Puxa uma cadeira, e relaxe...

15 de fev. de 2014

Santo Amaro, 39

Deus abençoe a lua cheia,
Esposa de São Clemente.
Como vai Nossa Senhora?
Como passa São Clemente?
Quando fores, e ao voltares, 
traga-me desta semente.
(e nesta hora o pleiteante deve abrir a mão até então fechada e exibir as notas de dinheiro)


Mãe,

Hoje cometi aquele que era para você o mais terrível dos medos: saí pela noite a flanar.

E já à porta, a lua remeteu-me à quadrinha superticiosa que vi repetir-se por tantas e quantas luas tão cheias quanto esta pela tua boca crédula e firme.

Que além da semente, ela ilumine meus caminhos de filha mundana a desaventurar-se. Talvez tenha sido posta ali por você somente com este fim, como os Oratórios que o Vice-Rei mandou espalhar pelo Rio, visando ao completo extermínio das práticas profanas a que as malhas escuras das ruas convidavam os cariocas de então.

O fato é que por esta razão - e se não fosse a lua, tantos outros ensejos houve - pensei em você com essa distância flutuante em que se pensa nos que morreram há pouco. E não é que a mim me custe acredita-la morta. Admito mãe, compreendi há muito, a sua morte. Via traços cadavéricos no seu nariz macilento e estranhava que não tivesse mais o cheiro que caracterizava o seu corpo saudável. Sei bem da sua morte. Mas minha demasiada humanidade - ridícula, irracional - assusta-se com ela a cada vislumbre que me leva a você, como esta lua, que já perdi de vista.

O tempo da sua infância sempre me pareceu longe demais, quando a perspectiva era a minha própria noção de tempo. Você contava vivamente dos jogos e das surras, mas ainda que vivazes eram lembranças de tempos quase imemoriais. Vários personagens já não viviam quando você me contou das histórias ancestrais que são meu arcabouço. Contundente como uma ruína, eu entrevia a história pelos descascados do tempo. E desconfiava que os tempos para as gerações anteriores corria de um outro modo.

Eram histórias que sabiam a subúrbio e Ângela Maria, coalhadas por palavras como debrun e evasê. Povoada gente a quem se conhecia por nomes como Nenê e Gentil. Não sou boa de contas, você sabe, mas quando você começou a me transmitir minha herança, contando os casos que eram meus também, tinha algo muito próximo da minha idade, e eu noto isto assombrada, porque as minhas próprias histórias aconteceram num tempo muito próximo, mesmo há tantos anos, e certamente o meu primeiro namorado não pertence à tempos a que eu pudesse qualificar de longínquos.

Mas a noite em que eu flanava seguiu seu curso e entorpecida, não voltei a pensar nas coisas que são suas, o que significa neste momento serem coisas repletas de sustos e assombros, e esta dor aguda, a despeito da morte tão compreendida. E num dos caminhos, como o Duomo de Milão, vi surgir a casa de vovó. E o pátio em que eu brincava, desde muito antes de saber das histórias de você. E já ninguém existia, você, a vovó e nem mesmo a amendoeira, graças exclusivamente a quem não tive nunca uma insolação naqueles verões quando o Rio ainda não sabia que um calor como o dessa noite de lua cheia pode durar uma estação inteira. E era eu mesma uma ruína e só podem te ver aqueles que olhem pelo em que em mim há de descascado.

Eu não tenho filhos, mãe. E não caberia, ademais, fazer promessas de grande depositária das suas memórias de gente comum e de bem, cuja maior aventura foi quase se afogar em um rio no Caribe.

E não cabem homenagens, pois não sei o que te diga, para dar um contorno de eternidade às nossas existências brumosas e singelamente felizes.

Sou eu mesma uma ruína, mãe. E entendo o teu tempo e de todos os que vieram antes, a quem agora, vacilante, pertenço.






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