Puxa uma cadeira, e relaxe...

8 de mar. de 2011

O inferno são os Outros



Recebi um e-mail de uma pessoa tão próxima quanto querida. Neste e-mail eram divididas comigo algumas considerações muito interessantes suscitadas pelo título de um livro de Frederic Forsyth, a Alternativa do Diabo. 


Tratava-se de uma reflexão sobre aquelas situações em que se precisa fazer uma escolha e em que, não importando a opção que se faça, o sofrimento, a dor, e o caos serão esmagadores. A preocupação de meu interlocutor era de que não há fuga possível, qualquer escolha fatalmente corresponderá àquela que convém ao diabo, ainda que se nos pareça estar optando pelo caminho mais indolor, o desdobramento da opção se mostrará catastrófico, sendo este o demoníaco truque. 


O fatídico e-mail é finalizado com o seguinte p.s: Informe importante: Sartre estava errado, o Diabo é a gente mesmo. 


Criatura de alma pollyânica convicta como sou, me senti pessoalmente atacada por tamanha resignação ao sofrimento fatal proveniente de uma escolha que afinal nem é você quem faz.


Rapidamente respondi.


A resposta certamente terá sido inútil ao meu amigo, mas a mim, me disse muito sobre meu próprio diabo interior, e só por isso resolvi registrá-la aqui, com pequenas alterações que garantam a privacidade dos envolvidos...


Disse eu o seguinte:


"
Ao atribuir o inferno aos outros, pode-se pensar que Sartre entregava o peso de si e de seu sofrimento ao outro. Entretanto não é bem assim. Se bem me lembro, a proposição de Sartre era que é impossível um ser humano conhecer a si mesmo, como propôs Sócrates (embora de modo um pouquinho mais irônico...). 

Sartre disse que o ser humano é uma obra sempre inacabada, que vai se percebendo juntando os pedaços de si que entrevê no olhar alheio para ele mesmo, ainda que aqueles que nos olham não tenham acesso às nossas consciências. Assim, ele diz que não é possível a obtenção da consciência de si mesmo, sem o convívio social. Em última instância, para Sartre, é impossível prescindir do outro. Que se torna um inferno por nos dar a medida de nós. Em vislumbres em geral desconfortáveis. E que por vezes nos impossibilitam de levar à cabo um projeto.
 
Assim sendo, Sartre não estava errado não. Porque mesmo que você na verdade esteja é querendo concordar com Hobbes, que bem antes disso tudo nos disse que o Homem é o Lobo do Homem, não vai fugir, também aí, de que mesmo esta afirmativa tem a ver com a posição do homem diante de seu próximo.

Então é melhor ficar com o Cristianismo mesmo que é bem mais simples de entender (a não ser que você se meta a estudar Santo Agostinho) e tomar pra si o lema, para mim máximo, de Amar ao próximo com a si mesmo. Nada impingindo a ele que não desejasse para si próprio. E está tudo resolvido.

Faço esse prólogo, porque me parece resolver parte das questões descritas no e-mail.

Senão, vejamos.

Sua grande questão parece ser a dor e sofrimento conseqüentes de qualquer escolha. Mas essa dor não se dá de per si. Dá-se a partir do que isto provoca no outro, e sobretudo do que o outro devolve a nós. O inferno, portanto, são os outros mesmo. Em nós.

Porém, como o título de Forsyth diz, esta do diabo é uma Alternativa. Alternativa. Pressupõe a existência de uma alternância entre opções.

Não que eu esteja tomada por um enorme fervor cristão, mas já que você compartilhou sua aflição me sinto no direito de propor uma solução. Proponho que escolha sempre, diante da opção do diabo, aquela mais segura, que a filosofia cristã nos dá:

Ame ao próximo como a si mesmo. E não faça a ninguém o que não quer para si.

Também tem consequências. Mas você vai ver que a carga de dor, sofrimento e angústia se reduz muito. 

Como seu e-mail fala de questões filosóficas genéricas, isso é o que tenho para te dizer. Quando ele falar de questões práticas da vida corriqueira que homem lobo leva dia a dia, talvez tenha outras.

Todo o meu amor,

Flávia

"



Nenhum comentário: