É um fato. Comida é o assunto da Nova Ordem Mundial. Publiquei duas miseras postagens, a do Creme de Abobora de Outono e a da Pannacotta com coulis de caqui, isso bastou para que o gráfico de acessos ao blog tenha aumentado numa proporção que eu não tenho competência matemática pra descrever nem explicar!
Porém, como, ao contrário da Plebe Rude - obscuro e ótimo grupo de rock de minha adolescência longínqua - meu interesse aqui não é grana, fama, mas você, vou mudar o rumo da prosa pra contar um caso que me assombrou.
Apesar de não ter filhos ainda, convivo muito de perto com várias crianças. Duas delas, muito queridas e próximas, emocional e fisicamente me trouxeram uma questão que estão vivenciando em suas vidinhas, e vejam, ELAS me trouxeram, e não seus pais. Levaram-me a uma realidade da qual já tinha ouvido falar mas de cuja profundidade não desconfiava. O embate religioso nas escolas.
Vale dizer que ambos estudam em uma escola particular, sem orientação religiosa, aqui em Cachoeiras de Macacu. Eles não têm a disciplina "Educação Religiosa", como eu tive no colégio de padres em que estudei. E estão incomodados porque nos trabalhos de grupo não conseguem desenvolver os assuntos propostos pelos professores pois esbarram nos impedimentos religiosos das crianças componentes dos grupos.
Um exemplo foi o trabalho sobre transfusão de sangue. A religião de algumas das crianças não permitia a prática da transfusão, então a pesquisa foi prejudicada e um deles fez o trabalho sobre plasma sanguineo, que é permitido na sua igreja.
Depois, houve um trabalho sobre Carnaval, e as crianças evangélicas não puderam fazê-lo. A escola concedeu-lhes seus pontos ainda assim.
As crianças contaram da batalha que é a aula de biologia que inclui as teorias (por enquanto as únicas aceitas e com as quais eles têm que tomar contato!) darwinianas sobre evolucionismo e ainda aquelas que envolvem a origem do universo.
Essa coisa da repulsa ao darwinismo sempre pareceu uma piada para mim, mas agora sentindo o problema de perto, vejo que é sério e tem repercussões importantes na vida delas, e percebo, assombrada, que tem uma geração crescendo com este tipo de conflito, o que me faz pensar: será mesmo o Brasil o país da deliciosa postura oba oba em relação às religiões e por isso o paraíso da tolerância religiosa?
Temos uma geração crescendo sob o signo da ignorância e da intolerância.
Se o homem de bem não pode calar diante do mal, creio que não posso me calar diante disto, também, embora essa mesma afirmativa, reconheço, vá contra os princípios da tolerância. Mas mudo minha postura, a partir daqui, de que todas as religiões são boas desde que levem o indivíduo a um bom termo consigo e com o mundo. Repudio o crescimento insidioso desta fonte de controle pela ignorância que é o alastramento destas falsas religiões, pelo país.
E se este é o meu pequeno espaço no mundo para dizer alguma coisa, é por aqui que vou começar a a falar.
Este, a despeito das tentativas da senhora Rosinha Mateus, é um ESTADO LAICO. É uma questão de lei. E lei, tem que ser respeitada sob pena de punição. Por que tolerar que dentro das escolas a lei não seja cumprida? Por que gerar nas crianças a noção de que em nome da religião, qualquer que seja, a lei pode ser descumprida e que a religião lhes confere inimputabilidade?
Se a professora pede um trabalho sobre determinado assunto e este trabalho não é entregue, não há como não dar ZERO a esta criança. Se a professora pede um trabalho sobre transfusão de sangue e a criança entrega um trabalho sobre plasma sanguineo, ZERO na criança. Não há discussão possível.
É um estado laico. Lutamos muito para que fosse um estado laico. Conseguimos manter este, um estado laico. A religião deve ser mantida na Igreja. E não se pode abrir mão disso.
Cabe aos pais, religiosos ou não, garantirem que seus filhos tenham uma educação coerente com o conteúdo programático proposto pelo Estado. Que sejam cobrados e pontuados em função deste conteúdo. Cabe aos pais, protestarem veementemente contra a indulgencia e a condescendência com as questões religiosas que permeiam as escolas.
Essa condescendência nada mais é do que o fermento da intolerância. Que está sendo gestada de uma maneira espantosa, e não estamos nos dando conta. Que Deus nos ajude!
26 de mai. de 2011
Ópio do povo, e das crianças...
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2 comentários:
O pior de tudo isso é que não há abertura para a conversasação sobre certos assuntos em determinadas religiões. Que não se aceite, nmão acredite naquilo que a professora ou qualquer estudioso diz, mas que se tenha ao menos o conhecimento/discernimento para saber o que é e poder dizer exatamente pq é contra. A frase "é pecado" dita por uma criança que nem conseguiu entender completamente o que é responsabilidade me assusta mto... Enquanto isso, dentro de nossos pequenos mundinhos, façamos a nossa parte, na tentativa de sermos e de criarmos seres humanos maravilhosos para deixarmos para este mundo. Belo post, uma pena que retrate a verdade... Bjs.
Otimo post Flavinha. Eu na minha condicao de ateu (gracas a Deus)iria ainda mais longe. Mas voce sintetizou a situacao muito bem.
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