosse elegendo canções do repertório de Roberto Carlos, e o pior, perdoai! dei para chorar, ouvindo o cara.
Que posso dizer? Sei que não devia estar contando isso, é possível que seja o golpe de misericórdia nos incautos que a este blog acorrem em busca de qualquer coisa interessante para ler, e me resignarei se julgarem que nada de interessante pode advir de uma criatura que chora ouvindo Roberto Carlos. Mas já que confessei tanto, devo fornecer elementos suficientes para a adequada penitência, e conto ainda que, na última sexta-feira, sob o pretexto de oferecer presente natalino à mãe e cunhada, fui com ambas ao Maracanãzinho, ver, pela primeira vez, o provecto senhor que mexe com a libido da Hebe Camargo.
Somente hoje, quando já vão longe as jovens tardes de domingo, e quando você não sabe, mas é que eu tenho cicatrizes que a vida fez, posso compreender melhor o fenômeno e até as minhas lágrimas.
Nas cadeiras numeradas, de posse de um Geneal, concentrada no que ele cantava, atenta à reação de milhares de pessoas ao meu redor e comovida com a paz do sorriso de minha mãe com seus binóculos (parte do presente), pus-me a lembrar dela, tão mais nova, de tomara-que-caia amarela e short jeans, com mais ou menos a idade que eu tenho hoje, tão bonita, sentada na areia, ouvindo seu disco querido, e quase posso ver o seu olhar, e queria tanto ter podido abraçar aquela mulher e explicar pra ela que nem o Roberto Carlos sabe de verdade dar e querer da mulher.
E ali, ao lado dela, com todas as suas repressões e reprimendas, senti uma inédita compreensão de nós duas e de nossa condição feminina. Estávamos em rara comunhão. Porque não éramos mãe e filha, éramos mulheres.
Talvez seja esse o grande mérito do artista em questão, diferente do Chico, que traduz tão poeticamente o que as mulheres sentem, Roberto Carlos fala o que elas gostariam de ouvir. E se coloca na posição do homem que diz isso.
Sem dó:
“Eu te proponho
Te dar meu corpo
Depois do amor
O meu conforto
E além de tudo
Depois de tudo
Te dar a minha paz..”
“Quero ser a coisa boa,
Liberada ou proibida,
Tudo em sua vida.”
“Eu como e bebo do melhor
E não tenho hora certa:
De manhã, de tarde,
À noite, não faço dieta.”
“E é bonito demais
Quando a gente se beija
Se ama e se esquece
Da vida lá fora…”
“Sem me importar se neste instante
Sou dominado ou se domino.
Vou me sentir como um gigante
Ou nada mais do que um menino.”
E por aí vai…
Bem, à Araruama, nunca mais voltei, mas guardo lembranças ternas do lugar. Julio Iglesias seguiu sendo odiado.
Mas mesmo que os detalhes sumam na longa estrada do tempo que transforma todo o amor em quase nada, sei que um grande amor não vai morrer assim, por isso, tenho certeza, eu sempre lembrarei de Roberto Carlos.
E pressinto que vou chorar.
19 de dez. de 2011
O côncavo e o convexo
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3 comentários:
Bonito texto, Flavinha...
Esqueci de assinar! Dândi!
Comovente Flávia, sensibilidade e delicadeza. Que bom que eu estava junto! Beijos Miriam
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