Há em minha
amada Boca do Mato, um Jequitibá. Ao lado, uma figura que simula um corte na árvore,
onde poderíamos ver as várias camadas que foram forjando o seu crescimento. Não
me lembro bem da idade daquele lindo Jequitibá, me parece que são mais de dois
mil anos, então, assim como há
cinco minutos guardados dentro de cada cigarro, dentro daquele Jequitibá há
material vivo que conviveu com os mais diversos acontecimentos… as setas
poderiam apontar: nesta camada nasceu Jesus, nesta, os índios que aqui viviam
fizeram uma grande festa para saudar seus deuses, nesta, Leonardo Da Vinci
pintou a Monalisa, nesta outra, Cristóvão Colombo chegou à America, nesta, os
índios que aqui viviam vieram se abrigar na floresta da perseguição dos
brancos, esta outra camada testemunhou um Quilombo, e assim por diante.
Do mesmo
modo me impressionam aquelas pesquisas que se fazem em blocos de gelo tirados
da Antártica. Ali está a água e portanto o oxigênio que toda essa gente
respirou, os dinossauros e todos os bichos que não mais existem, ali, guardados
dentro de um bloco de gelo.
Não sei
você, mas eu, quando lido com essas informações, desaprumo.
Essa coisa,
a alteridade. “Não sou eu nem sou
o outro”, ou antes, o Eu que só é possível diante do Outro. A dissolução do Eu.
Toda essa coisa.
Mas aí tem
Roma.
E Roma, meu
amigo, é mastigar o gelo da Antártica e morar dentro do Jequitibá de Boca do
Mato. É tudo ao mesmo tempo agora. É quando você entende que não é niguém
mesmo, ou pior, que tanto faz quem você seja. A complete unknow, like a rolling
stone.
Roma dá
medo e incomoda.
Pela
primeira vez na Itália, receio pela malícia dos marginais. Impressiono-me com a
legião de flutuantes na rua, os
que dormem lá no Brejo da Cruz. Os imigrantes que formam comunidades à parte e
parecem ser regidos por suas próprias leis. Todas as línguas que ecoam desde
que no Mercado de Trajano já se negociava a seda em árabe, turco, latim,
hebraico, e que ainda hoje se fazem ouvir, como se os resquícios dos monumentos
só fizessem sentido porque ainda hoje habitam aqui todos aqueles povos.
Roma não é
dos romanos. Os romanos não existem porque ninguém aqui é alguém. São todos
humanos nas camadas do jequitibá. Demasiado humanos.
Minha alma
indelevelmente carioca se assusta com tudo isso. E gostaria de passear por aqui
de canga e biquini, só para me dar alguma identidade.
Alteridade.
Aos diabos
com essas besteiras de “museu a céu aberto”. Às favas que “aqui o novo convive
com o velho”. O único bordão que
talvez faça algum sentido é atribuir o adjetivo Eterno, a esta cidade.
O eterno é
aquele lugar dionisíaco onde não é possível existir. O eterno é a moréia mordendo calcanhar de Schoppenhauer.
As únicas pistas sobre Roma, dentro de minha limitada cultura, estão - e só agora sei - em Rossellini e Pasolini. E para uma compreensão um pouco mais afetiva, há sempre Fellini. Mas eu não sabia! Não prestei atenção! Há de ser rever tudo, a buscar qualquer coisa.
E então
percebi que todo este percurso me levou a este lugar fundamental: o da não
existência. E resolvo nela imergir, sentar-me-ei encostada nos tijolos mais
sujos daquela muralha marrom e transitarei por todas as eras da civilização à
qual pertenço, tocando suas pedras, chorando seus mortos, as pestes as inundações,
gritando como Nero enloquecido só para saber se de fato pertenço. Só para saber que pode haver no
jequitibá de Boca do Mato uma seta que aponte e assinale: aqui nasceu, viveu e
morreu Flávia Gomes Galvão de Queirós. Só para ter um lugar. Só para dar comigo
mesma andando por ali pelo Trastevere, distraída.
Não sei
ainda se gosto de Roma. Preciso antes me recuperar do soco.
* Este
texto é parte de meus “Diálogos
Europeus” com Mônica Carvalho, minha amiga eterna como Roma.
Um comentário:
E assim como o jequitibá de boca do mato é nobre testemunha de um bocado importante de tantas histórias desimportantes (e falo da minha em primeiro lugar), Roma também. Não é sinixtro isso ????
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