Puxa uma cadeira, e relaxe...

25 de jan. de 2010

Que eu tava aflita de te contar

Nesta manhã tive um sonho. E mandei esse e-mail para um amigo, o personagem do sonho, contando:

Embora sejam 13:51, acordei a coisa de meia hora (sim, foi uma noite complicada) após ter o seguinte sonho:

Era carnaval, eu e minha mãe estávamos indo a um caixa 24 h na Presidente Vargas ao qual se chegava, vindo de um lugar no segundo andar, onde estávamos, através de um túnel, devidamente preto que desenbocava direto no caixa e este então oferecia uma saída para a rua, onde se via e ouvia foliões anacrônicos pulando o carnaval, numa cena que, estou certa, meu inconsciente extraiu do Bebê de Tarlatana Rosa, de João do Rio.

Vínhamos nós duas andando pelo túnel e conversando, ela um pouco à minha frente quando pulou diante de nós uma figura com uma máscara, e continuou andando. Nos assustamos, mas vá lá que seja, era carnaval, afinal. E para ser franca, só agora é que percebo por que no sonho não nos assustamos tanto, era carnaval, afinal!

Quando já estávamos quase no caixa surge, vindo da esquerda - o caixa propriamente ficava à esquerda e não podia ser visto do túnel - andando vagarosamente na nossa direção um rapazola, não me lembro se ele estava fantasiado, se estava de máscara, mas a impressão que me ficou era que tinha algo incomum em sua aparência, impressão fortemente confirmada pela presença de uma faca, em sua mão. Eu diria um punhal, mas isto ia ficar dramático demais... que fosse uma faca.

Ainda esperançosas de que tudo se devesse à festa pagã, e sem muitas opções já que havia outra figura estranha atrás de nós, continuamos andando. O rapazola postou-se à direita do túnel, como se esperasse que nós passássemos para que ele pudesse entrar. Veja que até aí tudo estava mais ou menos explicado.

Assim que minha mãe, à minha frente, pôs os pés fora do túnel, na câmara do banco, o rapazola atacou-a, cravando-lhe o punhal (acho que aí cabe, não?) na lateral do abdome. E da esquerda (você sabe, da esquerda saem coisas que até Deus duvida) saiu um outro rapazola enlouquecido, este francamente fantasiado, com uma coisa pontiaguda que obviamente pretendia enfiar no olho de mamãe. Eu dei nela um empurrão e, ninja que sou, detive o punho do jovem.

Tudo isso, meu inconsciente, pouquíssimo original, sugou de Laranja Mecânica, percebo agora.

A partir daí, não sei bem como, fui parar no chão, ao lado dela, e finalmente de frente para o caixa eletrônico, onde vi mais duas pessoas. Uma outra fantasiada e a quinta, inteiramente à mostra e muito bem arrumada, era meu amigo Júlio César Pereira França.

Meu amigo, orgulho-me, era o chefe do bando e ordenou que os comparsas ficassem a postos, porém distantes. E disse à minha mãe que retirasse todo o dinheiro dela e lhes entregasse. Diante das circunstâncias, eu tentava argumentar com meu amigo, apontando-lhe o absurdo de toda aquela situação. É uma lástima que não me recorde o teor desta conversa que foi longa e tensa, ou a reproduziria aqui. Mas o resultado, foi que, chocada e aos prantos, levantei-me para retirar o dinheiro.

Enquanto eu me ocupava da transação eletrônica, a outra pessoa, fantasiada, retirou a máscara, e era o Moisés. Bem, o Moisés fazia matemática na UFRJ com meu primeiro namorado, André Ricardo, e eu não o vejo há exatos 17 anos e posso afirmar que raramente pensei nele durante este período, embora na ocasião ele fosse o amigo de quem eu mais gostava, daquele meu namorado. Assim como meu amigo Júlio César Pereira Franca, também o fora de um outro namorado. Mas disso também só me apercebo agora.

Pois o Moisés, que além de matemático, revelou-se um desprezível delator, contou calmamente à minha mãe, que a viagem que eu fiz, oficialmente para Muriqui, com a minha turma de Artes Cênicas da UniRio, enquanto meu então namorado, Bruno, estaria em Natal, foi, na verdade, uma viagem de acampamento e orgias para Ilha Grande com Bruno e seu amigo Júlio César Pereira França, que de pé, observava, incólume. Ao que eu, farta e apavorada, perguntei, trêmula: se era para fazer isso, para que esfaquear minha mãe? Contar foi deveras pior!

Bem, entreguei a ele o dinheiro, trocamos um longo e vazio olhar, e eu saí, arrastando minha mãe, agora fantasiada de Sharon Tate, por uma Presidente Vargas onde Corsos cantavam marchinhas antigas e por onde, tenho certeza, em breve cruzaríamos com o folião de Camisa Amarela tomando o quinto copo de cachaça num café zurrapa do Largo da Lapa. Pois, como ficou claro, meu inconsciente adora citações.

Porém, faça-se-lhe justiça, esta situação foi absolutamente original, o que me faz pensar nas razões de ela ter sido forjada.

Estaria eu vingando-me de mim, em nome de meu amigo Júlio César Pereira França, já que nunca me perdoei por tê-lo entregado à namorada, Samantha, contando de sua ida ao sítio em circunstâncias controversas?

Estaria eu ilustrando uma cena em que meu amigo Júlio César Pereira França concretiza o imperdoável roubo a que me submete: o de sua presença em minha vida gris?

Estaria eu inteiramente insana?
Bem, meu consciente, que é tão pouco original quanto seu avesso, termina esta parábola citando Chico Buarque para dizer a meu amigo Júlio César Pereira França que

"Foi um sonho medonho,
um desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha e se urina toda e já não tem paz
Pois eu sonhei contigo e caí da cama
Ai, amor, não briga, ai, não me castiga
Ai, diz que me ama e eu não sonho mais"

Tudo isso foi verdade, reconheço e dou fé.

Flávia Galvão

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