Sempre penso em coisas que gostaria de escrever aqui, porém, fica chato escrever depois de uma lacuna. Mas eu não preencho a lacuna, e ela só vai aumentando. Assim, mesmo que seja difícil crer na promessa de que vou registrar aqui tudo o que parece que não teve registro, vou prosseguir.
Estava eu já em casa, sim, porque já estou em casa. Prostrada pela habitual dor, quando me ocorreu que não deve ser normal uma pessoa sentir tanta dor, por tanto tempo. Aí resolvi, já que não consigo fazer nada que não seja permeado pela própria, pesquisar algumas coisas sobre esta coisa, A DOR, para ver se não havia nada que me consolasse.
Foi assim que cheguei à seguinte pérola:
Dr. Heinz Konrad explica... | |||
Dor e seu aspecto psicológico Qualquer dor, seja ela aguda ou crônica, tenha ela causa conhecida ou não, tem sempre um componente psicológico. Este componente psicológico é extremamente variável de pessoa para pessoa, e é modificado e influenciado por fatores culturais, étnicos, sociais e ambientais. Há pessoas que, mesmo sentindo dor forte, têm perfeito controle sobre si. Outras, com a mesma dor, tomam atitudes irracionais, reagem de forma anômala frente ao stress da dor. Dores crônicas costumam ter ainda mais envolvimento emocional que as dores agudas, e as reações das pessoas são as mais variadas. Algumas entregam-se, resignadas, e se habituam com a previsão de sentir dor pelo resto de suas vidas. Outras encaram a dor, procuram ajuda médica, combatem a dor, e muitas vezes a vencem, ou pelo menos minimizam sua dor a ponto de levarem uma vida bastante normal e emocionalmente equilibrada. Estava no site http://www.dor.med.br Já ia eu reconhecendo que obviamente sou uma pessoa emocionalmente desequilibrada, que não tem controle sobre si e aje por impulsos anômalos. Isso parece mesmo comigo. Tudo se encaixa! Dores crônicas têm mais envolvimento emocional que dores agudas! Imagina a minha, que é crônica, e aguda! Só fiquei meio em dúvida quanto a ser uma pessoa que se resigna ou uma que combate a dor. E em todo o caso fiquei muito esperançosa com o veredicto de que muitas vezes a dor é vencida e a pessoa pode ATÉ levar uma vida normal!!!! E nesse ponto fui ver o que dizia o inteligente doutor sobre o que devemos fazer para atingir o nirvana de uma vida normal após o eficaz combate à dor. E notei que ele tocou o rancho, e não tocou o avançar. Quem morre de câncer, morre porque perdeu uma batalha? Porque não teve competência para lutar? Luta é a palavra adequada? Ou uma esparrela? Dizer que a dor que eu sinto é uma opção psicológica minha é como dizer que a morte é a derrota daquele que tem uma doença letal. Esparrela. Lombrigas doloridas do mundo inteiro, uni-vos! Sei não, eu não sei como todas as pessoas que conheço ainda não se afastaram de mim, porque é insuportável conviver em qualquer nível com alguém que só faz sentir dor. E eu sei que eu tento fingir que ela não existe e que eu posso sim fazer e acontecer. Até que vem um médico de cabelo acaju e tez cor de abóbora, do outro lado do oceano e me diz, com a maior fleuma, que deu pra mim. Decidida a achar algo menos absurdo, fui parar em Hannah Arendt. Aí sim está uma moça que parece que já esteve na minha margem do rio. Em seu 'A Condição Humana', Hannah diz que " Normalmente, a ausência de dor é apenas a condição física necessária para que o indivíduo sinta o mundo; somente quando o corpo não está irritado, e devido à irritação voltado para dentro de si mesmo, podem os sentidos do corpo funcionar normalmente e receber o que lhes é oferecido. A ausência de dor geralmente só é «sentida» no breve intervalo entre a dor e a não-dor; mas a sensação que corresponde ao conceito de felicidade do sensualista é a libertação da dor, e não a sua ausência. A intensidade de tal sensação é indubitável; na verdade, só a sensação da própria dor pode igualá-la. " Bem. Parece bastante lógico (até porque como todos sabem, eu sou a autoridade correta para constatar a sapiência da namoradinha de um amigo meu, chamado Heidegger...). Estou bem mais conformada em saber que a intensidade absurda da minha dor me capacita a, em suas ausências, ter uma experiência sensorial fenomenal do mundo, ao meu redor. Mas sejamos francos, a brevidade destas ausências já está tomando proporções ridículas! Os momentos em que meu corpo não está irritado são tão escassos, tão breves, e eu estou cada vez mais tão emmimesmada (é que dizer ensimesmada nesse caso é meio como "aí eu caí em si”...) que minha situação me faz me lembrar de uma citação que li uma vez no dicionário de citações do Paulo Rónai que dizia algo assim: Em todo o caso, casa-te. Se tua mulher for boa, serás feliz. Se não, tornar-te-ás filósofo; É isso. Me casei com um bom cristão, e tudo parecia no caminho para eu ser feliz, mas aí veio a dor e sou praticamente uma filósofa, o que me leva à mais brilhante conclusão de tudo isso: o problema da Hannah Arendt é que ela tinha hérnia de disco. Várias delas. Mais que seis, pelo menos, ou eu seria tão brilhante quando ela. Prosseguindo, fui parar na leitura de um breve trecho de 'A máquina de Joseph Walser', de Gonçalo M. Tavares. " É certo que a infelicidade não depende apenas da dor, mas a alegria, essa, só devia depender da ausência de dor física. Vinte séculos inteiros e completos não inventaram uma explicação do sofrimento; sofre-se em comparação com o que é não sofrer, e nenhum homem saudável quer ser educado previamente para aquilo que é mau. Já não se treina a resistência à dor: evita-se, sim, a mistura com essa 'coisa' repelente. E esse foi definitivamente o consolo do dia. Eu tento ser alegre, com ou sem dor. E tento não deixar com que ela faça de mim uma pessoa infeliz. Se eu fosse uma pessoa séria, chamaria a atenção daqueles que são contemplados por uma boa saúde, de que esse tempo não é eterno. Mas além de eu não ter um pingo de seriedade no meu ser combalido, sei que essas advertências não querem dizer nada até que elas digam alguma coisa e não adiantem serem ditas, enfim. Mas, ainda assim vos digo, meus amigos, meus irmãos. Não vos misturem mais com essa coisa repelente. Já falei isso antes aqui, neste mesmo blog. Largai o Gregor Samsa em seu quarto e vão ler algo que vos dê camisa. Ou, antes, para não ficar pernóstico e fazer uma citação mais pop, deixem o Jeff Goldblum virar a mosca do Cronemberg! E vão tomar sorvete na pracinha! E já ia eu finalizando com este coquete conselho ao amável leitor quando, revoltada, achei os campeões do ranking das grandes mentiras sobre a dor:
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